ir para o conteúdo
 • 

Blog da Garoa

Li, numa toada só, o livro Armênio Guedes, sereno guerreiro da liberdade, do jornalista Sandro Vaia (Barcarolla, 2013). Uma beleza. O livro, de 255 páginas, é uma aula de história brasileira, delicioso passeio por quase um século da vida política nacional vista do ângulo da militância do biografado no Partido Comunista Brasileiro – e com depoimentos de políticos contemporâneos: Aloysio Nunes Ferreira, José Serra, Milton Temer, que conviveram com ele no exílio.

Num texto primoroso, permeado pelo bom humor, o autor agarra logo o leitor ao descrever o baiano botafoguense que dedicou a vida a uma causa política com inabalável convicção: a luta pela liberdade de viver democraticamente mesmo em momentos de brutal tensão e em ambientes de crises institucionais gravíssimas no Brasil, antiga União Soviética, Chile, França, Itália, Cuba, Espanha.

Episódios como o da descoberta (hilária) de quem era o “Camarada Silva”, o comunista russo que mandava e desmandava em brasileiros do Partidão, e o (dramático) da notícia da morte do irmão, Célio, na tortura, são alguns dos momentos arrebatadores no livro.

Conheci “Seu” Armênio quando trabalhei na Gazeta Mercantil, final dos anos 90. Na redação, era uma figura agradável. Àquela altura muito reverenciado pelos colegas, mas sempre ao alcance de um bate-papo, de uma piada. Um personagem fascinante, um caminhante (à Antonio Machado), mostrado com leveza pela escrita de Sandro Vaia, com prefácio de Ferreira Gullar.

.

sem comentários | comente

  • A + A -

Depois de ler Getúlio Vargas: dos anos de formação à conquista do poder – 1882-1930, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem estado ocupado com a leitura dos originais do segundo tomo da trilogia do escritor Lira Neto. O autor cearense, que lá biografou Castello, Maysa, Padre Cícero e José de Alencar, lança nos primeiros dias de agosto o livro sobre Vargas de 1930 a 1945. O volume final abordará o Brasil de 1945 ao suicídio, em 1954, e será lançado em 2014.

Lula fechou a semana com o livro de Lira Neto depois de, nos últimos dias, ter dedicado atenção especial a encontros com jovens, políticos e intelectuais, numa tentativa de interpretar a vontade escrita nas ruas em junho por milhares de brasileiros.

O petista (que já teve a trajetória política comparada à de Vargas) e o também ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (que sonhava em varrer do país o legado varguista) receberam os originais de Lira Neto porque escrevem textos para a contracapa da obra, editada pela Companhia das Letras.

Neste volume, Lira Neto conta 15 anos da história de Getúlio Dorneles Vargas (1882-1954), exatamente o período no qual eventos como a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), o salário mínimo e o incentivo à industrialização ajudaram o país a criar e alimentar a classe média consumidora nos grandes centros urbanos.

O encontro com o autor ocorreu por solicitação de Lula. Ele telefonou para o escritor Fernando Morais, que lhe havia presentado com o primeiro tomo, pedindo que convidasse Lira Neto para um almoço na terça-feira, 15. Com o livro sobre a mesa de trabalho, ao lado de uma biografia de Abraham Lincoln (1809-1865), um dos pais dos Estados Unidos, Lula recebeu os escritores, comentou a obra e citou trechos da biografia, que tem anotações em beira de página.

“Lula é um leitor atencioso”, disse Lira Neto na semana passada, depois de estar no Instituto Lula.

Transformação

O ex-sindicalista gostou da narrativa. “Ele comentou que parece ver Vargas caminhando pela Rua da Praia (em Porto Alegre)”, lembrou Fernando Morais.

No segundo volume, o que mais parece ter angustiado o ex-presidente são as descrições das mudanças radicais na trajetória política de Vargas, como o momento do livro no qual o ditador atropela a democracia. Também chamou bastante a atenção (negativamente) como Vargas compactuou com uma personagem que Lula acha terrível: Filinto Muller, o chefe de polícia varguista.

Morais, autor de  A Ilha e Chatô, também está escrevendo outro livro, este sobre o próprio Lula. Ele começou o “projeto” há dois anos – e ainda não tem data para acabar. “Já tenho uns 30 depoimentos. E recebi um pacote com mais de 30 fitas, mais de 40 horas de gravações dele. Ouro puro”, afirmou Morais.

