Desde o Barão do Rio Branco, que aliás é um dos pais do Acre, o País se oferece ao mundo como alternativa de abrigo de crises humanitárias internacionais e como atração para grupos étnicos dos mais diversos. Foi assim que o país se formou e se desenvolveu. Isso está impresso em cada sobrenome ao nosso redor. E só para lembrar caso recente, foi assim também na crise da Palestina. E atualmente tem sido assim com o sinal verde para trabalhadores europeus que enfrentam a crise econômica. O Brasil recebendo milhares de portugueses e espanhóis em busca de oportunidade no mercado nacional.
Essa política de portas abertas terminou por criar, no momento do pico da crise haitiana, uma categoria especial de aceitação de imigrantes, os do visto humanitário, concedidos nos últimos meses aos cidadãos do Haiti que tentam reconstruir suas vidas depois da tragédia. Nos últimos dias, no entanto, com o aumento da pressão na fronteira do Acre, a burocracia travou a liberação de papéis e expôs os refugiados a um cotidiano humilhante: dormir praticamente ao relento e disputar comida no braço três vezes ao dia, produzindo cenas impressionantes em solo brasileiro.
A situação começa agora, desde este domingo, 14 de abril, a retornar ao rumo aceitável com a intervenção, finalmente, de autoridades de Brasília, acordadas para o problema depois dos gritos do decreto de emergência do governador Tião Viana (PT), a quem foi deixado o trabalho do atendimento da emergência na fronteira. O esforço de desta semana, segundo o secretário Nacional de Justiça, Paulo Abrão, é para zerar a demanda de documentos. Com isso, os haitianos poderão tomar o rumo para se integrarem numa economia que vive com taxas de desemprego na casa dos 5%, o que em “economês” quer dizer quase pleno emprego – ou seja, aquela parte do gráfico na qual aparece o trabalhador que saiu de um emprego para entrar imediatamente em outro ainda melhor.
Ambiente mais favorável à integração desses refugiados, impossível. A quantidade deles – 1.3 mil, que restam dormindo sobre papelão e disputando quentinhas no tapa, como indigentes – está longe de ser um problema incontornável. Com um mínino de articulação do setor público com o setor empresarial, como já está acontecendo, o negativo vira positivo – para todos os lados.
A entidade Repórteres Sem Fronteiras, que opera pelo mundo em defesa da livre expressão, tem um ranking global da liberdade de imprensa. No relatório 2013, os países mais livres para o exercício da profissão de jornalista são Finlândia Holanda e Noruega. Entre os piores, Cuba, China. Os piores dos piores: Coreia do Norte e Eritreia. O Brasil aparece em 108º lugar – entre 179 países. O vizinho Uruguai, do senhor José Mujica, está no nível de Estados Unidos, Inglaterra, França. No mapa colorido vemos como a coisa por aqui ainda é bastante complicada.
Isso aqui nem é tão chocante, disse Roland Bigler, funcionário da Cruz Vermelha, auxiliar na negociação entre o governo peruano e o Movimento Revolucionário Túpac Amaru (MRTA) em dezembro de 1996. Naquele dia 17, no início da noite, guerrilheiros tomaram a casa do embaixador japonês Morihisa Aoki, em Lima, em uma cinematográfica ação que durou 126 dias, e terminou em tragédia em abril.
Todo mês de dezembro lembro de Bigler conversando sobre o trabalho de mediação do chefe dele, Michel Minnig. Bigler era um otimista. Trabalhava na Colômbia, de onde fora chamado às pressas para auxiliar Minnig. Dizia que lá, sim, a situação era complicada. Havia “caminhado sobre cadáveres na rua”, lembrava ele, contando sobre a missão da Cruz Vermelha no conflito entre as Farc e exército regular. Eram dias tensos na América hispânica.
Passados 15 anos, o continente mudou bastante. A América do Norte vive aperto econômico com seus Occupy isso, Occupy aquilo, e os latinoamericanos, cada qual com suas mazelas, desenvolvem suas economias em relativa paz. O show de horrores das guerras internas dos anos 70, 80 e 90 deu um tempo, embora ainda haja escaramuças em alguns pontos, como na própria Colômbia – país que tanto preocupava Bigler àquela época. Hoje, a realidade é bem diferente daquele Natal de 1996.
