Os pesquisadores norte-americanos Gary e Rose Neeleman, que trabalham em uma trilogia sobre a imigração EUA-Brasil, acabam de escrever seu segundo livro sobre a imigração de soldados confederados dos EUA na segunda metade do Século 19. São 300 páginas contando a tentativa de colonização do Brasil por americanos, incentivada pelo imperador D. Pedro 2º, após a Guerra de Secessão (1865). A obra ainda não tem data para ser lançada no Brasil.
O livro trata da história de exilados do trágico conflito na América do Norte e de como foi o fracasso de projetos de criação de comunidades em Santarém, no Pará, dizimados pelo abandono e pelas moléstias da selva. Por outro lado, destaca o sucesso da empreitada dos confederados na região de Nova Odessa e Americana, em São Paulo.
O primeiro da série, Trilhos na Selva, saiu no Brasil em 2010. Um novo livro, ainda em fase de pesquisa, vai contar a história da presença na Amazônia dos soldados da borracha no Século 20. E dos contatos entre os presidentes Franklin Delano Roosevelt e Getúlio Vargas. É pesquisa garimpada em documentação do Congresso americano.
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O jornalismo é uma atividade visceralmente ligada ao tempo. É a rotina da correria, da obediência cega aos prazos, da falta de tempo, do encolhimento do tempo. A indústria da informação vive do domínio de períodos medidos em relógio e calendário - no jargão das redações é a chamada edição.
Conta-se a história fatiando-se o tempo em uma sequência de horas ou dias. Cronologia, aliás, que o homem já aprendeu a subverter também com cinema, rádio e televisão.
Nos últimos anos, a rede de computadores acelerou violentamente esse processo, em escala mundial, e inexoravelmente transformou o fluxo do conhecimento humano, as necessidades e os hábitos, e até os ambientes íntimos – cadê as salas de leitura?
É certo que rádio, TV e web, veículos que transitam no mundo da informação de curtíssimo prazo, são importantes. Para muitos, até indispensáveis. Entre eles, muito dependentes da palavra oral, há, porém, que se destacar uma pequena-grande diferença: o blog. É recurso ágil para ir-e-vir aos fatos.
E mais, o que é fantástico: com a possibilidade de uma discussão aberta com um interlocutor, muitas vezes, anônimo. É um desafiador espaço de comunicação, que pode, além de tudo, acontecer em tempo real. Pula-se o tempo da carta, como ocorre aqui mesmo neste Blog da Garoa, um espaço dedicado a tempos distintos.
Pois diante desse mundo de frenética difusão de notícias, de conhecimento, é preciso, sempre, recorrer a uma calmaria para olhar uma questão crucial: a qualidade do tempo.
Felizmente, um dos espaços preservados para esse exercício é o das palavras pretas sobre papel branco, o mundo dos livros.
Na literatura encontra-se satisfação diferente daquela que o jornalismo pretende entregar. Na forma e no conteúdo. Um bom livro tem quase tudo que um humano precisa. É certo também que já há no seu encalço o famigerado leitor digital (e-reader) a lhe ameaçar com a aposentadoria – como ocorreu, no mundo dos sons, com o disco de vinil.
Mas o livro, no aconchego da biblioteca, guardiã maior das palavras e da reflexão, é objeto que exige espaço e um tempo próprios. Dele saem ligações com velhos escribas e questões de fundo, como a milenar dúvida das Confissões de Santo Agostinho: o que é o tempo?
Talvez com isso tudo na cabeça, um pensador brasileiro tem apontado sua lupa para os escritos desde a epopeia e a tragédia. Esse homem é Benedito Nunes, filósofo, paraense, professor da Faculdade de Filosofia de Belém, amante do silêncio das palavras, crítico literário e ensaísta.
Outro dia, li o texto “O tempo na literatura”, que é um raciocínio de Benedito Nunes para Ensaios filosóficos (Martins Fontes, 2010). Logo na abertura, quando aborda a narrativa histórica e também a dimensão do tempo na ficção, o filósofo destaca três pontos fundamentais para escritores e leitores (aliás, igualmente relevantes para o exercício do ofício jornalístico). É a ”regra das três unidades” (lugar, tempo e ação).
