O Rio de Janeiro está de parabéns. Está tirando as crianças do crack das ruas com a medida compulsória. Em São Paulo, não conseguimos fazer isso. A opinião é do empresário Daniel Fresnot, de 63 anos, quase 20 deles dedicados ao trabalho de ajudar crianças que vivem nas ruas. Nos últimos 16 anos, ele criou em São Paulo um sistema de quatro abrigos que já atenderam 10 mil crianças, adolescentes, meninos e meninas: são as casas da ONG Casas Taiguara. No início, a preocupação era com a cola. Hoje, segundo Fresnot, o crack está se transformando no mal do século e é preciso adotar logo a desintoxicação compulsória das crianças.
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“Defendo a internação compulsória para crianças de até 12 anos porque uma criança envolvida com o crack não tem discernimento para saber que tem de parar com a droga”, afirma ele. “Mais tarde, quando estiver limpo, esse menino vai agradecer”, diz.
Com recursos próprios, de doações e de convênios com o município, Fresnot toca um sistema de assistência que tem a Casa Taiguarinha, só para crianças (até 12 anos), a Taiguara, para adolescentes, e uma república, no Butantã, para jovens adultos que estudam e trabalhos. Além disso, mantém um centro de cultura no Bexiga.
De acordo com o empresário – a família tem uma indústria de embalagens -, quando se trata de crianças de rua, falta vontade política para resolver o problema. “E as pessoas querem ficar longe. Ninguém quer suar a camisa”, afirma. “A sociedade é hipócrita”, resume.
Abaixo, trechos da entrevista.
Por que o senhor defende a desintoxicação compulsória para meninos envolvidos com o crack?
Defendo isso para crianças de até 12 anos. Essa criança, que está na rua, comprometida com o crack, não tem discernimento suficiente para saber que precisa parar. O adulto tem o dever de cuidar dessa criança. É por isso que eu defendo. Como estão fazendo no Rio. Acho que eles estão de parabéns. Estão tirando os “noinha” da rua e mandando para a desintoxicação. Depois que ela fica limpa, ela volta para a família. E depois ela vai agradecer a quem tirou ela do crack.
Mas não há neste processo uma invasão da privacidade dessa criança?
Mas qual é a privacidade que tem um menino de dez anos que está fumando crack na Cracolândia? Ele não tem privacidade. Ele está na rua. Vai morrer, vai acabar morto pelo traficante ou pela polícia. Na verdade, a sociedade é muito hipócrita com isso.
Precisaríamos de uma mudança no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA)?
Talvez não seja indispensável. O Rio de Janeiro está fazendo isso apesar de o ECA não facilitar. Mas o ECA também não proíbe.
Por que essa sua ideia não funciona em São Paulo?
No Brasil, o trabalho social é deixado com as Prefeituras. Os governos estaduais e federal deixam tudo com a prefeitura. A nossa prefeitura privilegiou mandar a polícia na Cracolândia para dispersar os dependentes. Embora estejam também fazendo um trabalho com este Centro que abriram agora. Mas acho que a solução não é a polícia. A solução é salvar pelo menos as crianças. Com os adultos, o trabalho é diferente.
Na Casa Taiguara, o senhor atende também a esses meninos do crack?
Sim. Atendemos. Aqueles do CAPE, da Prefeitura, que nos manda até de madrugada. Mandam aqueles que ninguém aceita.
Quantos meninos o senhor tem na Casa?
Temos 25 por dia. Em 16 anos de funcionamento da Casa, já atendemos mais de 10 mil crianças e jovens com pernoite. São encaminhados para outros equipamentos, desintoxicação, região, ou as famílias.
O senhor tem números? Dá para medir os que voltam a ter vida normal?
É difícil ter estatísticas. Precisaria acompanhar os jovens até os 40 anos para ver se ele se tornou um bom cidadão. Mas nós já mandamos mais de 300 para desintoxicação. Com resultados muito bons. Tem recaídas, mas, às vezes, na segunda ou terceira vez ele consegue largar a droga. E toda internação é um ganho. Porque ele fica pelo menos alguns meses limpo e, mesmo que tiver recaída, ele sabe que existe a chande de voltar a largar.
Como é o financiamento dos abrigos?
Temos dois convênios com a Prefeitura. Mas eles não pagam a internação. Temos de captar recursos através de doações, de jantares. Publicamos todo ano o que recebemos e resumo das despesas.
Esse trabalho tem acompanhamento do Ministério Público?
