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Blog da Garoa

29.setembro.2012 12:17:31

Miniconto paulistano

Lá estava ele, parado no trânsito da Rebouças, perto do Hospital das Clínicas, às 10h do ensolarado sabadão, quando a moça do rádio do carro informou: “Temos 4 quilômetros de congestionamento em São Paulo. A Avenida Rebouças tem o único engarrafamento da cidade”.

 

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Manifestantes tomam as ruas de Madrid novamente nesta quarta-feira, 26, 24 horas depois de uma outra concentração de cerca de 5 mil pessoas diante do Congresso terminar em pancadaria no enfrentamento com a polícia na tarde/noite do que já ficou conhecido como 25-S (setembro). As imagens dos conflitos na rua, transmitidas ao vivo por sites espanhóis, mostram um pouco do clima tenso vivido na Espanha nos últimos meses.

A frustração na Espanha, que visitei em junho, cresceu bastante neste segundo semestre depois que Madrid tomou pé do tamanho da crise financeira do país e abriu negociações com o Fundo Monetário Internacional para obter financiamento de ajuda do déficit. Os efeitos nocivos da crise econômica sobre a sociedade espanhola detonam o emprego e desatam amarras que havia muito tempo nem eram notadas, como as do nacionalismo de comunidades autônomas do reino de Juan Carlos – observem a Catalunha, que no último dia 14 saiu às ruas gritando por independência, cujos ecos já bateram aqui,  e que se prepara para eleições antecipadas para novembro.

Com o país em dificuldades econômicas e pressões políticas em alta, a polícia desce a marreta na rua e até engrossa o coro dos manifestantes de Madrid com gente do próprio partido da situação, o PP. Como o comerciante do bar Prado, mostrado no El País, que se dizia do PP mas impedia a polícia de caçar manifestantes dentro de seu restaurante.

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“Chove torto no vão das árvores.

Chove nos pássaros e nas pedras.

O rio ficou de pé e me olha pelos vidros.”

Não é março; é setembro. Mas essas três linhas do “O guardador de águas” Manoel de Barros (Record, 1998) são boa companhia no retorno alegre à cidade da chuva, que à noite virou garoa.

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18.setembro.2012 16:35:12

Que falta faz uma enxurrada!

Uma seca castiga a cidade. Quem passa nas Marginais por estes dias de sol forte e pouco vento sofre com o cheiro de podre do rio. Lá, por trás das floreiras, uma água preta, um esgotão a céu aberto, parece se mover só quando passam as barcaças. O cheiro é forte. Uma nojeira. Que venha logo uma enxurrada para “lavar” essa sujeira.

Fotos: Pablo Pereira

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A semana começou tensa em São Paulo. Uma pane de trens logo cedo na segunda-feira, seguida de quebra-quebra de vagões, atrasou o deslocamento de milhares de pessoas. Pior: um incêndio na favela do Moinho, região de Santa Cecília, o segundo em menos de um ano, interrompeu o tráfego em outras linhas da CPTM e danificou um viaduto. Caos no trânsito e inferno na vida de centenas de moradores que perderam o pouco que tinham, consumido pelo fogo. Uma pessoa morreu.

Esta é uma São Paulo precária, que muita gente não nota mas que insiste em existir sem que o poder público delas dê conta, é real. O belo livro Cidade de Muros – crime, segregação e cidadania em São Paulo, de Teresa Pires do Rio Caldeira, editado pela Edusp, aborda o tema com profundidade. E lembra, à página 240, que o problema da habitação é antigo mas que se agravou bastante nas últimas duas ou três décadas.

A pesquisadora mostra que em 1973 São Paulo tinha 1,1% da população em favelas. Em 1980 já eram 4,4% paulistanos vivendo como favelados. Em 1987, 8,9%. Em 1993 esse número era de 19%, ou seja, quase 2 milhões de pessoas morando em precárias condições na “rica” São Paulo.

Uma olhada no mapa da Habisp, órgão da Prefeitura, nos revela que em 2008 havia 1.565 favelas na cidade, além de 1.152 loteamentos irregulares e 1.885 cortiços. Os dados atuais da Habitação municipal mostram que há gente precisando muito de ajuda para morar em 33 locais do Centro; 285 na zona Leste; 399 na norte; 201 na região sudeste; e 714 comunidades na zona sul. Ao todo, segundo o município, há 1.632 áreas identificadas para projetos de urbanização. É muita coisa.

