Caía uma chuva de pedras no meio da tarde do sábado, em Higienópolis, bairro do Centro de São Paulo, quando começou a missa de sétimo dia da morte de Daniel Piza, na Igreja Santa Teresinha, rua Maranhão. Estavam lá a família, amigos, colegas e, tenho certeza, muitos leitores de Daniel. Todos tocados pela cerimônia que buscava um pouco de conforto para quem dele gostava.
Fica a imagem jovial, alegre, de Daniel – e sua obra, seja nos seus silenciosos amigos livros, seja em sua competente produção jornalística.
Daniel não queria ser Machado, que adorava, nem Francis, que o inspirava.
Daniel queria ser Daniel.
E é.
Outro dia, quando andava pelo interior do país para uma reportagem sobre a presença do crack em pequenas cidades, a viagem ia tensa pela estrada vazia, noite a dentro, após um entardecer muito bonito no sertão de Pernambuco. Na BR 428, que liga Petrolina a Salgueiro, a forte presença da polícia, com barreiras e relatos de alta voltagem dando conta do combate pesado ao tráfico de drogas na região chamada de polígono da maconha.
Há um clima de insegurança constante naquela estrada, ainda mais à noite. E mais: com armamento de cano longo, às vezes artesanal, a bandidagem assalta carros e caminhões. Por cima de tudo, pequenas cruzes à margem da estrada marcam as mortes em acidentes com animais em todo o trajeto. Jegues e cabras costumam atravessar a pista com frequência, provocando graves ocorrências.
Cerca de duas horas depois de Petrolina, finalmente, apareceu a placa: Cabrobó. Passava das 20h quando vimos um posto. Ainda com um quarto de tanque de combustível, achamos, o colega José Patrício, do Estado, e eu, que deveríamos tocar direto para Salgueiro, adiante mais uns 60 quilômetros. Chegar logo, descansar do dia cheio, calorento, e da travessia da caatinga.
Mas aí pintou uma dúvida – que não durou mais do que alguns segundos. Não! Vamos parar, sim, e abastecer. Nunca se sabe o que pode acontecer na estrada a esta hora e com esse clima de insegurança noturna. O posto estava lotado de caminhões. Uns estacionados, outros em fila nas bombas de diesel. E quase desistimos. Novamente, voltamos atrás. “Entra ali, entra ali, por trás, a bomba do etanol pode estar do lado de lá”. Devagar, fizemos a volta nas carretas. Lá estava a bomba do álcool, livre.
Ao abrir a janela para falar com o frentista, notamos que havia música no ar. Era um cântico religioso, vindo de um caminhão bem ao lado da bomba. E havia muita gente olhando para um telão. Enquanto o rapaz enchia o tanque, notamos um sacerdote na carroceria de um caminhão branco, abençoando as pessoas.
Naquele momento, chamava para a comunhão. Muita gente voltou a se aproximar do altar improvisado. Havia até algumas freiras entre o povo. Em seguida, encerrou a cerimônia. E começou a distribuir terços coloridos.
Ficamos sabendo então, pela moça do projetor das imagens do telão, que aquela era a missa do padre Miguel, um padre camioneiro, que reza pelas estradas brasileiras e que, naquele dia, naquele local, repetia a cerimônia de uma vez por ano – e exatamente naquele horário.
Até a chegada a Salgueiro, para onde seguimos, já em velocidade mais baixa e com os tercinhos recebidos, ficamos matutando, cada um com seus botões: caramba, cruzando o sertão pernambucano, à noite, no improviso, ameaçados até por jegues, encontramos aquela cena.
Fomos “obrigados” a tomar uma cerveja em nome do padre Miguel.
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Eles entraram pela grande porta lateral, de madeira, saídos do claustro, vestindo túnica rosa, a cor da alegria, cor do quarto domingo da Quaresma, na semana passada. Dois sacerdotes caminharam sem pressa até o altar. Na frente, um grupo, com roupas brancas, velas e incenso fumegante; atrás, outro, com vestes pretas e livros de cantos.
Eram esperados havia bem uns 30 minutos. A igreja, cheia. Gente em pé pelos corredores, se abanando, na manhã abafada. Cada movimento do cortejo, como uma procissão centenária, foi acompanhado pelos olhos atentos dos fiéis, em silêncio. Sob a solene e altíssima nave central da igreja, os religiosos iniciaram a missa das 10h, tradicional em dias como hoje.
A cerimônia lembra hábito das pequenas cidades bucólicas. Mas a cena ocorreu aqui pertinho, no centro antigo de São Paulo, no Mosteiro de São Bento. A igreja fica no Largo de São Bento, final do Viaduto Santa Efigênia. Foi construída há um século. Em 1600, o local abrigou a primeira palhoça religiosa dos monges neste solo, no alto da colina-mãe da cidade.
A missa do Largo de São Bento é mais do que um acontecimento dos católicos. É uma atração paulistana. No último domingo, caravanas assistiam à missa encantadas com o ambiente. Durante o ritual, os monges voltam no tempo em seus cânticos, viajam mil anos atrás, vão aos claustros da Toscana, ao beneditino, como eles, Guido D`Arezzo (955 a 1050 d.C.).
Foi na italiana Arezzo que Guido Monaco se dedicou ao alfabeto dos sons a partir dos apontamentos medievais e fundamentos gregos. E deu nome às notas. As sílabas de Guido (dó, ré, mi, fa, sol, la, si) são as iniciais do hino de São João, em latim:
UT queant laxis, (mudado para Dó)
REsonare fibris,
MIra gestorum,
FAmuli tuorum,
SOLve polluti,
LAbii reatum,
Sancte Ioannes. (SI)
Em português (segundo o site da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo): “Para que possam ressoar as maravilhas de teus feitos com largos cantos, apaga os erros dos lábios impuros, ó São João”. Hoje, a voz dos cantores voltará a encher a igreja com a música que o monge Guido ajudou a criar matutando sobre uma matemática de 1.500 anos. E com aroma de incenso.
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