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Blog da Garoa

O episódio da suspensão da compra dos aviões da Embraer pelos EUA, com as pressões políticas internas norte-americanas batendo direto no Brasil, lembrou-me a leitura do livro “Missões Silenciosas” (Bibliex, 1986), do general Vernon Walters, que foi adido militar de Washington no Rio no início dos anos 60. Então coronel, Walters, que era amigo do presidente Castello Branco, com quem servira na Segunda Guerra, recebeu uma mensagem escrita de Washington pedindo sua interferência para libertação de três norte-americanos presos em Brasília por contrabando.

A pressão, segundo Walters, era forte. No livro, o militar se diz constrangido, uma vez que os sujeitos haviam confessado o crime não só às autoridades brasileiras, mas também à embaixada dos EUA. A ordem, no entanto, era para que ele usasse sua proximidade com Castello para libertar os contrabandistas a pedido de um senador americano, do mesmo estado dos criminosos. O político ameaçava boicotar uma votação no Congresso caso não conseguisse a libertação.

“Fiquei estarrecido com a atitude de um senador que condicionava seu voto de maneira tão singular, ao invés de considerar o que era realmente do interesse dos Estados Unidos”, escreve Walters. Mas, mesmo assim, foi a Castello fazer o pedido após de ter recebido uma segunda ordem, desta vez do próprio secretário de Defesa, Robert McNamara. Segundo o relato de Walters, depois de dizer ao presidente brasileiro que estava “constrangido” em abordar tal assunto, Castello pensou, e disse:

“- Walters, você é suficientemente perspicaz para não pedir, por iniciativa própria, que eu faça qualquer coisa menos digna. É evidente que lhe deram ordem para proceder assim e, se você concordou em falar comigo, é porque o assunto tem para os Estados Unidos uma importância especial que não percebi. (…) Dê-me um tempo para pensar”.

Walters ainda faz algumas considerações a respeito da “vergonha” que sentia diante do fato, afinal tratava-se de uma relação que, para além da liturgia dos cargos, abrangia também uma antiga relação pessoal forjada em tempos de guerra. “Esta foi uma perfeita demonstração de arrogância”, confessa ele no livro, referindo-se aos EUA.

Em seguida, porém, o general conta que “pouco depois, os prisioneiros ‘fugiram’ para um aeroporto isolado, onde, como que por acaso, um avião os esperava, tirando-os do Brasil. Nunca soube se essa fuga teve ou não qualquer ligação com meu pedido”. E acrescenta: “De qualquer forma, não foi uma atitude de que possa orgulhar-me”.

Coisas das relações internacionais.

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Vernon Walters com Jacqueline Kennedy no aeroporto de Roma, em 1961 Foto: Reprodução

 

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26.fevereiro.2012 16:48:44

As delícias de Rosa e Rose


Outro dia, andei metido com uma leitura deliciosa: dois livros sobre culinária. Um, em português, “Machado de Assis relíquias culinárias”, da pesquisadora Rosa Belluzzo, verdadeiro documento sobre o gosto brasileiro do Século 19, com comidas assim: leitoa de leite à pururuca, bacalhau à lagareira, rabanada, sorvete de pitanga, quindins e pudim de laranja. Outro, em inglês, da norte-americana Rose Neeleman, com receitas de pão de queijo, cuzcuz, bolinho de arroz e – pudim de laranja!

Com as delícias de Machado, editado pela Unesp, Rosa Belluzzo ganhou prêmio Jabuti de Gastronomia no ano passado. Essas “Relíquias…” são, na verdade, uma aula sobre como (Mário Quintana tinha trauma dessa conjunção “como”, mas acho que aqui está bem colocada) se construiu o sabor nacional misturando carne e sangue de galinha com cachaça no Franguinho de Cabidela – que o pai da Academia adorava. E a famosa Canja de Galinha, que Pedro 2º tomava até nos intervalos do teatro. Uma beleza a pesquisa de Rosa Belluzzo!

O outro livro, “A taste of Brazil”, da pesquisadora norte-americana, não fica atrás. Madame Rose, de Utah, nos EUA, veio morar no Brasil em 1958 acompanhando o marido, Gary Neeleman, um jovem pregador mórmon em missão e  que logo se tornou jornalista, correspondente e diretor da United Press International (UPI).

Hoje ele é cônsul honorário do Brasil em sua cidade, Salt Lake City, e ajuda, de graça, a quebrar galhos de imigrantes brasileiros além de dedicar-se à pesquisa sobre a imigração de confederados para a amazônia. Em breve, o casal vai lançar livros sobre o tema, conforme já noticiou o caderno Sabático, de O Estado, dias atrás.

