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Blog da Garoa

26.março.2012 11:54:56

Guerra ou Paz?

É comovente ver a alegria no rosto das pessoas quando estão diante dos painéis gigantes de Portinari, expostos no memorial, em São Paulo, gratuitamente. Na tarde de domingo, dia de clássico no Pacaembu, havia na Barra Funda caravanas, cadeirantes, crianças. E fiquei com a sensação de que “Guerra” atrai mais atenção do que “Paz”. Será?
Domingo, 24 de março, Portinari no Memorial/Foto: Pablo Pereira

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Outro dia, assisti a um filme pancadão, daqueles que no final você fica alguns segundos sem saber onde está a porta de saída. Chama-se A Separação, feito por iranianos, dirigido por Asghar Farhadi, e que beliscou um Oscar em fevereiro. É um cinema que segue o ensinamento do bom roteiro, ou seja, prende o espectador logo nos primeiros 10/15 minutos.

Neste tempo, o diretor pega o espectador, arrastá-o pra lá e pra cá, e faz sumir quaisquer referências que não estejam na tela. Quem faz roteiros trabalha com essa ferramenta, é o lide do cinema. Se o leitor (espectador) escapa na abertura, a comunicação já era.

 Em A Separação a pancadaria, no bom sentido, vai ainda além desse tempo. Farhadi fez bem mais do que fixar seu alvo. O filme dele é intenso do começo ao fim. É muito mais do que uma história de fissuras nas relações entre pessoas. É espantosamente humano. Um perturbador mergulho no indivíduo.

 

 

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17.março.2012 09:22:25

Vilanias!

 

- Calma, meu, calma, disse-lhe eu, no sonho.

Estávamos, no sonho, comendo nosso bife com saladinha de alface e tomates na mesinha redonda do bar quando notei que ele estava amuado. Estranhei. Aquilo era raro. Ele era um cabra de opiniões fortes e claras. Olhava as coisas de frente, escrevia com mão segura. Era um tipo alegre, “pra frente”, como dizia a minha mãe quando queria descrever alguém que encarava a vida na boa. Minha mãe (que já se foi) tinha também uma outra expressão curiosa. Quando alguém falava um despropósito qualquer, mesmo à guisa de homenagem, ela logo decretava:

- É um pulha!

Ele, não. Ele não era como minha mãe. Ele gostava de conversar, deixava rolar, buscava diálogo. E respondia com serenidade às críticas a seu árduo trabalho cotidiano de escrever – mesmo diante de injustiças. A idiotia alheia, certamente, era um prego em seu sapato. Mas ele não permitia que a modorra o tirasse do prumo.

Naquele final de janeiro, no sonho, na frente do bife, porém, estava incomodado. E além da conta. Desviava o olhar. Notei que a voz não lhe saía. Parecia engasgado. Queria falar, e não conseguia.

Pronto, pensei. É isso! O cara está tendo um chilique, irritadinho, porque não consegue falar. Ah, os intelectuais!

Pensei também em caçoar dele, sugerir balas de gengibre ou pastilhas de guaco para que recuperasse a voz. Mas, do nada, comecei a ficar angustiado.

Os sonhos, às vezes, imitam o cinema e os fatos mais estranhos acontecem diante de nós. Os lugares se misturam, as pessoas nos escapam, somem na terra, voam. E a gente descobre as coisas sem necessidade de palavras. A pessoa não fala, mas sabemos exatamente o que ela está sentindo.

E eu, então, no sonho, entendi o que o sufocava para além da traição da garganta.

Justo ele, que pagava por um bom combate, não pudera devolver uma grossa deselegância que um conhecido acabara de lhe fazer – e, o pior, pelas costas! 

Naquele instante, estava contrariado com a vilania, mas quieto.

Tinha razão. Haviam sido tão próximos, por tanto tempo, e agora o “amigo” o apunhalara daquela maneira, desconfiando dele publicamente e – imperdoável – negando-lhe a chance do contraditório.

Quando o sonho se mudou de repente para um gramado verde, onde estávamos de chuteiras, lembro-me bem de ter dito:

- Daniel, esquece isso. Esse sujeito é um enganador. Pedante. Um pulha!

Baixara em mim o indignado espírito da minha velha.

E o sonho mudara novamente. Ele (calado como um morto, pobre homem!), olhando para o céu, já não me ouvia…

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