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Blog da Garoa

 

Curtir um gol de um filho na quadra do colégio, assistir ao time ganhar do Barcelona no Mundial, saber que um amigo se deu bem ou ver a Sapucaí inteira cantar um samba no silêncio de uma bateria nota 10. São grandes momentos da vida, às vezes prosaicos, mas inesquecíveis. Acontecimentos que viram marcas e provocam mudanças na nobre arte de viver.

Na madrugada desta terça-feira de Carnaval, a turma da Mangueira criou uma dessas maravilhosas homenagens à emoção: fez milhares de pessoas sentirem um nó na garganta nas arquibancadas, e no sofá de casa vendo pela TV Globo, ao oferecer-lhes um espetáculo inédito com um samba cantado a uma só voz por pelo menos 3 minutos na avenida. De arrepiar!

A apresentação da velha verde-rosa foi um primor. Revolucionária. No final, o veterano sambista Jorge Aragão resumiu: “Nunca vi coisa igual”. Tem razão. Vai ser difícil alguma outra escola de samba superar o que foi visto no desfile da Mangueira. Quem vai fazer a massa levantar e cantar sozinha – e por duas vezes seguidas – a letra inteira de um enredo? Quem vai calar a suprema bateria por tanto tempo? É deste tamanho a tarefa que ficou para ser batida na Sapucaí de Niemeyer.

Mas, mesmo que algum desses times espetaculares que trabalham no Carnaval do Rio consiga superar essa marca no quesito execução do samba enredo, será difícil alcançar o prazer de tremer no chute do molequinho balançando a rede, de saber de um sucesso desejado ou de gritar gol de um “Davi” Gabiru contra os “Golias” da Catalunha. Ou de chorar quando Dudu Nobre e Alcione, pela primeira vez, enfeitam, no gogó, o coro da arquibancada emocionada.

A Mangueira de 2012 mudou o Carnaval.

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(atualizado às 14h09)

 


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O carnaval passou, os sambas das escolas deste 2011 vão ficar na memória dos fãs e já se começa a pensar no próximo desfile, de fevereiro de 2012. Esse período do ano é sempre um bom palco para o país curtir uma coisa que já há anos é fundamental para os brasileiros (e até para os estrangeiros):  música na rua. Gente em festa, alegre, feliz com uma batucada de samba -ou um frevo, um maracatu, um forró danado de bom. Ao fim de tudo, o que fica é o prazer de ter vivido dias e dias sob o império das notas musicais.

Mas tem gente que não gosta de carnaval. Mais: tem gente que abomina carnaval. Gente que não suporta a batida das baterias, não vê graça numa moça-passista. Talvez também não goste de cores – ou seja doente do pé. Paciência. Neste mundão tem gosto para tudo, inclusive para quem detesta a cadência das mulheres lindas a sorrir no gozo do samba. Paciência.

Felizmente, gente como Adoniran e muitos outros, lembrados por amigos do blog, pegaram o sentido da coisa e fizeram bons sambas no passado para que esse gênero da música tivesse futuro também em São Paulo. Outro dia, lendo sobre a obra de Adoniran, encontrei referência da visita do velho sambista a um dos bairros que foram eternizados em sua obra, o Jaçanã.

Estavam lá, nas páginas preservadas do Jornal da Tarde, textos e fotos que narravam o sentimento do artista com a derrubada da estação tão cara àqueles paulistanos. E criou uma letra de samba exclusivamente para o jornal. Uma preciosidade! – pelo menos para quem gosta de samba, de bom humor, da cadência das passistas, da felicidade no rosto das mulheres bonitas, da música nas ruas.

Veja abaixo:

Reportagem publicada no Jornal da Tarde em 22 de junho de 1966

Letra de samba de Adoniran sobre estação do Jaçanã, em 1966

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 Ainda é carnaval pelo país, as escolas de samba campeãs estão sendo conhecidas (Vai-Vai venceu em SP e a melhor do Rio sai nesta quarta, 9, à tarde*) e em outras cidades blocos e trios mantêm foliões em festa pelo menos até o final da semana.

E nessa época sempre nos vem à cabeça aquela velha discussão: São Paulo tem bom carnaval? São Paulo tem samba de qualidade?

Tem. Tem sim. São Paulo tem bom carnaval nas escolas de samba, espetáculo a cada ano mais elaborado. E a cidade também produziu excelentes sambistas em outros estilos. E faz tempo que é assim.

Um dos principais craques foi o grande João Adoniran Barbosa Rubinato.

Entre outras coisas muito boas feitas tendo a cidade como cenário, o homem criou o “Trem das Onze”, um grande sucesso dos anos 60  e que sempre é muito lembrado.

