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Blog da Garoa

Um hospital para pronto-atendimento, um centro de convenções para três mil pessoas e um ginásio de esportes. Esses são os primeiros projetos para ocupar o novo terreno comprado pela Unicamp ao lado do campus do bairro Barão Geraldo, em Campinas. Com 143 hectares, a gleba da Fazenda Argentina custou R$ 157 milhões à universidade. Nos próximos seis meses, a Unicamp vai discutir um novo Plano Diretor para decidir a ocupação da área e, depois, iniciar a fase de captação de recursos para as construções.

“A área do Parque Tecnológico, vizinha da fazenda, também deverá ser beneficiada”, disse o reitor da Unicamp, José Tadeu Jorge.

O dinheiro do negócio estava reservado no orçamento da Unicamp para saldar uma dívida de R$ 178,6 milhões com o antigo Instituto de Previdência do Estado de São Paulo (Ipesp), relativa ao período de 2006 a 2008. Mas a Unicamp renegociou a conta e, em dezembro, o Conselho Universitário (Consu) aprovou o uso dos recursos para pagamento da nova área, que corresponde a 60% do atual campus.

O preço pago à empresa Heliomar S/A, proprietária da gleba, ficou R$ 25 milhões abaixo do valor fixado em fevereiro pela Caixa Econômica Federal, que foi de R$ 182 milhões. A diferença, argumentou o reitor, deve ser aplicada na melhoria dos equipamentos de prédios do campus já existente. “Agora podemos sonhar com várias coisas”, disse Tadeu.

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Área da fazenda comprada pela Unicamp em Campinas. Foto: Érica Dezonne/Estadão conteúdo

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As prioridades para ocupação, segundo o reitor, ainda dependem de um debate interno na Universidade. Mas adiantou que já trabalha com a ideia da construção de um hospital voltado para áreas como câncer, traumatologia e pronto-atendimento, que são setores considerados deficitários na região de Campinas. “Temos também as demandas da área do conhecimento no esporte e a necessidade de atender a uma demanda de um centro de convenções, hoje espaço inexistente na região”, declarou.

As fontes de verbas para os futuros projetos podem ser de ministérios, governo do Estado e o próprio orçamento da Unicamp, que é finalizado sempre nos meses de dezembro. “Ainda não se pode prever o volume de recursos envolvidos na ocupação. Isso depende dos projetos”, disse Tadeu. “Mas como na universidade ideia é coisa que não falta, essa mesa deve ficar lotada de projetos”, afirmou. Leia trechos da entrevista do reitor.

José Tadeu Jorge. Em foto de Érica Dezonne/Estadão conteúdo

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Quais setores da Unicamp podem se beneficiar dessa área nova?

Em tese, todos os setores. Sem a área, nossas limitações eram grandes. Mas vai depender dos projetos.

Discute-se a construção de um hospital na área?

A área nova faz divisa com a área da saúde da universidade. Ela tem fronteira com uma parte da saúde e outra com outras estruturas da universidade. No caso da saúde, nem haveria descontinuidade.

O pessoal da saúde já tem a prioridade deles?

Há as áreas que são entendidas como prioridades como deficiências no atendimento à saúde em Campinas. São câncer, trauma (traumatologia) e pronto-atendimento.

Já se pode dizer que haverá um hospital novo ali?

Ainda não porque não temos o dinheiro ainda para construir, mas certamente é uma proposta que é certo que virá das áreas que tratam do conhecimento na saúde na universidade.

Na educação física, seria o quê?

A universidade acalenta projeto de ginásio. E há o projeto de um centro de convenções. Campinas não tem um centro de convenções decente, para reunir três mil pessoas, salas simultâneas para 200 pessoas. E a universidade é pródiga em eventos, congressos. Sentimos muita falta de um espaço assim. Temos um projeto, que com a nova área vai ganhar impulso.

Quais mais?

Em tese, todos os setores. Quando eu falo de laboratórios de pesquisa, estou me referindo a qualquer área da Unicamp que esteja limitada por questão de espaço.

Até o polo tecnológico?

Até o parque científico e tecnológico, que tem algum espaço ainda na área atual, mas que imaginamos, que esse espaço vai, rapidamente, será esgotado. É outra área que faz fronteira com a nova área. Permite uma ampliação. A limitação de espaço é grande para praticamente todas as faculdades e institutos. E o adensamento dessa área. Não podemos pensar só em subir um prédio de dez andares. Ninguém vai andar ali. É preciso ver a mobilidade. Isso imobilizava o crescimento. A circulação está totalmente comprometida na área atual.

Como se faz para expandir uma universidade sem risco de prejudicar a qualidade do ensino?

Os mecanismos que a universidade tem têm uma base acadêmica muito forte. Imaginemos o exemplo de um laboratório. Algo que ainda não fazemos. Tem lá um professor, que tem uma ideia. Ele aporta um projeto de laboratório. Isso é analisado no departamento dele, com professores que vão contribuir na análise com críticas e sugestões. É o primeiro filtro. Na sequência, isso vai à congregação da faculdade, com representação dos departamentos, funcionários, estudantes, professores. É um segundo crivo, de como o projeto se insere na área de conhecimento mais amplo. Por exemplo, uma proposta que tenha nascido no Instituto de Física, pesquisa de raios cósmicos, será avaliada por representantes de toda a universidade e confrontada com prioridades de outras áreas, como as engenharias, biológicas. Aí vem uma Comissão do Planejamento Estratégico, do Conselho Universitário.Nesse Conselho, se faz a definição da prioridade. O que vem primeiro? O dos raios cósmicos ou um outro, de história, por exemplo.

