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Blog da Garoa

A semana começou tensa em São Paulo. Uma pane de trens logo cedo na segunda-feira, seguida de quebra-quebra de vagões, atrasou o deslocamento de milhares de pessoas. Pior: um incêndio na favela do Moinho, região de Santa Cecília, o segundo em menos de um ano, interrompeu o tráfego em outras linhas da CPTM e danificou um viaduto. Caos no trânsito e inferno na vida de centenas de moradores que perderam o pouco que tinham, consumido pelo fogo. Uma pessoa morreu.

Esta é uma São Paulo precária, que muita gente não nota mas que insiste em existir sem que o poder público delas dê conta, é real. O belo livro Cidade de Muros – crime, segregação e cidadania em São Paulo, de Teresa Pires do Rio Caldeira, editado pela Edusp, aborda o tema com profundidade. E lembra, à página 240, que o problema da habitação é antigo mas que se agravou bastante nas últimas duas ou três décadas.

A pesquisadora mostra que em 1973 São Paulo tinha 1,1% da população em favelas. Em 1980 já eram 4,4% paulistanos vivendo como favelados. Em 1987, 8,9%. Em 1993 esse número era de 19%, ou seja, quase 2 milhões de pessoas morando em precárias condições na “rica” São Paulo.

Uma olhada no mapa da Habisp, órgão da Prefeitura, nos revela que em 2008 havia 1.565 favelas na cidade, além de 1.152 loteamentos irregulares e 1.885 cortiços. Os dados atuais da Habitação municipal mostram que há gente precisando muito de ajuda para morar em 33 locais do Centro; 285 na zona Leste; 399 na norte; 201 na região sudeste; e 714 comunidades na zona sul. Ao todo, segundo o município, há 1.632 áreas identificadas para projetos de urbanização. É muita coisa.

A Prefeitura costuma fazer propaganda de seu Programa de Urbanização de Favelas dizendo que atende a 200 mil pessoas. Há aí até o trabalho do arquiteto Ruy Ohtake, que faz habitação popular em Heliópolis. É bastante. Mas o passivo ainda é muito grande. A cada uma destas queimadas de barracos – uma centena nos últimos dois anos – dezenas de pessoas entram em pânico.

O livro de Teresa Pires do Rio Caldeira trata dessas deficiências. Segundo a pesquisadora, são sinais da falta de democracia na cidade. Tem razão. Não há democracia plena com tanta gente nesta situação. E a julgar pelo que se vê na campanha eleitoral, onde os candidatos lutam pelo controle de um orçamento anual de quase R$ 40 bilhões, a coisa não tem solução no horizonte.

 

(Texto atualizado após publicação no Estadão Noite no iPad)

 

 

 

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A crise econômica da Europa está levando a Espanha a reabrir cicatrizes de feridas de 300 anos dentro e fora do país. Depois de cerca de 1,5 milhão de pessoas protestarem por independência em Barcelona, capital da região autônoma da Catalunha, os ecos do 11 de setembro catalão bateram fortemente em Madri, e foram ouvidos até em São Paulo.

Para catalães que vivem no Brasil, a semana foi especial. A “Diada”, data nacional da Catalunha, que lembra a invasão da cidade em 1714, foi festejada por um grupo de cerca de 30 pessoas que se reuniram na terça-feira à noite em um restaurante. No sábado, no vão do Masp, eles voltaram a fazer festa para o centenário desejo de separação da região do resto da Espanha.

Masp. Catalães se reúnem para ouvir música pela independência da Catalunha/ Foto: Pablo Pereira

“Você pode perdoar, mas esquecer, nunca!”, disse em São Paulo o empresário catalão Ferran Royo Seubas, 63 anos, presidente do Clube Brasileiro-Catalão de Negócios de São Paulo e ferrenho defensor da independência da Catalunha. “Todos os anos nos reunimos para lembrar da data”, disse Seubas em seu escritório na Vila Olímpia. “O que aconteceu em Barcelona é muito forte”, afirmou. “Somos pacientes. Já estamos esperando por isso há 300 anos.”