“Conheço o Lula desde os tempos das greves em São Bernardo”, declarou o escritor. Ele recordou dos tempos de tensão e repressão política no Brasil, final dos anos 70, início dos 80, tempos nos quais Lula foi perseguido pela ditadura, e preso. “Jantamos juntos na véspera da intervenção no sindicato. Fernando Henrique estava lá naquela noite, mas voltou para São Paulo porque não acreditava em uma intervenção militar. Nós ficamos. E à 1h da manhã a tropa cercou o sindicato”, disse. Morais se refere à primeira intervenção no sindicato, ocorrida em março de 1979. Lula foi preso em 19 de abril de 1980, e solto em 20 de maio.

Autor também da história de Olga, a mulher de Luís Carlos Prestes, mandada aos nazistas pelo ditador Vargas, Morais contou que o encontro no Instituto Lula serviu também para os três conversarem sobre as manifestações de junho e, obviamente, a conjuntura política brasileira.

Candidatura?

Na conversa no Instituto, localizado no bairro Ipiranga, Lira Neto lembrou a Lula que Vargas, no terceiro livro, depois de um retiro na fazenda gaúcha, volta ao poder no Rio. E, então, fez ao petista a pergunta que boa parte do país gostaria que ele respondesse depois que a popularidade da presidente Dilma Rousseff escorreu ladeira abaixo, segundo pesquisas de opinião.

Ao estilo do jornalista Samuel Wainer, que durante uma visita a São Borja, em 1949, entrevistou o líder do PTB (que confirmou a nova candidatura), Lira Neto não resistiu à provocação: “O senhor pensa em voltar a morar em Brasília?”, disse a Lula, imitando a técnica de apuração de Wainer. Mas Lula não caiu na “esperteza”. Como Vargas, riu da pergunta. Mas disse que não é candidato.

Parece que os escritores acreditaram…

Juventude

Durante a semana, Lula tentou também uma aproximação com a juventude. No mesmo dia do encontro com os escritores, chamou ao Instituto o secretário da Cultura de São Paulo, Juca Ferreira, um apaixonado pela cultura digital, para acompanhá-lo em reunião com jovens de movimentos sociais, partidos e entidades populares e de mobilização na web.

Estiveram com ele jovens ligados à UNE, UJS, MST, CUT, PT, PCdoB, além de blogueiros do próprio Instituto Lula e o que eles chamam de “coletivos”, como Circuito Fora do Eixo e Existe Amor em SP, movimentos que ganham massa nas redes sociais. O pessoal do Movimento Passe Livre, protagonista principal das manifestações de junho, não estava na reunião. Disse que nem foi convidado.

Na conversa com a moçada, Lula se disse interessado em ouvir o que eles pensam do país e suas demandas, muitas delas apresentadas nos cartazes de manifestantes que lotaram as ruas. O primeiro encontro do ex-presidente com a juventude ocorreu havia quase um mês, ainda no calor das manifestações deixarem políticos, líderes de partidos e analistas e sociólogos perplexos. A reunião da terça-feira, dia 15, foi prosseguimento daquela anterior.

Artigo

“Ele queria ouvir a juventude e abriu uma porta para o diálogo”, afirmou na sexta-feira Pablo Capilé, do Fora do Eixo, que esteve na reunião logo após o almoço do ex-presidente com os escritores. Para Juca Ferreira, Lula queria falar de conjuntura, do significado das manifestações. “Na chegada, ele perguntou: você leu o artigo (publicado no Times)”, contou Ferreira. “E disse, você vai gostar”, emendou.

No texto do Times, Lula elogia os movimentos e adverte os partidos políticos para a necessidade de renovação. “Eu encaro como uma espécie de manifestações do descontentamento com o nível da democracia”, argumentou o secretário. “Os partidos políticos foram longe demais na insensibilidade com os movimentos populares”, acrescentou Juca.

Dois dias depois, Lula foi à palestra de encerramento de seminário sobre política externa na Universidade Federal do ABC, em São Bernardo. Falou por mais de duas horas para uma plateia de estudantes que lotou os 400 lugares do auditório. respondeu perguntas sobre política externa, contou histórias do tempo de seu mandado, defendeu o governo de Dilma Rousseff, festejou os 95 anos de Nelson Mandela, e surpreendeu ao falar de boatos sobre uma suposta complicação de sua saúde.

Pediu aos estudantes que lutassem contra o que chamou de “vandalismo na internet”, negou que esteja fazendo “tratamento escondido” para um câncer, anunciou exames regulares para agosto, e chamou de “canalhas” e “imbecis” usuários de redes sociais que vão à web espalhar notícia falsa. Foi aplaudido. E deixou o auditório assediado como um popstar.

