ir para o conteúdo
 • 

Blog da Garoa

Uma das melhores cidades do mundo em qualidade de vida, Vancouver, no estado de British Columbia, no Canadá, tem um sistema de transportes coletivos que é um show. É um lugar exemplar. Nos pontos de ônibus, o cidadão encontra as informações das quais precisa para usar o sistema – mapas, horários, itinerários, além da proteção da chuva (e como chove por lá!).

Estive em Vancouver em fevereiro e agosto do ano passado. E usei ônibus por vários dias. A passagem custa 2,75 dólares, mais ou menos o dobro do preço de São Paulo, mas a satisfação com o serviço é geral. Pode-se usar o bilhete individual por 90 minutos em qualquer parte da cidade, inclusive no sistema de barcos que liga bairros separados por braços de mar.

No vídeo (em inglês), uma provinha da civilidade do sistema e do respeito que a população tem pelo serviço. E não se trata de uma mera peça promocional da empresa que opera o sistema integrado com metrô. É assim mesmo! O motorista do ônibus espera até o ciclista colocar a bicicleta no local apropriado, na frente do carro, antes do embarque. E, no desembarque, aguarda pacientemente que o usuário retire a bike e siga seu caminho no pedal.

Um dia São Paulo chega lá!

.

.

sem comentários | comente

  • A + A -

O governo federal divulgou nesta terça-feira, 18, que o custo das obras da Copa subiu de R$ 25,5 bilhões (previstos em abril) para R$ 28 bilhões. E isso bem nomeio de ambiente de questionamento de gasto com transportes públicos. O custo do financiamento da passagem em São Paulo, debate que há dias está no olho do furacão na cidade, é de R$ 6 bilhões. Só o reajuste do total previsto para a Copa (R$ 2,5 bi) daria para cortar o preço da passagem quase pela metade em São Paulo, aliviando o bolso do contribuinte, esvaziando as ruas – e até bombando a administração Fernando Haddad. É uma questão de gestão, e de prioridades.

 

sem comentários | comente

  • A + A -
18.junho.2013 17:04:59

A paciência acabou!

As manifestações contra o preço das passagens de ônibus encheram as ruas de descontentes e provocaram cenas jamais imaginadas na cidade: o fechamento da Marginal Pinheiros, na altura da Avenida Rebouças, para uma passeata!

A Marginal, às vezes, até para. Mas por outros motivos – excesso de carros nos horários de pico, acidentes, obras. Nunca para uma manifestação, como ocorreu no início da noite de segunda-feira. Nem os manifestantes acreditavam no que estavam fazendo. Caminhando pela pista livre, na altura o Jockey Club, gritavam: “A Marginal é nossa!”.

Claro que centenas de motoristas que ficaram travados no retão da Marginal naquele horário amaldiçoaram a passeata. Como, aliás, milhares pela cidade todo durante as mais de 8 horas de caminhadas e interrupções de trânsito. Certamente foi um sentimento de impotência e frustração como o daquela usuária de ônibus, Zelita Procópio de Oliveira, que entrevistei há um ano dentro de um ônibus que demorava 2h30 para percorrer 36 quilômetros de Parelheiros aos Jardins, onde ela trabalhava.

O Estado publicou o caderno Desafios de São Paulo sobre mazelas da cidade, entre elas a do transporte público. Isso ocorreu em junho de 2012, portanto antes da eleição de Fernando Haddad. Zelita Procópio contou em vídeo o tempo que perdia e seu sofrimento de todos os dias. À época ela perdia pelo menos 5 horas de seu tempo dentro de ônibus simplesmente para ir e vir.

Um ano depois, nada mudou. Haddad substituiu Gilberto Kassab, e só fez aumentar o preço da passagem. Estava na cara que a coisa ia explodir. A paciência de milhares de Zelitas acabou!

.

sem comentários | comente

  • A + A -

Rodando na semana passada pelo litoral do Peru, perto de Lima, perguntei a um nativo como era viver num lugar onde não chove. “Por aqui temos no máximo uma garoa”, disse ele, pronunciando “garua”, palavra que está na raiz da denominação dos chuviscos tão familiares, ainda nestes dias, a São Paulo.

Deve ser mesmo uma tranquilidade viver somente sob a garoa, longe dos carros boiando, sofás e geladeiras dentro d’água, gente morrendo soterrada. Em Lima, as águas não caem com força porque há o efeito do fenômeno de Humboldt (do cientista Alexander von Humboldt), uma corrente marinha que percorre a costa do Pacífico do Chile ao Equador impede a chuvarada na região.