Empolgado com a repercussão do movimento, ele recordou a luta da Catalunha contra o governo central de Madri. “Talvez sejamos o único povo que comemora uma derrota.” Em 11 de setembro de 1714, após um cerco militar de quase um ano, Barcelona foi destruída por tropas da aliança entre exércitos da França e do Reino de Castela. “Éramos um país. Perdemos tudo. E fomos abandonados pelos ingleses. Aquela foi a primeira grande guerra na Europa”, afirmou Seubas. “Desde aí somos humilhados pelo governo de Madri.”

Crise. A Catalunha, como o resto da Espanha, vive situação econômica difícil. Com PIB em queda de 0,5% no primeiro trimestre de 2012, em relação ao primeiro trimestre do ano passado, amarga uma crise que nos últimos meses levou o governo central espanhol a recorrer ao Fundo Monetário Internacional.

Pressionados pela recessão na Europa, a agricultura e os serviços da Catalunha cresceram abaixo de 1%, mas a indústria na região registrou -0,6% e a construção desabou 5,6% no primeiro trimestre. A região tem mais de 900 municípios e 7,3 milhões de habitantes, 16% do total dos espanhóis (47 milhões). A principal cidade é Barcelona, com 1,6 milhão de habitantes. A Catalunha responde por 20% das riquezas produzidas na Espanha.

A crise reacendeu antigos desejos de separação. Se há hoje um sentimento único na sociedade catalã, muito marcada internamente pelas inimizades familiares, esse é o da independência do governo central de Madri. Para o empresário catalão que vive em São Paulo, o momento político é adequado para a consolidação da independência. “Não falo de separatismo. Queremos é a independência, um Estado federal no qual possamos ter, por exemplo, nosso próprio ministério da economia, a chance de controlar a arrecadação de impostos.”

Seubas repete o argumento usado em Madri, na quinta-feira, pelo presidente da Catalunha, Artur Mas, que foi à capital espanhola pedir a criação de um Estado catalão independente, com soberania fiscal. A linguagem de Seubas é cuidadosa, assim como a do líder nacionalista.

Referendo. De acordo com Seubas, o sucesso da marcha não é um instrumento para rompimento brusco. Mas deve funcionar, segundo ele, para fomentar um debate político com pelo menos um objetivo claro: um referendo sobre a separação desejada há séculos. “A outra alternativa seria o Parlamento votar pela independência.” No primeiro caso, segundo Seubas, mesmo que fosse rejeitada a separação, como ocorreu recentemente com a comunidade canadense de Quebec, pelo menos já estaria criado um fato político importante.

Seubas vai além. No escritório paulistano dos negócios catalães, ele alegou que o momento é delicado também em relação ao vizinho País Basco, igualmente região autônoma. “Não me surpreenderia se os bascos conseguissem sua independência ainda antes da Catalunha”, afirmou. “Eles terão eleições aí na frente (outubro). São mais calados, mas agem mais do que nós.”

O empresário, que faz questão de esclarecer que não tem função oficial do governo catalão – mantém uma representação para promoção de negócios em São Paulo -, acredita que diante da atual situação da Europa é possível avançar com apoio no Parlamento Europeu. A situação é complicada. Um rompimento com Madri e a criação de um novo Estado catalão enfrentaria dificuldades na comunidade. Para a Catalunha entrar na zona do euro seriam necessários os votos dos países-membros, inclusive da Espanha. Essa é uma das trincheiras que devem ser ocupadas nos próximos meses, segundo o catalão, como reforço da ideia da independência.

Mas Seubas está otimista. “Não há neste momento o perigo que por muito tempo se temia que era a Brunete”, disse. A División Brunete era uma tropa armada com tanques que o ditador Francisco Franco mantinha estacionada em Valência, vizinha da Catalunha, para reprimir a oposição nos anos 30, durante a Guerra Civil espanhola.