Benedito Nunes usa a “regra” para atravessar milênios – dos gregos a Clarice Lispector (uma de suas especialidades), passando por Santo Agostinho, Goethe, Newton, Edouard Dujardin, Joyce, Thomas Mann, Proust, Borges, Machado de Assis e Guimarães Rosa.
Em outra de suas produções, ”Introdução à República de Platão”, o professor fala de também de conceito que nos é, a nós que habitamos a vasta metrópole paulistana, atual e apropriado. Diz: ”(…) a cidade surge da carência dos indivíduos, ‘quando nenhum de nós se basta a si mesmo e necessita de muitas coisas”.
Que grande verdade essa, trazida por Benedito Nunes aos anos 2000, para os milhões de viventes desse gigantesco e agitado emaranhado de interesses que é São Paulo.
Agora é momento de uma pausa. Vamos a um dos mais intrigantes componentes do tempo. No último dia 27 parou o relógio da vida física do adorador de livros Benedito Nunes. Aos 81 anos, o filósofo morreu em sua cidade, Belém.
Fiquei matutando: não sei se o tempo de Benedito Nunes acabou. Mas, tenho certeza, ele passa à categoria daqueles que aguardam por um observador desapressado (diria Manoel de Barros) que lhes narre a história num bom livro – seja à Dom Casmurro (do fim para o começo), seja como em Proust (de recordação em recordação), como o próprio Benedito Nunes ensinou.
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Apreciar fotos antigas é quase uma necessidade para muita gente. Mais cedo ou mais tarde você folheia álbuns, viaja no tempo, sorri consigo mesmo – ou até chora de saudade.
No caso da cidade de São Paulo antiga, mestres como Militão de Azevedo e Guilherme Gaensly deixaram acervos preciosos para a alegria dos pesquisadores e dos curiosos.
São registros de ouro.
Mas a arte de retratar a cidade conta também com mãos ricas na reprodução, pelo traço, das sombras, da luz, das perspectivas. Conheci outro dia uma bela coleção de desenhos em preto e branco, alguns em cores, que acaba de ser editada pela Companhia Editora Nacional (2010). É obra de Diana Dorothèa Danon, artista que tem seu foco na pintura documental.
O livro São Paulo: Belle Époque contém interiores, mobiliário, objetos decorativos, monumentos, maçanetas, afrescos. E conta com o requinte dos textos do professor Benedito Lima de Toledo.
É mais uma viagem tocante ao mundo paulistano que não existe mais, como o das fachadas demolidas ou alteradas da Paulista ou de Campos Elíseos.
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Três imagens maravilhosas, dois Portinaris e um Clovis Graciano, que conheci nas longas e prazerosas horas de leitura sobre São Paulo, entram aqui, nesta Sexta-feira Santa, como presente de Páscoa aos amigos do Garoa.
São uma rápida prova do que existe em obra essencial para quem gosta das histórias da cidade: o livro História e Tradições da Cidade de São Paulo, de Ernani Silva Bruno. O autor, aliás, é craque da mesma estirpe dos artistas que traduziram a cidade nas artes plásticas.
Esse livro é um primor. É de 1953, da José Olympio Editora, do Rio. Tem 285 ilustrações maravilhosas, entre elas belíssimos bicos de pena de Clovis Graciano e os desenhos de Cândido Portinari, especialmente criados para o livro. Além de fotos, reproduções de outras telas e plantas antigas da cidade.


O Garoa foi desafiado, outro dia, por um amigo, Walace, a sortear um exemplar do livro “Álbum Iconográfico da Avenida Paulista”, uma maravilha.
Pois, aproveitando que é dezembro, devolvo o desafio: leva de presente de Natal o também belo Iconografia Paulistana do Século XIX, de Pedro Corrêa do Lago, quem responder primeiro o nome completo do autor da aquarela abaixo, que retrata cena de São Paulo do Século 19.

Aquarela mostra cena paulistana do Século 19
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2009