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Blog da Garoa

31.dezembro.2011 11:36:25

Triste dia. Por Daniel

Nós tínhamos algumas paixões comuns, das quais falávamos: a vida, filhos, alguns amigos, jornalismo, bola rolando – e Machado de Assis. Dos livros, não falo em respeito a ele. Ele os criava; eu apenas os admiro (como a ele).

Daniel Piza foi enganado pela vida que amava tanto, e se foi.

Difícil entender. Muito difícil.

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Isso aqui nem é tão chocante, disse Roland Bigler, funcionário da Cruz Vermelha, auxiliar na negociação entre o governo peruano e o Movimento Revolucionário Túpac Amaru (MRTA) em dezembro de 1996.  Naquele dia 17, no início da noite, guerrilheiros tomaram a casa do embaixador japonês Morihisa Aoki, em Lima, em uma cinematográfica ação que durou 126 dias, e terminou em tragédia em abril.

Todo mês de dezembro lembro de Bigler conversando sobre o trabalho de mediação do chefe dele, Michel Minnig. Bigler era um otimista. Trabalhava na Colômbia, de onde fora chamado às pressas para auxiliar Minnig. Dizia que lá, sim, a situação era complicada. Havia “caminhado sobre cadáveres na rua”, lembrava ele, contando sobre a missão da Cruz Vermelha no conflito entre as Farc e exército regular. Eram dias tensos na América hispânica.

Passados 15 anos, o continente mudou bastante. A América do Norte vive aperto econômico com seus Occupy isso, Occupy aquilo, e os latinoamericanos, cada qual com suas mazelas, desenvolvem suas economias em relativa paz. O show de horrores das guerras internas dos anos 70, 80 e 90 deu um tempo, embora ainda haja escaramuças em alguns pontos, como na própria Colômbia – país que tanto preocupava Bigler àquela época. Hoje, a realidade é bem diferente daquele Natal de 1996.

Cobertura

Cheguei a Lima naquele dezembro como repórter do Estado e passei as festas acompanhando as libertações de mais de 500 dos 600 reféns dominados na noite da recepção do embaixador Aoki. Era uma mansão que tinha na fachada cópia da casa principal do lendário filme “E o vento levou”.

Entre os reféns estava o embaixador brasileiro Carlos Coutinho Perez, um dos convidados para a comemoração do aniversário do imperador japonês Akihito. Coutinho foi libertado logo na primeira semana.

O casarão branco, com suas altas colunas no frontal, foi demolido meses depois da operação sangrenta que pôs fim ao sequestro. O governo peruano queria eliminar qualquer vestígio daqueles dias de rebeldia dos guerrilheiros chefiados por Néstor Cerpa Cartolini, o comandante Evaristo, que planejava reencontrar e libertar colegas de guerrilha da cadeia, entre eles a mulher dele, Nancy Gilvonio, e a norte-americana Lori Berenson.

Frustração

Cerpa queria pegar o então presidente Alberto Fujimori na festa. Mas o presidente escapou minutos antes da invasão do grupo de 14 guerrilheiros. O MRTA então planejava trocar os reféns, inclusive um irmão de Fujimori, pelos seus integrantes que mofavam no cárcere peruano.

Momentos de alta dramaticidade da hora da tomada da embaixada podem ser revistos em vídeo no Youtube, com imagens de arquivo da TV Piura. O material mostra as primeiras movimentações da polícia logo após a entrada dos guerrilheiros, quando ainda não se sabia exatamente o tamanho da ação. São imagens fortes, reveladoras do drama que o mundo veria por quatro meses.

Outro dia, assisti também a outro vídeo, The Lima Siege (link no final do post), uma reconstrução feita pelo Discovery Channel, que relembra o caso e conta detalhes de como os militares infiltraram equipamentos de escuta levados ao interior da mansão dentro de uma Bíblia – e até um espião – sem que os guerrilheiros se dessem conta.

Cartão

Bigler, um homem simpático e gentil, foi o responsável pelo meu acesso ao suíço Michel Minnig, o escolhido para fazer o meio de campo entre o que queria Cerpa Cartolini e o que pretendia Fujimori. Minnig estava na recepção no momento da invasão do MRTA,  e passou a ser o principal ator entre as partes.

Bigler chamou por mim numa manhã quente de Lima, quando uma multidão de jornalistas do mundo inteiro se acotovelava à porta da Cruz Vermelha, disputando um eventual contato com o negociador-chefe. Dois veículos de informação foram autorizados a entrar na sede da entidade para entrevistas. O Estado e uma TV da Suíça, país de Minnig.

No caminho para a sala, que ficava diante de uma piscina cercada por um gramado bem cuidado, o funcionário da Cruz Vermelha devolveu-me o cartão de visitas que eu mesmo tinha entregue ao motorista de Minnig durante uma das três madrugadas de vigília diante da casa da Cruz Vermelha.