O carnaval de Adoniran era tão legal que a editora Irmãos Vitale, que ainda hoje edita músicas em São Paulo, e que naquela época cuidava dos direitos de Adoniran, começou a vender o “Trem” no exterior.

Como aqui, o  velho Jaçanã do Adoniran foi um sucesso lá fora.

Na onda da exportação da música do senhor Rubinato, o “Trem” chamou a atenção de um cantor italiano, Riccardo Del Turco, que decidiu pegar carona no sucesso do Jaçanã com uma versão. Na Itália, “Trem das Onze” se chamou ”Figlio Unico”.

Quando Adoniran descobriu que seu samba fazia sucesso na Itália – e ele não recebia um tostão -, ficou uma arara.

Há um livro, do escritor Celso de Campos Junior, da Editora Globo, uma boa biografia de Adoniran, que conta os detalhes desse episódio.

Quem quiser ouvir uma amostra do “Trem das Onze”, em italiano, encontra fácil a versão na internet, no Youtube.

Então: “Trem das Onze”, só pra ficarmos com um produto de excelente qualidade – e bem paulistano.

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*No Rio, deu Beija Flor. A escola que fez homenagem a Roberto Carlos.

(texto atualizado às 18h06)

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E para quem quer ouvir o “Trem” no original, com os Demônios da Garoa, clique aqui. Ouça a música tocada no estúdio da TV Estadão, após entrevista a Felipe Machado.

(Texto atualizado em 26/o3)

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“Sou cabra da peste

vim lá do nordeste

São Paulo é minha capital”

Bem bonito o refrão da escola Tucuruvi, que tem como tema a migração nordestina para São Paulo. As três passistas que estão à frente da bateria são um show.

E tem o som de uma sanfona no samba. Bem legal.

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08.fevereiro.2011 17:06:39

Olha o carnaval aí, gente!

 Olha o carnaval aí, gente!,  costuma gritar o cantor da Beija Flor, escola de samba do Rio. O bordão de Neguinho pegou pelo país. Olha o carnaval aí, gente!

E aí entram aquelas baterias poderosas, com seus sambas-enredo de sacudir quarteirão. As escolas de São Paulo também têm seus grandes momentos.

 Ouça aqui.

Mas se o amigo ainda prefere o carnaval das marchinhas, à moda antiga, pode relembrar a beleza da brincadeira em endereços virtuais maravilhosos.

Clique e ouça aqui.

Ou divirta-se com a história do carnaval ameaçado, em 1912, pela morte do Barão do Rio Branco, dias antes da festa. O Barão ganhou até marchinha. Mas logo o espírito galhofeiro criou, como lembra o ex-ministro Franklin Martins em um site com histórias da música e outros episódios da República.

 Ouça também aqui.

Ou curta o belo acervo no site aochiadobrasileiro.

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22.fevereiro.2010 12:57:41

Cacarecos e Pernilongos

Terminado o carnaval, feitos os desfiles das escolas de samba vencedoras depois de apurados os desempenhos quesito por quesito, resta o ano, propriamente dito, pela frente. Olhando biografia de um dos personagens mais interessantes da cultura da cidade dos últimos, digamos, 50 anos, o grande Adoniran Barbosa, ou João Rubinato, para os mais íntimos, e que tem primoroso prefácio de Alberto Helena Jr., encontrei a referência a episódio do final dos anos 50 que tem a ver com esse início de 2010 – carnavalesco e eleitoral.

Há meio século São Paulo protestava, irônica e frontalmente, contra os desmandos e desrespeitos da classe política deixando um claro recado: a eleição do rinoceronte Cacareco, com cerca de 100 mil votos. O belo livro de Celso de Campos Jr. Adoniran, da Editora Globo, lembra que a campanha do rinoceronte, um personagem da história paulistana, foi uma sugestão do jornalista Itaboraí Martins, de O Estado de S.Paulo, em protesto contra o baixo nível dos candidatos à Câmara dos Vereadores. O biógrafo de Adoniran escreve que Martins “sugeriu o voto no xodó da cidade”, recém chegado ao Zoológico de São Paulo, vindo do Rio.

Essa campanha “animal”, como dizem jovens de hoje, forneceu argumento para várias marchinhas de carnaval que fizeram sucesso ao lado da Aqui, Gerarda, de Adoniran. O livro tem várias delas. Cacareco continuaria na boca do povo por muito tempo, mesmo depois de sua morte, em 1962, como nos conta o excelente acervo de O Estado de S.Paulo. Cacareco virou sinônimo de desencanto. Gerarda também foi longe.

