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Blog da Garoa

25.fevereiro.2011 17:19:38

Um retrato da intimidade de Machado

Conheci por estes dias a foto de um rosto que havia muito tempo me intrigava. Carolina Augusta Xavier de Novaes (abaixo, fotografada em 1869) foi, certamente, a pessoa mais íntima de uma das principais inteligências brasileiras, o escritor Machado de Assis.

 Dona Carolina era portuguesa. Casou-se com o gênio das letras no ano da foto, no Rio. Quando Machado a perdeu, em 20 de outubro de 1904, depois de 35 anos de casamento, a vida na Rua Cosme Velho passou a ser um fardo demasiado pesado. Machado morreu quatro anos mais tarde.

Dona Carolina me apareceu no excelente livro A olhos vistos, uma Iconografia de Machado de Assis, organizado por dois craques da pesquisa, Hélio de Seixas Guimarães e Vladimir Sacchetta, e publicado pelo Instituto Moreira Salles (2008). Eles garimparam documentos, retratos, cartões, fotos da cidade e publicações de (e sobre) Machado. E oferecem ao leitor relíquias da intimidade machadiana, como a sequência de imagens de dona Carolina aos 30, 44 e 60 anos. Era uma mulher bonita.

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A pesquisa de Guimarães e Sacchetta mostra ainda maravilhosas fotografias do Rio antigo e uma imagem rara feita por Augusto Malta em agosto 1907: Machado sendo socorrido por amigos após um desmaio.

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Veja o que um Rato de Museu (digitais também) pode ler na Biblioteca do Senado Federal.

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12.novembro.2009 13:37:47

A palavra e o registro do tempo

Uma das diversões do escritor Machado de Assis era acompanhar, e depois relatar em crônicas semanais, as sessões do Senado no Rio de Janeiro. Dessas maravilhas machadianas, trazidas dos anos 1890 para nosso tempo pelo professor John Gledson, algumas são pérolas do comportamento de políticos que à época usavam a tribuna do parlamento. Obviamente que sem microfones e sistemas amplificadores de som, o gogó e a retórica exigiam muito dos oradores.  Mestre da ficção, Machado viveu aqueles tempos sem perder contato refinado com a realidade turbulenta e documentou, como um taquígrafo privilegiado, episódios da vida nacional.

Nessas breves observações empíricas sobre o grande escritor — o especialista na obra do homem na casa é  Daniel Piza –, deixo, de propósito, aparecer o encantamento pelo Machado cronista do século 19. É faceta menos estudada no gênio das palavras, mas é a que a mim tem cativado, talvez por meu interesse pessoal naquele período. Sustentado pelo ensinamento que advém dessa admiração, vasculhava eu, outro dia, arquivos centenários de O Estado de S.Paulo, em busca de registros históricos, quando encontrei um texto, de 1935, sobre fatos ocorridos em São Paulo no alvorecer do Império.

Página de O Estado de S.Paulo, julho de 1935/Arquivo OESP

Página de O Estado de S.Paulo, julho de 1935/Arquivo OESP

Uma reportagem contava a descoberta de documentos do caso de Francisco José das Chagas, o Chaguinhas, fato estudado em poucos círculos de historiadores e curiosos sobre o passado, mas bem presente no cotidiano de muita gente na cidade. Chaguinhas era paulistano. É tido hoje como um santo popular. E reverências lhe são feitas todas as segundas-feiras na igrejinha de arquitetura colonial no final da Travessa dos Aflitos, no coração do bairro da Liberdade.

Pois, bem ao espírito machadiano, um outro observador de seu tempo, Antonio de Toledo Piza, também ocupou-se do tema e descreveu, em 1900, na Revista do Instituto e Geográfico de São Paulo, um debate parlamentar ocorrido em plenário sobre o enforcamento de Chaguinhas. A Revista, documento precioso, é do acervo da Universidade de Toronto, onde a encontrei após alguns dias de perseguição virtual a informações sobre o que teria sido o último enforcamento do Império.

Capa da Revista do IHGSP, edição de 1900, da University of Toronto

Revista do IHGSP, edição de 1900, da University of Toronto

No texto de Toledo Piza, a partir da pág. 59, estão detalhados debates políticos sobre a condenação de Chaguinhas à morte, em 1822, cuja execução foi programada para o local no qual estão hoje a Praça da Liberdade e a estação Liberdade do metrô. Para quem não conhece o drama de Chaguinhas, o homem era militar e, após participar de uma greve em Santos, contra o atraso do pagamento de salários às tropas imperiais de D. Pedro 1º, foi condenado à forca.

 Ocorre que, no dia da execução da sentença, a corda amarrada ao pescoço do condenado arrebentou algumas vezes e, mesmo assim, os representantes do Império mantiveram a decisão de matar o grevista Chaguinhas. A decisão contrariava costume da época, segundo o qual, nesses casos, deveria o condenado ser poupado, afinal, o suplício teria sido evitado por obra divina.

Décadas e décadas se passaram e o assunto permaneceu sombrio na cidade. Antonio de Toledo Piza, então, aproveitando-se dos registros de um debate entre parlamentares, tenta demonstrar na Revista do Instituto Histórico e Geográfico as contradições no discurso de um político que usava o episódio Chaguinhas para atacar um adversário. Com a transcrição dos discursos na tribuna legislativa, pensava Toledo Piza levar luz aos fatos e clarear o raciocínio de que o enforcamento de Chaguinhas não poderia ser comprovado como real acontecimento.

Afora a dificuldade na documentação, o enforcamento de revoltosos, por si, mostra a brutalidade do ambiente social e político daqueles dias de incertezas no Brasil de Dom Pedro.

 Mas o caso Chaguinhas, que permanece à espera da lupa de historiadores juramentados, é também parte relevante de um outro processo histórico de São Paulo: a luta pela preservação da capela dos Aflitos, pequena igreja que cuidava das almas de escravos, condenados e banidos, gente que à epoca era considerada de segunda e que tinha naquela região paulistana um ponto de refúgio. O prédio é uma construção de taipa, de 1775, marca de uma época na cidade.

Tombada pelo patrimônio, a capela, na qual são solicitadas as graças de Chaguinhas, com três batidinhas em uma porta de madeira, está em vias de avançar para as mãos do cardeal D. Odilo. Conta o cônego Raphael Emygdio Peretta, zeloso guardião daquele monumento histórico e religioso, que só após a avaliação do Arcebispo de São Paulo é que talvez possa a capelinha seguir para a etapa efetiva da restauração. Toc, toc, toc.

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