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Incêndio em favela expõe São Paulo precária

Pablo Pereira

terça-feira 18/09/12

A semana começou tensa em São Paulo. Uma pane de trens logo cedo na segunda-feira, seguida de quebra-quebra de vagões, atrasou o deslocamento de milhares de pessoas. Pior: um incêndio na favela do Moinho, região de Santa Cecília, o segundo em menos de um ano, interrompeu o tráfego em outras linhas da CPTM e danificou [...]

A semana começou tensa em São Paulo. Uma pane de trens logo cedo na segunda-feira, seguida de quebra-quebra de vagões, atrasou o deslocamento de milhares de pessoas. Pior: um incêndio na favela do Moinho, região de Santa Cecília, o segundo em menos de um ano, interrompeu o tráfego em outras linhas da CPTM e danificou um viaduto. Caos no trânsito e inferno na vida de centenas de moradores que perderam o pouco que tinham, consumido pelo fogo. Uma pessoa morreu.

Esta é uma São Paulo precária, que muita gente não nota mas que insiste em existir sem que o poder público delas dê conta, é real. O belo livro Cidade de Muros – crime, segregação e cidadania em São Paulo, de Teresa Pires do Rio Caldeira, editado pela Edusp, aborda o tema com profundidade. E lembra, à página 240, que o problema da habitação é antigo mas que se agravou bastante nas últimas duas ou três décadas.

A pesquisadora mostra que em 1973 São Paulo tinha 1,1% da população em favelas. Em 1980 já eram 4,4% paulistanos vivendo como favelados. Em 1987, 8,9%. Em 1993 esse número era de 19%, ou seja, quase 2 milhões de pessoas morando em precárias condições na “rica” São Paulo.

Uma olhada no mapa da Habisp, órgão da Prefeitura, nos revela que em 2008 havia 1.565 favelas na cidade, além de 1.152 loteamentos irregulares e 1.885 cortiços. Os dados atuais da Habitação municipal mostram que há gente precisando muito de ajuda para morar em 33 locais do Centro; 285 na zona Leste; 399 na norte; 201 na região sudeste; e 714 comunidades na zona sul. Ao todo, segundo o município, há 1.632 áreas identificadas para projetos de urbanização. É muita coisa.

A Prefeitura costuma fazer propaganda de seu Programa de Urbanização de Favelas dizendo que atende a 200 mil pessoas. Há aí até o trabalho do arquiteto Ruy Ohtake, que faz habitação popular em Heliópolis. É bastante. Mas o passivo ainda é muito grande. A cada uma destas queimadas de barracos – uma centena nos últimos dois anos – dezenas de pessoas entram em pânico.

O livro de Teresa Pires do Rio Caldeira trata dessas deficiências. Segundo a pesquisadora, são sinais da falta de democracia na cidade. Tem razão. Não há democracia plena com tanta gente nesta situação. E a julgar pelo que se vê na campanha eleitoral, onde os candidatos lutam pelo controle de um orçamento anual de quase R$ 40 bilhões, a coisa não tem solução no horizonte.

 

(Texto atualizado após publicação no Estadão Noite no iPad)