Paixão. Publicitário, fala da “independência” com clara paixão. Ele é integrante da Convergência e União (CiU), uma frente de partidos liberais nacionalistas aliados com a democracia cristã. “É uma federação de partidos de centro-direita.” A CiU é hoje governo da Catalunha. O presidente da Generalitat, Artur Mas, é um dos principais líderes da CiU. A segunda força política da Catalunha é dos socialistas (PSC-PSOE), seguidos pelo Partido Popular (PP), do presidente do governo espanhol, Mariano Rajoy. “O PP é o partido dos herdeiros do franquismo”, afirma.

Ele lembra que a história mostra que a Catalunha já era uma nação mil anos atrás. “Muito antes de a Inglaterra ter Constituição, já havia um conselho, que era o Parlamento catalão, que se reunia em Barcelona, no Bairro Gótico.” Segundo ele, “a Catalunha já teve Nápoles e chegou até a Sicília”. “Não somos belicosos. Queremos mudanças democraticamente. Mas não queremos mais ser humilhados. Já chega!”

Esportes. Casado com uma brasileira, Maria do Amparo, especialista em Recursos Humanos, Seubas mora na zona oeste de São Paulo. Ele se diz impressionado positivamente com o Brasil, que não conhecia até se casar com a ex-colega, quando trabalhavam numa empresa dos EUA. Na cidade, ele se considera um homem de sorte. “Nunca fui assaltado”, respondeu sobre a vida paulistana.

O que preocupa o empresário é o que ele chama de “crescimento desordenado” da cidade e os serviços públicos de transportes “que não funcionam como na Europa”. “O trânsito é muito complicado”, disse, alegando que sempre foi muito bem tratado por aqui. Apaixonado por futebol, Seubas preside o fã-clube do Barcelona em São Paulo, a Penya Barcelonista. Ele costuma comemorar as conquistas do Barça no futebol em restaurantes paulistanos, onde festeja com as bandeiras da Catalunha e do clube de Lionel Messi.

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(Reportagem publicada em 16/09/2012 no caderno Economia do Estado)

 

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Uma das coisas mais duras para uma pessoa, fora a morte de gente querida, é não ter um local digno para morar. Ter uma casa organizada para abrigar os filhos, para fugir do atávico temor do escuro, para curtir a memória do aconchego uterino, é necessidade mais do que básica. Dá integridade aos adultos, confiança aos jovens, agasalho aos idosos, estabilidade às famílias.

É por isso, talvez, que o drama de pessoas obrigadas a “morar embaixo da ponte”, acabada expressão de abandono, seja sempre tão tocante. Infelizmente, neste país ainda tão injusto – e nesta São Paulo tão rica -, esta é uma realidade tão presente quanto ignorada pelos administradores públicos que vivem sentados sobre burras cheias do dinheiro do contribuinte.

Bom dia, esse 9 de julho, feriado na cidade, para conhecermos a história do casal que, mesmo morando sob um viaduto da Zona Leste, mantém viva consigo uma das mais belas atitudes humanas, a honestidade. Eles encontraram dinheiro na rua, R$ 20 mil, certamente quantia que lhes seria muito útil. E devolveram o pacote.

Mesmo na miséria, necessitados, não perderam a dignidade – o homem teria dito à polícia que havia se lembrado de ensinamento recebido da mãe. Eles continuarão dormindo ao relento, mas com a paz de quem não pega o que não é seu e nem se beneficia do alheio.

O casal do viaduto, triste exemplo dos milhões de desvalidos brasileiros, paulistanos, esquecidos pelo Estado, escancara uma pouco notada, porém não menos abjeta, forma de enganação. Não é só o corrupto escrachado que lesa os cofres públicos e afronta a cidadania diariamente que deve ser combatido.

Ignorar o senso público e viver das benesses do dinheiro tomado do contribuinte, gozar de promoção pessoal pelo porte de uma caneta que, mesmo sem assinar cheques para a própria conta bancária confere poder e prestígio, é também uma forma de corrupção. É sim uma parceria com os parasitas que, sem cerimônias, se locupletam nos cofres públicos.

Não basta ser eleito pelas urnas e não roubar formalmente. É preciso bem mais do que isto. É preciso cumprir fiel e obstinadamente uma agenda efetiva de ações com senso público, como o compromisso de buscar condições de financiamento para a casa própria e eliminar essa chaga absurda dos sem-teto. Os que fazem a vida operando a gestão dos negócios da federação, estados e municípios deveriam conviver mais com o povo que é obrigado a morar embaixo da ponte.

