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Blog da Garoa

Outro dia, início de dezembro, vi andando pela redação de O Estado de S.Paulo um ícone do silêncio, um homem que fala pelo que escreve – e que escrita! Era Luís Fernando Veríssimo. Portador do DNA da literatura, é um abençoado pelo humor e pela síntese, divindades que guiaram também os passos do poeta Mário Quintana, outro desses gnomos sulistas dos livros.

Veríssimo é um Quintana nos cartuns. O poeta adorava as palavras no fundo branco dos livros. Amava-as tanto que para não alterar-lhes o sentido no decorrer do tempo foi capaz até de admitir acento gráfico inexistente no original do próprio nome. Talvez por isso implicasse com histórias em quadrinhos, as primas das tiras –  forma de criação que Veríssimo gosta de usar para dizer mais com menos.  Com linhas e pontos, Veríssimo subverte a expressão (e o poeta).

Quem sabe se Quintana tivesse tido mais tempo (morreu em 1994) pudesse “sirrir”, como a Gabriela do poema Filó (“a gente se agachava a sirri que não parava mais”), apreciando a verve no traço único do filho de Érico. Ah, o Érico. Sim, aquele que além de adorar as tão adoradas palavras, certa vez salvou o poeta com a generosidade que só as grandes amizades são capazes de acalentar.

Érico, de extensa prosa, resumiu num bilhete com três palavras (a última uma aglutinação), vírgula e ponto final o aviso ao desempregado Mário dos anos 30 sobre as garantias para que deixasse o Rio de Janeiro e volvesse ao Rio Grande.

No sul, Quintana reencontraria, na editora do amigo, abrigo intelectual e dinheiro para viver – sinteticamente. Em livro de Néa Castro, Mário lembra que, no áureo tempo das longas cartas, o texto do pai de Luís Fernando cravava:  “Podes vir, mermão.”

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Acabei de ler o livro The Last of the Tribe (Scribner, 2010), do jornalista americano Monte Reel, ex-correspondente do jornal The Washington Post no Brasil. Ele conta a história de um índio da quase extinta tribo dos kanoê, que vive isolado nas matas de Rondônia, protegido pela Funai e pressionado por proprietários rurais que contestam a presença indígena na área. E lutam para impedir que as terras de suas fazendas sejam transformadas em reserva. É um processo judicial de anos, que envolve indigenistas, índios, fazendeiros, governo federal e Justiça.

O escritor americano relata, numa toada jornalística, o caso do índio Pur’, sobrevivente de uma tribo isolada. Reel ouve as partes envolvidas na disputa, cita depoimentos e relaciona fontes históricas. A pendenga pode ter finalmente um desfecho em 2012, seja para o lado do índio/Funai, seja favorecendo os fazendeiros. Editado nos EUA, o livro oferece uma leitura interessante do Brasil profundo, seus centenários conflitos fundiários e étnicos.

Lembro que, em 1995, ainda repórter do jornal O Estado de S. Paulo, estive por lá com o então colega fotógrafo Marcos Mendes, acompanhando uma expedição da Funai. Passamos três dias caminhando na mata até o encontro com um casal de índios do Vale do Guaporé, últimos viventes de uma tribo amazônica.

A presença daqueles seres humanos por lá abriu uma enorme polêmica sobre a propriedade da terra na região e também sobre a idoneidade de cientistas e funcionários do governo que trabalhavam no caso. Eram os tensos dias seguintes ao episódio da desocupação trágica de uma fazenda em Corumbiara, em agosto de 1995, quando uma dezena de pessoas morreu num confronto entre PMs e sem-terra. 

Passaram-se 15 anos e a questão principal, que é a posse daquela área reivindicada por indigenistas, ainda não está decidida. A história já rendeu um filme, Corumbiara, do diretor Vincent Carelli, premiado em Gramado com o Kikito de melhor filme em 2009. O filme levou dez anos para ficar pronto. Os fazendeiros nunca aceitaram a ideia de que havia índio nativo vivendo em suas terras. Argumentaram, e o livro de Reel traz essa posição, que os índios foram levados para a área pela Funai. Os funcionários públicos, obviamente, negam essa prática.

 Na foto abaixo, de Marcos Mendes (AE/setembro de 1995), índios kanoê catando as pragas que nos infestavam. Era uma demonstração de hospitalidade.

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O Blog da Garoa começa hoje a ser mostrado no mais novo meio de comunicação da rede mundial de computadores, o renovado site do Jornal da Tarde.  Nascido no estadão.com.br em outubro do ano passado, o Garoa existe também com uma versão em papel na coluna Histórias da garoa, publicada no O Estado de S.Paulo aos domingos. Agora terá o privilégio de participar também do projeto web do JT, um jornal dedicado a São Paulo.

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Nestes dias de discussão sobre reforma na lei nacional da convivência privada, dos costumes, o Código Civil, fui aos arquivos relembrar essa adequação das normas à vida em curso. E encontrei Ruy Barbosa, no início da República, envolvido com o conjunto de princípios que tramitava no Legislativo.

Ruy era senador e foi crítico ferrenho do projeto do primeiro Código Civil brasileiro, que após anos no Congresso começou a valer em 1916. O documento produzido por ele é parte da história brasileira, sua famosa Réplica.

Ruy é personagem da formação paulistana. Sua história de vida foi, em parte, moldada na Faculdade do Largo de São Francisco. Partindo da obra para o autor, derivei para as impressões que ficaram da relação dele com a cidade, lugar que teria papel relevante no centro de seu pensamento: a troca de mãos no poder e o impacto dessa alternância no País.

