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Rodízio estendido, a arte de cobrar para enxugar gelo

Pablo Pereira

10 janeiro 2014 | 18:07

A prefeitura de São Paulo quer ampliar a área de rodízio de carros. O rodízio de placas em circulação foi decretado em 1997, inicialmente como combate à poluição do ar. A frota paulistana, porém, disparou e aquela equação original montada com a desculpa de limpar a fumaça do céu, usada como argumento para convencimento geral, lá atrás, já não tem mais sentido.

O número de escapamentos de motor nas ruas explodiu – saltou de 5 milhões de carros registrados no ano 2000 para 7,5 milhões de veículos em 2013 – e detonou o argumento ambientalista do rodízio, que há 15 anos, ou seja, quatro mandatos de governo atrás, ainda dos tempos do desastrado Celso Pitta, já era visto por analistas de trânsito como meramente paliativo porque não vinha acompanhado de investida na rede de transportes públicos. De lá para cá o governo (de vários partidos) só correu atrás do próprio rabo e pouco ou quase nada relevante aconteceu.

Faz, então, muito tempo que o tal rodízio de placas passou a ter outro sentido: tentar regular engarrafamentos e encher o cofre público cobrando multas de quem não tem mais paciência com invencionices da máquina de arrecadação. Naquele lobby do rodízio, dizia-se que a medida tirava da rua a fumaça de 20% da frota. Hoje o município tem 7.577.216 (dezembro), ou seja, a frota atual engoliu aqueles 20% e ainda agregou outro tanto ao total de carros nas ruas.

Agora o governo municipal anuncia que quer expandir a cobrança de multas de rodízio para corredores que estão fora da região do tal Centro Expandido, a área paulistana na qual o morador é obrigado, um dia por semana, a deixar o carro em casa e usar a ineficiente malha de transporte público para escapar dos guardas e radares –  ou gastar com táxi.

Como não conseguiu faturar mais com aumento do IPTU deste ano bem acima da inflação na marra, a prefeitura, mais uma vez, planeja avançar sobre o cidadão espalhando seus radares e agentes da CET para pegar mais gente nas malhas do rodízio além do cerco atual. Para melhorar a vida nossa de cada dia? Ah, tá!

Abandonando o lobby da qualidade do ar, desta vez o pavor oficial espalhado é o do trânsito. Pelo menos assumem, finalmente, que o mote ambiental não tem aquela importância toda na marquetagem da coisa e tratam o assunto pelo primeiro nome: gestão de engarrafamento.

Esse argumento de controle de trânsito, aliás, já aparecia lá na origem do debate, quando a CET aplicou a restrição para, em seguida, criar a nova máquina de multar. Mas ainda não era assim tão poderoso. O do ar poluído saiu na frente.

Uma década e meia depois, tempo mais do que suficiente para ação efetiva do poder público para resolver a questão dos transportes públicos na cidade, coisa que não aconteceu, voltam agora a apelar para a enganadora ferramenta do rodízio.

Montar um sistema integrado de trens, metrô e ônibus de qualidade, competente e amplo, realmente atrativo para a massa que precisa de locomoção, nem pensar.

Estender o tal rodízio em São Paulo é aprimorar a arte de ganhar dinheiro enxugando gelo no trânsito.

Até quando?

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Linha do Tempo dos Carros em SP

1898 – registro do primeiro carro na cidade

1911 – 64 veículos

1918 – 1.977 carros

1954 – 101.010 carros

1964 – 307.120 carros

1975 – começa a cobrança da Zona Azul

1982 – 1.850.000 carros

1988 – explosão: 4.102.088 carros

1997 – surge o rodízio municipal das placas

2000 – 5 milhões de carros

2008 – 6.369.581 carros

2013 – 7.577.216 carros

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 Fonte: Detran SP e Acervo de O Estado de São Paulo

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