Em tempo:

Rejaniel Jesus Silva Santos. Esse é o nome do homem que encontrou dinheiro na rua e o devolveu ao dono, o proprietário de um restaurante que havia sido assaltado.

(texto publicado originalmente na Edição Noite do Estadão no iPad no dia 9/09 e atualizado aqui no Blog da Garoa às 13h do dia 10/07)

 

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São Paulo é, sem dúvida, uma cidade bem resolvida do ponto de vista das iniciativas privadas, das decisões e negócios que não dependem diretamente da máquina municipal. Mas quando se trata de serviço público, o quadro é outro. A Prefeitura, que hoje tem à mão um orçamento de quase R$ 40 bilhões por ano, sócia compulsória na renda do contribuinte, prefere agir apagando incêndios – e está longe de entregar o prometido nas campanhas eleitorais.

Assista aos vídeos produzidos para série de reportagens do Estado, publicadas no caderno especial Desafio São Paulo, no dia 1º de julho, abrindo a cobertura de eleições municipais do jornal. Foram cinco trabalhos produzidos e editados nos formatos papel e webTV. O resultado é um rápido painel da vida real de moradores da cidade que, em sua rotina, dependem de serviços públicos do município.

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E um grupo de senhores vereadores da Capital paulista inventou um jeito de receber sem trabalhar. Montaram um esquema dentro da Câmara que lhes permite a “presença” na Casa, mesmo estando fora, para evitar um desconto de R$ 465 no pagamento por falta no serviço. A fraude, praticada por pelo menos 17 parlamentares, foi mostrada pelo Estado no domingo, 1 de junho, em reportagem dos jornalistas Adriana Ferraz, Diego Zanchetta, J.F. Diorio e Juliana Deodoro.

O material publicado mostra como é feita a falcatrua. Funcionários da Câmara, um deles conhecido como Zé Careca, pagos também pelo dinheiro do contribuinte paulistano, são encarregados de “acertar” a coisa para garantir a mamata. Com essa prática, o vereador pode andar por aí livremente sem medo de ser feliz no final do mês. Não precisa permanecer na Casa. O Zé Careca garante!

Os senhores vereadores que usam o esquema Zé Careca de apertar o botão da presença na ausência deveriam era dar uma gorjeta ao homem, afinal, se ele “abonar”, digamos, uns dez dias, terá assegurado ao caixa deles um depósito de uns quatro paus e meio, pelo menos, que deveriam ser descontados a bem do cumprimento da lei.

E mais: agora, com essa revelação do Estado, quem terá certeza de que não tem gente, entre os protegidos por Zé Careca, que deixou de cumprir com a obrigação legal por 20 ou até 30 dias?

A mutreta para garantir o salário na Câmara dos Vereadores paulistanos é mais uma das peças de desqualificação dos políticos que os próprios representantes do povo acrescentam ao descrédito do eleitor. São tantas. Altos salários, infidelidade partidária, denúncias de corrupção, ineficiência.

A cada revelação desse tipo o Legislativo, nesse caso o municipal, que tem 55 vereadores, fica mais enfraquecido. Eles mesmos se encarregam de tornar o ambiente do serviço público insalubre, pleno de desconfianças, de suspeitas, de insatisfação. É uma pena que esses escândalos, práticas reveladoras do descaso da representação democrática com o contribuinte, continuem a enxovalhar a cidadania.

A constatação da existência desse tipo de falcatrua correndo solta no Legislativo, sem dúvida, leva muita gente a pensar na efetiva validade de seu voto. Diga, aí: por que ir às urnas para escolher vereador em outubro se ele, ao assumir, vai para lá fazer esse tipo de coisa? Vá lá um trabalhador normal burlar o ponto na empresa onde trabalha para ver o que lhe acontece?

Mas e os vereadores? Ah, esses podem. O Zé Careca garante!

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(texto publicado no dia 2 no Estadão Noite no iPad)

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A capacidade do administrador público de São Paulo produzir inutilidades, quando deveria estar pensando em soluções efetivas para as mazelas urbanas, é impressionante.

