- Calma, meu, calma, disse-lhe eu, no sonho.
Estávamos, no sonho, comendo nosso bife com saladinha de alface e tomates na mesinha redonda do bar quando notei que ele estava amuado. Estranhei. Aquilo era raro. Ele era um cabra de opiniões fortes e claras. Olhava as coisas de frente, escrevia com mão segura. Era um tipo alegre, “pra frente”, como dizia a minha mãe quando queria descrever alguém que encarava a vida na boa. Minha mãe (que já se foi) tinha também uma outra expressão curiosa. Quando alguém falava um despropósito qualquer, mesmo à guisa de homenagem, ela logo decretava:
- É um pulha!
Ele, não. Ele não era como minha mãe. Ele gostava de conversar, deixava rolar, buscava diálogo. E respondia com serenidade às críticas a seu árduo trabalho cotidiano de escrever – mesmo diante de injustiças. A idiotia alheia, certamente, era um prego em seu sapato. Mas ele não permitia que a modorra o tirasse do prumo.
Naquele final de janeiro, no sonho, na frente do bife, porém, estava incomodado. E além da conta. Desviava o olhar. Notei que a voz não lhe saía. Parecia engasgado. Queria falar, e não conseguia.
Pronto, pensei. É isso! O cara está tendo um chilique, irritadinho, porque não consegue falar. Ah, os intelectuais!
Pensei também em caçoar dele, sugerir balas de gengibre ou pastilhas de guaco para que recuperasse a voz. Mas, do nada, comecei a ficar angustiado.
Os sonhos, às vezes, imitam o cinema e os fatos mais estranhos acontecem diante de nós. Os lugares se misturam, as pessoas nos escapam, somem na terra, voam. E a gente descobre as coisas sem necessidade de palavras. A pessoa não fala, mas sabemos exatamente o que ela está sentindo.
E eu, então, no sonho, entendi o que o sufocava para além da traição da garganta.
Justo ele, que pagava por um bom combate, não pudera devolver uma grossa deselegância que um conhecido acabara de lhe fazer – e, o pior, pelas costas!
Naquele instante, estava contrariado com a vilania, mas quieto.
Tinha razão. Haviam sido tão próximos, por tanto tempo, e agora o “amigo” o apunhalara daquela maneira, desconfiando dele publicamente e – imperdoável – negando-lhe a chance do contraditório.
Quando o sonho se mudou de repente para um gramado verde, onde estávamos de chuteiras, lembro-me bem de ter dito:
- Daniel, esquece isso. Esse sujeito é um enganador. Pedante. Um pulha!
Baixara em mim o indignado espírito da minha velha.
E o sonho mudara novamente. Ele (calado como um morto, pobre homem!), olhando para o céu, já não me ouvia…
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O ministro entrou no supermercado dos Jardins acompanhado por seu escudeiro, que de terno e gravata caminhava sempre um passo atrás do chefe. Percorreram os corredores lotados de gente sofisticada às compras no sábado pela manhã.
Eram figuras ímpares naquele ambiente informal. Com a longa barba grisalha, terno cinza-chumbo e uma bengala, seguido pelo homem de preto, o ministro chamava a atenção.
Caminharam pelo corredor das massas até a seção das verduras, diante da padaria. Senhoras distintas e homens de fino trato andavam vagarosos com seus carrinhos por entre as gôndolas de croissants, bolos, rocamboles e geleias de damascos e mirtilos.
Foi quando o escudeiro alertou o homem de bengala sobre a presença de uma senhora, morena, famosa, que estava diante da prateleira dos pães franceses.
-Onde?, perguntou o ministro.
-Atrás do senhor, disse o homem de preto, olhando a morena de soslaio. É ela!
O ministro, então, aproximou-se. A moça mexia num balaio de belas baguetes. Ao lado da elegante mulher, o ministro grandalhão esbarrou no cesto e um pão caiu-lhes aos pés. Gentil, notando o imprevisto e a ilustre bengala, ela abaixou-se prontamente para apanhar o pacote.
-Olá! Tudo bem? disse o ministro, que também se curvara.
-Olá, respondeu ela, com um sorriso (e o pão na mão).
-Ontem mesmo pensei na senhora, emendou o ministro…
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