Cobertura
Cheguei a Lima naquele dezembro como repórter do Estado e passei as festas acompanhando as libertações de mais de 500 dos 600 reféns dominados na noite da recepção do embaixador Aoki. Era uma mansão que tinha na fachada cópia da casa principal do lendário filme “E o vento levou”.
Entre os reféns estava o embaixador brasileiro Carlos Coutinho Perez, um dos convidados para a comemoração do aniversário do imperador japonês Akihito. Coutinho foi libertado logo na primeira semana.
O casarão branco, com suas altas colunas no frontal, foi demolido meses depois da operação sangrenta que pôs fim ao sequestro. O governo peruano queria eliminar qualquer vestígio daqueles dias de rebeldia dos guerrilheiros chefiados por Néstor Cerpa Cartolini, o comandante Evaristo, que planejava reencontrar e libertar colegas de guerrilha da cadeia, entre eles a mulher dele, Nancy Gilvonio, e a norte-americana Lori Berenson.
Frustração
Cerpa queria pegar o então presidente Alberto Fujimori na festa. Mas o presidente escapou minutos antes da invasão do grupo de 14 guerrilheiros. O MRTA então planejava trocar os reféns, inclusive um irmão de Fujimori, pelos seus integrantes que mofavam no cárcere peruano.
Momentos de alta dramaticidade da hora da tomada da embaixada podem ser revistos em vídeo no Youtube, com imagens de arquivo da TV Piura. O material mostra as primeiras movimentações da polícia logo após a entrada dos guerrilheiros, quando ainda não se sabia exatamente o tamanho da ação. São imagens fortes, reveladoras do drama que o mundo veria por quatro meses.
Outro dia, assisti também a outro vídeo, The Lima Siege (link no final do post), uma reconstrução feita pelo Discovery Channel, que relembra o caso e conta detalhes de como os militares infiltraram equipamentos de escuta levados ao interior da mansão dentro de uma Bíblia – e até um espião – sem que os guerrilheiros se dessem conta.
Cartão
Bigler, um homem simpático e gentil, foi o responsável pelo meu acesso ao suíço Michel Minnig, o escolhido para fazer o meio de campo entre o que queria Cerpa Cartolini e o que pretendia Fujimori. Minnig estava na recepção no momento da invasão do MRTA, e passou a ser o principal ator entre as partes.
Bigler chamou por mim numa manhã quente de Lima, quando uma multidão de jornalistas do mundo inteiro se acotovelava à porta da Cruz Vermelha, disputando um eventual contato com o negociador-chefe. Dois veículos de informação foram autorizados a entrar na sede da entidade para entrevistas. O Estado e uma TV da Suíça, país de Minnig.
No caminho para a sala, que ficava diante de uma piscina cercada por um gramado bem cuidado, o funcionário da Cruz Vermelha devolveu-me o cartão de visitas que eu mesmo tinha entregue ao motorista de Minnig durante uma das três madrugadas de vigília diante da casa da Cruz Vermelha.
Na segunda madrugada do plantão na calçada, consegui me aproximar do carro que sempre chegava rápido e entrava na garagem sem abrir os vidros. Nele estava o negociador. Ele era a única esperança dos jornalistas de saber o que realmente estava acontecendo no interior da mansão do embaixador. O Palácio estava blindado, o exército não ajudava e o casarão havia sido cercado e isolado.
Mas Minnig não dava entrevistas, segundo Bigler, para não comprometer a imparcialidade do trabalho da entidade. Esse é um dos pilares da atuação dos organismos de pacificação. Isenção. Mas ele havia cedido e falaria.
Encontro
Andei com Bigler pelo jardim até a sala de Minnig, que estava ao telefone falando com o Palácio do governo. Minnig fez sinal para que sentasse. Ao terminar o telefonema, levantou-se para cumprimentar-me, falando espanhol. Era um homem claro, magro, de semblante calmo. Disse que não comentaria detalhes da negociação para não atrapalhar a conciliação, mas que estava pronto para a entrevista.
