ir para o conteúdo
 • 

Blog da Garoa

A Bienal de Artes do São Paulo e suas provocações devem ser vistas por um milhão de visitantes até dezembro. Mais uma das maravilhosas festas da cidade.

Pichação na 28ª  Bienal em 2008 Foto Arquivo AE

Pichação na 28ª Bienal em outubro de 2008/Foto: Arquivo AE

1 Comentário | comente

  • A + A -

Ele chegou a São Paulo em um caminhão pau-de-arara no final dos anos 50, ainda menino, vindo da Bahia com o sonho da sobrevivência na cidade grande do Sudeste. Aos 14 anos, viveu na rua e dormiu em praças do Brás até encontrar uma boa alma que o levou para morar em Osasco, e lhe deu uma caixa de engraxate. Hoje com 66 anos, Waldomiro de Jesus de Souza, que adotou o nome artístico de Waldomiro de Deus, nascido em Itajibá, é um naïf – na arte e na vida. Waldomiro salvou-se no mundo por meio do ofício de pintar a história de seu tempo. Suas obras estão expostas, até o dia 17, sexta-feira, no Espaço Cultural BMF&Bovespa, no Centro de São Paulo.

“Desculpe a tosse”, disse Waldomiro de Deus, por telefone, na última sexta-feira, falando de Goiânia, onde tem casa e recupera a garganta “da secura poluída de São Paulo” em agosto. Mas daqui uns dias, diz ele, estará de volta à cidade que o acolheu em 1958, quando por ela optou com um sonho de vida melhor. Não foi fácil, ao contrário. Waldomiro passou fome na rua até ser encontrado, coberto de picadas de muriçocas, por um guarda civil, que o levou para morar em Osasco. Nome da boa alma: “Manoel Sudálio Pompeu”.

Foi esse guarda, lembrado com carinho pelo artista, quem lhe deu uma caixa de engraxate para que ganhasse algum dinheiro. E Waldomiro passou a polir sapatos no Largo da Rua Antônio Agu, em Osasco, onde foi morar na casa do benfeitor. Depois, trabalhou também como entregador de folhetos de lojas. “Sou de família muito simples, mas que tem uma riqueza grande, que é a dignidade”, conta ele, que se diz agradecido a São Paulo, onde criou seis filhos e desenvolveu sua técnica autodidata de pintura, reconhecida em exposições na América e na Europa.

Ensina-me a subornar, obra de Waldomiro de Deus, que está na exposição da Bovespa

Ensina-me a subornar, obra de Waldomiro de Deus, que está na Bovespa

Quando ainda vivia na pobreza em Osasco, conheceu uma menina, que foi sua namoradinha. “Disse a ela que era auxiliar de escritório”, lembra o artista. “Eu achava aquilo bonito: auxiliar de escritório”. Mas um dia ela o viu engraxando na rua e não quis mais saber de namoro. Foi uma decepção. O garoto Waldomiro se desiludiu também com a cidade grande, e decidiu ir-se embora “para o mato”! Entrou em um trem e só desceu no Mato Grosso, onde passou dias num cafezal.

Mas aquilo não era para ele. E decidiu voltar. No caminho de retorno, sem dinheiro, acabou sendo desembarcado à força do trem em Catanduva, onde sobreviveu de doações e da solidariedade da polícia. Pediu para dormir na delegacia, ganhou comida e uma passagem de um policial para voltar para São Paulo, e seguiu em frente. Foi parar em Porto Alegre, na esperança de arranjar trabalho. Mais uma vez não deu certo. “Vi que não era lá o meu lugar”, recorda. E novamente mirou em São Paulo como saída.

“Nesta São Paulo, nesta selva de pedras, abençoada, que tem dado oportunidade a tanta gente, e onde muita gente se perde também, eu arranjei emprego de jardineiro”, explica Waldomiro. Um dia, recorda ele ele, passava na Rua Martins Fontes e viu o cartaz de “Precisa-se de jardineiro”. E se ofereceu para o serviço. “Moço, eu já trabalhei na roça”, disse ele apresentando as credenciais ao ser questionado se conhecia o ofício. “Mas trabalhar na roça não é a mesma coisa que cuidar de jardim”, respondeu-lhe o homem, recorda ele. “Mas eu se fazer, eu sei fazer”, insistiu – e passou a cuidar das plantas.

Na sua solidão adolescente, e com as vivas lembranças da terra que deixara para trás no sertão da Bahia, Waldomiro sentia a necessidade de colocar para fora a imaginação que o atormentava. E, diante de tantas agruras da vida, aos 17 anos, começou a pintar em cartolinas com tintas e pincéis que encontrou na casa do homem que lhe dera abrigo e o trabalho de jardineiro. “Era a casa de Pierre Zacoppe”, explica o crítico e escritor Oscar D’Ambrosio, que conta a saga de Waldomiro no livro Os pincéis de Deus, pela Editora da Unesp.