Durante a estada no Brasil, anos 50 e 60, Rose encontrou ingredientes e pratos que nunca tinha visto. Alimentou boa parte da família aqui, antes de retornar a seu país, e aprimorou o gosto pela cozinha local. Os Neeleman adoram pãozinho de queijo (Cheese rolls) e também o paulistano Virado (Miners’ beans), além de muitas outras delícias pouco conhecidas nos EUA.

Nas festas de Halloween, aquelas das morangas decoradas, eles costumam servir em casa um Frango na Moranga (Chicken baked in a pumpkin) que, garante Rose, até as crianças adoram. O livro foi editado pela Marco Editora (2007), em inglês, e faz o maior sucesso entre as famílias brasileiras que vivem na América porque traduz para as cozinheiras os nomes dos ingredientes.

Quem gosta de cozinhar tem nestes dois trabalhos as receitas de uma galinha caipira de dar água na boca: a Galinha Mourisca, de Rosa, que leva toucinho e vinho branco, e o Frango Caipira (Country chicken), de Rose, marinado no alho – e com tomates. Bom proveito!

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Curtir um gol de um filho na quadra do colégio, assistir ao time ganhar do Barcelona no Mundial, saber que um amigo se deu bem ou ver a Sapucaí inteira cantar um samba no silêncio de uma bateria nota 10. São grandes momentos da vida, às vezes prosaicos, mas inesquecíveis. Acontecimentos que viram marcas e provocam mudanças na nobre arte de viver.

Na madrugada desta terça-feira de Carnaval, a turma da Mangueira criou uma dessas maravilhosas homenagens à emoção: fez milhares de pessoas sentirem um nó na garganta nas arquibancadas, e no sofá de casa vendo pela TV Globo, ao oferecer-lhes um espetáculo inédito com um samba cantado a uma só voz por pelo menos 3 minutos na avenida. De arrepiar!

A apresentação da velha verde-rosa foi um primor. Revolucionária. No final, o veterano sambista Jorge Aragão resumiu: “Nunca vi coisa igual”. Tem razão. Vai ser difícil alguma outra escola de samba superar o que foi visto no desfile da Mangueira. Quem vai fazer a massa levantar e cantar sozinha – e por duas vezes seguidas – a letra inteira de um enredo? Quem vai calar a suprema bateria por tanto tempo? É deste tamanho a tarefa que ficou para ser batida na Sapucaí de Niemeyer.

Mas, mesmo que algum desses times espetaculares que trabalham no Carnaval do Rio consiga superar essa marca no quesito execução do samba enredo, será difícil alcançar o prazer de tremer no chute do molequinho balançando a rede, de saber de um sucesso desejado ou de gritar gol de um “Davi” Gabiru contra os “Golias” da Catalunha. Ou de chorar quando Dudu Nobre e Alcione, pela primeira vez, enfeitam, no gogó, o coro da arquibancada emocionada.

A Mangueira de 2012 mudou o Carnaval.

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(atualizado às 14h09)

 


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04.fevereiro.2012 20:05:36

Passeios de sábado!

O ministro entrou no supermercado dos Jardins acompanhado por seu escudeiro, que de terno e gravata caminhava sempre um passo atrás do chefe. Percorreram os corredores lotados de gente sofisticada às compras no sábado pela manhã.

Eram figuras ímpares naquele ambiente informal. Com a longa barba grisalha, terno cinza-chumbo e uma bengala, seguido pelo homem de preto, o ministro chamava a atenção.

Caminharam pelo corredor das massas até a seção das verduras, diante da padaria. Senhoras distintas  e homens de fino trato andavam vagarosos com seus carrinhos por entre as gôndolas de croissants, bolos, rocamboles e geleias de damascos e mirtilos.

Foi quando o escudeiro alertou o homem de bengala sobre a presença de uma senhora, morena, famosa, que estava diante da prateleira dos pães franceses.

-Onde?, perguntou o ministro.

-Atrás do senhor, disse o homem de preto, olhando a morena de soslaio. É ela!

O ministro, então, aproximou-se. A moça mexia num balaio de belas baguetes. Ao lado da elegante mulher, o ministro grandalhão esbarrou no cesto e um pão caiu-lhes aos pés. Gentil, notando o imprevisto e a ilustre bengala, ela abaixou-se prontamente para apanhar o pacote.

-Olá! Tudo bem? disse o ministro, que também se curvara.

-Olá, respondeu ela, com um sorriso (e o pão na mão).

-Ontem mesmo pensei na senhora, emendou o ministro…

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