Finalmente, depois de dias de expectativa, três noites em claro na rua a espera de uma oportunidade, ali estava o homem. Eu havia decidido pagar o mico de ficar na calçada até o sol nascer na esperança de pegá-lo na entrada ou na saída da sede da Cruz Vermelha. Não esperava ser chamado para o interior da casa. Resolveria a parada ali no carro mesmo, se fosse necessário. Mas ouvir as impressões dele era fundamental naquele momento.
Japonês
Na primeira noite, cheguei à casa, que ficava no bairro chique de Lima por volta de 22h, 1h de Brasília, depois que o jornal em São Paulo já tinha encerrado sua edição do dia. Um jornalista, da agência japonesa de notícias Kyodo News, foi companhia nas duas primeiras madrugadas.
O Japão, por estar diretamente envolvido no incidente, tinha grande interesse jornalístico no caso. Na segunda noite, quando o carro de Minnig se aproximava do portão, já na madrugada, corri para a lateral da casa, mas só consegui entregar um cartão ao motorista, que abriu o vidro para pedir que me afastasse do caminho. Havia cerca de 3 mil jornalistas em Lima naquela cobertura. E Minnig ainda resistia.
O japonês era um rapaz simpático e se comunicava em espanhol. Passamos horas sentados na calçada conversando sobre os dois países e sobre aquela crise peruana. Estávamos todos cansados dos longos plantões diante da embaixada.
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Os guerrilheiros faziam as libertações de reféns no horário nobre de TV, mais apropriado para a divulgação da causa deles porque burlavam a edição e os fatos apareciam ao vivo, principalmente no Japão. Acreditavam que poderiam com isso pressionar o governo japonês do então primeiro-ministro Ryutaro Hashimoto a sensibilizar Fujimori para negociar.
Mas havia dias no cerco nos quais nada acontecia. Para frustração da massa de jornalistas que tomavam as ruas do bairro de San Isidro, isoladas pelos militares peruanos. Com aquele farto noticiário factual sendo oferecido a cada momento, a saída escolhida por muitas equipes era buscar novidades em outro “sítio”.
A casa da Cruz Vermelha era um deles. Quando o japonês não apareceu na terceira noite, pensei em abandonar a empreitada. Mas decidi aguentar mais aquela jornada. Foi mais uma noite sem sucesso. Minnig entrou novamente sem dar chance para uma pergunta.
Mas, pela manhã, veio a surpresa. Um funcionário da segurança abriu uma pequena janela de um palmo de altura e gritou o meu nome. Do outro lado da porta de aço havia ainda uma catraca, daquelas que têm ferros em cruz de cima a baixo e que só permitem a entrada de uma pessoa por vez. Bigler estava logo a seguir, com o meu cartão na mão.
Depois da entrevista, voltamos a conversar outras vezes. Bigler me ajudou a entender melhor o processo pelo outro lado das paredes daquele mundo violento. Voltei ao Brasil em janeiro, quando o drama da embaixada japonesa dava sinais de que o governo Fujimori prolongaria o cerco para ganhar tempo e organizar uma invasão.
Sempre que posso dou uma pesquisada para ver por onde anda aquela figura calma e atenciosa que me atendeu em Lima. Bigler permanece na Cruz Vermelha contribuindo pelo mundo com o diálogo em situações de risco. Uma nobre missão.
Fim do cerco
Quando Fujimori detonou a operação de resgate, em abril, eu estava na redação do Estado, em São Paulo. Vi pela TV, no meio da tarde, o momento do desfecho do sequestro da embaixada, que ainda continha 72 pessoas dominadas por Cerpa Cartolini. Bigler, acredito, deve ter ficado decepcionado com o final dos acontecimentos.
A imagem de Fujimori caminhando entre os corpos de guerrilheiros na escadaria da casa, logo após o combate, que foi estampada nos jornais do dia seguinte, sempre me recorda o esforço frustrado do funcionário da Cruz Vermelha para evitar a tragédia. E de sua expressão confiante num final negociado, algo diferente do que ocorria na Colômbia.