Ainda olhando o livro, lembrei de uma entrevista do então senador Fernando Henrique Cardoso, no final dos anos 80, na qual ele brincava com o tema, a eleição do Cacareco, e citava outro bicho que fez sucesso nas urnas: um pernilongo, no Espírito Santo.

Hoje os tempos são outros. Mas os políticos… Alguns continuam no tempo de Cacareco e Pernilongo.

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16.fevereiro.2010 12:55:42

Luís Gama: olhaí, gente!

Outro dia, de madrugada, assistindo aos desfiles de carnaval de São Paulo, lembrei de Luís Gama, poeta, escritor, jornalista e rábula, que viveu na cidade na segunda metade do Século 19. É uma das principais figuras do abolicionismo paulista, militou contra a escravidão e foi parceiro de escritos de gente importante naqueles dias, como Joaquim Nabuco, Rui Barbosa.

Já falei aqui sobre esse personagem histórico da cidade, que teve trágica infância (foi vendido pelo pai) e rica superação pessoal, além de contribuição importante para a humanidade. Não me lembro de ter visto Luís Gama na avenida. Mas mesmo que já tenha sido homenageado, não seria demais fazer-lhe, como dizem os artistas, “uma releitura”.

Fica a sugestão para o próximo carnaval. E, abaixo, fragmentos do poema Meus amores, do seu Trovas Burlescas. Como lembra texto de Heitor Martins, um dos estudiosos de Luís Gama, o poema foi publicado no jornal Diabo Coxo, a 3 de setembro de 1865, e inserido nas Primeiras Trovas Burlescas a partir da terceira edição (1904)”:

Meus amores são lindos, cor da noite

Recamada de estrelas rutilantes;

Tão formosa creoula, ou Tétis negra,

Tem por olhos dois astros cintilantes.

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Em rubentes granadas embutidas

Tem por dentes as pérolas mimosas,

Gotas de orvalho que o universo gela

Nas breves pétalas de carmínea rosa.

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Os braços torneados que alucinam,

Quando os move perluxa com langor.

A boca é roxo lírio abrindo a medo,

Dos lábios se destila o grato olor.

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O colo de veludo Vênus bela

Trocara pelo seu, de inveja morta;

Da cintura nos quebros há luxúria

Que a filha de Cineras não suporta.

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A cabeça envolvida em núbia trunfa,

Os seios são dois globos a saltar;

A voz traduz lascívia que arrebata,

- E coisa de sentir, não de contar.

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14.fevereiro.2010 16:55:55

Organizaram a festa, virou carnaval

O carnaval em São Paulo nasceu da organização de uma manifestação popular chamada entrudo, importada de Portugal, muito praticada na cidade até o fim da primeira metade do Século 19. Era mais ou menos assim: homens e mulheres iam às ruas para uma batalha de água e farinha e também bolas de cera durante três dias, no começo da Quaresma, começando num domingo.

Era um hábito bem popular, comum aos escravos. Mas logo as classes mais abastadas aderiram à diversão. E começaram a mudar a festa. Nasceram as guerras de água de cheiro, que até bem pouco tempo eram bem comuns nos salões, com os lança-perfumes e serpentinas. Nos bailes de carnaval das crianças de hoje brinca-se também com os confetes e aquelas bisnagas de espumas.

Debret descreveu esse costume na São Paulo daquela época, lembra, em artigo sobre o tema, a historiadora Alzira Lobo de Arruda Campos, que já citei aqui. Ela recorda ainda o inglês João Mawe, que contou as batalhas nas quais os participantes ficavam tão molhados “que parecia terem sido pescados de um rio”.

Aí entrou a turma do controle de exageros da sociedade. E a brincadeira popular, tida então como rude, foi sendo enquadrada em regras até virar uma festa em recinto fechado: os bailes nos clubes. O primeiro, ou mais marcante, segundo pesquisa de Alzira Campos, foi o do Hotel Universo, em 1855. E o carnaval nasceu, então, “como uma conquista da civilização!”

Em 1860, conta a historiadora, o Correio Paulistano comemorava os cinco anos do aparecimento do carnaval, que viera, com brilhantismo, substituir o “desengraçado e estúpido” entrudo. Ensina ela que, em seguida, com o crescimento no número de clubes e associações de classe pela cidade, foram então condenadas as festas em praças e largos,  e a festança passou a se concentrar nos bailes.

