Outro dia, passei um sábado e domingo de folga em casa em São Paulo. Normalmente muitos paulistanos não se aguentam nas calças até a noite de sexta-feira, ansiosos para deixar a cidade depois de uma semana estafante. E se vão ao campo, às praias, à serra, espairecer.
Mas ficar por aqui nos finais de semana também é uma boa. Nos sábados, pela manhã, o trânsito ainda é pesado. Muita gente guarda para essas horas tarefas caseiras, como fazer supermercado, ir às comprinhas corriqueiras, lavanderia etc. E a cidade se agita bastante desde cedo. Mas, com o cair da tarde, tudo se acalma (para voltar a ferver à noite).
Aos domingos, um passeio matinal com o cachorro mostra que a turma está por casa até mais tarde. A manhã domingueira é uma delícia em São Paulo nesta época.
Pois, dizia eu, passei os dois dias em casa. Foi tempo de receber gente da família para uma agradável, digamos, colocação de assuntos em dia. Lá estavam, à determinada altura, uma dúzia de mulheres conversando em animadíssima roda na sala.
Olhei aquela cena, e pensei: isso aqui é uma boa cópia de mundo atual. Só havia quatro homens adultos no ambiente, sendo que um deles não saía da cozinha, encarregado, óbvio, de abastecer as damas em alarido com os comes e bebes. A mulherada é maioria mesmo, vive mais, e, sem dúvida, manda muito mais (aliás, até em Brasília é assim).
Na minha rua é visível o crescimento da população feminina idosa. Senhoras andam aos pares; filhas adultas acompanham suas mães de cabecinhas brancas em caminhadas tranquilas; e até nos restaurantes de comida por quilo, que proliferaram no bairro, é possível notar que a freguesia quase sempre é de gente que já governou famílias e famílias, criou e forneceu muitos sabores, mas não quer mais qualquer relação com cozinha.
As estatísticas do Seade (SP) mostram que o envelhecimento é generalizado no país, e que SP segue a mesma linha. A pirâmide populacional se transformou. E cada vez mais vamos ver isso acontecer nos próximos anos e décadas.
Curioso é que na quinta-feira, portanto dois dias antes, eu tinha retirado da estante um livro do qual gosto muito ( “Más allá del jardín”), do escritor espanhol Antonio Gala, um craque da literatura no idioma de Cervantes. Gala trata com maestria exatamente esse universo: as mulheres maduras, seus interiores, suas histórias, suas almas.
O livro (Editora Planeta, 1995, Barcelona) é parte de uma extensa obra que tem textos para teatro e poesia carregada de verdades. Um primor de mergulho na personalidade feminina através de Palmira Gadea, uma senhora que vive com seu belo jardim, em Sevilha, e que, de repente, descobre o mundo existente além de suas lindas flores, de sua família harmônica, netinhos vindouros, seu cão, Juba – e muitas lembranças. É uma bela história sobre rica personalidade, e com um final surpreendente.
Lá em casa, no final de semana, havia pelo menos umas quatro ou cinco Palmiras. Milhares de outras mulheres de Gala passeiam por São Paulo, a cidade que outrora, ainda vila, era conhecida não pela beleza dos longevos, mas pela algazarra dos jovens. O famoso burgo dos estudantes.
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O noticiário brasileiro dos últimos meses é lamentavelmente rico em registros de agressão a mulheres – casos que vão do palavreado ofensivo à máxima brutalidade. A abominável atitude, usada como solução de conflitos de casais, em muitos casos atinge filhos e, pior, não raro acaba em morte.
Uma rápida passada de olhos na história paulistana nos mostra que essa violência, infelizmente, é herança secular na cidade. A leitura dos estudos da historiadora Alzira Lobo de Arruda Campos, aos quais é sempre conveniente voltar quando se pensa no tema, leva o cidadão deste suposto moderno 2010 à dura conclusão: a bestialidade humana não tem limites.
“Além das mãos, usadas para dar bofetadas, murros, unhadas e empuxões, e dos pés para pontapés, coices e ‘esporadas’, os maridos valiam-se de numerosos instrumentos para o castigo de suas mulheres”, escreve a historiadora no livro Casamento e Família em São Paulo Colonial (Paz e Terra, 2003). Ela estudou maços e maços de processos centenários de pedidos de divórcio, autos de crimes de honra e virgindade e outros documentos do Arquivo Público do Estado e da Cúria Metropolitana de São Paulo – entre outras fontes.
Os relatos de Alzira Lobo são chocantes. Impressionam pelos detalhes da crueldade contra as mulheres. E deixam a impressão de uma certa conivência familiar com o absurdo. Aliás, como hoje. “Quase todas as mulheres queixavam-se de ameaças e tentativas de morte”, conta a autora, referindo-se aos depoimentos estudados. No “Processo de divórcio de José da Fonseca Carvão e Câmara e Maria Antônia de Brito” (SP, 1807, Cúria), a agressão relatada é brutal: “(…) pisando-a a coices com as botas e arrastando-a pelos cabelos”. No caso da desavença entre Francisco Antonio Chrispim e Gertrudes Custodia (SP, 1820), os autos contam: “(…) outras vezes lhe tem dado com um chicote e queimando-a com fogo”. É um passado bem presente.
(texto publicado em O Estado de S.Paulo)
Ele as pintou conversando,
solenes, surreais, nuas, sensuais,
requintadas, deitadas,
atrizes, moças, meninas,
mãe e filha,
Pagú, colombinas,
em bordéis, tropicais,
com flores, com chapéus.
Di Cavalcanti usou e abusou das mulheres em sua obra. É um acervo encantador. Olhando antigas revistas paulistanas, encontrei a figura feminina de Di Cavalcanti em desenhos creditados à fase na qual o artista colaborava com publicações em São Paulo.

Desenho assinado por Di Cavalcanti na revista Panoplia, 1918
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2009