Retornei a Lima algumas vezes depois desse episódio. Uma delas para cobrir a campanha eleitoral que escolheu Alejandro Toledo presidente; outra para relatar negociações diplomáticas sobre a Alca. Recentemente, fiz uma viagem de quatro dias de ônibus de São Paulo a Lima.
O Peru mudou bastante. O país é hoje governado por Ollanta Humalla, um ex-militar que venceu eleições democráticas com discurso de esquerda e surfa em relativa prosperidade econômica no país. O Peru tem crescimento de PIB ao redor de 6%. Ex-guerrilheiros de extrema esquerda e ex-governantes corruptos, entre eles Fujimori e seu homem forte, Vlademiro Montesinos, estão na cadeia.
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Tem gente que prefere areia, praia, sol de 40 graus, boa cerveja, guarda-sol. E, então, se manda para o litoral paulista, Rio, Nordeste, Caribe – e vai curtir o verão. Tudo bem, cada um é cada um. Mas dá só uma espiada no que está acontecendo nas terras geladas do Canadá, no lado do Pacífico, um intrigante pedaço do mundo. O vídeo é do site da Grouse Mountain, parque existente dentro da cidade de Vancouver, que está abrindo a temporada de inverno. Temperatura lá hoje, 21 de novembro, está em -2 graus centígrados. Uma maravilha!
Opening Day – Winter 2011/2012 from Grouse Mountain Resort on Vimeo.
Outro dia, quando andava pelo interior do país para uma reportagem sobre a presença do crack em pequenas cidades, a viagem ia tensa pela estrada vazia, noite a dentro, após um entardecer muito bonito no sertão de Pernambuco. Na BR 428, que liga Petrolina a Salgueiro, a forte presença da polícia, com barreiras e relatos de alta voltagem dando conta do combate pesado ao tráfico de drogas na região chamada de polígono da maconha.
Há um clima de insegurança constante naquela estrada, ainda mais à noite. E mais: com armamento de cano longo, às vezes artesanal, a bandidagem assalta carros e caminhões. Por cima de tudo, pequenas cruzes à margem da estrada marcam as mortes em acidentes com animais em todo o trajeto. Jegues e cabras costumam atravessar a pista com frequência, provocando graves ocorrências.
Cerca de duas horas depois de Petrolina, finalmente, apareceu a placa: Cabrobó. Passava das 20h quando vimos um posto. Ainda com um quarto de tanque de combustível, achamos, o colega José Patrício, do Estado, e eu, que deveríamos tocar direto para Salgueiro, adiante mais uns 60 quilômetros. Chegar logo, descansar do dia cheio, calorento, e da travessia da caatinga.
Mas aí pintou uma dúvida – que não durou mais do que alguns segundos. Não! Vamos parar, sim, e abastecer. Nunca se sabe o que pode acontecer na estrada a esta hora e com esse clima de insegurança noturna. O posto estava lotado de caminhões. Uns estacionados, outros em fila nas bombas de diesel. E quase desistimos. Novamente, voltamos atrás. “Entra ali, entra ali, por trás, a bomba do etanol pode estar do lado de lá”. Devagar, fizemos a volta nas carretas. Lá estava a bomba do álcool, livre.
Ao abrir a janela para falar com o frentista, notamos que havia música no ar. Era um cântico religioso, vindo de um caminhão bem ao lado da bomba. E havia muita gente olhando para um telão. Enquanto o rapaz enchia o tanque, notamos um sacerdote na carroceria de um caminhão branco, abençoando as pessoas.
Naquele momento, chamava para a comunhão. Muita gente voltou a se aproximar do altar improvisado. Havia até algumas freiras entre o povo. Em seguida, encerrou a cerimônia. E começou a distribuir terços coloridos.
Ficamos sabendo então, pela moça do projetor das imagens do telão, que aquela era a missa do padre Miguel, um padre camioneiro, que reza pelas estradas brasileiras e que, naquele dia, naquele local, repetia a cerimônia de uma vez por ano – e exatamente naquele horário.