Na segunda madrugada do plantão na calçada, consegui me aproximar do carro que sempre chegava rápido e entrava na garagem sem abrir os vidros. Nele estava o negociador. Ele era a única esperança dos jornalistas de saber o que realmente estava acontecendo no interior da mansão do embaixador. O Palácio estava blindado, o exército não ajudava e o casarão havia sido cercado e isolado.

Mas Minnig não dava entrevistas, segundo Bigler, para não comprometer a imparcialidade do trabalho da entidade. Esse é um dos pilares da atuação dos organismos de pacificação. Isenção. Mas ele havia cedido e falaria.

Encontro

Andei com Bigler pelo jardim até a sala de Minnig, que estava ao telefone falando com o  Palácio do governo. Minnig fez sinal para que sentasse. Ao terminar o telefonema, levantou-se para cumprimentar-me, falando espanhol. Era um homem claro, magro, de semblante calmo. Disse que não comentaria detalhes da negociação para não atrapalhar a conciliação, mas que estava pronto para a entrevista.

Finalmente, depois de dias de expectativa, três noites em claro na rua a espera de uma oportunidade, ali estava o homem. Eu havia decidido pagar o mico de ficar na calçada até o sol nascer na esperança de pegá-lo na entrada ou na saída da sede da Cruz Vermelha. Não esperava ser chamado para o interior da casa. Resolveria a parada ali no carro mesmo, se fosse necessário. Mas ouvir as impressões dele era fundamental naquele momento.

Japonês

Na primeira noite, cheguei à casa, que ficava no bairro chique de Lima por volta de 22h, 1h de Brasília, depois que o jornal em São Paulo já tinha encerrado sua edição do dia. Um jornalista, da agência japonesa de notícias Kyodo News, foi companhia nas duas primeiras madrugadas.

O Japão, por estar diretamente envolvido no incidente, tinha grande interesse jornalístico no caso. Na segunda noite, quando o carro de Minnig se aproximava do portão, já na madrugada, corri para a lateral da casa, mas só consegui entregar um cartão ao motorista, que abriu o vidro para pedir que me afastasse do caminho. Havia cerca de 3 mil jornalistas em Lima naquela cobertura. E Minnig ainda resistia.

O japonês era um rapaz simpático e se comunicava em espanhol. Passamos horas sentados na calçada conversando sobre os dois países e sobre aquela crise peruana. Estávamos todos cansados dos longos plantões diante da embaixada.

Propaganda

Os guerrilheiros faziam as libertações de reféns no horário nobre de TV, mais apropriado para a divulgação da causa deles porque burlavam a edição e os fatos apareciam ao vivo, principalmente no Japão. Acreditavam que poderiam com isso pressionar o governo japonês do então primeiro-ministro Ryutaro Hashimoto a sensibilizar Fujimori para negociar.

Mas havia dias no cerco nos quais nada acontecia. Para frustração da massa de jornalistas que tomavam as ruas do bairro de San Isidro, isoladas pelos militares peruanos. Com aquele farto noticiário factual sendo oferecido a cada momento, a saída escolhida por muitas equipes era buscar novidades em outro “sítio”.

A casa da Cruz Vermelha era um deles. Quando o japonês não apareceu na terceira noite, pensei em abandonar a empreitada. Mas decidi aguentar mais aquela jornada. Foi mais uma noite sem sucesso. Minnig entrou novamente sem dar chance para uma pergunta.

Mas, pela manhã, veio a surpresa. Um funcionário da segurança abriu uma pequena janela de um palmo de altura e gritou o meu nome. Do outro lado da porta de aço havia ainda uma catraca, daquelas que têm ferros em cruz de cima a baixo e que só permitem a entrada de uma pessoa por vez. Bigler estava logo a seguir, com o meu cartão na mão.

Depois da entrevista, voltamos a conversar outras vezes. Bigler me ajudou a entender melhor o processo pelo outro lado das paredes daquele mundo violento. Voltei ao Brasil em janeiro, quando o drama da embaixada japonesa dava sinais de que o governo Fujimori prolongaria o cerco para ganhar tempo e organizar uma invasão.

Sempre que posso dou uma pesquisada para ver por onde anda aquela figura calma e atenciosa que me atendeu em Lima. Bigler permanece na Cruz Vermelha contribuindo pelo mundo com o diálogo em situações de risco. Uma nobre missão.

Fim do cerco

Quando Fujimori detonou a operação de resgate, em abril, eu estava na redação do Estado, em São Paulo. Vi pela TV, no meio da tarde, o momento do desfecho do sequestro da embaixada, que ainda continha 72 pessoas dominadas por Cerpa Cartolini. Bigler, acredito, deve ter ficado decepcionado com o final dos acontecimentos.

A imagem de Fujimori caminhando entre os corpos de guerrilheiros na escadaria da casa, logo após o combate, que foi estampada nos jornais do dia seguinte, sempre me recorda o esforço frustrado do funcionário da Cruz Vermelha para evitar a tragédia. E de sua expressão confiante num final negociado, algo diferente do que ocorria na Colômbia.