Essa ocupação da área vai provocar um intenso debate na comunidade.

Sim. E esses mecanismos são consagrados na universidade. Isso é que vai garantir que a qualidade será preservada. O olhar do planejamento estratégico enxerga o projeto pelo conceito que Unicamp adota: formação de recursos humanos é o principal. É a missão. Formar estudantes qualificados, preparados para o exercício profissional. Para fazer isso, é preciso também de outras duas coisas. A pesquisa, em quantidade e qualidade, para gerar conhecimento novo, beneficia a sociedade, mas na visão da universidade qualifica o nosso ensino, é ponta do conhecimento. Um estudante sendo formado com o que há de mais atual. Isso é qualidade. Profissionais com o conhecimento do que é mais atual em sua área. O plano estratégico está olhando isso.

E a segunda?

A segunda coisa que precisamos fazer bem e intensamente é o aspecto das relações com a sociedade, o que tradicionalmente recebe a denominação de extensão universitária. Esse termo hoje é limitado. Relações com a sociedade é mais amplo, representa melhor o que a universidade faz. Colocam professores e estudantes em contato com a realidade. Quando se formarem, os alunos vão atuar sabendo exatamente o que a sociedade precisa. Esse modelo, esse conceito de universidade, que age de maneira indissociável nos três pontos, é examinado o tempo todo. Esse conjunto de tramitações garante que a qualidade geral do sistema está sendo garantida. Isso é do dia a dia da universidade.

Na USP, depois de um debate intenso, criou-se a USP Leste. E há hoje a discussão sobre que tipo de estudante vai para lá, como ele é ensinado.

Mas a universidade não pode pensar que ela tem diversos tipos de estudante. A Unicamp tem paralelo com a USP Leste, que é o campus novo de Limeira. Você não pode pensar que campus está sendo feito para outra categoria de estudante.

O senhor acha que aconteceu isso na USP?

Não sei analisar a USP. Mas garanto para você que isso não aconteceu no campus Limeira. O que fizemos lá: tinha uma área que era só grama. Então, vamos construir um campus novo. A primeira regra foi: o conceito é o mesmo do campus de Campinas. Uma rede de sociabilidade, ensino pesquisa e extensão. Isso significa que o campus nasce só com graduação, mas nas diretrizes iniciais já se colocava que, obrigatoriamente, a pós-graduação teria de ser criada na sequência, como de fato ocorreu. Cinco anos depois já temos pós-graduação lá. Que cursos? O requisito foi que nenhum curso que já existisse no campus de Campinas.

Por quê?

Porque é certo que vai haver comparação. E, certamente, um curso que está nascendo não vai nascer com a qualidade de um curso que já tem 30 anos. Se eu crio o curso de química em Limeira e aqui (em Campinas) eu tenho química, evidente que no nascimento lá o curso vai ser pior. E isso é péssimo. Então criamos lá cursos que não existem aqui.

Não poderia duplicar lá exatamente para oferecer a qualidade daqui?

Não. Você citou que temos 99% dos docentes doutores. Essa é uma característica importante. Mas a segunda é que 95% dos professores têm dedicação exclusiva. Significa que os professores vivem na universidade. Se pego alguém daqui para dar aula em Limeira, a disponibilidade de contato com estudantes não será a mesma. Eu quebro a disponibilidade do professor. Outra coisa: a pesquisa tem de estar junto. Isso também quebra a proximidade com o professor. A mesma coisa com as relações com a sociedade. Se eu fizer isso, eu quebro exatamente o conceito, o ambiente em que os alunos estão mergulhados. Para não correr esse risco, instalamos lá duas engenharias, que não existem aqui, produção e manufatura, Aqui temos oito engenharias. Seria fácil escolher uma para repetir lá. Mas não fizemos isso. Instalamos lá cursos de gestão, que não tínhamos aqui, que evoluíram para cursos de administração, que não temos aqui. Ciências do esporte, nutrição, também estão lá. Não são alunos diferentes. Seguem o mesmo conceito da Unicamp. Isso garante que tenhamos qualidade lá também.

No caso do aproveitamento desta área comprada agora é diferente?

Sim. Porque lá em Limeira foi produzido tudo do zero, Aqui, não . Mas seria ruim se tratássemos para a área um novo projeto. Seria perder quase 50 anos de uma boa história de qualidade que temos aqui.

A economia do país mudou. E mudou também a oferta de alunos?

Acho que não foi a economia que mudou. Foi o mundo.

Mas o aluno que bate à porta hoje, a demanda por conhecimento. Isso mudou. Mais jovens tentando entrar?

Os números não mostram muito isso. Nossa relação candidato vaga tem se mantido. Já há alguns anos nos mesmos padrões, pequenas variações. O crescimento de busca da Unicamp pode ter mudado pelo prestígio que a universidade foi angariando ao longo do tempo. Mas acho que isso é natural. As pessoas busquem aquilo que acham que é melhor. Depende muito da área. Não é uniforme a busca pela Unicamp. Há uma certa análise, que pode ser feita, nas demandas por curso que mostram isso.

Alguma área de destaque? Engenharia de alimentos, que é sua área. Como é a procura?

