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Ah, a “medialuna” de Montevidéu…

Pablo Pereira

13 maio 2014 | 19:50

Outro dia, cortando uma “morcilla salada” enquanto um assador sapecava o “asado de tira” bem na frente do balcão no Mercado do Porto, em Montevidéu, pensei em como seria agradável se tivéssemos em São Paulo um pouco da tranquilidade desfrutada pelos uruguaios. Com 3,4 milhões de habitantes, o Uruguai tem renda mensal per capita de US$ 13,5 mil  (cerca de R$ 30 mil), carne excelente, doces de leite de dar água na boca e uma estranha (para nós, brasileiros) ausência de assaltantes, ladrões e assassinos à espreita nas ruas.

Devagar, o vizinho país toca o dia a dia para que sua gente platina confirme, ao largo dos anos, a alta expectativa da (boa) vida nacional: 77 anos.

Por estes dias, Montevidéu é uma beleza de cidade, a duas horas de voo de São Paulo, para uma escapadela de folga.

Foto: Pablo Pereira

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Ensolarada, colorida nos finais de tarde, é perfeita para caminhadas à beira do Prata no calçadão que tem mais de 22 quilômetros, do centro antigo, zona portuária, até imediações do aeroporto, passando por praias e bairros charmosos de Punta Carretas, Pocitos, Buceo, Punta Gorda e Carrasco. Bem que o administrador público brasileiro poderia se consultar por lá para ver como se aproveita, com respeito, a beleza de um orla linda e preservada.

Foto: Pablo Pereira

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À noite, a cidade é geladinha (pronta para o vinho). Há ainda os cassinos, o teatro com sessões às 21h, a visita à Casapueblo de Vilaró, em Punta Ballena, na chegada a Punta Del este,  e a intrigante “morcilla dulce”.

Isso mesmo: a famosa salsicha típica tem sua versão adocicada. É uma iguaria que o bom churrasqueiro uruguaio sempre faz questão de oferecer de antepasto. A mais conhecida, pretinha, encontrada também nas cozinhas uruguaias de São Paulo, é salgada. Mas a “morcilla dulce” servida como entrada no jantar do restaurante Tandory, de Pocitos, também é uma delícia. Ainda mais quando vem antes da costela suína servida com o risoto temperado no limão.

Come-se bem em Montevidéu!

E bebe-se igualmente muito bem. O vinho “nacional” é da uva tanat, uma francesa que o Uruguai trata com um carinho de pai e que virou marca uruguaia.

E as cervejas, “maestro”, que sabor!

De quebra, mesmo em tempos de inflação uruguaia, ainda paga-se (aí não vai nenhuma novidade) bem menos do que se desembolsa por semelhante pedida na capital da carestia gastronômica – São Paulo.

Vida deles

Na semana passada, quando os uruguaios comentavam a então iminente visita do presidente Pepe Mujica ao todo poderoso Barack Obama, em Washington, ocorrida na segunda-feira, 12, o país já vivia um clima de disputa eleitoral com a campanha nas ruas para as candidaturas da sucessão presidencial.

O candidato do governo, ex-presidente socialista Tabaré Vasquez, liderava a corrida na Frente Amplio, chapa de esquerda que elegeu Mujica, o ex-tupamaro. Na oposição, Jorge Larrañaga (Partido Nacional) e Pedro Bordaberry (Partido Colorado) corriam para se consolidar em suas legendas como as principais opções do eleitorado discordante. A prévia partidária será no dia 1º de junho e a eleição está marcada para o dia 26 de outubro, com eventual segundo turno em 30 de novembro.

Nos jornais, rádios e conversas “por las calles” os principais debates eram o tamanho da pobreza e a inflação. Aqui e ali se houve também ecos de quem é contra a lei que autoriza a venda de maconha nas farmácias. Mujica sancionou a lei, mas ainda se nota resistências sobre o tema. 

No quesito pobreza, o governo faz propaganda de uma redução a 12% – são uruguaios que ganham menos de 9.600 pesos mensais em Montevidéu, o que dá, pelo câmbio destes dias, algo em torno de R$ 1 mil. Mas a oposição tem um outro número: 17%, índice que devolveria a pobreza aos níveis de 1996.

E esse número pode até chegar a 30%, dependendo do método de medição, segundo relato do editorial do jornal El País. Pelos dados do Banco Mundial, o Uruguai tem PIB anual de 50 bilhões de dólares e o país cresce a 3,9% (2013) depois de ter experimentado taxas bem mais altas nos últimos dois anos (8% e 6%).

Nos postos de combustíveis da capital, o litro da nafta (gasolina) sai por algo em torno de R$ 2,60, preço até bem razoável para padrão brasileiro. Mas um frentista, descontente com o governo, dava o tom da vida real para muitos uruguaios. Reclamava que a vida tem piorado. “Plata”, dizia o rapaz, esfregando as pontas dos dedos e explicando o valor do salário mínimo uruguaio, que, segundo ele, está na casa dos 600 dólares (R$ 1.200) mensais. E acrescentando:  os preços disparam.

A inflação, que está na casa dos 8%, assusta uruguaios que há uma década vinham crescendo, mas que, pelos dias de hoje, sentem a redução de expectativas. Um café expresso custa 50 pesos (R$ 5) e uma coca-cola, de 80 a 100 pesos, algo como R$ 8 e R$ 10. Pelas diversas casas de câmbio do centro antigo da capital, o real, moeda aceita em boa parte do comércio, estava, na semana passada, cotada a 9,40 pesos. E o dólar era trocado na base dos 22 pesos. 

Mas, voltando ao mundo do turista, ao passeio, que se estendeu por boas estradas da bela Punta Del Este à histórica Colonia Del Sacramento: ficou faltando lembrar de uma outra maravilha matinal: a “medialuna”!

Ah, o “desayuno” com “medialuna”…

 

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