Retornei a Lima algumas vezes depois desse episódio. Uma delas para cobrir a campanha eleitoral que escolheu Alejandro Toledo presidente; outra para relatar negociações diplomáticas sobre a Alca. Recentemente, fiz uma viagem de quatro dias de ônibus de São Paulo a Lima.

O Peru mudou bastante. O país é hoje governado por Ollanta Humalla, um ex-militar que venceu eleições democráticas com discurso de esquerda e surfa em relativa prosperidade econômica no país. O Peru tem crescimento de PIB ao redor de 6%. Ex-guerrilheiros de extrema esquerda e ex-governantes corruptos, entre eles Fujimori e seu homem forte, Vlademiro Montesinos, estão na cadeia.

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Outro dia, início de dezembro, vi andando pela redação de O Estado de S.Paulo um ícone do silêncio, um homem que fala pelo que escreve – e que escrita! Era Luís Fernando Veríssimo. Portador do DNA da literatura, é um abençoado pelo humor e pela síntese, divindades que guiaram também os passos do poeta Mário Quintana, outro desses gnomos sulistas dos livros.

Veríssimo é um Quintana nos cartuns. O poeta adorava as palavras no fundo branco dos livros. Amava-as tanto que para não alterar-lhes o sentido no decorrer do tempo foi capaz até de admitir acento gráfico inexistente no original do próprio nome. Talvez por isso implicasse com histórias em quadrinhos, as primas das tiras –  forma de criação que Veríssimo gosta de usar para dizer mais com menos.  Com linhas e pontos, Veríssimo subverte a expressão (e o poeta).

Quem sabe se Quintana tivesse tido mais tempo (morreu em 1994) pudesse “sirrir”, como a Gabriela do poema Filó (“a gente se agachava a sirri que não parava mais”), apreciando a verve no traço único do filho de Érico. Ah, o Érico. Sim, aquele que além de adorar as tão adoradas palavras, certa vez salvou o poeta com a generosidade que só as grandes amizades são capazes de acalentar.

Érico, de extensa prosa, resumiu num bilhete com três palavras (a última uma aglutinação), vírgula e ponto final o aviso ao desempregado Mário dos anos 30 sobre as garantias para que deixasse o Rio de Janeiro e volvesse ao Rio Grande.

No sul, Quintana reencontraria, na editora do amigo, abrigo intelectual e dinheiro para viver – sinteticamente. Em livro de Néa Castro, Mário lembra que, no áureo tempo das longas cartas, o texto do pai de Luís Fernando cravava:  “Podes vir, mermão.”

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16.dezembro.2011 15:05:37

Passando a sacolinha…

A cidade tem acompanhado a polêmica sobre a distribuição de sacolinhas de supermercado. O comércio  será proibido de fornecer de graça a sacola plástica que o consumidor usa para carregar mantimentos – e que eventualmente serve para descartar lixo doméstico.

Agora o consumidor terá de pagar pelas embalagens das compras – são 1,7 bilhão de sacolinhas em 600 lojas de grandes redes, segundo dados do comércio. Ou seja, o consumidor vai continuar usando a tal embalagem para tirar o lixo, só que terá de desembolsar mais uns trocados. Isso, multiplicado por aquilo, dá uma boa quantia, não?

O argumento central da medida da campanha é o da proteção do meio ambiente.  A campanha é patrocinada pelo comércio. E muita gente que carrega a bandeira do ambientalismo embarca na ladainha. Jogam na sacolinha gratuita até a culpa pelas cheias na cidade. Falsa questão.

Já há material biodegradável para fazer sacolinha de supermercado que derreta no tempo. E as enchentes são coisa de incompetência de anos sem planejamento urbano – isso, sim, responsabilidade do poder público.

Na tal polêmica da sacolinha, é só trocar a de hoje, a famigerada poluidora e entupidora de bueiros, por uma que vire pó rapidamente. E deixar o comerciante livre para oferecer de graça a embalagem à freguesia.

 

 

 

 

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Dezembro já tem um eito, e se aproximam as festas. Tempo dos presentes, luzinhas brilhandos nas ruas e sacadas, cidade com jeito de alegria e expectativa de feriadão de descanso. Tempo também de rever o ano, fazer balanços, checar resultados, relembrar de encontros.

Olhando alguns momentos deste 2011, houve um que me pareceu muito especial. Depois de anos, reencontrei em junho o menino índio albino que havia conhecido em reportagem para o jornal.

O Estado publicou em julho a história do reencontro com Vanderlei Fernandes.

Recupero agora um vídeo, feito por aqueles dias, mas não publicado.

Ter sido recebido por ele na casa onde mora, na Ilha do Governador, no Rio, 15 anos depois do primeiro encontro, foi um presente.

 

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