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Blog da Garoa

A imagem de um índio guarani sendo arrancado do plenário do STF, publicada nos jornais de sexta-feira, 27, é uma brutalidade. Mas não deve espantar ninguém. Se o guarani, que foi expulso da Suprema Corte brasileira porque disse o que pensava enquanto um ministro lia, tivesse ficado lá quietinho, com seu cocar a enfeitar as fotos oficiais do clima de “democracia racial” da República, tudo bem.

 Mas é índio, tem outra cultura. Sem as travas dos ambientes dos brancos, falou. Perturbou.  E, aí, meu irmão, cultura de branco é assim, seja na Suprema Corte brasileira, seja na Coroa espanhola. Desqualifica, expulsa, prende, mata.

 Meu caro guarani, calado na marra no STF: contente-se em ter sido somente jogado do lado de fora, na praça, como um inconveniente. Olhe esse Debret, de 1827. É cultural.

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Há muito tempo li uma fábula que explicava as fases da lua. Havia uma ave enorme, cabeçuda, pescoço pelado, coleira de plumas, que quando a lua estava cheia, no céu, linda, voava até lá e ia comendo pedaços daquela gigantesca melancia branca até a lua ficar um fiapo entre as estrelas. Faz tempo, mas ainda lembro que havia no livrinho até o desenho do bicho, barrigudo, deitado, aguardando a lua crescer novamente lá no alto, atrás da janela.

Bom, o tempo passou. A vida não pode mais ser vista assim. É pau puro. Há muitos transtornos no caminho. E alguns deles, como as fases da lua, se repetem. Ontem, após quase três horas dentro de um carro na cidade, mais uma vez, conflagrada pela enchente, pensei: a única explicação razoável para o que acontece com as chuvas em São Paulo talvez esteja numa historinha singela – como a fábula da ave e a lua. É isso! E lembrei daquele Debret, de 1827, que mostra soldados colonizadores, no meio da selva, matando índios botocudos a tiros de bacamarte.

Essa água toda, que a nossa engenharia moderna não consegue domar, deve ser das lágrimas dos massacrados. Só pode ser praga. Algum cacique, antes do último suspiro, deve ter dito: “Jamais habitarão essas terras em paz. Os céus vos castigarão”. Não há outra explicação. Não é possível que não seja isso.

 Nossos engenheiros estudados, chefiados por espertíssimos políticos amparados por rios de dinheiro da enorme máquina de arrecadação na administração pública, já deveriam ter conseguido soluções, já teriam construído reservatórios profundos, bacias em margens alargadas suficientes para guardar as águas das chuvas e evitar perdas e danos – e até mortes de pessoas.

 Se até hoje não conseguiram – e a gente já sabe que as enchentes virão, como as fases da lua – só pode ser por que são mesmo lágrimas dos céus, praga da brava, coisa antiga.

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A história da formação paulistana, rica trajetória de ocupação do interior brasileiro há quase 5 séculos, é maravilhoso manancial para o entendimento do país. Há uma infinidade de informações pouco conhecidas que precisam, a cada dia, de mais estudos e reflexão.

Uma parte desse mergulho no passado da cidade é possível pela consulta, em São Paulo mesmo, aos guardados em bibliotecas e arquivos, sejam públicos ou de colecionadores. Mas há também detalhes relevantes na vida dos museus de arte. E, muitas vezes, uma passada de olhos em acervos de fora de São Paulo fornece o que se busca.

O escritor Nelson Rodrigues, sabemos, costumava reclamar do que considerava uma falha da prosa do Século 19 ao descrever os ambientes sociais brasileiros de seu tempo: a ausência de um objeto indispensável nas salas daqueles dias, a escarradeira.

 Pois, na conflituosa formação paulistana, o artista não esqueceu de registrar também as graves crises humanas, as guerras. Como mostra esse Debret, do acervo do Museus Castro Maya, do Rio.

