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Blog da Garoa

Outro dia, entrevistando o escritor e produtor de filmes Francesc Escribano sobre sua obra (livro e filme) a respeito de Dom Pedro Casaldáliga, bispo de São Félix do Araguaia, ouvi do autor catalão, que o religioso, igualmente nascido na Catalunha, gostou da escolha do nome Francisco pelo papa argentino Jorge Mario Bergoglio. “Francisco não é só um nome; é um programa de vida”, disse Escribano acerca do papa que está no Brasil. Citava o bispo que adotou o combate à pobreza no sertão brasileiro como missão.

Independentemente da fé de cada um, não há como ignorar a abrangência e o impacto desse momento da Igreja, certamente nunca antes vivido na América Latina. São tempos com variáveis especiais como a guinada à esquerda dos eleitorados da região, a crise econômica mundial e a Era da comunicação global instantânea.

Só para lembrar, Dom Pedro Casaldáliga é hoje, aos 85 anos, um dos principais ícones do que foi nos anos 70 e 80 o movimento da Igreja chamado de Teologia da Libertação, veio viver no isolamento rural no Brasil em 1968, defendendo causas sociais quando não existia celular e os ares da ditadura já turvavam o cenário político nacional.

Pois aquele ideário de justiça social, de defesa dos menos favorecidos, dos abandonados pelo Estado, dos índios, dos colonos, dos pobres nas favelas urbanas – que lhe rendeu ameaças de morte e o levou ao Vaticano para ser repreendido pelo então bispo Joseph Ratzinger, depois escolhido papa Bento 16 -, reaparece agora com força nos discursos da Santa Sé. É linha central do papado de Francisco.

Pode-se dizer que a Igreja Católica quer estancar a evasão de fiéis que migram para as religiões evangélicas e enfraquecem as suas paróquias. Pode-se pensar igualmente que os pensadores do Vaticano querem defender dogmas cristãos ameaçados por modernidades e pela velocidade do fluxo de informações alucinante que toma a globosfera. E que buscam na juventude a renovação de sua existência milenar. O mais correto, a meu ver, é pensar que criou-se nos últimos anos um canal pelo qual essas visões – a perda de fiéis e o questionamento dos dogmas – se juntam e são olhadas com a lupa vaticana.

Nesse quadro, demandas sociais como acesso a serviços públicos de qualidade, igualdade de oportunidades na educação e saúde, fim da roubalheira dos administradores públicos, garantia de renda, emprego, oportunidade de mudança de patamar social, liberdade de expressão, que eram, aos olhos da guerra ideológica dos 60/70, imediatamente taxadas como extremismos insuflados por agentes esquerdizantes contrários ao desenvolvimento nacional, hoje fazem parte do cotidiano de milhões de pessoas que lotaram ruas e ruas com manifestações.

Pois em nome do combate a protestos por essas demandas sociais já se fez política rasteira no Brasil, com polícia e repressão. Reagindo a essas vontades, a própria Igreja, em determinados momentos, colocou-se contra a militância popular – como na tentativa do Vaticano de enquadrar o bispo do Araguaia.

Para ficarmos somente no Brasil, hoje se vê que a criação de uma nova classe média amplificou reivindicações do pessoal alijado do consumo, e submetido ao segundo plano em tantas outras áreas, por décadas, e que é levada às ruas pela irreverência da juventude, coisa muito conhecida das regiões empobrecidas das regiões metropolitanas. E se vê também que essa massa emergente entoa num só coro palavras de ordem e carrega bandeiras que antes eram vistas como contestação “comunista” – lembram das acusações ao bispo do Araguaia e àqueles que trabalhavam contra a ausência do Estado e por mais igualdade?

A esta altura do campeonato, julho de 2013, não há como ignorar que a visita do jesuíta franciscano, a primeira de Francisco de Roma, aponta para uma preocupação social da Igreja Católica como não aparecia no cenário internacional havia muito tempo. Pode-se dar o nome que se quiser para este período de Francisco e à peregrinação dele em busca do fiel jovem.

Mas não há como negar que as demandas sociais defendidas por bispos como Casaldáliga, e para as quais muita gente (católica, inclusive) torceu o nariz por muito tempo – e que ainda hoje são tão presentes na dureza das periferias -, revive na Igreja de Francisco.

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Na vila primitiva de São Paulo, nascida de forte presença religiosa, em muitos momentos o estado colonial e a Igreja marcharam lado a lado. Relatos dos jesuítas contam cenas de batalhas terríveis do soldado português contra os nativos que resistiam em Piratininga nos primeiros séculos de ocupação – reproduzidas, por exemplo, na arte de Debret. A parceria era considerada tão vital para o sucesso da empreitada na terra da garoa que o governador Luiz Antônio de Souza Botelho Mourão, o morgado de Mateus, recorreu, em 1767, ao poder militar da santa hierarquia: deu a patente de coronel a Santo Antônio.

(texto publicado em  O Estado de S.Paulo)

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31.outubro.2009 13:34:07

Rato de Museu

 Para quem curte passear por São Paulo e descobrir detalhes escondidos da história da cidade, uma dica: visite a centenária Igreja de São Francisco, no Largo São Francisco, para conhecer uma técnica de construir prédios na antiga São Paulo. Restam poucos. Um fragmento de parede sem reboco, protegido por um vidro, pode ser visto no corredor à esquerda de quem entra na capela, que fica ao lado da Faculdade de Direito, no Centro. É uma amostra de materiais da taipa de pilão, usada por antigos construtores da vila que virou megalópole.

Taipa de Pilão na Igreja de São Francisco / Foto: Pablo Pereira

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