A pesquisadora Olga de Morais Von Simon, citada por Alzira Campos, esquematizou o surgimento e crescimento do carnaval em São Paulo em quatro estágios principais, da seguinte forma:

O primeiro, de 1867 a 1876, quando a brincadeira de rua é substituída pela folia nos salões. A segunda, de 1881 a 1886, quando o entrudo reage contra o que chamado carnaval veneziano, das máscaras. Aí as autoridades sufocam essa revolta e proíbem os a brincadeira em praças e largos.

 O terceiro ponto, segundo ela, vai de 1891 a 1901. É a fase da riqueza do café, das liberdades republicanas, da chegada de levas de imigrantes europeus. Esse período devolve a festa às ruas, porém, com o luxo e o requinte dos bailes de fantasias dos clubes. E, por último, de 1905 a 1915, que é o tempo dos desfiles de mascarados em carros abertos pelas ruas da cidade.

O corso ganhou força a partir de 1911 na jovem Avenida Paulista. Eram domingos de carnaval com foliões fantasiados a desfilar em seus automóveis, como lembra Marcia Camargos, no livro Villa Kyrial, Crônica da Belle Époque Paulistana.

Nos domingos de carnaval costumava haver almoços a fantasia, a que os convidados compareciam mascarados, só se dando a conhecer quando à mesa iniciavam a refeição”, conta Marcia Camargos ao traçar o perfil de Freitas Valle, o mecenas da Vila Mariana, já mostrado aqui no Garoa.

 Depois de décadas de forte influência inglesa, São Paulo flertava com a França. E correriam ainda anos para que a busca pela identidade local amadurecesse e as afirmações culturais de brasilidade ganhassem fôlego.

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13.fevereiro.2010 17:29:44

Carnaval: é ruim, mas é bom

Uma boa noite de carnaval é quase sempre um convite a uma manhã insuportável, caso o sujeito tenha de sair da cama. Se ele seguir bem a receita da festa, como manda a cartilha, enfiar o pé na jaca e sapatear na dita cuja noite afora, pela manhã vai se encontrar na esquina da consciência com a desconciência, como diria Manoel de Barros, pedindo:  “por favor, me esqueçam”.

A maioria dos festeiros paga o preço — e de bom grado. Porque grande parte confia no próprio taco – ou no próprio fígado. E depois, claro, a gente vê o tamanho dessa conta! Tem gente que até acorda pela manhã, mas fica até o meio do dia sem saber bem por onde anda, o que vem a ser aquela claridade toda ou quem é aquele chato que insiste em lhe dirigir a palavra. É terrível. Só vendo! Ou vivendo.

E quando o sujeito ainda tem de defender o sustento, então! Aí é de lascar! Nada é pior do que uma agradável noitada no samba, regada com bebida geladinha, tudo mais o que se tem direito e, na manhã seguinte, com a cabeça oca, encontrar logo cedinho um cabra lhe cobrando tarefas, querendo isso e aquilo, dizendo como a coisa tem de ser feita ou apontando imperfeições (Que gente mala, cadê a minha cama!). O rei está certo: “Por que no te callas? ”

A situação só se resolve quando o coitado do ex-alegre, naquele momento o mais injustiçado dos humanos, admite que não vai dar para aguentar mais, respira fundo, vai passar uma água no rosto e pensa: dane-se, vou embora!

É a melhor coisa a fazer. Ir-se. Tomar umas águas de coco, procurar um aconchegante canto fresquinho, e desabar. Lá pelas 20h, quando o mundo já estiver escurinho de novo, e os instrumentos da percussão voltarem a fazer sentido, tudo estará bem. E aí, cara, vamos lá? O pessoal já está lá na concentração!

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13.fevereiro.2010 10:43:15

Carnaval, cidade em festa!

O carnaval de São Paulo já começou e a cidade está em festa. Festeja quem ficou para ver desfiles e brincar nos blocos de rua e clubes, festeja quem aproveita o feriado para viajar. E festeja igualmente quem ficou na cidade curtindo as facilidades da vida na metrópole com menos gente. Para quem gosta de recordar, Garoa garimpou algumas imagens de outros carnavais.

Ainda não era carnaval, mas já era festa

Ainda não era carnaval, mas já era festa. A litografia reproduzida é "O batuque em São Paulo", de Karl von Martius (1823-1831)

 

Capa de edição de carnaval de revista em 1910

Capa de edição de carnaval da revista A Lua, em 1910, que pode ser lida no acervo do Arquivo Público do Estado

 

Fantasiados na Lapa para o carnaval em 1928

Paulistanos preparados para brincar o carnaval de 1928 na Lapa

 

Foto publicada no O Estado no carnaval de 1930

Foto publicada no O Estado no carnaval de 1930

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