Sim. Temos todas as exigências legais respeitadas. Mandamos os relatórios para Conselho Municipal de Defesa da Criança e do Adolescente, Vara da Infância, Secretaria de Assistência Social, toda a burocracia.
Quais os casos mais comuns. Quem são esses meninos?
Na verdade, a casa são duas contíguas. A Taiguarinha, para os pequenos, até 12 anos. A outra, para os adolescentes, até 18 anos. Depois, temos a república, para maiores de 18, que estudam e trabalham. Temos as duas populações, mas são mais adolescentes do que crianças.
Qual a maior preocupação? Está aumentando o número de meninos de menos de 12 anos no crack?
O crack está aumentando. Está se tornando o mal do século. Milhares de jovens e adultos são dependentes. É preciso salvar pelo menos os pequenos.
O senhor fala do sistema de amparo da França. Qual é o benefício?
Cito o caso da França porque lá quando a Justiça tira a criança dos pais, por maus tratos ou por uma estrutura de família comprometida, e dá a uma figura chamada “terceiro de confiança”, que é um tio, um avô, um parente. Eles procuram evitar os abrigos e procuram um parente. Isso funciona bem. Lá não tem criança dormindo na rua. Tem adultos, mas crianças, não. A sociedade não permite, não deixa crianças na rua. Quando uma criança foge de casa, o policial pega, leva para a delegacia, que encaminha para a assistência social, orfanatos ou abrigos, como a Casa Taiguara.
Como senhor vê a questão aqui no Brasil a curto prazo?
É preciso de vontade política. Infelizmente os políticos e a sociedade fazem vista grossa com as crianças de rua. Todo mundo quer distância delas. Ninguém quer suar a camisa para tirá-las da rua. Se não houver uma política séria e consistente, não haverá avanços.
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Estudantes brasileiros estão na mira das universidades canadenses. Um grupo de 30 reitores de universidades do Canadá começa no dia 25 uma visita a São Paulo, Campinas, Rio e Brasília para tratar de acesso e financiamento de pesquisa, inovação e educação superior de brasileiros naquele país. A missão é promovida pela AUCC, a associação das universidades canadenses, que reúne 95 entidades. O anúncio, segundo organizadores da viagem no Brasil, foi feito ontem por Stephen Toope, presidente do conselho diretor da AUCC e reitor da University of British Columbia.
Outro dia, assisti a um filme pancadão, daqueles que no final você fica alguns segundos sem saber onde está a porta de saída. Chama-se A Separação, feito por iranianos, dirigido por Asghar Farhadi, e que beliscou um Oscar em fevereiro. É um cinema que segue o ensinamento do bom roteiro, ou seja, prende o espectador logo nos primeiros 10/15 minutos.
Neste tempo, o diretor pega o espectador, arrastá-o pra lá e pra cá, e faz sumir quaisquer referências que não estejam na tela. Quem faz roteiros trabalha com essa ferramenta, é o lide do cinema. Se o leitor (espectador) escapa na abertura, a comunicação já era.
Em A Separação a pancadaria, no bom sentido, vai ainda além desse tempo. Farhadi fez bem mais do que fixar seu alvo. O filme dele é intenso do começo ao fim. É muito mais do que uma história de fissuras nas relações entre pessoas. É espantosamente humano. Um perturbador mergulho no indivíduo.
- Calma, meu, calma, disse-lhe eu, no sonho.
Estávamos, no sonho, comendo nosso bife com saladinha de alface e tomates na mesinha redonda do bar quando notei que ele estava amuado. Estranhei. Aquilo era raro. Ele era um cabra de opiniões fortes e claras. Olhava as coisas de frente, escrevia com mão segura. Era um tipo alegre, “pra frente”, como dizia a minha mãe quando queria descrever alguém que encarava a vida na boa. Minha mãe (que já se foi) tinha também uma outra expressão curiosa. Quando alguém falava um despropósito qualquer, mesmo à guisa de homenagem, ela logo decretava:
- É um pulha!
Ele, não. Ele não era como minha mãe. Ele gostava de conversar, deixava rolar, buscava diálogo. E respondia com serenidade às críticas a seu árduo trabalho cotidiano de escrever – mesmo diante de injustiças. A idiotia alheia, certamente, era um prego em seu sapato. Mas ele não permitia que a modorra o tirasse do prumo.
Naquele final de janeiro, no sonho, na frente do bife, porém, estava incomodado. E além da conta. Desviava o olhar. Notei que a voz não lhe saía. Parecia engasgado. Queria falar, e não conseguia.