Vejam agora a tentativa de proibir a distribuição gratuita de sopão para pessoas necessitadas. Bem no meio de uma grave crise de segurança pública, com os paulistanos se sentindo ameaçados até dentro de casa, a Secretaria Municipal de Segurança Urbana tem a “brilhante” iniciativa de tentar impedir que quase 50 entidades sociais da cidade alimentem voluntariamente pessoas que precisam de ajuda para o mais elementar direito humano, o de comer.

Em vez de melhorar os serviços da Prefeitura para atrair as pessoas para seus programas de assistência, o poder público municipal faz outra coisa: quer punir quem faz caridade. A preocupação da turma definitivamente não está no drama das pessoas que precisam de auxílio. Estão preocupados é com o marketing da administração, afinal, estamos à beira de uma eleição. É aquela velha máxima da Lei Ricupero: o que é bom a gente mostra, o que não é, esconde! Para os idealizadores das medidas “higienizadoras” das ruas, o problema não está na existência do necessitado; está na presença dele em público.

Mas, pensando bem, essa “criatividade” toda demonstrada na proposta de impedir o sopão nas ruas até que faz sentido. Bate com a história recente da administração paulistana. Há anos a cidade convive com a ineficiência do setor público no drama do crack na região central. A administrador público permitiu que a praga da pedra de cocaína se transformasse em um problema social que hoje atinge alguns milhares de dependentes químicos.

Essa omissão criou a famigerada Cracolândia. Só se movimentou em operações policiais e de assistência social quando foi pressionada, no final do ano passado, pela ideia do Palácio do Planalto – muito atrasada, diga-se, e preparando terreno para uma investida eleitoral – de lançar um programa nacional contra a droga.

Portanto, a posição de “esconder” as filas de famintos de rua nos finais de tarde em abrigos da Prefeitura é coerente. Incapazes de criar efetivas alternativas de convencimento para reais mudanças na vida dessas pessoas, tratemos de encher os abrigos. Tudo a ver com a política exercida nos últimos anos. Já houve na cidade até um momento (quem não se lembra?) no qual se teve a “ilustrada” iniciativa de colocar pedras sob viadutos para impedir o uso dos locais como dormitório por moradores de rua.

O genial Tutty Vasquez, em sua verve habitual no estadão.com.br, dá, afinal, o tom a esse recorrente tema paulistano. Explica o humorista: “O que o prefeito quer proibir é o amor ao próximo desordenado praticado por bandos de voluntários não governamentais fora das tendas oficiais de convivência social.”

O Tutty está certo!

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(texto publicado no dia 29/6 no Estadão Noite no iPad)

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Outro dia, fiz para o Estadão uma série de reportagens sobre o atual modo de vida em São Paulo. O trabalho está publicado neste domingo (1/07) em caderno especial  Desafio São Paulo que, nesta época que precede a campanha eleitoral,  oferece ao leitor um  diagnóstico das dificuldades vividas por paulistanos que precisam dos serviços públicos no seu dia a dia.

A cidade há muito tempo oferece um recorte fiel do que somos no Brasil. Para SP migram gentes de todos os estados e do interior paulista. Nela convivem comunidades de estrangeiros latinos, americanos, europeus, asiáticos, africanos – e os paulistanos da gema. SP é um mundo fascinante! Mas, como qualquer cidade, pode também ser cruelmente injusta, violenta, incômoda – como nos alerta o grito de Criolo em seu hit “Não existe amor em SP”.

Uma das belas coisas da vida em democracia é exatamente a oportunidade de, periodicamente, a sociedade se autoanalisar, rever referências, ter a opção de mudar rumos, trocar governos – ou confirmá-los, ratificá-los como efetivamente representativos de seu tempo. O ano em curso caminha para uma eleição municipal, em outubro, que vai coroar essa discussão da relação, por assim dizer, entre representados e representantes nos municípios.

O caderno especial, que tem reportagens também de outros colegas jornalistas, como Roldão Arruda, Lucas Maia e Felipe Frazão, abre uma série do Estadão em busca de uma luz sobre o quadro a ser encontrado pelo próximo prefeito.

