Volta e meia as calçadas de São Paulo retornam à agenda municipal. Essa preocupação com os passeios é antiga. Outro dia, reportagem do jornalista Diego Zanchetta lembrava que as primeiras calçadas paulistanas surgiram no Pátio do Colégio após Portaria Imperial de abril de 1822.
Mas, pelo que se vê pelas ruas, esse é tema de avanços e recuos. Vemos por aí guia desalinhada; pintura (quando existe) rala; piso (quando há) irregular – uma pedra grita e outra não ouve. E o contribuinte pagando a conta.
O que ocorre com as calçadas da cidade é reflexo da cultura do mais ou menos, da tolerância com as coisas à meia-boca. Vivemos em um ambiente no qual o exato pode ser inexato. Muitas vezes a hora marcada não vale, o voo atrasa, o ônibus vem lotado, e comemora-se a nota 5. E esse lusco-fusco é visto até como uma “marca positiva” da brasilidade. Nivela-se pelo meio – daí para baixo. E segue o barco nacional.
Mas observando-se a história da formação paulistana, nota-se que as polêmicas calçadas paulistanas já foram bem arrumadinhas. É claro que isso ocorria em locais de urbanização bem visível – bairros nos quais fazia sentido cobrar a existência de passeio condizente com a pista. Nas periferias, infelizmente, não era sim. Essas áreas raramente estavam entre as prioridades nos orçamentos. Em muitos casos, passeio e pista só não são a mesma coisa porque entre elas há a vala de esgoto.
Claro que há cidades com os cortes e encaixes mal enjendrados nas vias públicas. Mas, aqui, trata-se de olhar o meio paulistano. Em livros de memória, de uma São Paulo menos adensada, se pode encontrar imagens de pavimentação de qualidade, sem calombos ou buracos, com guias retinhas, bem acabadas. Hoje, quando se vê que esse tema ainda rende longos debates envolvendo Executivo, Legislativo e a sociedade, nota-se o quanto se perdeu de cidadania. O que já foi regra, é exceção.
(texto publicado em O Estado de S.Paulo)
Aventura Urbana
São Paulo, longa busca pela vida em comum
Quando o grego Hipódamos, cinco séculos antes de Cristo, desenhou o modelo de cidade que ainda rege o urbanismo ocidental, talvez pensasse em montar um sistema para resolver a complicada vida humana em comunidade. Àquela época, o mundo já experimentava a convivência multifamiliar havia oito milênios. Diz a arqueologia que tudo começou no Neolítico. Jericó, na área do Rio Jordão, é o marco mais remoto de um tempo difícil de imaginar: 10 mil anos.
O viver em cidades, então, é opção já bem conhecida. Mas ainda hoje segue regra de antanho: a busca de conforto em ambiente carregado de interesses e conflitos. São Paulo, novata de tudo entre as maiores cidades (deu um salto gigante, passando de vila colonial a metrópole em 150 anos), é terra da boa para se acompanhar essas expectativas de vizinhança. As lições desse modo de vida, que por aqui dormitou com jesuítas e nativos no Pátio do Colégio por 3 séculos, podem ser aprendidas em cartas e documentos oficiais. Na arquitetura, quase tudo foi perdido, como a igreja (abaixo) reproduzida do livro São Paulo de Outrora, demolida em 1888. Para tratar do tema nasceu, em outubro, no site Estadão.com.br, a ideia de contar histórias de São Paulo. Mas sempre olhando o espaço urbano na perspectiva do arquiteto de Mileto – inventor das quadras e das ruas de 7,5 metros de largura -, ou seja, perseguindo uma vida melhor.
Acredita esta coluna estreante – assim como seu irmão digital, o Blog da Garoa – que hoje a colossal mancha urbana do planalto paulista, nascida na solidão da colônia, tem sim muito a oferecer em oportunidades e aconchego para a fascinante aventura humana em cidades.

Igreja da Misericórdia, demolida em 1888/Reprodução
(texto publicado no dia 14/03 na seção Histórias da Garoa de O Estado de S.Paulo)
Post atualizado em 16/03 com publicação da foto de imagem publicada no livro São Paulo de Outrora, da Igreja da Misericórdia, após recomendação de Antero Greco.
Pensar sobre o passado não é uma tarefa fácil para a vida agitada dos dias atuais, mas sempre se pode encontrar um tempinho. É prática saudável. Olhando na livraria o setor de história, encontrei edição de 2008 do Hernâni Donato Pateo do Collegio Coração de São Paulo, editado pela Loyola. E lá está a maquete do local por onde tudo começou em São Paulo.

Capa do livro Pateo do Collegio, Hernâni Donato/Reprodução
Rico trabalho de documentação, a edição é ilustrada com desenhos que trazem a evolução da vila até os dias de hoje. E o historiador lembra uma passagem que vale ressaltar. A luta pela preservação do prédio de taipa do Pátio do Colégio, inicialmente abatida com dinamite na calada da noite de 14 de março de 1896. Daí à restauração e reconstrução do local, com a preservação do primeiro muro da cidade, passou-se meio século, período que culminou com o interesse oficial a partir da preparação para o aniversário do 4º centenário, em 1953.
Lembrei de outras relíquias que não tiveram a mesma sorte do Pátio, hoje existentes somente na memória e em obras e registros, como o do livro de Paulo Cursino de Moura, São Paulo de Outrora.
Igreja N. Sra. do Rosário de 1746 demolida em 1904
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