Engenharia de alimentos é um ponto fora da curva. Foi inventada na Unicamp. Não existia na América Latina, Europa. Havia nos EUA um sistema que chamamos de engenharia de alimentos, com três profissões , o cientista, o tecnólogo e o engenheiro. Um cuida de ciência, da transformação dos alimentos; outro cuida do chão da fábrica; e o engenheiro cuida de projetos, custos. Nos EUA, são três profissionais. Quando foi criada no Brasil, o professor Tosello (André Tosello) pensou que nenhuma empresa brasileira tem condições de contratar três profissionais. Ele foi muito brasileiro: vou juntar numa só. Foi assim que nasceu, e foi durante muitos anos o único curso. Hoje tem mais de 70 cursos no país. Mas lá, no final dos anos 60, era inédito. Então, por larga margem, a engenharia de alimentos da Unicamp é a melhor da América Latina e está entre os melhores do mundo, porque em muitos países nem existe um profissional assim. É difícil comparar. Aí a Unicamp foi pioneira. Mas um exemplo rápido: último ranking da QS (ranking mundial das universidades) mostra análise por área de conhecimento. Aí se destaca a Unicamp na Agricultura e silvicultura, história, e filosofia. Isso, em termos principalmente de produção de conhecimento. Isso é indicador que sinaliza áreas fortes da universidade. Nem sempre essa visão da produção do conhecimento é a mesma visão que os estudantes têm na hora de buscarem o vestibular. Tanto que essas não são as de mais demandadas no vestibular. Os mais procurados são medicina, arquitetura, engenharia civil, midiologia e ciências biológicas, que sempre aparece. Ou seja: o que provavelmente motivo a escolha da profissão não é a escolherem a profissão não é a posição qualificada forte da universidade da produção de conhecimento, são outros, vocação, ascensão social. A escola é mais íntima, do indivíduo. Até porque um estudantes de 17, 18 anos nem consegue fazer essa análise mais elaborada. O que é importante é que busca pela universidade é que precisa crescer o acesso dos estudantes que provêem das classes menos contempladas socialmente.

Então, olhando da universidade para os novos estudantes, das novas classes médias. Lá há uma efervescência. Como atender?

Eu diria que a Unicamp foi pioneira. Temos um programa de ação afirmativa e inclusão social desde 2004. Que foi revigorado agora no último vestibular. Em 2004, estava muito presente a discussão das cotas, que é cíclico. A indicação do Conselho Universitário era de que todo mundo está de acordo que precisamos fazer um esforço para que se tenha mais gente menos contemplada socialmente. Mas será que não tem um jeito melhor do que simplesmente reservar vagas? Não dá para encontrar um mecanismo de inclusão que não seja tão simplista? E o Conselho criou um grupo de trabalho, que eu presidi, para tentar uma alternativa. Trabalhamos com dados do vestibular. Até que, num determinado momento deu aquele clic que sempre dá em termos de pesquisa: vamos tentar fazer uma compensação pelo fato de essas pessoas menos favorecidas socialmente não estarem preparadas para prestar vestibular. Porque a base teórica é que o ensino médio na escola pública é ruim. Se essa é a tese, vamos tentar compensar o desnível. E aí nasceu o bônus para quem vem da escola pública. A Unicamp tinha algo em torno de 27% de alunos vindos da escola pública. Então, demos um bônus. Um número de pontos para compensar. Com o programa atribuímos 30 pontos para alunos de escola pública e 10 pontos se ele se auto declara negro ou indígena. Se ele tem as duas coisas, ele soma: 40 pontos. Com isso, conseguimos elevar para 32% a participação da escola pública. E conseguimos elevar os negros e indígenas. Mas no vestibular, como é muito competitivo, o sistema se adapta. Cresceu, mas estabilizou. O universo reage. De novo, no ano passado, veio a história da cota. Nosso raciocínio foi: temos um ótimo programa. O que era teoria, hoje é comprovação científica. Os alunos de 2004, 2005, 2006, já saíram.

Já se pode medir o rendimento?

Exatamente. E aí constamos, curso por curso, que aqueles que entraram com bônus ou saem igual, estatisticamente, aos demais, ou saem melhor. Em vários cursos saíram com aproveitamento acadêmico melhor do que alunos do mesmo curso e mesmo ano que não se beneficiaram do bônus. Comprovação de que encontramos um mecanismo de fazer inclusão que não faz a qualidade cair, ao contrário.

Nenhum exemplo de desvio?

Nenhum. Nenhum curso teve exemplo. Ou foi igual, ou um pouquinho melhor. Se precisamos atingir meta de 50%? Ok. Dobramos a pontuação no último vestibular para 60, mais 20 pontos. Isso elevou para 38% e 18% de PPIs (Pretos, Pardos e Indígenas). Houve mudança na nomenclatura. Na origem do programa, o PPI era menos de 10%. Nós sabemos que não vamos perder qualidade com isso. Então continuaremos ajustando o bônus para chegar a 50% da escola pública e a proporção IBGE de PPIs, que em São Paulo é de 35% aproximadamente. Uma maneira de inclusão que não é pura e simples reserva de vagas. Sim, a universidade busca colocar pessoas que foram menos favorecidas.

Alguma outra universidade aplica esse modelo?

Sim, a USP copiou alguns anos depois.

O que diz o MEC?