Ruy era baiano, estudou no Recife, viveu no Rio, sede da máquina burocrática do poder de seu tempo (1849-1923). Mas conservou ligações com São Paulo, onde estudou (1867-70) e militou, mesmo de longe.

Era um jovem melancólico, como a cidade. Mas, também como a cidade, viveu aberto à mudança, como se observa nas décadas seguintes em temas caros a ele e a São Paulo, como a abolição e a República.

Por aqui, o Ruy-abolicionista colecionou adversários ao vetar, quando já ministro da Fazenda (1890), a criação de banco com fundos para indenização de ex-proprietários de escravos que reclamavam de prejuízos com a lei de 13 de maio de 1888. Essa ligação com a cidade aparece em diversos momentos das biografias do advogado, senador, diplomata e tribuno. E o acompanha até o fim da vida.

Entre páginas e páginas de homenagens, quando de sua morte, em 1.º de março de 1923, um artigo de O Tempo lembra que a doença já lhe provocava delírios. “(sic)Houve um terceiro discurso, em que Ruy imaginava-se numa das suas campanhas políticas. Elle fallava sempre com voz forte e com a eloquencia dos seus maiores dias da tribuna. Quando ia terminar, sentou-se na cama e bradou:

– Viva S. Paulo! Viva o dr. Washington Luiz!”

(Texto publicado em neste domingo, 28/03, em O Estado de S.Paulo)

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(trechos de texto de “O Tempo”)

“O cinema é o theatro condensado e rapido. É o drama ou a comedia tendo por fundo a realidade, a natureza e o universo na variedade infinita de todas as suas scenas. Não tem bastidores, não tem fingimentos, não tem mentiras. (…) Correm os rios; erguem-se as montanhas; despenham-se as cascatas; veem-se os rebanhos nas pastagens; a natureza se ostenta na variedade incalculavel de suas scenas e a acção humana se produz em toda a plenitude de seu desenvolvimento. (…)

No cinema vejo, aprendo, adquiro, em instantes, uma experiencia que em annos não poderia accumular. Ruy”

(texto publicado em O Estado de S.Paulo de 28/03)

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Aventura Urbana

São Paulo, longa busca pela vida em comum

Quando o grego Hipódamos, cinco séculos antes de Cristo, desenhou o modelo de cidade que ainda rege o urbanismo ocidental, talvez pensasse em montar um sistema para resolver a complicada vida humana em comunidade. Àquela época, o mundo já experimentava a convivência multifamiliar havia oito milênios. Diz a arqueologia que tudo começou no Neolítico. Jericó, na área do Rio Jordão, é o marco mais remoto de um tempo difícil de imaginar: 10 mil anos.

O viver em cidades, então, é opção já bem conhecida. Mas ainda hoje segue regra de antanho: a busca de conforto em ambiente carregado de interesses e conflitos. São Paulo, novata de tudo entre as maiores cidades (deu um salto gigante, passando de vila colonial a metrópole em 150 anos), é terra da boa para se acompanhar essas expectativas de vizinhança. As lições desse modo de vida, que por aqui dormitou com jesuítas e nativos no Pátio do Colégio por 3 séculos, podem ser aprendidas em cartas e documentos oficiais. Na arquitetura, quase tudo foi perdido, como a igreja (abaixo) reproduzida do livro São Paulo de Outrora, demolida em 1888. Para tratar do tema nasceu, em outubro, no site Estadão.com.br, a ideia de contar histórias de São Paulo. Mas sempre olhando o espaço urbano na perspectiva do arquiteto de Mileto – inventor das quadras e das ruas de 7,5 metros de largura -, ou seja, perseguindo uma vida melhor.

Acredita esta coluna estreante – assim como seu irmão digital, o Blog da Garoa – que hoje a colossal mancha urbana do planalto paulista, nascida na solidão da colônia, tem sim muito a oferecer em oportunidades e aconchego para a fascinante aventura humana em cidades.

 

Igreja da Misericórdia, demolida em 1888/Reprodução

Igreja da Misericórdia, demolida em 1888/Reprodução

(texto publicado no dia 14/03 na seção Histórias da Garoa de O Estado de S.Paulo)

Post atualizado em 16/03 com publicação da foto de imagem publicada no livro São Paulo de Outrora, da Igreja da Misericórdia, após recomendação de Antero Greco.

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10.março.2010 17:50:02

Garoa também no papel

Este Blog da Garoa foi criado em outubro para contar histórias de São Paulo. Queria visitar o passado, ver como aconteceu a aventura humana nessa gigantesca aglomeração de gentes, interesses e conflitos de uma cidade que em um século e meio passou de vila colonial a megalópole. Acreditando que na trajetória dos paulistanos há muito para observar e refletir - e curtir -, o Garoa procura na memória e nos personagens da cidade as marcas de um modo de vida.

Pois agora, depois de quase cinco meses de existência na web, essa garoa virtual ganha força e alcança o jornal de papel. A partir do dia 14, quando estreia o novo projeto gráfico de O Estado de S. Paulo, todo remodelado, com novas seções, os amigos do blog poderão acompanhar as histórias da cidade também impressas, uma vez por semana, aos domingos, em páginas dos novos cadernos Metrópole e Cidades.

Faz o Garoa parte de um movimento de inovação importante na web brasileira – e, por si, muito particular. O que normalmente tem ocorrido nas casas de produção de informações, nesse inexorável processo de integração das mídias de papel com a web, é a migração do conteúdo impresso para a internet. Com o Garoa ocorre o inverso: ele nasceu na web e vai para o papel. Faz todo sentido.

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