Os peruanos, por certo, têm muitos problemas. Há cinturões de pobreza que ainda vão consumir anos para que se tenha uma igualdade a mostrar. Mas do mal das enchentes eles não sofrem.

Nos últimos anos, o país tem melhorado seus principais fundamentos da economia. Mesmo nesses tempos bicudos de agosto, a situação da economia peruana está sob controle. O PIB do vizinho andino cresce acima do PIB brasileiro. No primeiro semestre, 7,7% de crescimento. Analistas de Lima esperam chegar ao final de 2011 marcando na casa dos 6%.

Como no Brasil, o s peruanos vivem um momento de redução importante da pobreza. Surge uma nova classe média. O país está lastreado na produção mineral. O chão deles é rico. Entre os principais metais extraídos, os mais vistosos: prata e ouro. A mineração de cobre e outros materiais ajuda no equilíbrio da balança peruana.

Na viagem que fizemos, eu e o colega Epitácio Pessoa, para mostrar a mais longa linha de ônibus da América do Sul, de 5.917 quilômetros, editada no Estado e no estadão.com.brno domingo, entrevistamos o embaixador brasileiro Carlos Alfredo Lazary Teixeira sobre o momento das relações entre os dois países.

As expectativas do Itamarati são muito favoráveis. Do lado peruano, que acaba de trocar de governo, igualmente. O diplomata peruano Antonio Castillo diz que vivemos um “momento de ouro”. Nos últimos anos, capital de empresas brasileiras está aportando em terras peruanas fortemente. “Já temos um acumulado de investimentos de US$ 3 bilhões”, disse o embaixador Lazary Teixeira.

Ele faz questão de ressaltar: as empresas brasileiras estão no Peru para se tornarem parte do cotidiano andido. Devem ser transformadas em empresas peruanas. O Itamarati está certo que o capital brasileiro pode ajudar a economia peruana, e vice-versa.

Relendo escritos de Euclides da Cunha para o chanceler que deu forma a tudo isso, o Barão do Rio Branco, cujos documentos são citados no belo trabalho do historiador Leandro Tocantins sobre formação do Acre e outras cartas euclidianas do começo do Século 20, lembrei das dificuldades do escritor em suas expedições.

Não há como pensar no tema sem recorrer às façanhas desses pioneiros dos dois lados. Euclides e suas embarcações, a lancha  Cunha Gomes e o batelão Manoel Urbano, durante seu mergulho amazônico rumo aos Andes, é o que mais próximo de nós aparece.

Para além do interesse nas fronteiras, do Século 20, há o antigo interesse no ouro da Cordilheira, esse mesmo que ainda ajuda a acertar as contas por lá.

Esse interesse vem do Século 17.  Foi quando em São Paulo se chegou até a pensar em importar lhamas para transporte em minas brasileiras. Lembremo-nos: a região do Pico do Jaraguá já foi revirada por mineiros em busca de filão dourado.

Como nos lembra o mestre Sérgio Buarque de Holanda em suas pesquisas nas Atas da Câmara de São Paulo, em 1609 houve até dotação orçamentária para a compra do que à época se chamou de “carneiro peruano”. O projeto não foi adiante. Sobrou para as mulas, claro.

Se os portugueses tivessem tido sucesso na importação do camelídeo andino, talvez houvesse por aqui, em alguma cidade da trilha das minas, uma homenagem às lhamas, como aquela feita ao muar em Sorocaba.

Nessa questão das fronteiras amazônicas, concretamente, o debate tem pelo menos 170 anos. Data dos anos 40 do Século 19.  “O primeiro ato de regulamentação limítrofe entre o Brasil e o Peru data de 1841”, escreveu Leandro Tocantins, à página 327 de seu “Formação Histórica do Acre” (Volume 2), editado pela Civilização Brasileira. De um lado, o Peru olhava o Atlântico querendo ver a Europa; do outro, a barreira da Cordilheira impedia o acesso do Brasil ao Pacífico, e aos mercados da Ásia.

Então, o traço separando as duas culturas terminou por se estabelecer a partir do Tratado de Petrópolis, em 1903, quando os brasileiros negociaram o Acre com bolivianos e peruanos, episódio que marcou a diplomacia do Barão.

Ainda após essa data, segundo o historiador Leandro Tocantins no livro “Euclides da Cunha e o Paraíso Perdido”, pela editora Civilização Brasileira, o explorador e escritor brasileiro avançou, a partir de 1905, pelo Rio Purus, com sua lancha Cunha Gomes, seguida do batelão Manuel Urbano, que era um barco só para suprimentos, ao encontro da comissão peruana chefiada pelo capitão-de-corveta Pedro Alexandre Buenaño.