Durante a produção pude ver de perto algumas das principais carências de moradores que dependem do setor público. E, como sabemos, o País, seus estados e municípios, apesar dos esforços de muitos dedicados servidores, está longe de oferecer ao contribuinte serviços de qualidade. Mesmo em cidades com orçamento bilionário, como São Paulo.

A estimativa de receita do município para este ano bate no R$ 39 bilhões, segundo a LDO, aprovada em dezembro e publicada em janeiro. Trata-se de uma poderosa máquina arrecadadora de impostos. Mas ainda é bastante longo o caminho a percorrer para que se possa encher a boca e dizer que São Paulo tem uma gestão pública de recursos que permite aos paulistanos afirmar, contrariando a máxima do poeta, que a cidade está redondinha, legal, feliz!

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Rodando pela Zona Leste num final de tarde, outro dia, peguei engarrafamento na Avenida Sapopemba.  Comércio  em plena atividade, longas e irritantes filas no trânsito. Lembrei de 15 anos atrás, quando a frota era a metade, com 2,8 milhões de veículos, e os recordes de pico da tarde, em um março de chuvas, eram de 95 /98 quilômetros.

Para lembrar clique  Página do Estado em 1995

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Isso aqui nem é tão chocante, disse Roland Bigler, funcionário da Cruz Vermelha, auxiliar na negociação entre o governo peruano e o Movimento Revolucionário Túpac Amaru (MRTA) em dezembro de 1996.  Naquele dia 17, no início da noite, guerrilheiros tomaram a casa do embaixador japonês Morihisa Aoki, em Lima, em uma cinematográfica ação que durou 126 dias, e terminou em tragédia em abril.

Todo mês de dezembro lembro de Bigler conversando sobre o trabalho de mediação do chefe dele, Michel Minnig. Bigler era um otimista. Trabalhava na Colômbia, de onde fora chamado às pressas para auxiliar Minnig. Dizia que lá, sim, a situação era complicada. Havia “caminhado sobre cadáveres na rua”, lembrava ele, contando sobre a missão da Cruz Vermelha no conflito entre as Farc e exército regular. Eram dias tensos na América hispânica.

Passados 15 anos, o continente mudou bastante. A América do Norte vive aperto econômico com seus Occupy isso, Occupy aquilo, e os latinoamericanos, cada qual com suas mazelas, desenvolvem suas economias em relativa paz. O show de horrores das guerras internas dos anos 70, 80 e 90 deu um tempo, embora ainda haja escaramuças em alguns pontos, como na própria Colômbia – país que tanto preocupava Bigler àquela época. Hoje, a realidade é bem diferente daquele Natal de 1996.

Cobertura

Cheguei a Lima naquele dezembro como repórter do Estado e passei as festas acompanhando as libertações de mais de 500 dos 600 reféns dominados na noite da recepção do embaixador Aoki. Era uma mansão que tinha na fachada cópia da casa principal do lendário filme “E o vento levou”.

Entre os reféns estava o embaixador brasileiro Carlos Coutinho Perez, um dos convidados para a comemoração do aniversário do imperador japonês Akihito. Coutinho foi libertado logo na primeira semana.

O casarão branco, com suas altas colunas no frontal, foi demolido meses depois da operação sangrenta que pôs fim ao sequestro. O governo peruano queria eliminar qualquer vestígio daqueles dias de rebeldia dos guerrilheiros chefiados por Néstor Cerpa Cartolini, o comandante Evaristo, que planejava reencontrar e libertar colegas de guerrilha da cadeia, entre eles a mulher dele, Nancy Gilvonio, e a norte-americana Lori Berenson.

Frustração

Cerpa queria pegar o então presidente Alberto Fujimori na festa. Mas o presidente escapou minutos antes da invasão do grupo de 14 guerrilheiros. O MRTA então planejava trocar os reféns, inclusive um irmão de Fujimori, pelos seus integrantes que mofavam no cárcere peruano.