 

Combate contra botocudos, obra de Jean Baptiste Debret, de 1827, retrata guerra dos bandeirantes contra índios

Combate contra botocudos, obra de Jean Baptiste Debret, de 1827, retrata guerra dos bandeirantes e índios aliados contra outras tribos de Piratininga

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14.fevereiro.2010 16:55:55

Organizaram a festa, virou carnaval

O carnaval em São Paulo nasceu da organização de uma manifestação popular chamada entrudo, importada de Portugal, muito praticada na cidade até o fim da primeira metade do Século 19. Era mais ou menos assim: homens e mulheres iam às ruas para uma batalha de água e farinha e também bolas de cera durante três dias, no começo da Quaresma, começando num domingo.

Era um hábito bem popular, comum aos escravos. Mas logo as classes mais abastadas aderiram à diversão. E começaram a mudar a festa. Nasceram as guerras de água de cheiro, que até bem pouco tempo eram bem comuns nos salões, com os lança-perfumes e serpentinas. Nos bailes de carnaval das crianças de hoje brinca-se também com os confetes e aquelas bisnagas de espumas.

Debret descreveu esse costume na São Paulo daquela época, lembra, em artigo sobre o tema, a historiadora Alzira Lobo de Arruda Campos, que já citei aqui. Ela recorda ainda o inglês João Mawe, que contou as batalhas nas quais os participantes ficavam tão molhados “que parecia terem sido pescados de um rio”.

Aí entrou a turma do controle de exageros da sociedade. E a brincadeira popular, tida então como rude, foi sendo enquadrada em regras até virar uma festa em recinto fechado: os bailes nos clubes. O primeiro, ou mais marcante, segundo pesquisa de Alzira Campos, foi o do Hotel Universo, em 1855. E o carnaval nasceu, então, “como uma conquista da civilização!”

Em 1860, conta a historiadora, o Correio Paulistano comemorava os cinco anos do aparecimento do carnaval, que viera, com brilhantismo, substituir o “desengraçado e estúpido” entrudo. Ensina ela que, em seguida, com o crescimento no número de clubes e associações de classe pela cidade, foram então condenadas as festas em praças e largos,  e a festança passou a se concentrar nos bailes.

A pesquisadora Olga de Morais Von Simon, citada por Alzira Campos, esquematizou o surgimento e crescimento do carnaval em São Paulo em quatro estágios principais, da seguinte forma:

O primeiro, de 1867 a 1876, quando a brincadeira de rua é substituída pela folia nos salões. A segunda, de 1881 a 1886, quando o entrudo reage contra o que chamado carnaval veneziano, das máscaras. Aí as autoridades sufocam essa revolta e proíbem os a brincadeira em praças e largos.

 O terceiro ponto, segundo ela, vai de 1891 a 1901. É a fase da riqueza do café, das liberdades republicanas, da chegada de levas de imigrantes europeus. Esse período devolve a festa às ruas, porém, com o luxo e o requinte dos bailes de fantasias dos clubes. E, por último, de 1905 a 1915, que é o tempo dos desfiles de mascarados em carros abertos pelas ruas da cidade.

O corso ganhou força a partir de 1911 na jovem Avenida Paulista. Eram domingos de carnaval com foliões fantasiados a desfilar em seus automóveis, como lembra Marcia Camargos, no livro Villa Kyrial, Crônica da Belle Époque Paulistana.

Nos domingos de carnaval costumava haver almoços a fantasia, a que os convidados compareciam mascarados, só se dando a conhecer quando à mesa iniciavam a refeição”, conta Marcia Camargos ao traçar o perfil de Freitas Valle, o mecenas da Vila Mariana, já mostrado aqui no Garoa.

 Depois de décadas de forte influência inglesa, São Paulo flertava com a França. E correriam ainda anos para que a busca pela identidade local amadurecesse e as afirmações culturais de brasilidade ganhassem fôlego.

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