Pronto, pensei. É isso! O cara está tendo um chilique, irritadinho, porque não consegue falar. Ah, os intelectuais!
Pensei também em caçoar dele, sugerir balas de gengibre ou pastilhas de guaco para que recuperasse a voz. Mas, do nada, comecei a ficar angustiado.
Os sonhos, às vezes, imitam o cinema e os fatos mais estranhos acontecem diante de nós. Os lugares se misturam, as pessoas nos escapam, somem na terra, voam. E a gente descobre as coisas sem necessidade de palavras. A pessoa não fala, mas sabemos exatamente o que ela está sentindo.
E eu, então, no sonho, entendi o que o sufocava para além da traição da garganta.
Justo ele, que pagava por um bom combate, não pudera devolver uma grossa deselegância que um conhecido acabara de lhe fazer – e, o pior, pelas costas!
Naquele instante, estava contrariado com a vilania, mas quieto.
Tinha razão. Haviam sido tão próximos, por tanto tempo, e agora o “amigo” o apunhalara daquela maneira, desconfiando dele publicamente e – imperdoável – negando-lhe a chance do contraditório.
Quando o sonho se mudou de repente para um gramado verde, onde estávamos de chuteiras, lembro-me bem de ter dito:
- Daniel, esquece isso. Esse sujeito é um enganador. Pedante. Um pulha!
Baixara em mim o indignado espírito da minha velha.
E o sonho mudara novamente. Ele (calado como um morto, pobre homem!), olhando para o céu, já não me ouvia…
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O episódio da suspensão da compra dos aviões da Embraer pelos EUA, com as pressões políticas internas norte-americanas batendo direto no Brasil, lembrou-me a leitura do livro “Missões Silenciosas” (Bibliex, 1986), do general Vernon Walters, que foi adido militar de Washington no Rio no início dos anos 60. Então coronel, Walters, que era amigo do presidente Castello Branco, com quem servira na Segunda Guerra, recebeu uma mensagem escrita de Washington pedindo sua interferência para libertação de três norte-americanos presos em Brasília por contrabando.
A pressão, segundo Walters, era forte. No livro, o militar se diz constrangido, uma vez que os sujeitos haviam confessado o crime não só às autoridades brasileiras, mas também à embaixada dos EUA. A ordem, no entanto, era para que ele usasse sua proximidade com Castello para libertar os contrabandistas a pedido de um senador americano, do mesmo estado dos criminosos. O político ameaçava boicotar uma votação no Congresso caso não conseguisse a libertação.
“Fiquei estarrecido com a atitude de um senador que condicionava seu voto de maneira tão singular, ao invés de considerar o que era realmente do interesse dos Estados Unidos”, escreve Walters. Mas, mesmo assim, foi a Castello fazer o pedido após de ter recebido uma segunda ordem, desta vez do próprio secretário de Defesa, Robert McNamara. Segundo o relato de Walters, depois de dizer ao presidente brasileiro que estava “constrangido” em abordar tal assunto, Castello pensou, e disse:
“- Walters, você é suficientemente perspicaz para não pedir, por iniciativa própria, que eu faça qualquer coisa menos digna. É evidente que lhe deram ordem para proceder assim e, se você concordou em falar comigo, é porque o assunto tem para os Estados Unidos uma importância especial que não percebi. (…) Dê-me um tempo para pensar”.
Walters ainda faz algumas considerações a respeito da “vergonha” que sentia diante do fato, afinal tratava-se de uma relação que, para além da liturgia dos cargos, abrangia também uma antiga relação pessoal forjada em tempos de guerra. “Esta foi uma perfeita demonstração de arrogância”, confessa ele no livro, referindo-se aos EUA.
Em seguida, porém, o general conta que “pouco depois, os prisioneiros ‘fugiram’ para um aeroporto isolado, onde, como que por acaso, um avião os esperava, tirando-os do Brasil. Nunca soube se essa fuga teve ou não qualquer ligação com meu pedido”. E acrescenta: “De qualquer forma, não foi uma atitude de que possa orgulhar-me”.
Coisas das relações internacionais.
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Outro dia, andei metido com uma leitura deliciosa: dois livros sobre culinária. Um, em português, “Machado de Assis relíquias culinárias”, da pesquisadora Rosa Belluzzo, verdadeiro documento sobre o gosto brasileiro do Século 19, com comidas assim: leitoa de leite à pururuca, bacalhau à lagareira, rabanada, sorvete de pitanga, quindins e pudim de laranja. Outro, em inglês, da norte-americana Rose Neeleman, com receitas de pão de queijo, cuzcuz, bolinho de arroz e – pudim de laranja!