Nada. Algumas federais andaram no mesmo sentido, mas depois isso ficou esquecido. Hoje a Unicamp aplica, a USP tem a mesma lógica, mas com menor pontuação, com efeito provocado muito pequeno. Uma coisa importantíssima: faz-se inclusão em cursos de alta demanda. Como medicina, por exemplo.

Como esse estudante compensa o déficit do aprendizado do sistema público?

Basicamente a questão é a oportunidade. A garra. O aluno que consegue entrar neste sistema, ele agarra como a oportunidade da vida dele. Ele só não foi melhor por falta de base na escola pública. Quando ele vem e mergulha nesse ambiente aqui, que tem alguém para ajudar a encontra conhecimento, ele deslancha. É visível. Conseguimos acompanhar por semestre. A curva é visível. Ao final do terceiro semestre, eles já estão praticamente juntos, e depois a curva segue junto. Em todos os cursos. A defasagem de base, ele rapidamente vai atrás, se esforça, e ele chega. Esse sistema de inclusão vai permitir atingir, em 2017, a meta do sistema de cotas, dos 50% para alunos da escola pública e 35% de PPIs.

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Compra de fazenda é criticada

A negociação da compra da Fazenda Argentina pela Unicamp avançou em 2012, depois que a universidade viu sinal verde na renegociação da dívida com a São Paulo Previdência (SPPrev). Em junho daquele ano, o Conselho Universitário (Consu) aprovou o negócio com 46 votos favoráveis, seis contra e seis abstenções. O reitor José Tadeu Jorge assumiu a reitoria em abril do ano passado e, em dezembro, recebeu aval reforçado do Consu (58 à favor, 4 contra, sete abstenções) para tocar o negócio. Mas a compra da área, anunciada finalmente em março, sofre críticas na comunidade acadêmica.

Com 143 hectares, a gleba da Fazenda Argentina custou R$ 157 milhões. Nos próximos seis meses, a Unicamp vai discutir um novo Plano Diretor para decidir a ocupação.

Para o professor Jorge Stolfi, do Instituto de Computação, o dinheiro pago pela fazenda poderia ser investido”em dois cursos novos de graduação”. O professor questiona ainda o preço da terra. “Para mim, a área tem valor comercial bem menor do que o valor negociado porque é cortada por uma avenida e tem áreas de preservação ambiental que limitam a exploração da área”, argumentou. “Mas o que mais me incomoda é comprar uma área sem que tenha nenhum plano de ocupação”, disse.

Ele criticou também o projeto de um centro de convenções da Unicamp, que está sendo previsto para o local. “Um centro de convenções vai dar prejuízo para a universidade”, disse. Sobre o plano de um hospital, ele pondera que a ideia é positiva. “Mas também é estranho”, questiona. “A universidade estava era querendo se ver livre até do hospital existente lá”, argumentou. “Queriam repassar para a Secretaria da Saúde”, justificou. Diante do amparo do Consu à compra, Stolfi admitiu: “Sou voz minoritária na Universidade”, disse.

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RAIO X DA UNICAMP

(em 2013)

Professores                          1.759  (99% com doutorado)

Cursos/graduação                    68

Alunos                                   18.338

Cursos/pós-graduação         156

Alunos                                   16.195

Cursos/Extensão                 1.172

Alunos                                     7.684

Leitos hospitalares                 856

Internações                          36.271

Cirurgias                                 60.837

Partos                                       4.838

Artigos indexados                3.149

Publicações                          20.753

Orçamento

2013 – R$ 2,018 bilhões

2014 – R$  2,103 bilhões

Fonte: Unicamp

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É comum a crítica ácida a decisões judiciais sobre conflitos de interesse que envolvem demandas sociais no Brasil. Muito se ouve entre representantes de entidades e militantes – como sem-terras, sem-tetos, acampados – que as cortes brasileiras são aparelhadas pelo poder econômico e que o ordem jurídica pende sempre para o lado dos grandes escritórios.

No caso do Mato Grosso do Sul, onde o mapa dos conflitos fundiários envolvendo a posse de terras entre índios e não-índios se expande, a crítica é voz corrente. São justamente as forças do Estado que estão atualmente acusadas pelo assassinato de Oziel Gabriel, o terena que perdeu a vida durante uma reintegração de posse em Sidrolândia no dia 30 de abril. Os índios reclamam da Justiça e dos executores da ordem, no caso, a Polícia Federal.

No entanto, uma decisão da desembargadora Cecília Mello, datada de 26 de junho, comemorada hoje pelo Ministério Público Federal do MS, mostra que também o contrário acontece. Buscando a “harmonização” das relações, a desembargadora Cecília Mello acaba de determinar nos autos o uso da força pública a favor dos índios e contra fazendeiros que brigam na Justiça pela posse das terras da fazenda Cambará, em Itacuru, município ao sul de Campo Grande.

Desta vez, a Justiça manda que os proprietários  abram as porteiras para a Funai ter acesso a acampamento indígena dos guarani caiová do acampamento Pyelito Kuey. Os índios se concentram em pequena área de cerca de um hectare,  isolada por um rio no fundo da fazenda, a 460 quilômetros da capital do MS.

No ano passado, no momento mais tenso desse caso, os caiová ocuparam o terreno na ofensiva que fazem pela retomada, como dizem, de terras ancestrais. Ameaçados de despejo, divulgaram carta na internet dizendo que resistiriam até a morte. O fato ganhou repercussão, e a disputa entrou em banho-maria. Mas a tensão no local continuou.