A busca pela amizade foi, a certa altura, cultivada com um regalo peruano enviado ao brasileiro: um chapéu – como mostram originais de cartas de Euclides, citadas por Tocantins.

“Le ruego aceptar (…) el sombrero. (…) el tejido de ello es una de las industrias en mi país”, escreveu o líder peruano Buenaño a Euclides, segundo documento do Arquivo Histórico do Itamarati, também citado por Tocantins. Nem tudo nas relações dos dois foi gentileza, certamente. Os tempos eram muito mais terríveis do que se viveu nos 100 anos seguintes. Houve resistências.

Mas o gesto do negociador peruano, certamente, ajudou no ambiente do acordo de fronteiras de 1909. E faz parte do rito da integração que se estreita, agora, em 2011.

O tempo, os negócios e o bom senso ajustaram as coisas. E, agora, pode-se, finalmente, ir e vir através da enigmática Cordilheira e da portentosa amazônia, um sonho secular.

Protegido pelo seu passado inca, o Peru é um belo país. As paisagens das montanhas e vales são deslumbrantes. As estradas peruanas são de boa qualidade, com piso excelente, sinalização competente. Faltam detalhes, como a ponte do Madre de Dios, que deve estar em funcionamente em outubro. Já era mesmo hora de os brasileiros tirarem o chapéu para os andinos.

Se em Lima o sol está mais presente na moeda do que no céu – a cidade vive coberta por uma bruma e a chuva não passa de “garua”-, os peruanos compensam essa “ausência” com cordialidade. Como já demonstrou Buenaño a Euclides.

.

 

Mercado Índio, em Lima, local de compra de artesanato/Foto:Pablo Pereira

 

 

sem comentários | comente

  • A + A -
11.janeiro.2010 12:29:09

O sonho da qualidade de vida

Um serviço público essencial para as cidades é o do transporte coletivo. Com tanta gente aglomerada na região metropolitana paulista, os ônibus e trens deveriam fornecer serviço decente, de qualidade. São Paulo é referência em muita coisa, oferece oportunidades de acesso à qualidade em diversos campos. É mesmo uma lástima que saia-ano-entre-ano e seus moradores e visitantes sejam obrigados a conviver com um atrasado sistema de transportes, sem um padrão mínimo de atenção com as necessidades de locomoção das pessoas.

Perdem os cidadãos, obrigados a viajar horas em latas de sardinha. Perde a cidade em autoestima quando obriga milhões de pessoas diariamente ao vexame desse transporte coletivo. Os usuários sofrem anos a fio. E, de tanto serem expostos a tamanho ridículo, com ele se acostumam, afinal a vida segue apesar dos administradores públicos. Mas é mesmo uma pena, para não dizer um escárnio.

Outro dia, conheci o sistema de transportes da cidade de Vancouver, no Canadá. Lá, o ônibus tem hora marcada para passar no ponto. É assim: o cidadão sabe que vai entrar no ônibus às 8h07 porque precisa estar no trabalho às 8h30. A criança sabe que seu ônibus vai passar no ponto às 8h36 e que às 8h55, no máximo, ela deve estar na sala de aulas. E pode contar com isso. Funciona.

 Há ônibus a combustível líquido, mas há uma extensa malha de ônibus elétricos nas ruas. Os motoristas usam alto-falantes dos ônibus para comunicação com os passageiros. Os modernos trens são amplos, com espaços até para ciclistas colocarem suas bicicletas. Nos trens, pasmem, não há catracas! As pessoas sabem que devem pagar pelo serviço – e pagam. Por 2,5 dólares, preço de um café expresso em qualquer esquina, o passageiro pode usar o sistema durante uma hora e meia.

 A cidade tem orgulho e respeito por seus ônibus e trens, integrados com barcos, os SeaBus, que charmosamente fazem a ligação rápida do centro com bairros do lado norte da cidade. Agradável, com frescor juvenil, criminalidade perto do zero, Vancouver atrai estudantes do mundo todo. Nesta época, a cidade está em festa porque se prepara para receber os jogos olímpicos de inverno, em fevereiro.

Nos últimos meses, os habitantes de Vancouver têm se vangloriado de um rótulo que qualquer um gostaria de ostentar: o de melhor cidade do mundo para se viver, título concedido em junho pela revista The Economist pela segunda vez consecutiva. E batendo grandes concorrentes, como Londres, Paris, Nova York. Não é pouca coisa. Um dia São Paulo, que no ranking da Economist está na posição 92, numa lista de 140, chega lá.

comentários (50) | comente

  • A + A -

Arquivo

TODOS OS BLOGS