Com as delícias de Machado, editado pela Unesp, Rosa Belluzzo ganhou prêmio Jabuti de Gastronomia no ano passado. Essas “Relíquias…” são, na verdade, uma aula sobre como (Mário Quintana tinha trauma dessa conjunção “como”, mas acho que aqui está bem colocada) se construiu o sabor nacional misturando carne e sangue de galinha com cachaça no Franguinho de Cabidela – que o pai da Academia adorava. E a famosa Canja de Galinha, que Pedro 2º tomava até nos intervalos do teatro. Uma beleza a pesquisa de Rosa Belluzzo!
O outro livro, “A taste of Brazil”, da pesquisadora norte-americana, não fica atrás. Madame Rose, de Utah, nos EUA, veio morar no Brasil em 1958 acompanhando o marido, Gary Neeleman, um jovem pregador mórmon em missão e que logo se tornou jornalista, correspondente e diretor da United Press International (UPI).
Hoje ele é cônsul honorário do Brasil em sua cidade, Salt Lake City, e ajuda, de graça, a quebrar galhos de imigrantes brasileiros além de dedicar-se à pesquisa sobre a imigração de confederados para a amazônia. Em breve, o casal vai lançar livros sobre o tema, conforme já noticiou o caderno Sabático, de O Estado, dias atrás.
Durante a estada no Brasil, anos 50 e 60, Rose encontrou ingredientes e pratos que nunca tinha visto. Alimentou boa parte da família aqui, antes de retornar a seu país, e aprimorou o gosto pela cozinha local. Os Neeleman adoram pãozinho de queijo (Cheese rolls) e também o paulistano Virado (Miners’ beans), além de muitas outras delícias pouco conhecidas nos EUA.
Nas festas de Halloween, aquelas das morangas decoradas, eles costumam servir em casa um Frango na Moranga (Chicken baked in a pumpkin) que, garante Rose, até as crianças adoram. O livro foi editado pela Marco Editora (2007), em inglês, e faz o maior sucesso entre as famílias brasileiras que vivem na América porque traduz para as cozinheiras os nomes dos ingredientes.
Quem gosta de cozinhar tem nestes dois trabalhos as receitas de uma galinha caipira de dar água na boca: a Galinha Mourisca, de Rosa, que leva toucinho e vinho branco, e o Frango Caipira (Country chicken), de Rose, marinado no alho – e com tomates. Bom proveito!
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Curtir um gol de um filho na quadra do colégio, assistir ao time ganhar do Barcelona no Mundial, saber que um amigo se deu bem ou ver a Sapucaí inteira cantar um samba no silêncio de uma bateria nota 10. São grandes momentos da vida, às vezes prosaicos, mas inesquecíveis. Acontecimentos que viram marcas e provocam mudanças na nobre arte de viver.
Na madrugada desta terça-feira de Carnaval, a turma da Mangueira criou uma dessas maravilhosas homenagens à emoção: fez milhares de pessoas sentirem um nó na garganta nas arquibancadas, e no sofá de casa vendo pela TV Globo, ao oferecer-lhes um espetáculo inédito com um samba cantado a uma só voz por pelo menos 3 minutos na avenida. De arrepiar!
A apresentação da velha verde-rosa foi um primor. Revolucionária. No final, o veterano sambista Jorge Aragão resumiu: “Nunca vi coisa igual”. Tem razão. Vai ser difícil alguma outra escola de samba superar o que foi visto no desfile da Mangueira. Quem vai fazer a massa levantar e cantar sozinha – e por duas vezes seguidas – a letra inteira de um enredo? Quem vai calar a suprema bateria por tanto tempo? É deste tamanho a tarefa que ficou para ser batida na Sapucaí de Niemeyer.
Mas, mesmo que algum desses times espetaculares que trabalham no Carnaval do Rio consiga superar essa marca no quesito execução do samba enredo, será difícil alcançar o prazer de tremer no chute do molequinho balançando a rede, de saber de um sucesso desejado ou de gritar gol de um “Davi” Gabiru contra os “Golias” da Catalunha. Ou de chorar quando Dudu Nobre e Alcione, pela primeira vez, enfeitam, no gogó, o coro da arquibancada emocionada.
