Um dos principais cronistas da velha São Paulo da garoa recebe homenagem aos cem anos de sua morte. É Angelo Agostini (1843-1910), caricaturista de jornais como Diabo Coxo (1865) e O Cabrião (1866), além de outras publicações. Na quarta-feira, o Centro de Integração Empresa Escola (CIEE) promove encontro sobre a obra do artista, que deixou rica produção sobre o modo de vida de sua época.
(texto publicado em O Estado de S.Paulo)
Janeiro, fevereiro e março são meses terríveis para os contribuintes paulistanos. É quando se dão conta do tanto de impostos que têm a pagar, a começar pelos municipais (carnê do IPTU), passando pelos estaduais (IPVA) até chegar à declaração do Imposto de Renda, cujo impacto já é mais pela constatação do rombo, uma vez que grande parte já foi comida na fonte.
São pelo menos 90 dias seguidos de dor de cabeça, contas e mais contas em busca de uma brechinha aqui, um parcelamento ali, um recibo esquecido acolá, na tentativa de evitar-se maior sangria. Quase nunca, no entanto, dá para escapar. É o tempo do acostumar-se com as pancadas.
É nesse trimestre, que felizmente está por terminar que, ano após ano, sem falta, o fisco vem buscar o seu, sem dó nem piedade. E já há tempo!

Desenho de Angelo Agostini criticando o avanço do fisco sobre contribuintes brasileiros, publicado em 1867 no jornal semanal Cabrião
É do italiano Angelo Agostini o desenho, reproduzido aqui, de dois cidadãos paulistanos remando numa canoa em plena rua alagada de São Paulo do Século 19. Caricaturista, criador de histórias em quadrinho, Agostini usava o talento para a ironia para exercer em jornais e revistas sua crítica política — e se divertir observando os costumes.
Ele migrou para São Paulo em 1859. Foi contemporâneo de figuras importantes, como Luís Gama, Joaquim Nabuco, Rui Barbosa, José Maria da Silva Paranhos, que viveram aqueles tempos de agitação acadêmica e política do Largo São Francisco pré-república.
Era época de efervescência estudantil e de florescimento de jornais e revistas na cidade, ainda com seus meros 40 ou 50 mil habitantes. Houve ali naquelas décadas o surgimento em São Paulo de publicações como Diabo Coxo, em 1865, O Cabrião (1866), O Coaracy (1875).
As caricaturas são eficientíssimas na comunicação. Agostini as unia a pequenos textos. O barão do Rio Branco, por exemplo, que é o nosso José Maria aí do segundo parágrafo, foi uma figura adorada pelos caricaturistas, com seu perfil ovalado e sua história riquíssima de bastidores.
E Agostini era um desses privilegiados pela natureza no humor. O desenhista foi, com o fotógrafo Militão Augusto de Azevedo, também já conhecido aqui do Garoa, um documentarista. Ele nos permite, por meio da dedicação de colecionadores e pesquisadores de hoje, trazer para século e meio depois as imagens e o ambiente de seu tempo.
Um belo artigo sobre essas figuras do passado da cidade, atualíssimas como as águas que sobem nas ruas, foi escrito por Heloísa de Faria Cruz, mineira, doutora em história pela USP, no livro organizado por Paula Portas sobre a cidade no Império. Doutora Heloísa conta detalhes da vida de Agostini no texto “A imprensa paulistana: do primeiro jornal aos anos 50”. Um outro texto sobre esse italiano inquieto é de Rosangela de Jesus Silva, que o estudou para a Unicamp.
Já falei aqui também sobre jóias existentes no Arquivo Público do Estado. Agora recebi informação sobre o trato que está sendo dado a publicações daquela época. Há lá diversos tipos, alguns muito curiosos: anticlerical (A Lanterna), anarquista (La Barricata, em italiano), integralista (Anauê). E outras revistas, como O Malho, editada no Rio, para a qual Agostini também desenhava.
Tenho usado o Arquivo para andar (virtualmente) por aquele mundo de Agostini. Ele e seus amigos baixavam o “malho” nos poderosos de seu tempo. E tenho me divertido. Quase como se divertiam o então jovem Rio Branco e seus colegas de Direito quando iam nadar sem as roupas no Tamanduateí.
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