Segundo a ordem judicial de agora, as porteiras da fazenda impedem o acesso ao local de órgãos federais, desobedecendo determinação anterior. Os índios e funcionários envolvidos na busca da solução do conflito só podem chegar ao Pyelito Kuey atravessando um rio que separa a área de outra reserva, a Sassoró.

Diz a sentença:

A partir de tudo o que foi demonstrado, conclui-se que os fazendeiros não cumprem, no mínimo regularmente, a determinação desta Egrégia Corte Regional há pelo menos 7 (sete) meses, o que, além de caracterizar desrespeito a uma decisão emanada pelo Poder Judiciário, coloca em risco todo um trabalho de harmonização das relações entre proprietários de terras e silvícolas no Estado do Mato Grosso do Sul“.

Para ver a ordem judicial clique aqui e digite o número do processo: 0029586-43.2012.4.03.0000.

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O Brasil está à beira de perder, se é que ainda não perdeu, uma vantagem conseguida a duras penas pelo pessoal da missão de paz e estabilização do Haiti, trabalho realizado por uma força chamada Minustah desde antes do trágico episódio do terremoto de 2010. A situação degradante dos 1,3 mil haitianos – e dezenas de outros cidadãos africanos refugiados – que estão em abrigo precário em Brasileia, no Acre, conforme mostrou o Estado, pode acabar rapidamente com o esforço de anos de tentativa de consolidação do país como nação solidária no mundo.

Desde o Barão do Rio Branco, que aliás é um dos pais do Acre, o País se oferece ao mundo como alternativa de abrigo de crises humanitárias internacionais e como atração para grupos étnicos dos mais diversos. Foi assim que o país se formou e se desenvolveu. Isso está impresso em cada sobrenome ao nosso redor. E só para lembrar caso recente, foi assim também na crise da Palestina. E atualmente tem sido assim com o sinal verde para trabalhadores europeus que enfrentam a crise econômica. O Brasil recebendo milhares de portugueses e espanhóis em busca de oportunidade no mercado nacional.

Essa política de portas abertas terminou por criar, no momento do pico da crise haitiana, uma categoria especial de aceitação de imigrantes, os do visto humanitário, concedidos nos últimos meses aos cidadãos do Haiti que tentam reconstruir suas vidas depois da tragédia. Nos últimos dias, no entanto, com o aumento da pressão na fronteira do Acre, a burocracia travou a liberação de papéis e expôs os refugiados a um cotidiano humilhante: dormir praticamente ao relento e disputar comida no braço três vezes ao dia, produzindo cenas impressionantes em solo brasileiro.

A situação começa agora, desde este domingo, 14 de abril, a retornar ao rumo aceitável com a intervenção, finalmente, de autoridades de Brasília, acordadas para o problema depois dos gritos do decreto de emergência do governador Tião Viana (PT), a quem foi deixado o trabalho do atendimento da emergência na fronteira. O esforço de desta semana, segundo o secretário Nacional de Justiça, Paulo Abrão, é para zerar a demanda de documentos. Com isso, os haitianos poderão tomar o rumo para se integrarem numa economia que vive com taxas de desemprego na casa dos 5%, o que em “economês” quer dizer quase pleno emprego – ou seja, aquela parte do gráfico na qual aparece o trabalhador que saiu de um emprego para entrar imediatamente em outro ainda melhor.

Ambiente mais favorável à integração desses refugiados, impossível. A quantidade deles – 1.3 mil, que restam dormindo sobre papelão e disputando quentinhas no tapa, como indigentes – está longe de ser um problema incontornável. Com um mínino de articulação do setor público com o setor empresarial, como já está acontecendo, o negativo vira positivo – para todos os lados.

 

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A entidade Repórteres Sem Fronteiras, que opera pelo mundo em defesa da livre expressão, tem um ranking global da liberdade de imprensa. No relatório 2013, os países mais livres para o exercício da profissão de jornalista são Finlândia Holanda e Noruega. Entre os piores, Cuba, China.  Os piores dos piores: Coreia do Norte e Eritreia. O Brasil aparece em 108º lugar –  entre 179 países. O vizinho Uruguai, do senhor José Mujica, está no nível de Estados Unidos, Inglaterra, França.  No mapa colorido vemos como a coisa por aqui ainda é bastante complicada.

 

 

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Isso aqui nem é tão chocante, disse Roland Bigler, funcionário da Cruz Vermelha, auxiliar na negociação entre o governo peruano e o Movimento Revolucionário Túpac Amaru (MRTA) em dezembro de 1996.  Naquele dia 17, no início da noite, guerrilheiros tomaram a casa do embaixador japonês Morihisa Aoki, em Lima, em uma cinematográfica ação que durou 126 dias, e terminou em tragédia em abril.

Todo mês de dezembro lembro de Bigler conversando sobre o trabalho de mediação do chefe dele, Michel Minnig. Bigler era um otimista. Trabalhava na Colômbia, de onde fora chamado às pressas para auxiliar Minnig. Dizia que lá, sim, a situação era complicada. Havia “caminhado sobre cadáveres na rua”, lembrava ele, contando sobre a missão da Cruz Vermelha no conflito entre as Farc e exército regular. Eram dias tensos na América hispânica.