A Mangueira de 2012 mudou o Carnaval.
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(atualizado às 14h09)
O ministro entrou no supermercado dos Jardins acompanhado por seu escudeiro, que de terno e gravata caminhava sempre um passo atrás do chefe. Percorreram os corredores lotados de gente sofisticada às compras no sábado pela manhã.
Eram figuras ímpares naquele ambiente informal. Com a longa barba grisalha, terno cinza-chumbo e uma bengala, seguido pelo homem de preto, o ministro chamava a atenção.
Caminharam pelo corredor das massas até a seção das verduras, diante da padaria. Senhoras distintas e homens de fino trato andavam vagarosos com seus carrinhos por entre as gôndolas de croissants, bolos, rocamboles e geleias de damascos e mirtilos.
Foi quando o escudeiro alertou o homem de bengala sobre a presença de uma senhora, morena, famosa, que estava diante da prateleira dos pães franceses.
-Onde?, perguntou o ministro.
-Atrás do senhor, disse o homem de preto, olhando a morena de soslaio. É ela!
O ministro, então, aproximou-se. A moça mexia num balaio de belas baguetes. Ao lado da elegante mulher, o ministro grandalhão esbarrou no cesto e um pão caiu-lhes aos pés. Gentil, notando o imprevisto e a ilustre bengala, ela abaixou-se prontamente para apanhar o pacote.
-Olá! Tudo bem? disse o ministro, que também se curvara.
-Olá, respondeu ela, com um sorriso (e o pão na mão).
-Ontem mesmo pensei na senhora, emendou o ministro…
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No cinema, quando quer informar ao espectador que o que ele está vendo se passa num ambiente de cidade grande, o diretor costuma usar o truque sonoro das sirenes de ambulância de fundo. E o sujeito logo entende que a coisa ali é barra pesada, que trata-se de um modo de vida urbano com toda a complicação que dessa realidade advém.
São Paulo é assim. Complexa, gigante, com muitas sirenes e interesses de todos os tipos. Ricos, pobres, remediados, desamparados, todos convivendo num espaço que vem sendo adensado há 458 anos, completados nesta quarta-feira, sendo que seu crescimento vertiginoso – o que em parte explica muitas das atuais mazelas – ocorre a partir da década de 1940, quando a cidade tinha 1,3 milhão, e salta, em seis décadas, para 10,4 milhões (2000) e 11,2 milhões (2010), segundo os números do IBGE. É muita coisa.
Não é que o movimento criado por toda essa massa seja o culpado pelas dificuldades da vida na terceira maior aglomeração urbana do mundo (a cidade é polo atrativo e também influencia seus vizinhos, criando uma mancha que forma uma megalópole). Não. Essa montanha de gente, que é vítima cotidiana da violência, do trânsito, do abandono, das enchentes, fez riqueza e pagou seus impostos, encheu o caixa do poder público com seu suor. Produziu muito e em diversas áreas.
Tornou-se centro criador de um modo de vida de ponta no país. Atraiu imigrantes no passado como atrai investimentos no presente. A cidade tem um orçamento municipal de R$ 38,7 bilhões. Tem ciência top, gastronomia nota 10, arte fina, indústria avançada, emprego qualificado – e pelo menos três clubes de futebol com equipes de alto desempenho (São Paulo, Corinthians e Palmeiras). Ah, e tem a Lusa (de Antonio Manuel Leria, Flávio Gomes e Luiz Carlos Duarte)!
O que faltou foi produzir administrador público competente, honesto e com visão de estadista, gente com olho estratégico e sem a carga pessoal dos interesses de grupelhos ou partidos, à esquerda ou à direita. Faltou foi gente de espinha ereta para administrar os conflitos, que se acumulam nesse mundão paulistano, pensando na cidade.
Deslumbrados pela importância da caneta que têm às mãos, os gerentes de São Paulo sentam-se naquela cadeira muito famosa, no Vale do Anhangabaú, com os olhos no estrelato de uma outra cidade, Brasília, e não em Sapopemba, Cracolândia - ou nas águas do Ashton Kutcher.
Porém, mesmo com todas essas amarguras, o cachorrão vai adiante. E ainda oferece ambientes absolutamente bucólicos para se viver em diversos bairros. Dos elegantes e sofisticados aos mais simples e acolhedores. Há até locais nos quais se nota o barulho dos aviões, mas é raro o nervoso alerta das sirenes. E é possível, sim, curtir, não muito longe do Masp, a voz de sabiás e maritacas.
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