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Blog da Garoa

Outro dia, durante o último feriado, fui ao cinema no Conjunto Nacional, na Paulista, e vi um filme que tem tudo a ver com a alma desse blog. Woody Allen escreveu e dirigiu “Meia-Noite em Paris”, numa escancarada rasgação de seda ao passado da capital da França, paraíso de intelectuais e artistas norte-americanos no começo do Século 20.

Contar uma história a partir de um personagem que sai do presente em viagem ao passado não é novidade nem no cinema nem na literatura. Ainda na sala de projeção lembrei do livro do espanhol Paco Umbral “Las Señoritas De Aviñon”, que li nos anos 90, uma edição de 1996, no qual o autor cria um mundo parisiense de um garoto que cresce em meio a personalidades como poeta Rubén Darío e o pintor Pablo Picasso – que, aliás, no livro de Umbral, é amante de uma tia do narrador. Uma beleza.

Mas Woody Allen faz um filme que também é uma maravilha, com os atores Owen Wilson, Rachel McAdams e Marion Cotilliard nos principais papéis. Gil (Owen Wilson) volta no tempo e encontra uma Paris repleta de gente legal, festas, cultura biscoito fino. Gertrude Stein (Kathy Bates) e Dalí (Adrien Brody) estão perfeitos, entre tantos outros, como o Picasso (Marcial Di Fonzo Bo), novamente enroscado com uma amante (Marion Cotilliard), como no texto de Paco Umbral.

O filme de Allen é uma elegante homenagem ao passado glorioso francês, mas é também uma ode ao presente. Viver mirando adiante é bem mais legal quando podemos olhar para trás e curtir cada momento de nossa história. A “idade de ouro” é agora.

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15.dezembro.2010 13:20:15

Nós e os outros

Em férias no ano passado, caminhava eu, já de madrugada, por uma avenida famosa de Nova York quando cruzei na calçada com um cidadão que calmamente acompanhava seu cão naquele necessário passeio noturno de bicho de apartamentos. A 5ª Avenida é conhecida pelo seu requinte, pela agitação comercial. Mas àquela hora estava tranquila. Caminhávamos por ela como quem passeia num parque à luz do dia. E o homem ali, com seu prosaico compromisso de amizade.

Lá, como cá, os cães precisam descer para reconhecer os de sua espécie, remarcar seus espaços nos postes, aliviar o estresse da vida com os humanos, e para atender à fisiologia.

Ao ler hoje o texto de Gilberto Amendola, no Jornal da Tarde, sobre a convivência de moradores da Paulista com o movimento natalino, lembrei de minha surpresa com a cena que vi na capital do mundo. Na Paulista, o sujeito reclama da multidão que transita por ali, atraída pelos enfeites de Natal – o que o obriga a andar entre carros e a se “defender” de flash de máquinas fotográficas quando ele só está indo até a padaria buscar o pãozinho de cada dia.

Acho que entendi bem por que o nova-iorquino passeava com seu cão tão tarde da noite.

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Local de eventos alegres da cidade, como festejos de fim de ano, corrida de São Silvestre, comemorações de torcidas de clubes de futebol, paradas religiosas e gay, a Avenida Paulista tem atraído a atenção pela tristeza. Temendo os abandonados que dormem pelas calçadas, lojistas da região fecharam espaços sob marquises para impedir a indesejada presença.

É curiosa a situação da Paulista. Aberta em 1891 para ser aprazível morada de famílias abastadas, no alto do Morro do Caaguassu, foi por mais de século objeto de desejo. Nos últimos anos, com a chegada do metrô e a reforma de prédios residenciais, a região vive uma nova mudança de perfil – a via, que durante tempos foi reduto de negócios, hoje atrai moradores em busca do conforto dos bons serviços que por ali se desenvolveram. Outro dia, lendo sobre Lina Bo Bardi, uma das principais personagens da arquitetura paulistana, relembrei o que a criadora do Masp queria para aquela área da Paulista: mais gente.

Na incontrolável balada da reconstrução da paisagem paulistana, que ergue e destrói coisas belas, como disse o poeta, o próprio museu-cartão-postal de Achillina Bo – nascida na Itália em 1914 e naturalizada brasileira em 1951 – é marca da devassa centenária.

O Masp foi construído no local em que a cidade viu, até os anos 50, um clube conhecido como Trianon – referência a uma construção que lembrava os jardins de Versalhes. Os pavilhões do Trianon da Paulista, das festas dos anos 20 e 30, abrigaram também a bienal de artes da cidade. Mas foram demolidos no fim dos anos 50. Sobre o terreno foi erguido o Masp, como lembrou o historiador Nestor Goulart Reis Filho no Jornal da Tarde, em 1990.

Lina, que morreu em 1992, queria o museu em conjunto com o Parque Trianon – que chamou de “Central Park dos Pobres” no livro Lina Bo Bardi (Imprensa Oficial). Ela não conseguiu a integração do seu Masp com a área de mata do outro lado da avenida. Mas o vão livre, no antigo belvedere, permanece aberto. Pelo menos durante o dia.

(Texto publicado em O Esado de S.Paulo)

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Céu da Vila Mariana em fim de tarde

Colorido céu da Vila Mariana em fim de tarde de junho

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São Paulo carrega na sua gênese uma palavra-chave: diversidade. E diversidade chama festa, livre manifestação de modos de vida, cordialidade, elementos tão necessários para a convivência – ainda mais em uma cidade deste tamanho.

Na quinta-feira, 3, ruas foram tomadas por religiosos, aos milhares, caminhando pela sua fé. Neste domingo, 6, é a vez do colorido da Parada Gay, evento paulistano que vem se tornando referência no mundo da tolerância.

