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O discurso, a Copa e os perigos da dengue

Pablo Pereira

11 junho 2014 | 18:51

No pronunciamento feito em cadeia de TV, na noite de terça, 10, a presidente Dilma Rousseff reclamou de gente que estaria bombando a existência da dengue até no inverno. É certo que no frio o mosquito não se prolifera tanto quanto nos meses de temperaturas mais altas. Mas usar a dengue como argumento para tentar desqualificar discursos de oposição num momento no qual há milhares de pessoas sofrendo os efeitos danosos da infestação já parece demais.

O discurso do marketing da presidente pode até querer rechaçar gente que está em campanha eleitoral. Pode até rebater o argumento político dos que são contra a Copa e que estariam querendo ver somente o que ela, em outros tempos, chamou de olhar só o copo meio vazio. Ok.

Mas daí a usar a dengue como argumento é ignorar que em pleno mês de junho há milhares de pessoas sofrendo com a doença. Aí é duro de engolir.

Só para pegarmos a cidade de São Paulo: o número de doentes que sofrem por terem sido picados pelo mosquito que grassa de ponta a ponta da cidade já beira os 9 mil casos confirmados. Há mais de 42 mil casos notificados. Já morreram 8 pessoas. Morreram! Picados por um mosquito. É mole?

E técnicos da própria saúde pública costumam admitir que a sub-notificação da doença não só na Capital paulista – mas pelo interior adentro – é gritante. Qualquer biólogo que trabalhe com equipes de zoonoses ou agentes de saúde por aí sabe o tamanho do perigo e que a encrenca pode ser bem maior do que aparece nas estatísticas oficiais. Há os casos de sintomas leves; há os casos assintomáticos. Há os que nem são notificados pelos hospitais e clínicas privadas.

E, notem, o planejamento de combate ao mosquito, feito pelos órgãos municipais, estaduais e federais, é feito com base exatamente em casos que são notificados. Portanto, sem o rigor da notificação correta não há um combate eficiente ao mosquito.

Basta cinco minutos de conversa com esses técnicos que operam nas ruas, nos casa-a-casa, cata-bagulhos etc, em qualquer das 94 áreas nas quais há transmissão da dengue na Capital, para se entender que mesmo com a temperatura mais fria os efeitos da doença estão aí.

É certo que não estamos mais no pico, registrado em abril. Mas e daí? Quer dizer que doença é doença só quando vira calamidade, está fora de controle e o desespero é geral?

Vá ali na esquina dizer isso para uma pessoas que está arriada na cama, com dores no corpo, ameaçada de hemorragia, querendo um buraco para se enfiar de tanto incômodo, como relatam centenas de doentes.

A dengue está aí. Tentar escamotear a existência de uma doença, que se alastra por absoluta incompetência do setor público em trabalhar uma política efetiva de eliminação dos focos de mosquitos, é crueldade.

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