Passados 15 anos, o continente mudou bastante. A América do Norte vive aperto econômico com seus Occupy isso, Occupy aquilo, e os latinoamericanos, cada qual com suas mazelas, desenvolvem suas economias em relativa paz. O show de horrores das guerras internas dos anos 70, 80 e 90 deu um tempo, embora ainda haja escaramuças em alguns pontos, como na própria Colômbia – país que tanto preocupava Bigler àquela época. Hoje, a realidade é bem diferente daquele Natal de 1996.

Cobertura

Cheguei a Lima naquele dezembro como repórter do Estado e passei as festas acompanhando as libertações de mais de 500 dos 600 reféns dominados na noite da recepção do embaixador Aoki. Era uma mansão que tinha na fachada cópia da casa principal do lendário filme “E o vento levou”.

Entre os reféns estava o embaixador brasileiro Carlos Coutinho Perez, um dos convidados para a comemoração do aniversário do imperador japonês Akihito. Coutinho foi libertado logo na primeira semana.

O casarão branco, com suas altas colunas no frontal, foi demolido meses depois da operação sangrenta que pôs fim ao sequestro. O governo peruano queria eliminar qualquer vestígio daqueles dias de rebeldia dos guerrilheiros chefiados por Néstor Cerpa Cartolini, o comandante Evaristo, que planejava reencontrar e libertar colegas de guerrilha da cadeia, entre eles a mulher dele, Nancy Gilvonio, e a norte-americana Lori Berenson.

Frustração

Cerpa queria pegar o então presidente Alberto Fujimori na festa. Mas o presidente escapou minutos antes da invasão do grupo de 14 guerrilheiros. O MRTA então planejava trocar os reféns, inclusive um irmão de Fujimori, pelos seus integrantes que mofavam no cárcere peruano.

Momentos de alta dramaticidade da hora da tomada da embaixada podem ser revistos em vídeo no Youtube, com imagens de arquivo da TV Piura. O material mostra as primeiras movimentações da polícia logo após a entrada dos guerrilheiros, quando ainda não se sabia exatamente o tamanho da ação. São imagens fortes, reveladoras do drama que o mundo veria por quatro meses.

Outro dia, assisti também a outro vídeo, The Lima Siege (link no final do post), uma reconstrução feita pelo Discovery Channel, que relembra o caso e conta detalhes de como os militares infiltraram equipamentos de escuta levados ao interior da mansão dentro de uma Bíblia – e até um espião – sem que os guerrilheiros se dessem conta.

Cartão

Bigler, um homem simpático e gentil, foi o responsável pelo meu acesso ao suíço Michel Minnig, o escolhido para fazer o meio de campo entre o que queria Cerpa Cartolini e o que pretendia Fujimori. Minnig estava na recepção no momento da invasão do MRTA,  e passou a ser o principal ator entre as partes.

Bigler chamou por mim numa manhã quente de Lima, quando uma multidão de jornalistas do mundo inteiro se acotovelava à porta da Cruz Vermelha, disputando um eventual contato com o negociador-chefe. Dois veículos de informação foram autorizados a entrar na sede da entidade para entrevistas. O Estado e uma TV da Suíça, país de Minnig.

No caminho para a sala, que ficava diante de uma piscina cercada por um gramado bem cuidado, o funcionário da Cruz Vermelha devolveu-me o cartão de visitas que eu mesmo tinha entregue ao motorista de Minnig durante uma das três madrugadas de vigília diante da casa da Cruz Vermelha.

Na segunda madrugada do plantão na calçada, consegui me aproximar do carro que sempre chegava rápido e entrava na garagem sem abrir os vidros. Nele estava o negociador. Ele era a única esperança dos jornalistas de saber o que realmente estava acontecendo no interior da mansão do embaixador. O Palácio estava blindado, o exército não ajudava e o casarão havia sido cercado e isolado.

Mas Minnig não dava entrevistas, segundo Bigler, para não comprometer a imparcialidade do trabalho da entidade. Esse é um dos pilares da atuação dos organismos de pacificação. Isenção. Mas ele havia cedido e falaria.

Encontro

Andei com Bigler pelo jardim até a sala de Minnig, que estava ao telefone falando com o  Palácio do governo. Minnig fez sinal para que sentasse. Ao terminar o telefonema, levantou-se para cumprimentar-me, falando espanhol. Era um homem claro, magro, de semblante calmo. Disse que não comentaria detalhes da negociação para não atrapalhar a conciliação, mas que estava pronto para a entrevista.

Finalmente, depois de dias de expectativa, três noites em claro na rua a espera de uma oportunidade, ali estava o homem. Eu havia decidido pagar o mico de ficar na calçada até o sol nascer na esperança de pegá-lo na entrada ou na saída da sede da Cruz Vermelha. Não esperava ser chamado para o interior da casa. Resolveria a parada ali no carro mesmo, se fosse necessário. Mas ouvir as impressões dele era fundamental naquele momento.

Japonês

Na primeira noite, cheguei à casa, que ficava no bairro chique de Lima por volta de 22h, 1h de Brasília, depois que o jornal em São Paulo já tinha encerrado sua edição do dia. Um jornalista, da agência japonesa de notícias Kyodo News, foi companhia nas duas primeiras madrugadas.

O Japão, por estar diretamente envolvido no incidente, tinha grande interesse jornalístico no caso. Na segunda noite, quando o carro de Minnig se aproximava do portão, já na madrugada, corri para a lateral da casa, mas só consegui entregar um cartão ao motorista, que abriu o vidro para pedir que me afastasse do caminho. Havia cerca de 3 mil jornalistas em Lima naquela cobertura. E Minnig ainda resistia.