Até a chegada a Salgueiro, para onde seguimos, já em velocidade mais baixa e com os tercinhos recebidos, ficamos matutando, cada um com seus botões: caramba, cruzando o sertão pernambucano, à noite, no improviso, ameaçados até por jegues, encontramos aquela cena.
Fomos “obrigados” a tomar uma cerveja em nome do padre Miguel.
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-Para ler a reportagem e ouvir entrevistas, publicadas no domingo, dia 18/09, clique aqui.
-Para ler a continuação, publicada na segunda-feira, dia 19/09, clique aqui
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Andei outro dia pelo sertão de João Cabral de Melo Neto. Vi o poeta na curva da esturricada caatinga, no umbu, no xique-xique, no mandacaru. Mestre João, operário da palavra exata, crua. Em “O Hospital da Caatinga”, brilha como fio de faca.
A caatinga de João é “hospital”, ortopédico, a curar o atrofiado, o informe, o torto – sujeitos que povoam o deserto. Paus curvos (como Van Gogh) e pontiagudos (como João Cabral) buscam vida nas frestas dos raios do sol – até cansar.
Em “Bifurcados de ‘habitar o tempo”, a caatinga pernambucana do poeta João “ata a imaginação”, prende-a; e ”fere com seu vazio em riste”.
Em “Pernambuco em mapa”, João prega altivez, como um mandacaru a dar uma “banana/a todos que do Sul/olham-no do alto da mandância.”
Salve João Cabral de Melo Neto!!!
(Poemas citados estão no livro “A educação pela pedra e depois”, Editora Nova Fronteira, 1997)
Outro dia, subindo e descendo as cordilheiras andinas, por horas e horas, em uma viagem a la García Márquez, para o Estado, fiquei recordando de uma paixão antiga: os mapas. Sim, os mapas. O poeta Mario Quintana gostava de dicionários. Passava horas olhando as palavras, procurando-lhes o sentido, divertindo-se ao inventar os próprios dicionários.
Bom, cada um com seus problemas. Nos escritos de Quintana aprendi a ler e a gostar desses compêndios sem figuras. E combinava aquilo com o fascínio da leitura dos gibis. Mais ou menos ao mesmo tempo descobri que também gostava das descrições dos cartógrafos. Até hoje, por onde ando, procuro mapas.
Nos últimos anos, a vida ficou mais fácil com a ferramenta Google Maps e sua evolução, o Google Earth, que nos permite ver as imagens. Para ver exatamente por onde passei nas alturas dos Andes, abri uma temporada de buscas na web. E encontrei uma maravilha: a coleção de 117 mapas do Brasil da fantástica coleção histórica da David Rumsey Cartography Associates, de San Francisco (EUA). É uma “viagem”.
Ao alcance de um click há relíquias que já exigiram, noutros tempos, demasiado esforço e muita paciência. Na coleção há descrições como a do Brasil de 1835, quando São Paulo e Rio Grande do Sul faziam fronteira diretamente, sem Santa Catarina e Paraná a separá-los.
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E muitas outras belezas. Como aquele de 1747, de Emanuel Bowen, publicado em Londres. E um outro, ilustrado, com cenas brasileiras, de A. Fullarton, 1872, também publicado em Londres, ambos relacionados na coleção.
David Rumsey criou essa oportunidade para os adoradores de mapas se divertirem e mais: usando as modernas ferramentas Google, jogar um mapa antigo sobre o globo (Earth) para comparar as evoluções da ocupação do espaço das nações na Terra. Coisa de maluco.
E pensar que o meu querido poeta sulista perdeu isso!
Um grande amigo, jornalista, José Roberto de Alencar, que perdi em 2007, costumava brincar com uma frase, que ele atribuía a um amigo dele, Audálio Dantas: “Fazer jornalismo é difícil, mas ainda é melhor do que trabalhar”. Lembrei do Zé Grandão, com muita saudade, de seu modo particular de viver, de ver a profissão, ao ler a coluna do colega Flavio Gomes, do dia 13.
