“Olhar o passado, às vezes, pode ser perturbador
Remexer papelada guardada, fuçar em arquivos e olhar com lupa o passado são sempre atividades reveladoras. Sempre que há luz clara de pesquisa sobre momentos da história, de lá emergem reflexões e, às vezes, informações desconcertantes.
Dias atrás concluí a leitura de 1822 (Nova Fronteira, 2010), livro de Laurentino Gomes que trata dos episódios da Proclamação da Independência, muitos deles ocorridos na vila de São Paulo.
A cidade, segundo Laurentino, tinha 28 ruas, 1.866 casas, 6.920 habitantes na zona urbana, 20 sapateiros, três violeiros, um barbeiro – e mais mulheres do que homens. Os bairros Braz, Pari e Tatuapé, juntos, contavam 36 casas, 186 pessoas.
O livro tem manancial impagável de informações sobre o período e só sua leitura – prazerosa – dá conta de toda a sua riqueza. Mas prepare-se: não há como sair dele sem as marcas de uma formação nacional abrutalhada e meio falsa.
Relembra-se lá que quem redigiu os termos da Independência do Brasil, o episódio do paulistano bairro Ipiranga, foi uma austríaca, a princesa Leopoldina, ajudada pelo paulista José Bonifácio; na chegada à colina que abriga o museu, o imperador D. Pedro I não montava um garboso cavalo, mas sim uma mula; e o quadro símbolo, aquele que se aprende desde criança como a representação do momento mais alto do 7 de Setembro, de Pedro Américo, por sua vez, é uma cópia de uma pintura de 1875, do francês Ernest Meissonier, que retrata Napoleão na batalha de Friedland e está no Metropolitan Museum of Art, de Nova York.
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Mas o mais perturbador é a alusão ao comportamento grotesco do imperador D. Pedro I com a mulher, mãe de seus filhos, no episódio do aborto da nona gravidez, que a levou à morte em 11 de dezembro de 1826, aos 30 anos.
Conta o livro, apoiado por uma carta de Leopoldina a uma irmã, que certa vez “D. Pedro teria tentado arrastá-la à força até a sala (…), puxando-a pelo braço. Diante da resistência obstinada, lhe teria desfechado o chute no abdômen”.”
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As águas voltaram ao cotidiano dos paulistanos e de seus vizinhos. Com elas, que deveriam ser prenúncio de vida, de criação, de alegria, chega a fria constatação de que nossa engenharia urbana mais uma vez fracassou. Na administração das coisas públicas, meses e meses após o mesmo quadro ter sido visto na cidade, resta o “lamento” pela força da natureza. Óh, céus, por que nos fustigam!!!!
E segue o barco. O noticiário conta os corpos de vítimas das enchentes, dos deslizamentos de terra. Novos dramáticos episódios de gente que morre na capital mais rica do País por causa de… chuva!
É uma lástima – que se repete. São Paulo e seu povo merecem realidade melhor. Mas parece que vamos, mais uma vez, passar dias e dias, talvez até abril, a lembrar da morte – em vez de celebrar a vida em São Paulo. Uma pena.
Nota atualizada
As enchentes espalham tragédia também no Rio de Janeiro. Centenas de mortes. É dura a vida! Também lá é quadro terrível que se repete. E os administradores públicos visitam morros e prometem verbas. Até quando?
Leiam entrevista do jornalista Jamil Chade sobre o assunto. Aqui
(atualizado às 18h45 de sexta-feira, 14/01)
já foram registradas na temporada de chuvas e enxurradas que já duram dois meses em São Paulo. É o dobro das mortes ocorridas no desabamento da obra do Metrô, em Pinheiros, em janeiro de 2007, quando 7 pessoas perderam a vida.
A chuvarada encharca o solo, revela as falhas nas defesas da cidade e mostra como os administradores públicos fracassam nas tarefas de gerenciar o equipamento existente e de usar os orçamentos (de R$ 28 bilhões em 2010) para criar alternativas de conforto na metrópole, maneiras de tentar evitar a perda de vidas por ocupação equivocada de encostas e várzeas ou drenagem de menos quando há chuvas demais.
Todos esses problemas têm diagnósticos conhecidos, estudados, cujas propostas de solução costumam ser propagandeadas nas vésperas de eleição.
De acordo com o estadao.com.br, as chuvas já provocaram a morte de 72 pessoas no estado, mais da metade por deslizamentos de terra.
Levantamento fechado no último dia 30, a partir de 1º de dezembro, confirmava 12 mortes na Capital e 68 no estado todo. De lá para cá, mais mortes no Interior e, na tarde/noite desta quarta-feira, 3, na Capital, mais uma tempestade desceu sobre a cidade, principalmente nas regiões norte e leste.
Morreram um homem de 74 anos, atingido por uma árvore quando estava no carro, na Vila Maria, e um outro, jovem, boliviano, atingido por um raio, no Pari.

Dados atualizados às 15h30 de 4/02, após confirmação da morte de mulher de 72 anos desaparecida na cheia de quarta-feira, 3, na Capital
Confira o resultado da Enquete:
Pergunta:
Já morreram 68 pessoas no Estado de São Paulo, em dois meses, por causa das chuvas. Quem você acha que é responsável pela tragédia?
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