 

 

sem comentários | comente

  • A + A -

Os pesquisadores norte-americanos Gary e Rose Neeleman, que trabalham em uma trilogia sobre a imigração EUA-Brasil, acabam de escrever seu segundo livro sobre a imigração de soldados confederados dos EUA na segunda metade do Século 19.  São 300 páginas contando a tentativa de colonização do Brasil por americanos, incentivada pelo imperador D. Pedro 2º, após a Guerra de Secessão (1865). A obra ainda não tem data para ser lançada no Brasil.

O livro trata da história de exilados do trágico conflito na América do Norte e de como foi o fracasso de projetos de criação de comunidades em Santarém, no Pará, dizimados pelo abandono e pelas moléstias da selva. Por outro lado, destaca o sucesso da empreitada dos confederados na região de Nova Odessa e Americana, em São Paulo.

O primeiro da série, Trilhos na Selva, saiu no Brasil em 2010. Um novo livro, ainda em fase de pesquisa, vai contar a história da presença na Amazônia dos soldados da borracha no Século 20. E dos contatos entre os presidentes Franklin Delano Roosevelt e  Getúlio Vargas. É pesquisa garimpada em documentação do Congresso americano.

 .

 

 

 

 

comentários (2) | comente

  • A + A -

O jornalismo é uma atividade visceralmente ligada ao tempo. É a rotina da correria, da obediência cega aos prazos, da falta de tempo, do encolhimento do tempo. A indústria da informação vive do domínio de períodos medidos em relógio e calendário - no jargão das redações é a chamada edição.

Conta-se a história fatiando-se o tempo em uma sequência de horas ou dias. Cronologia, aliás, que o homem já aprendeu a subverter também com cinema, rádio e televisão.

Nos últimos anos, a rede de computadores acelerou violentamente esse processo, em escala mundial, e inexoravelmente transformou o fluxo do conhecimento humano, as necessidades e os hábitos, e até os ambientes íntimos – cadê as salas de leitura?

É certo que rádio, TV e web, veículos que transitam no mundo da informação de curtíssimo prazo, são importantes. Para muitos, até indispensáveis. Entre eles, muito dependentes da palavra oral, há, porém, que se destacar uma pequena-grande diferença: o blog. É recurso ágil para ir-e-vir aos fatos. 

E mais, o que é fantástico: com a possibilidade de uma discussão aberta com um interlocutor, muitas vezes, anônimo. É um desafiador espaço de comunicação, que pode, além de tudo, acontecer em tempo real. Pula-se o tempo da carta, como ocorre aqui mesmo neste Blog da Garoa, um espaço dedicado a tempos distintos.

Pois diante desse mundo de frenética difusão de notícias, de conhecimento, é preciso, sempre, recorrer a uma calmaria para olhar uma questão crucial: a qualidade do tempo.

Felizmente, um dos espaços preservados para esse exercício é o das palavras pretas sobre papel branco, o mundo dos livros.

Na literatura encontra-se satisfação diferente daquela que o jornalismo pretende entregar. Na forma e no conteúdo. Um bom livro tem quase tudo que um humano precisa. É certo também que já há no seu encalço o famigerado leitor digital (e-reader) a lhe ameaçar com a aposentadoria – como ocorreu, no mundo dos sons, com o disco de vinil.

Mas o livro, no aconchego da biblioteca, guardiã maior das palavras e da reflexão, é objeto que exige espaço e um tempo próprios. Dele saem ligações com velhos escribas e questões de fundo, como a milenar dúvida das Confissões de Santo Agostinho: o que é o tempo?

Talvez com isso tudo na cabeça, um pensador brasileiro tem apontado sua lupa para os escritos desde a epopeia e a tragédia. Esse homem é Benedito Nunes, filósofo, paraense, professor da Faculdade de Filosofia de Belém, amante do silêncio das palavras, crítico literário e ensaísta.

Outro dia, li o texto “O tempo na literatura”, que é um raciocínio de Benedito Nunes para Ensaios filosóficos (Martins Fontes, 2010). Logo na abertura, quando aborda a narrativa histórica e também a dimensão do tempo na ficção, o filósofo destaca três pontos fundamentais para escritores e leitores (aliás, igualmente relevantes para o exercício do ofício jornalístico). É a ”regra das três unidades” (lugar, tempo e ação).