A Prefeitura costuma fazer propaganda de seu Programa de Urbanização de Favelas dizendo que atende a 200 mil pessoas. Há aí até o trabalho do arquiteto Ruy Ohtake, que faz habitação popular em Heliópolis. É bastante. Mas o passivo ainda é muito grande. A cada uma destas queimadas de barracos – uma centena nos últimos dois anos – dezenas de pessoas entram em pânico.

O livro de Teresa Pires do Rio Caldeira trata dessas deficiências. Segundo a pesquisadora, são sinais da falta de democracia na cidade. Tem razão. Não há democracia plena com tanta gente nesta situação. E a julgar pelo que se vê na campanha eleitoral, onde os candidatos lutam pelo controle de um orçamento anual de quase R$ 40 bilhões, a coisa não tem solução no horizonte.

 

(Texto atualizado após publicação no Estadão Noite no iPad)

 

 

 

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A crise econômica da Europa está levando a Espanha a reabrir cicatrizes de feridas de 300 anos dentro e fora do país. Depois de cerca de 1,5 milhão de pessoas protestarem por independência em Barcelona, capital da região autônoma da Catalunha, os ecos do 11 de setembro catalão bateram fortemente em Madri, e foram ouvidos até em São Paulo.

Para catalães que vivem no Brasil, a semana foi especial. A “Diada”, data nacional da Catalunha, que lembra a invasão da cidade em 1714, foi festejada por um grupo de cerca de 30 pessoas que se reuniram na terça-feira à noite em um restaurante. No sábado, no vão do Masp, eles voltaram a fazer festa para o centenário desejo de separação da região do resto da Espanha.

Masp. Catalães se reúnem para ouvir música pela independência da Catalunha/ Foto: Pablo Pereira

“Você pode perdoar, mas esquecer, nunca!”, disse em São Paulo o empresário catalão Ferran Royo Seubas, 63 anos, presidente do Clube Brasileiro-Catalão de Negócios de São Paulo e ferrenho defensor da independência da Catalunha. “Todos os anos nos reunimos para lembrar da data”, disse Seubas em seu escritório na Vila Olímpia. “O que aconteceu em Barcelona é muito forte”, afirmou. “Somos pacientes. Já estamos esperando por isso há 300 anos.”

Empolgado com a repercussão do movimento, ele recordou a luta da Catalunha contra o governo central de Madri. “Talvez sejamos o único povo que comemora uma derrota.” Em 11 de setembro de 1714, após um cerco militar de quase um ano, Barcelona foi destruída por tropas da aliança entre exércitos da França e do Reino de Castela. “Éramos um país. Perdemos tudo. E fomos abandonados pelos ingleses. Aquela foi a primeira grande guerra na Europa”, afirmou Seubas. “Desde aí somos humilhados pelo governo de Madri.”

Crise. A Catalunha, como o resto da Espanha, vive situação econômica difícil. Com PIB em queda de 0,5% no primeiro trimestre de 2012, em relação ao primeiro trimestre do ano passado, amarga uma crise que nos últimos meses levou o governo central espanhol a recorrer ao Fundo Monetário Internacional.

Pressionados pela recessão na Europa, a agricultura e os serviços da Catalunha cresceram abaixo de 1%, mas a indústria na região registrou -0,6% e a construção desabou 5,6% no primeiro trimestre. A região tem mais de 900 municípios e 7,3 milhões de habitantes, 16% do total dos espanhóis (47 milhões). A principal cidade é Barcelona, com 1,6 milhão de habitantes. A Catalunha responde por 20% das riquezas produzidas na Espanha.

A crise reacendeu antigos desejos de separação. Se há hoje um sentimento único na sociedade catalã, muito marcada internamente pelas inimizades familiares, esse é o da independência do governo central de Madri. Para o empresário catalão que vive em São Paulo, o momento político é adequado para a consolidação da independência. “Não falo de separatismo. Queremos é a independência, um Estado federal no qual possamos ter, por exemplo, nosso próprio ministério da economia, a chance de controlar a arrecadação de impostos.”

