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Blog da Garoa

Há muitos anos que o modo de vida da garoa alcança outros ambientes brasileiros, influindo na economia, cultura, política. Centro de decisões relevantes, a cidade de São Paulo atrai “estrangeiros” e exporta modelos.

 Concorde-se ou não com o que dela emerge, não se pode negar que esse conjunto de interesses forjados na cidade alcança outras áreas nacionais e altera rumos. Veja-se, por exemplo, a produção de bens, da ciência e dos arranjos políticos para o comando do país – para o bem e para o mal.

Isso tem tempo. Lá atrás, na História, nos anos 1860, quando ainda não era mais do que uma cidadela, a aura paulistana das mudanças já se prenunciava na criação de ambiente acadêmico, mais tarde ampliado com universidades de ponta.

Havia no Rio, sede da corte, célebres sessões do Senado que tratavam do clima de São Paulo. Documentos da época mostram que debates sobre os costumes de São Paulo extrapolavam o recinto parlamentar do Império e repercutiam na imprensa e na literatura. Cronistas da época, como Machado de Assis, que sobre os políticos mantinha ácida vigilância, descreveram muito bem esse ambiente.

Uma das vítimas preferidas das “maldades” da pena machadiana nos jornais era o senador gaúcho José Martins da Cruz Jobim, médico do Imperador, diretor da Faculdade de Medicina carioca, que dizia no Senado que não gostava do que via em São Paulo. Brito Broca, em livro sobre Machado, lembra a perseguição ao ambiente paulistano pelo senador, que se referia às festas e pilhérias de alunos da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. “Que educação recebem esses mil brasileiros que vão estudar em São Paulo?”, atacava o senador. “Que educação recebem (…)? Uma vida ignóbil, uma vida de lástimas, (…) entregues ao jogo, à crápula, à comezaina, à casa de alcoice.” Noves fora a rabugice do senador, essa retórica já antecipava tempos de construção de novo modo de vida em São Paulo.

Correção: a última edição da coluna (2/05) informa data de morte de Castro Alves (1847-1971). Correto é 1871.

 

(texto publicado em O Estado de S.Paulo)

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A vila colonial de São Paulo, que atrai os historiadores e fascina os curiosos (entre os quais me incluo) da vida oitocentista, teve pouca relevância econômica e política, comparada com o que viria a ser, mas projetou para a posteridade importantes traços na aventura republicana. Até o início do Século 19 não era a cidade mais do que um entreposto isolado.

 Por anos, funcionou como posto avançado do povoamento português no rumo do interior brasileiro em época na qual as expedições para expansão territorial eram importantes e o mapa nacional, como o vemos hoje, ainda demoraria quase um século a tomar forma – o que se deu com Rio Branco já no Século 20.

São Paulo, no entanto, deu a volta nesse isolamento imperial a partir dos anos 1820, principalmente a partir da Lei de Terras, adotada em 1850, ferramenta de ocupação do solo e base para criação de um valor substituto para a propriedade de escravos. E partiu para um avanço construído sobre a diversidade de imigração, e sua inexorável sede de inovação. Tornou-se rapidamente um relevante produtor agrícola, exportador, e acumulou importância na evolução do pensamento no Largo de São Francisco.

Com Recife, funcionou como geradora de massa crítica, notadamente no ramo do Direito do país, celeiro de boa parte das principais cabeças que fariam o movimento republicano e a luta pelo fim da escravidão.

Para São Paulo migravam jovens que almejavam formação de ponta para enfrentar as fortes transformações que aportavam no país, trazidas pelas naus das mudanças européias e norte-americanas. Os ecos dessas sociedades em franca transformação após o final do Século 18 eram propagados pelo mundo e chegavam ao Brasil, reverberando, em muitos casos, diretamente em centros descolados da corte, como a academia paulista.

Um olhar nos cantinhos desse tempo paulistano propicia a descoberta de indícios que permitem entender melhor aqueles dias. E uma das principais traduções dessa quadra é de uma figura que nem viveu na cidade, mas que não perdeu a noção do que estava por acontecer nos lados de Piratininga: Machado de Assis. 

Genial, ele captou, mesmo afastado da garoa, a importância que a cidade começava a projetar no país. Em seu belo conto Primas de Sapucaia, Machado faz aparecer essa atmosfera paulistana.

 “Eu vim cedo para a corte, donde segui a estudar e bacharelar-me em São Paulo. Voltei uma vez só a Sapucaia, para pleitear uma eleição, que perdi”, diz ele, emprestando alma ao personagem e ambientando a ação. A maravilhosa ficção vai adiante com as idas e vindas do “primo” e de sua Adriana por ruas do Rio e de Petrópolis.

 Às tantas, Machado, mais uma vez, deixa entrar lufadas paulistanas. “Hás de lembrar-te dos nossos planos da academia, quando nos propúnhamos, tu a ministro do império, eu da justiça. Podes guardar as duas pastas; não serei mais nada”.

Ao contrário do entristecido colega do primo das de Sapucaia, que admite um fracasso diante da vida pós-academia, São Paulo não “gorou”.

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Nestes dias de discussão sobre reforma na lei nacional da convivência privada, dos costumes, o Código Civil, fui aos arquivos relembrar essa adequação das normas à vida em curso. E encontrei Ruy Barbosa, no início da República, envolvido com o conjunto de princípios que tramitava no Legislativo.

Ruy era senador e foi crítico ferrenho do projeto do primeiro Código Civil brasileiro, que após anos no Congresso começou a valer em 1916. O documento produzido por ele é parte da história brasileira, sua famosa Réplica.

Ruy é personagem da formação paulistana. Sua história de vida foi, em parte, moldada na Faculdade do Largo de São Francisco. Partindo da obra para o autor, derivei para as impressões que ficaram da relação dele com a cidade, lugar que teria papel relevante no centro de seu pensamento: a troca de mãos no poder e o impacto dessa alternância no País.

Ruy era baiano, estudou no Recife, viveu no Rio, sede da máquina burocrática do poder de seu tempo (1849-1923). Mas conservou ligações com São Paulo, onde estudou (1867-70) e militou, mesmo de longe.

Era um jovem melancólico, como a cidade. Mas, também como a cidade, viveu aberto à mudança, como se observa nas décadas seguintes em temas caros a ele e a São Paulo, como a abolição e a República.

Por aqui, o Ruy-abolicionista colecionou adversários ao vetar, quando já ministro da Fazenda (1890), a criação de banco com fundos para indenização de ex-proprietários de escravos que reclamavam de prejuízos com a lei de 13 de maio de 1888. Essa ligação com a cidade aparece em diversos momentos das biografias do advogado, senador, diplomata e tribuno. E o acompanha até o fim da vida.

Entre páginas e páginas de homenagens, quando de sua morte, em 1.º de março de 1923, um artigo de O Tempo lembra que a doença já lhe provocava delírios. “(sic)Houve um terceiro discurso, em que Ruy imaginava-se numa das suas campanhas políticas. Elle fallava sempre com voz forte e com a eloquencia dos seus maiores dias da tribuna. Quando ia terminar, sentou-se na cama e bradou:

– Viva S. Paulo! Viva o dr. Washington Luiz!”

(Texto publicado em neste domingo, 28/03, em O Estado de S.Paulo)

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