Outro dia, a Virada Cultural, também uma tradição recente, anual, levou milhares para as ruas por uma noite e um dia de atrações culturais, shows.

Não se pode esquecer do Carnaval, em fevereiro, e do réveillon na Paulista, que já tinham animado o paulistano e seus visitantes. Nem dos festejos do aniversário, em 25 de janeiro, dia do santo que emprestou o nome à pequena vila, lá no Século 16.

Junho fecha um semestre inteiro de festas. E ainda não acabou. Vem aí a Copa do Mundo e, mais adiante, a eleição. Sem falar dos grandes jogos de futebol, que movem outros milhares, e das reuniões paroquiais, como a bela festança da Achiropita, no Bexiga, e da de São Vito, no Brás, que está a pleno vapor.

Eita cidade festeira, sô!

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11.janeiro.2010 15:46:46

Outros carnavais

Carnaval, carros alegóricos, fantasias e desfiles são coisa de mais de século em São Paulo. A inspiração, no Séc. 19, vinha da Europa, dos carnavais de Veneza. Os primeiros desfiles de carnaval na rua, o corso, ocorreram na cidade no percurso das ruas Direita, 15 de Novembro e São Bento. Depois, como lembra a historiadora Marcia Camargos no livro Villa Kyrial, crônica da Belle Époque Paulistana, o corso se transferiu para a Avenida Paulista.

 O grande momento do carnaval, na virada dos Séculos 19 para o 20, era a tarde do domingo, quando pela recém-inaugurada Paulista desfilavam os carros enfeitados “percorrendo o trecho que ia da Praça Osvaldo Cruz ao final da avenida”. Desfilavam cadillacs conversíveis e o povo se aglomerava nas calçadas para se divertir. Os menos abastados alugavam caminhões e desfilavam sobre as carrocerias adornadas por fitas e flores.

Carro alegórico no carnaval de 1915 desfila na Av. Paulista

Carro alegórico da Villa Kyrial desfila na Av. Paulista em 1915

Um dos carros que deu muito o que falar num desses carnavais foi o da Villa Kyrial, como era conhecida a casa do senador José de Freitas Valle, retratado no livro de Marcia Camargos.

“O florista Nemitz pôs em prática antiga ideia de Valle. Construiu sobre um caminhão uma cesta enfeitada, dentro da qual se colocaram cerca de trinta pessoas, entre artistas e amigos do senador, vestidos de pierrô branco com botões vermelhos. Esse carro causou furor no corso, precedido pelo automóvel do ‘chefe’ Freitas Valle”.

José de Freitas Valle foi personagem polêmico da cidade. Rico, político influente, gostava de artes e financiava artistas. A casa dele, na Avenida Domingos de Morais, foi, por muito tempo, palco de saraus e de encontros de artistas. Era frequentada por gente como Victor Brecheret, Guilherme de Almeida, Mario de Andrade e Anita Malfatti.

Mas Freitas Valle foi também, como recorda Marcia Camargos, muito criticado por Monteiro Lobato e outros que o achavam um imitador da França “que flanava pelo Trianon entre flores exóticas, ensacado à francesa”, além de ser considerado um adepto de práticas políticas mais preocupadas com a autopromoção.

Freitas Valle, o mecenas carnavalesco, criador da Villa Kyrial, morreu em 14 de fevereiro de 1958. Durante o carnaval. O casarão Villa Kyrial, na Vila Mariana, durou pouco. Foi demolido em 1961.

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05.dezembro.2009 22:53:11

Natal VIP

O cenário natalino da foto abaixo pode parecer de San Francisco, Nova York, Los Angeles… Mas não é.

Decoração natalina: cenário de festa em avenida famosa

Final de tarde de sábado na Av. Paulista/Fotos: Pablo Pereira

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03.dezembro.2009 15:19:03

Chegou dezembro!

Virou o calendário do mês para dezembro e apareceram, do dia para a noite, cidade a fora, as luzes do Natal. Ontem, no início da noite, tentando passar pela Avenida Paulista, para ir para casa, encontrei tudo parado. Uma confusão na esquina da Ministro Rocha Azevedo, onde nesta época há um presépio que ilumina um casarão transformado em banco. Os paulistanos adoram. Os turistas também. Tiram fotos, levam os filhos, viajam de metrô até lá e guardam as imagens em seus celulares. Ia reclamar do trânsito, mas desisti. A magia da Paulista é coisa antiga. Os engarrafamentos, idem.

Carros se acumulam na avenida no final dos anos 1920

Trânsito na Paulista era assim no final dos anos 1920

No ano passado, nesta época, a cidade estava meio entristecida, vivíamos a crise dos americanos que não puderam pagar suas hipotecas e abalaram economias pelo mundo. Foi um final de ano meio chinfrim. Mas agora as pessoas parecem mais empolgadas com os números da vida e há um alívio no ar. Aos poucos, pelos bairros, os prédios se enfeitam com luzinhas nas sacadas e janelas. São Paulo à noite é muito bonita. E por esses dias fica mais aconchegante, tirante, é claro, as mazelas que não têm dia nem hora – e a principal delas é a sombra da insegurança.

Só para lembrar: a Paulista faz aniversário no dia 8, terça-feira. Foi inaugurada em 1891.

Aquarela de Jules Martin sobre a inauguração da avenida em 8 de dezembro de 1891

Aquarela de Jules Martin, inauguração em 8 de dezembro de 1891

Imagens como essas, maravilhosas, podem ser apreciadas em livros fantásticos, como esse cuja capa reproduzo abaixo, do historiador Benedito Lima de Toledo, documento indispensável para os amantes da cidade.

Capa do Álbum Iconográfico, de Benedito Lima de Toledo

Capa do Álbum Iconográfico, de Benedito Lima de Toledo

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