Seubas repete o argumento usado em Madri, na quinta-feira, pelo presidente da Catalunha, Artur Mas, que foi à capital espanhola pedir a criação de um Estado catalão independente, com soberania fiscal. A linguagem de Seubas é cuidadosa, assim como a do líder nacionalista.

Referendo. De acordo com Seubas, o sucesso da marcha não é um instrumento para rompimento brusco. Mas deve funcionar, segundo ele, para fomentar um debate político com pelo menos um objetivo claro: um referendo sobre a separação desejada há séculos. “A outra alternativa seria o Parlamento votar pela independência.” No primeiro caso, segundo Seubas, mesmo que fosse rejeitada a separação, como ocorreu recentemente com a comunidade canadense de Quebec, pelo menos já estaria criado um fato político importante.

Seubas vai além. No escritório paulistano dos negócios catalães, ele alegou que o momento é delicado também em relação ao vizinho País Basco, igualmente região autônoma. “Não me surpreenderia se os bascos conseguissem sua independência ainda antes da Catalunha”, afirmou. “Eles terão eleições aí na frente (outubro). São mais calados, mas agem mais do que nós.”

O empresário, que faz questão de esclarecer que não tem função oficial do governo catalão – mantém uma representação para promoção de negócios em São Paulo -, acredita que diante da atual situação da Europa é possível avançar com apoio no Parlamento Europeu. A situação é complicada. Um rompimento com Madri e a criação de um novo Estado catalão enfrentaria dificuldades na comunidade. Para a Catalunha entrar na zona do euro seriam necessários os votos dos países-membros, inclusive da Espanha. Essa é uma das trincheiras que devem ser ocupadas nos próximos meses, segundo o catalão, como reforço da ideia da independência.

Mas Seubas está otimista. “Não há neste momento o perigo que por muito tempo se temia que era a Brunete”, disse. A División Brunete era uma tropa armada com tanques que o ditador Francisco Franco mantinha estacionada em Valência, vizinha da Catalunha, para reprimir a oposição nos anos 30, durante a Guerra Civil espanhola.

Paixão. Publicitário, fala da “independência” com clara paixão. Ele é integrante da Convergência e União (CiU), uma frente de partidos liberais nacionalistas aliados com a democracia cristã. “É uma federação de partidos de centro-direita.” A CiU é hoje governo da Catalunha. O presidente da Generalitat, Artur Mas, é um dos principais líderes da CiU. A segunda força política da Catalunha é dos socialistas (PSC-PSOE), seguidos pelo Partido Popular (PP), do presidente do governo espanhol, Mariano Rajoy. “O PP é o partido dos herdeiros do franquismo”, afirma.

Ele lembra que a história mostra que a Catalunha já era uma nação mil anos atrás. “Muito antes de a Inglaterra ter Constituição, já havia um conselho, que era o Parlamento catalão, que se reunia em Barcelona, no Bairro Gótico.” Segundo ele, “a Catalunha já teve Nápoles e chegou até a Sicília”. “Não somos belicosos. Queremos mudanças democraticamente. Mas não queremos mais ser humilhados. Já chega!”

Esportes. Casado com uma brasileira, Maria do Amparo, especialista em Recursos Humanos, Seubas mora na zona oeste de São Paulo. Ele se diz impressionado positivamente com o Brasil, que não conhecia até se casar com a ex-colega, quando trabalhavam numa empresa dos EUA. Na cidade, ele se considera um homem de sorte. “Nunca fui assaltado”, respondeu sobre a vida paulistana.

O que preocupa o empresário é o que ele chama de “crescimento desordenado” da cidade e os serviços públicos de transportes “que não funcionam como na Europa”. “O trânsito é muito complicado”, disse, alegando que sempre foi muito bem tratado por aqui. Apaixonado por futebol, Seubas preside o fã-clube do Barcelona em São Paulo, a Penya Barcelonista. Ele costuma comemorar as conquistas do Barça no futebol em restaurantes paulistanos, onde festeja com as bandeiras da Catalunha e do clube de Lionel Messi.

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(Reportagem publicada em 16/09/2012 no caderno Economia do Estado)

 

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Desde os anos 40, pelo menos, que se fala que um dia o trânsito de São Paulo vai travar. Naqueles anos da explosão demográfica e intensa exploração imobiliária chegou-se a cunhar uma expressão para combate: São Paulo não pode parar! Parar, em São Paulo, significa, até hoje, perder. Perder dinheiro, oportunidades, negócios, fortuna.