Jornalista com J grande, um apaixonado por carros, motores, piloto, Flavio fez gentis referências a reportagem que fizemos, eu e Epitácio Pessoa, e em particular a mim. Não sou de rasgar sedas. Abomino o cabotinismo. Mas quero registrar um agradecimento ao Flavio publicamente.
A convivência em redações nos dá muito. Guardo com carinho dois livros (Sorte e Arte, pela Alfa-Omega- 1999, e Muita sorte & pouco juízo, pela Ateliê – 2002 — este último com prefácio em quadrinhos do brilhante Laerte) nos quais meu amigo mineiro Zé Alencar contava as histórias de suas reportagens. Adore reler o mestre Zé. E entre as boas coisas desse cotidiano “difícil”, como brincava o Zé, estão as parcerias, os amigos e suas generosidades. Flavio Gomes, cujo trabalho também acompanho no rádio há anos, é gente dessa estirpe. Gracias, Flavio.
PS:
O possante que vara a cordilheira é fabricado pela Comil, no Rio Grande do Sul. Na reportagem publicada no Estado (papel), domingo, há uma ficha técnica do ônibus. É um Comil Campione HD 4.05, como diz o leitor do Flavio, Alcebiades Alves. O tanque leva 450 litros de diesel.
Rodando na semana passada pelo litoral do Peru, perto de Lima, perguntei a um nativo como era viver num lugar onde não chove. “Por aqui temos no máximo uma garoa”, disse ele, pronunciando “garua”, palavra que está na raiz da denominação dos chuviscos tão familiares, ainda nestes dias, a São Paulo.
Deve ser mesmo uma tranquilidade viver somente sob a garoa, longe dos carros boiando, sofás e geladeiras dentro d’água, gente morrendo soterrada. Em Lima, as águas não caem com força porque há o efeito do fenômeno de Humboldt (do cientista Alexander von Humboldt), uma corrente marinha que percorre a costa do Pacífico do Chile ao Equador impede a chuvarada na região.
Os peruanos, por certo, têm muitos problemas. Há cinturões de pobreza que ainda vão consumir anos para que se tenha uma igualdade a mostrar. Mas do mal das enchentes eles não sofrem.
Nos últimos anos, o país tem melhorado seus principais fundamentos da economia. Mesmo nesses tempos bicudos de agosto, a situação da economia peruana está sob controle. O PIB do vizinho andino cresce acima do PIB brasileiro. No primeiro semestre, 7,7% de crescimento. Analistas de Lima esperam chegar ao final de 2011 marcando na casa dos 6%.
Como no Brasil, o s peruanos vivem um momento de redução importante da pobreza. Surge uma nova classe média. O país está lastreado na produção mineral. O chão deles é rico. Entre os principais metais extraídos, os mais vistosos: prata e ouro. A mineração de cobre e outros materiais ajuda no equilíbrio da balança peruana.
Na viagem que fizemos, eu e o colega Epitácio Pessoa, para mostrar a mais longa linha de ônibus da América do Sul, de 5.917 quilômetros, editada no Estado e no estadão.com.brno domingo, entrevistamos o embaixador brasileiro Carlos Alfredo Lazary Teixeira sobre o momento das relações entre os dois países.
As expectativas do Itamarati são muito favoráveis. Do lado peruano, que acaba de trocar de governo, igualmente. O diplomata peruano Antonio Castillo diz que vivemos um “momento de ouro”. Nos últimos anos, capital de empresas brasileiras está aportando em terras peruanas fortemente. “Já temos um acumulado de investimentos de US$ 3 bilhões”, disse o embaixador Lazary Teixeira.
Ele faz questão de ressaltar: as empresas brasileiras estão no Peru para se tornarem parte do cotidiano andido. Devem ser transformadas em empresas peruanas. O Itamarati está certo que o capital brasileiro pode ajudar a economia peruana, e vice-versa.
Relendo escritos de Euclides da Cunha para o chanceler que deu forma a tudo isso, o Barão do Rio Branco, cujos documentos são citados no belo trabalho do historiador Leandro Tocantins sobre formação do Acre e outras cartas euclidianas do começo do Século 20, lembrei das dificuldades do escritor em suas expedições.