O japonês era um rapaz simpático e se comunicava em espanhol. Passamos horas sentados na calçada conversando sobre os dois países e sobre aquela crise peruana. Estávamos todos cansados dos longos plantões diante da embaixada.

Propaganda

Os guerrilheiros faziam as libertações de reféns no horário nobre de TV, mais apropriado para a divulgação da causa deles porque burlavam a edição e os fatos apareciam ao vivo, principalmente no Japão. Acreditavam que poderiam com isso pressionar o governo japonês do então primeiro-ministro Ryutaro Hashimoto a sensibilizar Fujimori para negociar.

Mas havia dias no cerco nos quais nada acontecia. Para frustração da massa de jornalistas que tomavam as ruas do bairro de San Isidro, isoladas pelos militares peruanos. Com aquele farto noticiário factual sendo oferecido a cada momento, a saída escolhida por muitas equipes era buscar novidades em outro “sítio”.

A casa da Cruz Vermelha era um deles. Quando o japonês não apareceu na terceira noite, pensei em abandonar a empreitada. Mas decidi aguentar mais aquela jornada. Foi mais uma noite sem sucesso. Minnig entrou novamente sem dar chance para uma pergunta.

Mas, pela manhã, veio a surpresa. Um funcionário da segurança abriu uma pequena janela de um palmo de altura e gritou o meu nome. Do outro lado da porta de aço havia ainda uma catraca, daquelas que têm ferros em cruz de cima a baixo e que só permitem a entrada de uma pessoa por vez. Bigler estava logo a seguir, com o meu cartão na mão.

Depois da entrevista, voltamos a conversar outras vezes. Bigler me ajudou a entender melhor o processo pelo outro lado das paredes daquele mundo violento. Voltei ao Brasil em janeiro, quando o drama da embaixada japonesa dava sinais de que o governo Fujimori prolongaria o cerco para ganhar tempo e organizar uma invasão.

Sempre que posso dou uma pesquisada para ver por onde anda aquela figura calma e atenciosa que me atendeu em Lima. Bigler permanece na Cruz Vermelha contribuindo pelo mundo com o diálogo em situações de risco. Uma nobre missão.

Fim do cerco

Quando Fujimori detonou a operação de resgate, em abril, eu estava na redação do Estado, em São Paulo. Vi pela TV, no meio da tarde, o momento do desfecho do sequestro da embaixada, que ainda continha 72 pessoas dominadas por Cerpa Cartolini. Bigler, acredito, deve ter ficado decepcionado com o final dos acontecimentos.

A imagem de Fujimori caminhando entre os corpos de guerrilheiros na escadaria da casa, logo após o combate, que foi estampada nos jornais do dia seguinte, sempre me recorda o esforço frustrado do funcionário da Cruz Vermelha para evitar a tragédia. E de sua expressão confiante num final negociado, algo diferente do que ocorria na Colômbia.

Retornei a Lima algumas vezes depois desse episódio. Uma delas para cobrir a campanha eleitoral que escolheu Alejandro Toledo presidente; outra para relatar negociações diplomáticas sobre a Alca. Recentemente, fiz uma viagem de quatro dias de ônibus de São Paulo a Lima.

O Peru mudou bastante. O país é hoje governado por Ollanta Humalla, um ex-militar que venceu eleições democráticas com discurso de esquerda e surfa em relativa prosperidade econômica no país. O Peru tem crescimento de PIB ao redor de 6%. Ex-guerrilheiros de extrema esquerda e ex-governantes corruptos, entre eles Fujimori e seu homem forte, Vlademiro Montesinos, estão na cadeia.

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Tem gente que prefere areia, praia, sol de 40 graus, boa cerveja, guarda-sol. E, então,  se manda para o litoral paulista, Rio, Nordeste, Caribe – e vai curtir o verão. Tudo bem, cada um é cada um. Mas dá só uma espiada no que está acontecendo nas terras geladas do Canadá, no lado do Pacífico, um intrigante pedaço do mundo. O vídeo é do site da Grouse Mountain, parque existente dentro da cidade de Vancouver, que está abrindo a temporada de inverno. Temperatura lá hoje, 21 de novembro,  está em -2 graus centígrados. Uma maravilha!

Opening Day – Winter 2011/2012 from Grouse Mountain Resort on Vimeo.

 

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20.setembro.2011 13:11:58

No sertão, à noite

Outro dia, quando andava pelo interior do país para uma reportagem sobre a presença do crack em pequenas cidades, a viagem ia tensa pela estrada vazia, noite a dentro, após um entardecer muito bonito no sertão de Pernambuco. Na BR 428, que liga Petrolina a Salgueiro, a forte presença da polícia, com barreiras e relatos de alta voltagem dando conta do combate pesado ao tráfico de drogas na região chamada de polígono da maconha.

Há um clima de insegurança constante naquela estrada, ainda mais à noite. E mais: com armamento de cano longo, às vezes artesanal, a bandidagem assalta carros e caminhões. Por cima de tudo, pequenas cruzes à margem da estrada marcam as mortes em acidentes com animais em todo o trajeto. Jegues e cabras costumam atravessar a pista com frequência, provocando graves ocorrências.