Momentos de alta dramaticidade da hora da tomada da embaixada podem ser revistos em vídeo no Youtube, com imagens de arquivo da TV Piura. O material mostra as primeiras movimentações da polícia logo após a entrada dos guerrilheiros, quando ainda não se sabia exatamente o tamanho da ação. São imagens fortes, reveladoras do drama que o mundo veria por quatro meses.

Outro dia, assisti também a outro vídeo, The Lima Siege (link no final do post), uma reconstrução feita pelo Discovery Channel, que relembra o caso e conta detalhes de como os militares infiltraram equipamentos de escuta levados ao interior da mansão dentro de uma Bíblia – e até um espião – sem que os guerrilheiros se dessem conta.

Cartão

Bigler, um homem simpático e gentil, foi o responsável pelo meu acesso ao suíço Michel Minnig, o escolhido para fazer o meio de campo entre o que queria Cerpa Cartolini e o que pretendia Fujimori. Minnig estava na recepção no momento da invasão do MRTA,  e passou a ser o principal ator entre as partes.

Bigler chamou por mim numa manhã quente de Lima, quando uma multidão de jornalistas do mundo inteiro se acotovelava à porta da Cruz Vermelha, disputando um eventual contato com o negociador-chefe. Dois veículos de informação foram autorizados a entrar na sede da entidade para entrevistas. O Estado e uma TV da Suíça, país de Minnig.

No caminho para a sala, que ficava diante de uma piscina cercada por um gramado bem cuidado, o funcionário da Cruz Vermelha devolveu-me o cartão de visitas que eu mesmo tinha entregue ao motorista de Minnig durante uma das três madrugadas de vigília diante da casa da Cruz Vermelha.

Na segunda madrugada do plantão na calçada, consegui me aproximar do carro que sempre chegava rápido e entrava na garagem sem abrir os vidros. Nele estava o negociador. Ele era a única esperança dos jornalistas de saber o que realmente estava acontecendo no interior da mansão do embaixador. O Palácio estava blindado, o exército não ajudava e o casarão havia sido cercado e isolado.

Mas Minnig não dava entrevistas, segundo Bigler, para não comprometer a imparcialidade do trabalho da entidade. Esse é um dos pilares da atuação dos organismos de pacificação. Isenção. Mas ele havia cedido e falaria.

Encontro

Andei com Bigler pelo jardim até a sala de Minnig, que estava ao telefone falando com o  Palácio do governo. Minnig fez sinal para que sentasse. Ao terminar o telefonema, levantou-se para cumprimentar-me, falando espanhol. Era um homem claro, magro, de semblante calmo. Disse que não comentaria detalhes da negociação para não atrapalhar a conciliação, mas que estava pronto para a entrevista.

Finalmente, depois de dias de expectativa, três noites em claro na rua a espera de uma oportunidade, ali estava o homem. Eu havia decidido pagar o mico de ficar na calçada até o sol nascer na esperança de pegá-lo na entrada ou na saída da sede da Cruz Vermelha. Não esperava ser chamado para o interior da casa. Resolveria a parada ali no carro mesmo, se fosse necessário. Mas ouvir as impressões dele era fundamental naquele momento.

Japonês

Na primeira noite, cheguei à casa, que ficava no bairro chique de Lima por volta de 22h, 1h de Brasília, depois que o jornal em São Paulo já tinha encerrado sua edição do dia. Um jornalista, da agência japonesa de notícias Kyodo News, foi companhia nas duas primeiras madrugadas.

O Japão, por estar diretamente envolvido no incidente, tinha grande interesse jornalístico no caso. Na segunda noite, quando o carro de Minnig se aproximava do portão, já na madrugada, corri para a lateral da casa, mas só consegui entregar um cartão ao motorista, que abriu o vidro para pedir que me afastasse do caminho. Havia cerca de 3 mil jornalistas em Lima naquela cobertura. E Minnig ainda resistia.

O japonês era um rapaz simpático e se comunicava em espanhol. Passamos horas sentados na calçada conversando sobre os dois países e sobre aquela crise peruana. Estávamos todos cansados dos longos plantões diante da embaixada.

