O noticiário brasileiro dos últimos meses é lamentavelmente rico em registros de agressão a mulheres – casos que vão do palavreado ofensivo à máxima brutalidade. A abominável atitude, usada como solução de conflitos de casais, em muitos casos atinge filhos e, pior, não raro acaba em morte.
Uma rápida passada de olhos na história paulistana nos mostra que essa violência, infelizmente, é herança secular na cidade. A leitura dos estudos da historiadora Alzira Lobo de Arruda Campos, aos quais é sempre conveniente voltar quando se pensa no tema, leva o cidadão deste suposto moderno 2010 à dura conclusão: a bestialidade humana não tem limites.
“Além das mãos, usadas para dar bofetadas, murros, unhadas e empuxões, e dos pés para pontapés, coices e ‘esporadas’, os maridos valiam-se de numerosos instrumentos para o castigo de suas mulheres”, escreve a historiadora no livro Casamento e Família em São Paulo Colonial (Paz e Terra, 2003). Ela estudou maços e maços de processos centenários de pedidos de divórcio, autos de crimes de honra e virgindade e outros documentos do Arquivo Público do Estado e da Cúria Metropolitana de São Paulo – entre outras fontes.
Os relatos de Alzira Lobo são chocantes. Impressionam pelos detalhes da crueldade contra as mulheres. E deixam a impressão de uma certa conivência familiar com o absurdo. Aliás, como hoje. “Quase todas as mulheres queixavam-se de ameaças e tentativas de morte”, conta a autora, referindo-se aos depoimentos estudados. No “Processo de divórcio de José da Fonseca Carvão e Câmara e Maria Antônia de Brito” (SP, 1807, Cúria), a agressão relatada é brutal: “(…) pisando-a a coices com as botas e arrastando-a pelos cabelos”. No caso da desavença entre Francisco Antonio Chrispim e Gertrudes Custodia (SP, 1820), os autos contam: “(…) outras vezes lhe tem dado com um chicote e queimando-a com fogo”. É um passado bem presente.
(texto publicado em O Estado de S.Paulo)
Na São Paulo oitocentista, quando a convivência em casa se tornava insustentável o caso ia parar no juiz ou no padre. Eram as figuras que, em muitos locais, dividiam o poder na sociedade colonial. A historiadora Alzira Lobo ensina que, à época, já havia para esses casos a alternativa do divórcio, mediante a comprovação de sete quesitos: “maus-tratos ou sevícias; perigo de salvação por heresia, apostasia ou infandae veneris scelus; perigo de vida por atentado de violência; mau proceder desregrado do cônjuge; calúnia (…); falta de virgindade; e adultério de qualquer dos cônjuges”. E eram permitidos também os divórcios temporários.
(texto publicado em O Estado de S.Paulo)
A mesa do paulistano da antiga vila, tão bem retratada por Affonso Taunay, tinha costumes bem diferentes dos de hoje. Artigo de Alzira Lobo de Arruda Campos sobre o tema recorda que até os horários das refeições eram outros. “O almoço, às 9 horas; o jantar, às duas da tarde. Às 20 horas, já noite, era servido chá com torradas, biscoitos e pão-de-ló”, conta a historiadora. O cardápio tinha, em geral, arroz, feijão e carne – aves e porco eram os preferidos.
Nota de esclarecimento sobre endereço do Clube Português, citado na coluna da semana passada: o Clube fica na Rua Turiaçu; na Avenida Liberdade fica a Casa de Portugal.
(Texto publicado em O Estado de S.Paulo)
São Paulo mudou muito, costumam dizer saudosos paulistanos. Têm razão. Outro dia, lendo sobre a gastronomia na cidade encontrei no trabalho de Alzira Lobo de Arruda Campos uma curiosa descrição do que eram os prazeres da mesa na virada do Século 20. Por lá já se comia, em datas festivas, o peru recheado e o leitão, que estão presentes em muitas ceias atualmente. Eram comuns também as empadas e os doces caseiros, como o doce de batatas ou de figo e o maravilhoso arroz de leite.
Mas o que mudou radicalmente, observando-se o relato da historiadora, foi o horário das refeições. “O almoço, às nove horas; o jantar, às duas. Às vinte horas, já noite, era servido chá com torradas, biscoitos e pão-de-ló”, conta Alzira. Existiam, mas eram raras, as famílias que faziam em casa à noite as “ceias de garfo”. No dia a dia, as famílias paulistanas de cem anos atrás tinham, em geral, cardápio com arroz, feijão, sopa, e carnes ensopadas – galinha, porco, carneiro ou vaca. E, nos finais de semana, grupos de amigos e famílias podiam, “por dez tostões por cabeça”, entrar nas chácaras dos arredores em busca de pitanga e gabiroba ou para “chupar jabuticaba no pé”.
Uma outra maravilha, relembrada pela escritora, era o hábito de caçar tanajuras para fritar. Ainda hoje é costume em comunidades do interior paulista. Outro dia vi isso acontecendo no Bosque da Princesa, um parque de Pindamonhangaba. As formigas, coitadas, apanhadas em pleno voo, vão direto para a frigideira. Viram tira-gosto, como em São Paulo na virada do século. “Saúvas-fêmeas torradas, vendidas em tabuleiro e consumidas às escondidas pela elite, pois era considerado um hábito de ‘bugre’, indigno com a civilidade dos novos tempos”, escreve Alzira. O texto dela também é uma delícia.
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