Sem dúvida, mover-se é bom. Mas parar poderia também significar reflexão – movimentar os neurônios também pode ser bom. Refletir, por exemplo, por que não se vê ninguém muito preocupado com uma outra perda, a da qualidade de vida.

Deve ser porque os paulistanos acham que uma coisa pode ser compensada por outra. Afinal. correm a semana inteira e, na sexta-feira, descontam o estresse – nas estradas, indo para a praia, para a chácara, mesmo sabendo que a volta pode ser terrível!

A convivência na semana, à espera da fuga, no entanto, beira a insanidade. Basta tentar rodar por meia hora por aí para se notar que nos últimos meses o antigo temor já se transformou em realidade. Olhem para as pessoas dentro dos carros! Se não parou tudo, ainda, já são claros os sinais da fadiga na relação cidadão-deslocamento-cidade.

Na noite de quinta-feira, no curioso 7º Desafio Intermodal, uma corrida que teve largada às 18h, a terrível hora do pico, envolvendo 14 formas diferentes de deslocamento (carro, ônibus, trem, bicicleta e caminhada), mais uma vez mostrou isso. Com apoio da Rádio Estadão/ESPN, o evento comprovou que naquele momento um carro só ganhava de uma pessoa a pé.

A paradeira está em toda parte. Só que picada. Tem gente que se engarrafa ainda dentro do estacionamento. O futuro está aí, parado! Um empresário catalão que vive na cidade há pouco tempo não entende como o transporte coletivo é como é, ou seja, uma tortura, e o trânsito está assim. Por que não funciona?, perguntava ele nesta semana, durante uma entrevista, sem entender o motivo da inoperância de tão básica necessidade da população. É assim porque não se para para pensar.

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11.setembro.2012 12:13:01

A musa paulistana voltou

Depois de 54 dias sem chuva, São Paulo amanheceu com garoa na manhã desta terça-feira, 11, informa a jornalista Gheisa Lessa, do estadão.com.br. Que beleza!

“A fina garoa, que deixou o índice de umidade do ar em 80%, não pode ser classificada como chuva de acordo com o Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia), mas trouxe alívio às ruas”, diz a notícia. Para completar:  ”Na última segunda-feira, 10, a capital chegou a ficar 5 horas em estado de atenção por causa da baixa umidade do ar, com mínima de 18%.”

Felizmente ela, a garoa – a salvação da cidade desde sempre -, voltou. Se no Século 16 o massacre dos nativos por aqui era feito na chuva e na lama, como nos lembra a arte de Debret, e nos Oitocentos Castro Alves reclamava do frio nas caçadas na Várzea do Carmo, hoje na metrópole mata-se um leão a cada dia em clima de deserto, numa secura de rachar!

Nos últimos dias, os gramados estavam amarelados e as árvores perdendo as folhas –  num outono fora de hora. Mas, afinal, a cidade vê ressurgir o amor de Tália. Quando está difícil até de respirar, ela manda cobrir a cidade com seu frescor. O verde pinta os canteiros e os sabiás se alvoroçam anunciando que vem aí a primavera.

Salve a garoa de Tália!

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07.setembro.2012 21:20:00

Em política nada é impossível

Em política não se deve usar a palavra “impossível”. Essa é uma das leis do jogo desse mundo tão peculiar dos que lutam para ter o poder de comandar. Ao contrário: em política tudo é possível.

Porém, quem acompanha a vida dos comitês de campanha política partidária em campanha em São Paulo sabe que na militância na cidade nessas épocas de eleição há comportamentos que beiram à idolatria. Muita gente veste camisa partidária para ganhar algum. Muitos participam por interesses outros. Mas todos, no fundo, estão tentando evitar que o adversário lhes tire a oportunidade de se aproximar do poder e de tudo que vem pendurado nele.

E neste ambiente há um local que é sagrado, o comitê de campanha. Ali adversários políticos se transformam em inimigos. É um lugar inviolável, quase como se fosse a casa de uma proposta de vida, um reduto a ser defendido de qualquer ameaça até de cores estranhas.

