Outro dia, assisti a um filme pancadão, daqueles que no final você fica alguns segundos sem saber onde está a porta de saída. Chama-se A Separação, feito por iranianos, dirigido por Asghar Farhadi, e que beliscou um Oscar em fevereiro. É um cinema que segue o ensinamento do bom roteiro, ou seja, prende o espectador logo nos primeiros 10/15 minutos.
Neste tempo, o diretor pega o espectador, arrastá-o pra lá e pra cá, e faz sumir quaisquer referências que não estejam na tela. Quem faz roteiros trabalha com essa ferramenta, é o lide do cinema. Se o leitor (espectador) escapa na abertura, a comunicação já era.
Em A Separação a pancadaria, no bom sentido, vai ainda além desse tempo. Farhadi fez bem mais do que fixar seu alvo. O filme dele é intenso do começo ao fim. É muito mais do que uma história de fissuras nas relações entre pessoas. É espantosamente humano. Um perturbador mergulho no indivíduo.
- Calma, meu, calma, disse-lhe eu, no sonho.
Estávamos, no sonho, comendo nosso bife com saladinha de alface e tomates na mesinha redonda do bar quando notei que ele estava amuado. Estranhei. Aquilo era raro. Ele era um cabra de opiniões fortes e claras. Olhava as coisas de frente, escrevia com mão segura. Era um tipo alegre, “pra frente”, como dizia a minha mãe quando queria descrever alguém que encarava a vida na boa. Minha mãe (que já se foi) tinha também uma outra expressão curiosa. Quando alguém falava um despropósito qualquer, mesmo à guisa de homenagem, ela logo decretava:
- É um pulha!
Ele, não. Ele não era como minha mãe. Ele gostava de conversar, deixava rolar, buscava diálogo. E respondia com serenidade às críticas a seu árduo trabalho cotidiano de escrever – mesmo diante de injustiças. A idiotia alheia, certamente, era um prego em seu sapato. Mas ele não permitia que a modorra o tirasse do prumo.
Naquele final de janeiro, no sonho, na frente do bife, porém, estava incomodado. E além da conta. Desviava o olhar. Notei que a voz não lhe saía. Parecia engasgado. Queria falar, e não conseguia.
Pronto, pensei. É isso! O cara está tendo um chilique, irritadinho, porque não consegue falar. Ah, os intelectuais!
Pensei também em caçoar dele, sugerir balas de gengibre ou pastilhas de guaco para que recuperasse a voz. Mas, do nada, comecei a ficar angustiado.
Os sonhos, às vezes, imitam o cinema e os fatos mais estranhos acontecem diante de nós. Os lugares se misturam, as pessoas nos escapam, somem na terra, voam. E a gente descobre as coisas sem necessidade de palavras. A pessoa não fala, mas sabemos exatamente o que ela está sentindo.
E eu, então, no sonho, entendi o que o sufocava para além da traição da garganta.
Justo ele, que pagava por um bom combate, não pudera devolver uma grossa deselegância que um conhecido acabara de lhe fazer – e, o pior, pelas costas!
Naquele instante, estava contrariado com a vilania, mas quieto.
Tinha razão. Haviam sido tão próximos, por tanto tempo, e agora o “amigo” o apunhalara daquela maneira, desconfiando dele publicamente e – imperdoável – negando-lhe a chance do contraditório.
Quando o sonho se mudou de repente para um gramado verde, onde estávamos de chuteiras, lembro-me bem de ter dito:
- Daniel, esquece isso. Esse sujeito é um enganador. Pedante. Um pulha!
Baixara em mim o indignado espírito da minha velha.
E o sonho mudara novamente. Ele (calado como um morto, pobre homem!), olhando para o céu, já não me ouvia…
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