Outro dia, quando andava pelo interior do país para uma reportagem sobre a presença do crack em pequenas cidades, a viagem ia tensa pela estrada vazia, noite a dentro, após um entardecer muito bonito no sertão de Pernambuco. Na BR 428, que liga Petrolina a Salgueiro, a forte presença da polícia, com barreiras e relatos de alta voltagem dando conta do combate pesado ao tráfico de drogas na região chamada de polígono da maconha.
Há um clima de insegurança constante naquela estrada, ainda mais à noite. E mais: com armamento de cano longo, às vezes artesanal, a bandidagem assalta carros e caminhões. Por cima de tudo, pequenas cruzes à margem da estrada marcam as mortes em acidentes com animais em todo o trajeto. Jegues e cabras costumam atravessar a pista com frequência, provocando graves ocorrências.
Cerca de duas horas depois de Petrolina, finalmente, apareceu a placa: Cabrobó. Passava das 20h quando vimos um posto. Ainda com um quarto de tanque de combustível, achamos, o colega José Patrício, do Estado, e eu, que deveríamos tocar direto para Salgueiro, adiante mais uns 60 quilômetros. Chegar logo, descansar do dia cheio, calorento, e da travessia da caatinga.
Mas aí pintou uma dúvida – que não durou mais do que alguns segundos. Não! Vamos parar, sim, e abastecer. Nunca se sabe o que pode acontecer na estrada a esta hora e com esse clima de insegurança noturna. O posto estava lotado de caminhões. Uns estacionados, outros em fila nas bombas de diesel. E quase desistimos. Novamente, voltamos atrás. “Entra ali, entra ali, por trás, a bomba do etanol pode estar do lado de lá”. Devagar, fizemos a volta nas carretas. Lá estava a bomba do álcool, livre.
Ao abrir a janela para falar com o frentista, notamos que havia música no ar. Era um cântico religioso, vindo de um caminhão bem ao lado da bomba. E havia muita gente olhando para um telão. Enquanto o rapaz enchia o tanque, notamos um sacerdote na carroceria de um caminhão branco, abençoando as pessoas.
Naquele momento, chamava para a comunhão. Muita gente voltou a se aproximar do altar improvisado. Havia até algumas freiras entre o povo. Em seguida, encerrou a cerimônia. E começou a distribuir terços coloridos.
Ficamos sabendo então, pela moça do projetor das imagens do telão, que aquela era a missa do padre Miguel, um padre camioneiro, que reza pelas estradas brasileiras e que, naquele dia, naquele local, repetia a cerimônia de uma vez por ano – e exatamente naquele horário.
Até a chegada a Salgueiro, para onde seguimos, já em velocidade mais baixa e com os tercinhos recebidos, ficamos matutando, cada um com seus botões: caramba, cruzando o sertão pernambucano, à noite, no improviso, ameaçados até por jegues, encontramos aquela cena.
Fomos “obrigados” a tomar uma cerveja em nome do padre Miguel.
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O Padre Miguel deveria percorrer o trecho da BR-381 em Minas entre Belo Horizonte à Governador Valadares e também da o trecho da rodovia BR-040 entre Belo Horizonte à Conselheiro Lafaiete, estradas precárias, cheias de acidentes com vítimas fatais e estão entre as mais perigosas do País. Quem sabe com suas orações, chama a atenção das autoridades federais e consigam das mesmas adequações, como a modernização e duplicação desses trechos, tornando-as mais seguras para os motoristas e usuários das mesmas.
Fiz essa viagem em 2011, de Petrolina até Garanhuns, mas durante o dia.
Nada mudou, pelo jeito…
Fui parado uma dezena de vezes pela policia, fortemente armada e tive que diminuir a velocidade uma centena de vezes por conta das cabras e jegues na estrada.
Na ocasião, fui informado que, se desse algum problema com o carro, deveria abandona-lo e tentar me esconder no mato…tamanho o risco de ser assaltado ou morto.
Claudio Ribeiro
Uma pena, não? Como vivo em SP, com uma ameaça de assalto a cada esquina, meu medo maior era mesmo de jegues e cabras e suas estripulias desavisadas na estrada. Aliás, já tinha visto isso também na estrada de Fortaleza a Sobral. Um perigo!
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