Há muitos anos São Paulo tem pelo menos duas correntes políticas que se enfrentam com momentos de forte tensão, e até agressividade. Gente que não se bica, mesmo! São petistas e malufistas. Quem não se lembra das batalhas para a tentativa de cassação da então prefeita Luiza Erundina, hoje no PSB, na Câmara dos Vereadores? Ela própria se negando a ser vice na chapa de Fernando Haddad? E das brigas de Paulo Maluf com Marta Suplicy? Um malufista encara um petista, e vice-versa, como alguma coisa difícil de engolir.

Mas, desde que o ex-presidente Lula entrou na campanha municipal ao lado de Paulo Maluf ocorrem coisas estranhas. Pelo menos nas aparências. No particular, os adeptos de cada uma das correntes gostaria mesmo era de pular – politicamente, quero dizer – na garganta do outro.

Mas já que os chefes fecharam por cima, confirmando aquela regra básica lá do início do texto, é possível se ver hoje cenas que até pouco tempo eram improváveis: um comitê malufista com material de campanha em vermelho, com o 13 do PT, em destaque, ao lado de manuais, cartilhas e santinhos de candidatos malufistas. Tudo exposto sobre um balcão dentro da sede do Partido Progressista, de Paulo Maluf, no Bixiga!

Quem diria… Realmente, em política, nada é impossível.

 

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04.setembro.2012 21:58:05

São Paulo tem fome de cultura

São Paulo entrou para a lista das 12 principais cidades culturais do mundo. Encomendado pela prefeitura de Londres, o relatório mundial das cidades culturais (World Cities Culture Report) avalia 60 indicativos nas áreas da literatura, cinema, artes visuais, espetáculos, além de locais para games – este último item uma inovação na pesquisa. E lá aparece a capital paulista, a única cidade sul-americana em destaque na lista que tem Nova York, Paris, Londres.

É importante que a cidade entre nesses documentos internacionais. O País vive um ambiente de atração de muitos estrangeiros e de melhora nos indicadores de qualidade de vida dos nacionais. Havia muitos anos que o Brasil andava com a estima baixa, “olhando para o chão”, como disse o poeta Chico Buarque.

Mas os tempos são outros. O País é atração e São Paulo puxa em muito essa posição já há bastante tempo. “A quantidade de eventos em grandes cidades é tal que os leitores, ouvintes e espectadores querem do jornalismo que os oriente, que os ajude a filtrar o que ver ou não ver”, escrevia em abril de 2009 o jornalista Daniel Piza, de saudosa memória, ao comentar o jornalismo cultural – que ele achava equivocado, “alinhado com a mentalidade publicitária, da “divulgação”.

O estudo da britânica BOP Consulting mostra bem que há uma grande massa demandando cultura sem que a cidade tenha avançado nessa direção na mesma proporção. São Paulo tem 7 casas de shows, segundo o estudo, contra o dobro existente em Paris. Todos sabemos que por aqui tudo lota fácil. E que a exploração impera!

Os shows custam os olhos da cara. Um espetáculo como o de André Rieu, no Ibirapuera, tem ingressos no valor de um salário mínimo! A meia entrada custa R$ 300! Ninguém hoje vai ao cinema acompanhado sem desembolsar coisa de R$ 100 no programa. Mesmo assim, São Paulo até que vai bem quando se olha o movimento dos ingressos de cinema: 50 milhões contra 58 milhões em Paris, por exemplo, segundo os dados do relatório.

No que se refere a teatros e museus, a distância é grande. A cidade tem 116 teatros; Paris, 353. No item bibliotecas, SP tem 116; Paris, 830. E os visitantes de museus aqui são 2,1 milhões contra os 23,4 milhões da capital francesa.

É claro que São Paulo não tem nem idade para fazer frente às gigantes de patrimônio histórico europeias. A vida nos últimos 100, 150 anos a fez um palimpsesto, na excelente definição do historiador Benedito Lima de Toledo, que constata a cidade se redesenhando sobre si mesma várias vezes, com todos os prejuízos de memória que essa prática promove.

Mas é interessante destacar que o relatório constata a existência de um amplo espaço para crescimento nos negócios culturais na cidade. São Paulo, que já é referência da gastronomia mundial, tem de avançar forte sobre outra necessidade que grassa por aqui, a fome de cultura.

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(Texto publicado também na Edição Estadão Noite, no iPad)

 

 

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