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Blog da Garoa

Com esse tempo frio, como nos idos da cidade antiga, quando Castro Alves caçava nos charcos gelados da Várzea do Carmo, São Paulo tem clima de inverno perfeito. Essa temperatura ao redor dos 10 graus centígrados, como tem feito, e com a garoa no final da tarde, traz aquela atávica vontade de buscar no fogo o aconchego. E por aí vai, uma lasanha derretendo, um bom vinho tinto, mais a boa companhia dos livros.

Neste julho paulistano, que lá nos Oitocentos juntava geadas nos descampados das chácaras, tenho lembrado de recentes dias nos quais levei ao extremo a necessidade de procurar abrigo quentinho ao fim da tarde. Foi na vila de Whistler, no Canadá, em janeiro de 2010, quando passei uma temporada com neve pelo joelho e temperaturas em torno dos 8 graus negativos. Uma maravilha!

Lá fora, tudo branco. Na sacada, gelo pendente do teto, estalactites de meio metro, por trás das quais eu via a neve cair trazendo a noite. Foi lá, naquela vila de montanha, à beira do Alasca, que notei que o que os olhos veem o coração, sim, sente: para aquecer melhor o ambiente do chalé, no horário de descanso dos passeios sob a neve, tínhamos a calefação, obviamente. E o ambiente interno a 21 graus, que ninguém é pinguim o tempo todo. Até os ursos se recolhem. Mas, em casa, havia também uma deliciosa lareira virtual.

É, uma TV, transmitida por um canal a cabo, ficava lá, o tempo todo mostrando uma lareira crepitando. Perfeita. Sintonizar aquele canal maluco ajudava a manter a sensação térmica, e prolongava o prazer de curtir aquele belo mundão branco, quase azulado, intrigante como um filme de John Huston sobre texto de  James Joyce.

No Canadá, levei ao limite o prazeroso convívio com as baixas temperaturas, coisa que não fazia havia muito tempo, acho que desde a primeira infância. Passei dias no frio intenso. Imagino que com sensações parecidas com as que aqui viveram, na geladinha Vila Imperial oitocentista, os friorentos Castro Alves e Fagundes Varela.

Canal de TV com imagens de lareira/ Foto: Pablo Pereira

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Assisti, no último domingo, 9, à noite, ao filme Sete Voltas, da TV Cultura, que conta histórias de bairros de São Paulo. É uma criativa forma de falar sobre o passado da cidade. Leve, bem-humorada, a primeira parte do filme usa animação de obras importantes na memória paulistana, como telas de Debret, e outros artistas, mais fotografias de Militão de Azevedo.

 O Tamanduateí de então serpenteava pela baixada na qual se construiu o que hoje é o Parque Dom Pedro 2º. Um dia, a cidade decidiu enquadrar o rio, e o canalizou. Virou aquilo que existe lá na Avenida do Estado- onde, de vez em quanto, caem um carro e seu motorista desastrado.

O filme exibido pela Cultura é uma sequência de sete crônicas que mostram o lugar desde os relatos de jesuítas até o depoimento de moradores contemporâneos da região, como um sem-casa que se abriga por lá, e o jornalista Heródoto Barbeiro, que foi criança naquela paisagem.

Interessante também a animação de episódio, do qual já tratei aqui: o calcanhar de Castro Alves. O poeta costumava caçar nos charcos da Várzea do Carmo e arredores. O filme recria a cena na qual o escritor,  acidentalmente, deu um tiro no pé.

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Outro dia, lendo a trágica história pessoal de Fagundes Varela, poeta que teve uma passagem pela São Paulo antiga, encontrei a expressão “São Paulo da garoa”.  Luís Nicolau Fagundes Varela (1841-1875) era do estado do Rio e conheceu a temperatura de São Paulo quando morou entre os paulistanos na segunda metade do Século 19. Ele tentava cursar Direito no Largo de São Francisco, mas não conseguiu concluir a empreitada.

Muitos dos alunos do Largo de então tiveram papéis relevantes na história das leis e da política brasileira. Varela, não. Não deu tempo. Teve a vida desgraçada pela morte de filhos pequenos. E logo abandonou o mundo. Varela deixou o nome marcado na poesia, assim como um jovem idealista, de 18 anos, que conheceu, em 1865, em viagem de navio, rumo a Recife. Era Antônio Frederico de Castro Alves. Feitas as apresentações à bordo, os poetas engataram na prosa sobre a atmosfera de São Paulo. Dizia Varela a Castro Alves:

“Menino, você precisa conhecer as loucuras que vivemos na São Paulo da garoa, sob a tutela da velha academia do Largo de São Francisco! Nossa tenda de magia fica sob as famosas “arcadas” do velho Colégio Anchieta. Ali tingimos os trapos de uma nova civilização!”. Varela tinha 24 anos. O novo amigo, baiano, se tornaria um símbolo do combate à exploração humana.

Esse diálogo é parte de obra sobre Castro Alves (Editora Três), supervisionada por Afonso Arinos e Américo Lacombe. Castro Alves(1847-1871) idolatrava Fagundes Varela. Seguiu o conselho do amigo e provou do clima e das arcadas. E, em suas carta, era rabugento com o frio paulistano. A cidade costumava ver geadas até nas várzeas vizinhas da colina da Sé. O friozinho daqueles dias já não ocorre. Mas a chuva fina, sim. Refresca o ar da metrópole e permanece como musa de muita gente.

(texto publicado em O Estado de S.Paulo)

Texto alterado às 18h50 para correção de erro de digitação na data de morte do poeta Castro Alves.

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Hoje o clima não é mais assim, com garoa e frio. Mas, nos idos de 1860, São Paulo viu gente morrer em noite de geada forte no atual Parque Dom Pedro. Foi numa noite dessas que um bêbado adormeceu na rua e amanheceu de corpo gelado na Várzea do Carmo, segundo relato de Álvares de Azevedo. O Tamanduateí, hoje espremido no canal, fazia praias pelo descampado gelado até a Rua 25 de Março. E ao rio se juntavam riachos. Ao saltar um desses córregos, durante uma caçada no Brás, em novembro de 1868, o poeta Castro Alves acidentalmente deu um tiro no pé esquerdo. E abreviou a vida. Mas essa já é outra história.

(texto publicado em O Estado de S.Paulo)

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