Benedito Nunes usa a “regra” para atravessar milênios – dos gregos a Clarice Lispector (uma de suas especialidades), passando por Santo Agostinho, Goethe, Newton, Edouard Dujardin, Joyce, Thomas Mann, Proust, Borges, Machado de Assis e Guimarães Rosa.

Em outra de suas produções, ”Introdução à República de Platão”, o professor fala de também de conceito que nos é, a nós que habitamos a vasta metrópole paulistana, atual e apropriado. Diz: ”(…) a cidade surge da carência dos indivíduos, ‘quando nenhum de nós se basta a si mesmo e necessita de muitas coisas”.

Que grande verdade essa, trazida por Benedito Nunes aos anos 2000, para os milhões de viventes desse gigantesco e agitado emaranhado de interesses que é São Paulo.

Agora é momento de uma pausa. Vamos a um dos mais intrigantes componentes do tempo. No último dia 27 parou o relógio da vida física do adorador de livros Benedito Nunes. Aos 81 anos, o filósofo morreu em sua cidade, Belém.

Fiquei matutando: não sei se o tempo de Benedito Nunes acabou. Mas, tenho certeza, ele passa à categoria daqueles que aguardam por um observador desapressado (diria Manoel de Barros) que lhes narre a história num bom livro – seja à Dom Casmurro (do fim para o começo), seja como em Proust (de recordação em recordação), como o próprio Benedito Nunes ensinou.

.

1 Comentário | comente

  • A + A -
20.fevereiro.2011 00:30:18

Viagem pelas mãos da artista

Apreciar fotos antigas é quase uma necessidade para muita gente. Mais cedo ou mais tarde você folheia álbuns, viaja no tempo, sorri consigo mesmo – ou até chora de saudade. 

No caso da cidade de São Paulo antiga, mestres como Militão de Azevedo e  Guilherme Gaensly deixaram acervos preciosos para a alegria dos pesquisadores e dos curiosos.

 São registros de ouro.

Mas a arte de retratar a cidade conta também com mãos ricas na reprodução, pelo traço, das sombras, da luz, das perspectivas. Conheci outro dia uma bela coleção de desenhos em preto e branco, alguns em cores, que acaba de ser editada pela Companhia Editora Nacional (2010). É obra de Diana Dorothèa Danon, artista que tem seu foco na pintura documental.

O livro São Paulo: Belle Époque contém interiores, mobiliário, objetos decorativos, monumentos, maçanetas, afrescos. E conta com o requinte dos textos do professor Benedito Lima de Toledo.

 É mais uma viagem tocante ao mundo paulistano que não existe mais, como o das fachadas demolidas ou alteradas da Paulista ou de Campos Elíseos.

.

Pia Inglesa, de 1884, desenho de Diana Dorothèa Danon

 

sem comentários | comente

  • A + A -

Três imagens maravilhosas, dois Portinaris e um Clovis Graciano, que conheci nas longas e prazerosas horas de leitura sobre São Paulo, entram aqui, nesta Sexta-feira Santa, como presente de Páscoa aos amigos do Garoa.

São uma rápida prova do que existe em obra essencial para quem gosta das histórias da cidade: o livro História e Tradições da Cidade de São Paulo, de Ernani Silva Bruno. O autor, aliás, é craque da mesma estirpe dos artistas que traduziram a cidade nas artes plásticas.

Esse livro é um primor. É de 1953, da José Olympio Editora, do Rio. Tem 285 ilustrações maravilhosas, entre elas belíssimos bicos de pena de Clovis Graciano e os desenhos de Cândido Portinari, especialmente criados para o livro. Além de fotos, reproduções de outras telas e plantas antigas da cidade.

 

cavalo

cavalo2

 

Clovis Graciano Serenatas de estudantes de Direito em SP

sem comentários | comente

  • A + A -
10.dezembro.2009 15:30:59

Desafio do Natal

O Garoa foi desafiado, outro dia, por um amigo, Walace, a sortear um exemplar do livro “Álbum Iconográfico da Avenida Paulista”, uma maravilha.

Pois, aproveitando que é dezembro, devolvo o desafio: leva de presente de Natal o também belo Iconografia Paulistana do Século XIX, de Pedro Corrêa do Lago, quem responder primeiro o nome completo do autor da aquarela abaixo, que retrata cena de São Paulo do Século 19.

Auqarela mostra cena paulistana do Século 19

Aquarela mostra cena paulistana do Século 19

comentários (2) | comente

  • A + A -

Arquivo

TODOS OS BLOGS