Propaganda

Os guerrilheiros faziam as libertações de reféns no horário nobre de TV, mais apropriado para a divulgação da causa deles porque burlavam a edição e os fatos apareciam ao vivo, principalmente no Japão. Acreditavam que poderiam com isso pressionar o governo japonês do então primeiro-ministro Ryutaro Hashimoto a sensibilizar Fujimori para negociar.

Mas havia dias no cerco nos quais nada acontecia. Para frustração da massa de jornalistas que tomavam as ruas do bairro de San Isidro, isoladas pelos militares peruanos. Com aquele farto noticiário factual sendo oferecido a cada momento, a saída escolhida por muitas equipes era buscar novidades em outro “sítio”.

A casa da Cruz Vermelha era um deles. Quando o japonês não apareceu na terceira noite, pensei em abandonar a empreitada. Mas decidi aguentar mais aquela jornada. Foi mais uma noite sem sucesso. Minnig entrou novamente sem dar chance para uma pergunta.

Mas, pela manhã, veio a surpresa. Um funcionário da segurança abriu uma pequena janela de um palmo de altura e gritou o meu nome. Do outro lado da porta de aço havia ainda uma catraca, daquelas que têm ferros em cruz de cima a baixo e que só permitem a entrada de uma pessoa por vez. Bigler estava logo a seguir, com o meu cartão na mão.

Depois da entrevista, voltamos a conversar outras vezes. Bigler me ajudou a entender melhor o processo pelo outro lado das paredes daquele mundo violento. Voltei ao Brasil em janeiro, quando o drama da embaixada japonesa dava sinais de que o governo Fujimori prolongaria o cerco para ganhar tempo e organizar uma invasão.

Sempre que posso dou uma pesquisada para ver por onde anda aquela figura calma e atenciosa que me atendeu em Lima. Bigler permanece na Cruz Vermelha contribuindo pelo mundo com o diálogo em situações de risco. Uma nobre missão.

Fim do cerco

Quando Fujimori detonou a operação de resgate, em abril, eu estava na redação do Estado, em São Paulo. Vi pela TV, no meio da tarde, o momento do desfecho do sequestro da embaixada, que ainda continha 72 pessoas dominadas por Cerpa Cartolini. Bigler, acredito, deve ter ficado decepcionado com o final dos acontecimentos.

A imagem de Fujimori caminhando entre os corpos de guerrilheiros na escadaria da casa, logo após o combate, que foi estampada nos jornais do dia seguinte, sempre me recorda o esforço frustrado do funcionário da Cruz Vermelha para evitar a tragédia. E de sua expressão confiante num final negociado, algo diferente do que ocorria na Colômbia.

Retornei a Lima algumas vezes depois desse episódio. Uma delas para cobrir a campanha eleitoral que escolheu Alejandro Toledo presidente; outra para relatar negociações diplomáticas sobre a Alca. Recentemente, fiz uma viagem de quatro dias de ônibus de São Paulo a Lima.

O Peru mudou bastante. O país é hoje governado por Ollanta Humalla, um ex-militar que venceu eleições democráticas com discurso de esquerda e surfa em relativa prosperidade econômica no país. O Peru tem crescimento de PIB ao redor de 6%. Ex-guerrilheiros de extrema esquerda e ex-governantes corruptos, entre eles Fujimori e seu homem forte, Vlademiro Montesinos, estão na cadeia.

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Dezembro já tem um eito, e se aproximam as festas. Tempo dos presentes, luzinhas brilhandos nas ruas e sacadas, cidade com jeito de alegria e expectativa de feriadão de descanso. Tempo também de rever o ano, fazer balanços, checar resultados, relembrar de encontros.

Olhando alguns momentos deste 2011, houve um que me pareceu muito especial. Depois de anos, reencontrei em junho o menino índio albino que havia conhecido em reportagem para o jornal.

O Estado publicou em julho a história do reencontro com Vanderlei Fernandes.

Recupero agora um vídeo, feito por aqueles dias, mas não publicado.

Ter sido recebido por ele na casa onde mora, na Ilha do Governador, no Rio, 15 anos depois do primeiro encontro, foi um presente.

 

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