Não há como pensar no tema sem recorrer às façanhas desses pioneiros dos dois lados. Euclides e suas embarcações, a lancha Cunha Gomes e o batelão Manoel Urbano, durante seu mergulho amazônico rumo aos Andes, é o que mais próximo de nós aparece.
Para além do interesse nas fronteiras, do Século 20, há o antigo interesse no ouro da Cordilheira, esse mesmo que ainda ajuda a acertar as contas por lá.
Esse interesse vem do Século 17. Foi quando em São Paulo se chegou até a pensar em importar lhamas para transporte em minas brasileiras. Lembremo-nos: a região do Pico do Jaraguá já foi revirada por mineiros em busca de filão dourado.
Como nos lembra o mestre Sérgio Buarque de Holanda em suas pesquisas nas Atas da Câmara de São Paulo, em 1609 houve até dotação orçamentária para a compra do que à época se chamou de “carneiro peruano”. O projeto não foi adiante. Sobrou para as mulas, claro.
Se os portugueses tivessem tido sucesso na importação do camelídeo andino, talvez houvesse por aqui, em alguma cidade da trilha das minas, uma homenagem às lhamas, como aquela feita ao muar em Sorocaba.
Nessa questão das fronteiras amazônicas, concretamente, o debate tem pelo menos 170 anos. Data dos anos 40 do Século 19. “O primeiro ato de regulamentação limítrofe entre o Brasil e o Peru data de 1841”, escreveu Leandro Tocantins, à página 327 de seu “Formação Histórica do Acre” (Volume 2), editado pela Civilização Brasileira. De um lado, o Peru olhava o Atlântico querendo ver a Europa; do outro, a barreira da Cordilheira impedia o acesso do Brasil ao Pacífico, e aos mercados da Ásia.
Então, o traço separando as duas culturas terminou por se estabelecer a partir do Tratado de Petrópolis, em 1903, quando os brasileiros negociaram o Acre com bolivianos e peruanos, episódio que marcou a diplomacia do Barão.
Ainda após essa data, segundo o historiador Leandro Tocantins no livro “Euclides da Cunha e o Paraíso Perdido”, pela editora Civilização Brasileira, o explorador e escritor brasileiro avançou, a partir de 1905, pelo Rio Purus, com sua lancha Cunha Gomes, seguida do batelão Manuel Urbano, que era um barco só para suprimentos, ao encontro da comissão peruana chefiada pelo capitão-de-corveta Pedro Alexandre Buenaño.
A busca pela amizade foi, a certa altura, cultivada com um regalo peruano enviado ao brasileiro: um chapéu – como mostram originais de cartas de Euclides, citadas por Tocantins.
“Le ruego aceptar (…) el sombrero. (…) el tejido de ello es una de las industrias en mi país”, escreveu o líder peruano Buenaño a Euclides, segundo documento do Arquivo Histórico do Itamarati, também citado por Tocantins. Nem tudo nas relações dos dois foi gentileza, certamente. Os tempos eram muito mais terríveis do que se viveu nos 100 anos seguintes. Houve resistências.
Mas o gesto do negociador peruano, certamente, ajudou no ambiente do acordo de fronteiras de 1909. E faz parte do rito da integração que se estreita, agora, em 2011.
O tempo, os negócios e o bom senso ajustaram as coisas. E, agora, pode-se, finalmente, ir e vir através da enigmática Cordilheira e da portentosa amazônia, um sonho secular.
Protegido pelo seu passado inca, o Peru é um belo país. As paisagens das montanhas e vales são deslumbrantes. As estradas peruanas são de boa qualidade, com piso excelente, sinalização competente. Faltam detalhes, como a ponte do Madre de Dios, que deve estar em funcionamente em outubro. Já era mesmo hora de os brasileiros tirarem o chapéu para os andinos.
Se em Lima o sol está mais presente na moeda do que no céu – a cidade vive coberta por uma bruma e a chuva não passa de “garua”-, os peruanos compensam essa “ausência” com cordialidade. Como já demonstrou Buenaño a Euclides.
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