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Blog da Garoa

16.fevereiro.2010 12:55:42

Luís Gama: olhaí, gente!

Outro dia, de madrugada, assistindo aos desfiles de carnaval de São Paulo, lembrei de Luís Gama, poeta, escritor, jornalista e rábula, que viveu na cidade na segunda metade do Século 19. É uma das principais figuras do abolicionismo paulista, militou contra a escravidão e foi parceiro de escritos de gente importante naqueles dias, como Joaquim Nabuco, Rui Barbosa.

Já falei aqui sobre esse personagem histórico da cidade, que teve trágica infância (foi vendido pelo pai) e rica superação pessoal, além de contribuição importante para a humanidade. Não me lembro de ter visto Luís Gama na avenida. Mas mesmo que já tenha sido homenageado, não seria demais fazer-lhe, como dizem os artistas, “uma releitura”.

Fica a sugestão para o próximo carnaval. E, abaixo, fragmentos do poema Meus amores, do seu Trovas Burlescas. Como lembra texto de Heitor Martins, um dos estudiosos de Luís Gama, o poema foi publicado no jornal Diabo Coxo, a 3 de setembro de 1865, e inserido nas Primeiras Trovas Burlescas a partir da terceira edição (1904)”:

Meus amores são lindos, cor da noite

Recamada de estrelas rutilantes;

Tão formosa creoula, ou Tétis negra,

Tem por olhos dois astros cintilantes.

.

Em rubentes granadas embutidas

Tem por dentes as pérolas mimosas,

Gotas de orvalho que o universo gela

Nas breves pétalas de carmínea rosa.

.

Os braços torneados que alucinam,

Quando os move perluxa com langor.

A boca é roxo lírio abrindo a medo,

Dos lábios se destila o grato olor.

.

O colo de veludo Vênus bela

Trocara pelo seu, de inveja morta;

Da cintura nos quebros há luxúria

Que a filha de Cineras não suporta.

.

A cabeça envolvida em núbia trunfa,

Os seios são dois globos a saltar;

A voz traduz lascívia que arrebata,

- E coisa de sentir, não de contar.

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22.novembro.2009 15:41:49

Homenagem

Reproduzo abaixo, como post, em homenagem ao brilhante trabalho da autora, íntegra do comentário enviado ao Garoa pela professora Ligia Fonseca Ferreira, da Unifesp, a propósito do texto sobre Luís Gama, do dia 19.

“22/11/200912:33

Enviado por: Profa. Ligia F. Ferreira

Prezado Pablo e leitores,
É sempre uma imensa satisfação saber de todos quantos evocam a figura ímpar do multifacetado Luiz Gama, ao qual tenho dedicado a maior parte de minha produção acadêmica, iniciado com a pesquisa para meu doutorado na Universidade de Paris 3 – Sorbonne : “Luiz Gama : étude sur la vie et l´oeuvre d´un Noir-citoyen, militant de la lutte anti-esclavagiste au Brésil” (4 vols).
Organizei a reedição crítica das Primeiras Trovas Burlescas de Luiz Gama e Outros poemas, pela editora Martins Fontes (2000). Trata-se do primeiro trabalho que resgata a obra única de Luiz Gama, baseada nas duas edições por ele mesmo preparadas (Sãoa1a edição 1859 ; 2ª edição, corrigida e aumentada 1861), desde há muito de raríssimo acesso. Consegui realizar minha pesquisa “arqueológica” e de “restauro” na Biblioteca Mário de Andrade e na de colecionadores particulares, já que edições póstumas, a partir de 1904, em geral feitas por “amigos ou admiradores” do autor (e não editores), têm caráter apócrifo, apresentam distorções e mutilam muitos poemas, retirando às vezes estrofes inteiras, comprometendo assim a leitura e interpretação do texto.
. Tomo a liberdade de recomendar aos interessados a leitura deste livro, no qual encontram-se um vasto ensaio introdutório, + fortuna crítica, cronologia e iconografia do poeta, jornalista, advogado e militante das campanhas abolicionista e republicanas.

Minha tese, com volumes de anexos (textos, documentos, iconografia) em português, encontra-se disponível da Biblioteca da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP.
Tenho vários artigos publicados, dentre os quais ressalto :
1. “Luiz Gama: um abolicionista leitor de Renan”, Revista Estudos Avançados (USP) n. 60, disponível on line:
 http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S010…

2. “Luiz Gama por ele mesmo : a carta a Lúcio de Mendonça”, Teresa Revista de Literatura Brasileira 8/9, agosto 2009. Neste trabalho, analiso e comento dados inéditos sobre a célebre carta de abolicionista ao futuro criador da Academia Brasileira de Letras, oportunidade em que desmistificamos alguns equívocos acerca da biografia do autor de Primeiras Trovas Burlescas.