“Meu primeiro desenho foi um enterro”, afirma o pintor, um criador naïf, um artista “ingênuo”, no sentido francês da definição para o talento original, virgem, sem a lapidação da academia. Foi a pintura primitivista que o transportou da pobreza das ruas de Osasco para ambientes requintados das galerias e para períodos de vivência na Europa.

“Waldomiro não é mais um pintor naïf”, diz Oscar D’Ambrosio. Para o escritor, o pintor evoluiu para o que ele classifica de autodidata. “Ele é naïf nas cores, chapadas, mas foi mudando. Já não pinta com os contornos nas figuras, já é mais elaborado”, explica D’Ambrosio.

A cena nordestina que Waldomiro colocou no papel o remetia à infância triste. O pintor conta que, numa noite de lua, viu passar um cortejo fúnebre iluminado por velas, e pelo luar. Uma cantoria lhe veio à cabeça quando pintava.

Abre a porta Pedro,

 deixa clarear,

 que esse anjo vai pro céu,

fazer morada lá”,

 cantarola ele ao telefone, recordando da cena que o inspirou a criar “Enterro da Vila Lídice”.

Dispensado do trabalho com o jardim, mais uma vez na rua da amargura, Waldomiro foi vender suas cartolinas no Viaduto do Chá. Alguns dos quadros foram comprados por um turista estrangeiro, entre eles o do enterro, segundo D’Ambrosio. Waldomiro faturou os primeiros trocados no Viaduto, o que lhe rendeu um quarto para dormir e a certeza de que havia encontrado um jeito de unir sobrevivência e arte.

A vida, então, levou-o por outros caminhos solidários ao encontro de gente como o antiquário italiano Terry Della Stuffa, um criador de ambientes em São Paulo. E o compositor Teodoro Nogueira, lembra D’Ambrosio. O pintor conheceu e conviveu também com o físico Mario Schenberg, um dos principais incentivadores do artista na década de 60. Foi quando o pintor passou a viver da pintura. Morou por anos na Rua Augusta, efervescente região cultural naquele tempo.

 Na Augusta, pintou um dos seus mais polêmicos trabalhos: uma Nossa Senhora de minissaia, que lhe custou encrenca com a Igreja. E o menino pobre, que virou artista, entrou para o circuito mundial das artes plásticas e foi morar na Europa, onde ganhou até “beijo surrealista” de Salvador Dalí.

“Eu gosto mais quando a obra de Waldomiro é visceral”, diz D’Ambrosio. “Quando ele mostra esse lado escuro do ser humano. Seus monstros são maravilhosos”, afirma o escritor. “Mas ele tem deixado isso de lado”, diz o crítico, lembrando que o artista costumava pintar com o rádio ligado, e escrevia bastante nos quadros. “Mas já não tem feito mais isso”.

Boa parte da obra do pintor é registro de cotidiano. Ele pintou, por exemplo, a explosão de um shopping em Osasco (1996), o ataque às torres gêmeas, de Nova York (2001), e o desabamento do túnel do metrô, em Pinheiros (2007). “Ele pinta um cotidiano que causa morte de inocentes”, diz D’Ambrosio.

No Espaço Cultural BMF&Bovespa, 22 obras de Waldomiro de Deus, com curadoria de Enock Sacramento, estão expostas desde agosto. A entrada é franca. São paisagens, tipos e protestos contra a violência, obras carregadas de cor e formas, quase um apelo contra a dureza da vida.

Artista lamenta pobreza e violência nas ruas de SP

Relembrando das dificuldades superadas desde a adolescência, Waldomiro de Deus diz que São Paulo “é uma cidade maravilhosa”. Mas lamenta. “Há muita violência e muito menino e mendigo na rua”, afirma. “Tenho medo de São Paulo no futuro. As pessoas são maltratadas pelo governo. O povo paga imposto. São Paulo não merece isso. O Brasil não merece a violência”, diz.

Para Waldomiro, “há uma lei diabólica, que proíbe menor de trabalhar. E ele vai ser drogado. Fico triste na Praça da Sé, com tanta gente jogada lá, sem amparo”. Ele critica a Prefeitura e o governo do Estado. E conta que tem um filho candidato a deputado nestas eleições.

comentários (5) | comente

  • A + A -

A garoa voltou a São Paulo. A cidade passou dias numa secura só, assustando moradores, levando gente aos hospitais para hidratação e concentrando poluição no ar. Os moradores da Zona Sul, habituados à chuvinha fina do início da noite, ficaram sem a umidade, uma marca da metrópole. Mas, felizmente, ela voltou. Para refrescar o ambiente. E com ela,  o vento, que empurrou o ar carregado de poluição. Bom presente para um feriado. Quem voltar da viagem de lazer à praia ou Interior vai encontrar na quarta-feira mais leveza no ar. Eita garoa abençoada!

1 Comentário | comente

  • A + A -

Arquivo

TODOS OS BLOGS