Cerca de duas horas depois de Petrolina, finalmente, apareceu a placa: Cabrobó. Passava das 20h quando vimos um posto. Ainda com um quarto de tanque de combustível, achamos, o colega José Patrício, do Estado, e eu, que deveríamos tocar direto para Salgueiro, adiante mais uns 60 quilômetros. Chegar logo, descansar do dia cheio, calorento, e da travessia da caatinga.

Mas aí pintou uma dúvida – que não durou mais do que alguns segundos. Não! Vamos parar, sim, e abastecer. Nunca se sabe o que pode acontecer na estrada a esta hora e com esse clima de insegurança noturna. O posto estava lotado de caminhões. Uns estacionados, outros em fila nas bombas de diesel. E quase desistimos. Novamente, voltamos atrás. “Entra ali, entra ali, por trás, a bomba do etanol pode estar do lado de lá”. Devagar, fizemos a volta nas carretas. Lá estava a bomba do álcool, livre.

Ao abrir a janela para falar com o frentista, notamos que havia música no ar. Era um cântico religioso, vindo de um caminhão bem ao lado da bomba. E havia muita gente olhando para um telão. Enquanto o rapaz enchia o tanque, notamos um sacerdote na carroceria de um caminhão branco, abençoando as pessoas.

Naquele momento, chamava para a comunhão. Muita gente voltou a se aproximar do altar improvisado. Havia até algumas freiras entre o povo. Em seguida, encerrou a cerimônia. E começou a distribuir terços coloridos.

……………………………………………………………………………Foto: José Patrício/AE

Ficamos sabendo então, pela moça do projetor das imagens do telão, que aquela era a missa do padre Miguel, um padre camioneiro, que reza pelas estradas brasileiras e que, naquele dia, naquele local, repetia a cerimônia de uma vez por ano – e exatamente naquele horário.

Até a chegada a Salgueiro, para onde seguimos, já em velocidade mais baixa e com os tercinhos recebidos,  ficamos matutando, cada um com seus botões: caramba, cruzando o sertão pernambucano, à noite, no improviso, ameaçados até por jegues, encontramos aquela cena.

Fomos “obrigados” a tomar uma cerveja em nome do padre Miguel.

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-Para ler a reportagem e ouvir entrevistas, publicadas no domingo, dia 18/09,  clique aqui.

-Para ler a continuação, publicada na segunda-feira, dia 19/09,  clique aqui

-Para ver e ouvir Edição Especial  sobre a reportagem clique aqui

 

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Andei outro dia pelo sertão de João Cabral de Melo Neto. Vi o poeta na curva da esturricada caatinga, no umbu, no xique-xique, no mandacaru. Mestre João, operário da palavra exata, crua. Em “O Hospital da Caatinga”, brilha como fio de faca.

A caatinga de João é  “hospital”,  ortopédico, a curar o atrofiado, o informe, o torto – sujeitos que povoam o deserto. Paus curvos (como Van Gogh) e pontiagudos (como João Cabral) buscam vida nas frestas dos raios do sol – até cansar.

Em “Bifurcados de ‘habitar o tempo”, a caatinga pernambucana do poeta João “ata a imaginação”, prende-a;  e   ”fere com seu vazio em riste”.

Em “Pernambuco em mapa”, João prega altivez,  como um mandacaru  a dar uma “banana/a todos que do Sul/olham-no do alto da mandância.”

Salve João Cabral de Melo Neto!!!

(Poemas citados estão no livro “A educação pela pedra e depois”, Editora Nova Fronteira, 1997)

 

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Outro dia, subindo e descendo as cordilheiras andinas, por horas e horas, em uma viagem a la García Márquez, para o Estado, fiquei recordando de uma paixão antiga: os mapas.  Sim, os mapas. O poeta Mario Quintana gostava de dicionários. Passava horas olhando as palavras, procurando-lhes o sentido, divertindo-se ao inventar os próprios dicionários.

Bom, cada um com seus problemas. Nos escritos de Quintana aprendi a ler e a gostar desses compêndios sem figuras. E combinava aquilo com o fascínio da leitura dos gibis. Mais ou menos ao mesmo tempo descobri que também gostava das descrições dos cartógrafos. Até hoje, por onde ando, procuro mapas.

Nos últimos anos, a vida ficou mais fácil com a ferramenta Google Maps e sua evolução,  o Google Earth, que nos permite ver as imagens. Para ver exatamente por onde passei nas alturas dos Andes, abri uma temporada de buscas na web. E encontrei uma maravilha: a coleção de 117 mapas do Brasil da fantástica coleção histórica da David Rumsey Cartography Associates, de San Francisco (EUA). É uma “viagem”.

Ao alcance de um click há relíquias que já exigiram, noutros tempos, demasiado esforço e muita paciência. Na coleção há descrições como a do Brasil de 1835, quando São Paulo e Rio Grande do Sul faziam fronteira diretamente, sem Santa Catarina e Paraná a separá-los.
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E muitas outras belezas. Como aquele de 1747, de Emanuel Bowen, publicado em Londres. E um outro, ilustrado, com cenas brasileiras, de A. Fullarton, 1872, também publicado em Londres, ambos relacionados na coleção.

David Rumsey criou essa oportunidade para os adoradores de mapas se divertirem e mais: usando as modernas ferramentas Google, jogar um mapa antigo sobre o globo (Earth) para comparar as evoluções da ocupação do espaço das nações na Terra. Coisa de maluco.

E pensar que o meu querido poeta sulista perdeu isso!

 

 

 

 

 

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