A relação de outros trabalhos pode ser acessadas através do meu CV Lattes:

http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.jsp?id=K4781343T9

No dia 18 de novembro último, a convite do Centro Paula Souza e Secretaria de Educação do Estado de SP, ministrei la em videoconferência – “Luiz Gama : uma ´consciência´ afro-brasileira”, que dentro de cerca de 2 semanas estará disponível na videoteca da Rede do Saber  www.rededosaber.sp.gov.br
Cordialmente,

Profa. Ligia Fonseca Ferreira
UNIFESP – Universidade Federal de São Paulo”

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19.novembro.2009 23:12:54

Dívidas e reverências

 São Paulo adotou o dia 20 de novembro como feriado em homenagem à gente que lutou pelas liberdades em séculos de injustiça, quando humanos eram escravizados por serem negros ou índios. É a data dedicada a Zumbi dos Palmares, líder quilombola exterminado nessa data em 1695 pelo paulista Domingos Jorge Velho em campanha contra índios e escravos em terras do Nordeste. 

Há trabalhos acadêmicos muito bons sobre esse período terrível da história de São Paulo. E há livros reveladores das intolerâncias vividas país a fora. Lembro aqui de dois ensaios que abrem o livro História de São Paulo, a cidade no Império (Paz e Terra, volume 2) e são uma aula sobre a escravatura.

O primeiro, de Alzira Lobo de Arruda Campos, trata de um detalhe de alta sensibilidade. Mostra como a sociedade escravocrata reagia a crimes nos quais se envolviam seus escravos. Os brancos proprietários de negros os defendiam da Justiça branca, mas não era porque acreditassem na inocência deles, mas sim para que seus patrimônios não fossem desvalorizados.

No segundo texto, de Maria Helena Machado, na mesma obra, mais pérolas daquela época. Ricas informações estatísticas mostram que em 1854 a cidade chegou a ter 30% de sua população composta por escravos. “A Freguesia da Sé, que era o local aonde estavam as famílias mais ricas, concentrava, em 1836, o maior número de escravos, 858 (370 crioulos e 488 africanos)”, diz a autora, citando Daniel Pedro Müller (Ensaio d’um quadro estatístico da província de São Paulo), editado em 1978.

Mas o que a mim tem chamado a atenção há algum tempo ao ler sobre o tema, além obviamente das barbaridades perpetradas, é a presença naqueles dias de um personagem único da cidade: Luís Gama. Outro dia, encontrei num sebo do Viaduto Nove de Julho, quase esquina com Rua da Consolação, uma edição do popular Trovas Burlescas, livro de poemas de Luís Gama, cujo título inteiro é Primeiras Trovas Burlescas do Getulino. Um achado.

Filho de mãe negra com pai branco, Luís Gama teria sido vendido como escravo pelo próprio pai, como pagamento de dívidas de jogo na Bahia, e mandado ao Rio. Dramático começo de vida para um adolescente. No Rio foi colocado num lote de negros vendidos a fazendeiro de São Paulo, para onde foi transportado de navio ao porto de Santos e, a pé, para Campinas.

No ensaio de Maria Helena Machado há detalhes da vida de São Paulo naqueles tempos. Ela também fala da maravilhosa superação pessoal de Luís Gama em tempos tão adversos. “De escravo doméstico a poeta, rábula, jornalista e militante político (…) Luís Gama valeu-se das relações de patronagem e proteção, que ele havia constituído em suas relações com gente branca e bem-nascida da cidade, para afrontar ao próprio modelo de branqueamento ao qual ele, mulato bem-sucedido, parecia fadado”, escreve Maria Helena Machado.

E a vida paulistana do ex-escravo, escritor e advogado, encontrou-se com a de outros abolicionistas, sendo ele elogiado por Raul Pompéia e tendo também se aproximado na empreitada da criação de jornais, como o Radical Paulistano, do Partido Radical. No Radical, fez política ao lado de Rui Barbosa.

Luís Gama morreu em 1882. “Em torno do caixão, se acotovelavam gente como Martinho Prado e Antonio Carlos, ladeados de escravos e forros, vestidos miseravelmente e descalços”, lembra a historiadora. Foi enterrado na rua 12, terreno 17, do então recente Cemitério da Consolação – veja no guia de visitação -, criado anos antes na Estrada da Consolação, área que à época era distante do Centro, caminho para Pinheiros, como relatam alguns dos observadores da geografia paulistana daqueles dias.

Luís Gama, poeta e militante antiescravagista, pode ser reverenciado na Consolação com outras pessoas de destaque em São Paulo, lembrados, por exemplo, em texto do professor José de Souza Martins.

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