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A integração pela bola

Pablo Pereira

domingo 15/06/14

A bola. A bola é o caminho. Tudo o que governantes tentaram dividir, com as guerras luso-hispânicas dos século 18 e 19, o massacre dos paraguaios (1870), o princípio dos macaquitos (1900), o Acre (1904) ao norte e Itaipu ao sul (1980), toda essa imensa desconfiança, o ambiente esportivo do futebol está unindo. A integração [...]

A bola. A bola é o caminho. Tudo o que governantes tentaram dividir, com as guerras luso-hispânicas dos século 18 e 19, o massacre dos paraguaios (1870), o princípio dos macaquitos (1900), o Acre (1904) ao norte e Itaipu ao sul (1980), toda essa imensa desconfiança, o ambiente esportivo do futebol está unindo.

A integração latinoamericana ocorre pela bola. É ela que atrai até uma divertida mudança na língua. Ganha força nesta Copa do Mundo brasileira o curioso portunhol, livre manifestação oral de gentes que juntam idiomas de origem europeia para se entender na América do Sul. Demorou 500 anos. Mas está acontecendo.

A melhora da condição de vida dos brasileiros, que por séculos viveram de costas para os hispânicos, está ajudando o gigante Atlântico a enxergar o Prata, os Andes e até ver claramente o azul do Pacífico. Neste final de semana, o exótico Caribe também apareceu, trazido por alegres e amarelos colombianos.

O Brasil, com todos os seus problemas internos, suas chagas sociais expostas nas favelas e nas manifestações de rua, a violência, suas nuvens de mosquitos infectos espalhando doenças, sua elite chula, prepotente e descivilizada – que já apoiou ditadura e agora mostra sua cara de chiqueiro gritando palavrão em estádio -, felizmente, tem um outro lado agradável: a alegria daqueles que entendem a diversidade, a democracia e, sinceramente, amam a bola.

A bola não tem arestas. É a imagem do infinito. Os que amam a bola rolando vivem a plenitude da boa vizinhança, do carinho com quem é visita, do real entendimento da convivência para curtir a hora da festa. Mostram que integrar não é entregar, nem dominar. Cante seu hino, mas, depois do jogo, tome uma cerveja comigo. E vamos falar de bola. Sorrir não é aderir. Curtir não é capitular.

O time bom-de-bola de Felipão pode não levar a taça da Fifa no dia 13 de julho. Mas a bola, a ferramenta de trabalho de Robben, Pilro, Messi, Drogba, Campbell, Luisito, Honda, Neymar e Oscar, certamente, já proporciona a este país um dos mais belos momentos de sua história.

Além de um saudável chamamento à consciência política da população, que há um ano cobra, democraticamente, seus direitos, a bola está abrindo uma porta para a real e fraterna misturança sulamericana.

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