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Blog da Garoa

 

O Batateiro, de Zica Bergami. Modinha na qual a artista canta (e conta) a história do napolitano que encantava a criançada vendendo batata doce assada nas ruas.

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Há mais de 40 anos, numa novela de rádio, ouvi a apocalíptica história de um grupo de pessoas que sobrevivera a uma explosão nuclear. Viviam em uma bolha de alguns quilômetros, sem saber exatamente o que havia acontecido no mundo, cercados por uma mortífera parede de fumaça radioativa. Era uma visão do futuro. O cenário era nítido somente no interior da bolha. 

Não lembro bem de toda a história, nem do autor do roteiro. Mas recordo que os personagens caminhavam até o limite de um terreno e que lá havia uma parede de fumaça a partir da qual tudo estava descolorido. Nessa bolha viveram por muito tempo. Pelo menos até que o roteirista decidiu acabar com a coisa. E, um dia, acho que no último capítulo, a fumaceira sumiu para que os sobreviventes vissem que o resto do mundo tinha sido devastado. E era preciso recomeçar a vida.

Lembrei da história, que vive na caixinha de lembranças da adolescência – misturada com personagens dos livros de Monteiro Lobato e Érico Verissimo -, ao ver o céu de São Paulo hoje cedo. Estava lá a fumaceira escondendo a Serra da Cantareira e ofuscando a visão de prédios próximos. O ar carregado, visível. Tomara que essa angústia, que já dura pelo menos uma semana em São Paulo, não demore tantos capítulos a se dissipar.

 

Poluição do ar: imagem da zona norte de São Paulo na manhã desta quarta, 25

Poluição do ar: imagem da zona norte de São Paulo na manhã de quarta, 25

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Volta e meia as calçadas de São Paulo retornam à agenda municipal. Essa preocupação com os passeios é antiga. Outro dia, reportagem do jornalista Diego Zanchetta lembrava que as primeiras calçadas paulistanas surgiram no Pátio do Colégio após Portaria Imperial de abril de 1822.

Mas, pelo que se vê pelas ruas, esse é tema de avanços e recuos. Vemos por aí guia desalinhada; pintura (quando existe) rala; piso (quando há) irregular – uma pedra grita e outra não ouve. E o contribuinte pagando a conta.

O que ocorre com as calçadas da cidade é reflexo da cultura do mais ou menos, da tolerância com as coisas à meia-boca. Vivemos em um ambiente no qual o exato pode ser inexato. Muitas vezes a hora marcada não vale, o voo atrasa, o ônibus vem lotado, e comemora-se a nota 5. E esse lusco-fusco é visto até como uma “marca positiva” da brasilidade. Nivela-se pelo meio – daí para baixo. E segue o barco nacional.

Mas observando-se a história da formação paulistana, nota-se que as polêmicas calçadas paulistanas já foram bem arrumadinhas. É claro que isso ocorria em locais de urbanização bem visível – bairros nos quais fazia sentido cobrar a existência de passeio condizente com a pista. Nas periferias, infelizmente, não era sim. Essas áreas raramente estavam entre as prioridades nos orçamentos. Em muitos casos, passeio e pista só não são a mesma coisa porque entre elas há a vala de esgoto.

Claro que há cidades com os cortes e encaixes mal enjendrados nas vias públicas. Mas, aqui, trata-se de olhar o meio paulistano. Em livros de memória, de uma São Paulo menos adensada, se pode encontrar imagens de pavimentação de qualidade, sem calombos ou buracos, com guias retinhas, bem acabadas. Hoje, quando se vê que esse tema ainda rende longos debates envolvendo Executivo, Legislativo e a sociedade, nota-se o quanto se perdeu de cidadania. O que já foi regra, é exceção.

 

Largo do Rosário, 1900. Calçadas alinhadas no tempo das carroças/Reprodução

Largo do Rosário, 1900. Calçadas alinhadas no tempo das carroças/Reprodução

 

 

(texto publicado em O Estado de S.Paulo)

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Local de eventos alegres da cidade, como festejos de fim de ano, corrida de São Silvestre, comemorações de torcidas de clubes de futebol, paradas religiosas e gay, a Avenida Paulista tem atraído a atenção pela tristeza. Temendo os abandonados que dormem pelas calçadas, lojistas da região fecharam espaços sob marquises para impedir a indesejada presença.

É curiosa a situação da Paulista. Aberta em 1891 para ser aprazível morada de famílias abastadas, no alto do Morro do Caaguassu, foi por mais de século objeto de desejo. Nos últimos anos, com a chegada do metrô e a reforma de prédios residenciais, a região vive uma nova mudança de perfil – a via, que durante tempos foi reduto de negócios, hoje atrai moradores em busca do conforto dos bons serviços que por ali se desenvolveram. Outro dia, lendo sobre Lina Bo Bardi, uma das principais personagens da arquitetura paulistana, relembrei o que a criadora do Masp queria para aquela área da Paulista: mais gente.

Na incontrolável balada da reconstrução da paisagem paulistana, que ergue e destrói coisas belas, como disse o poeta, o próprio museu-cartão-postal de Achillina Bo – nascida na Itália em 1914 e naturalizada brasileira em 1951 – é marca da devassa centenária.

O Masp foi construído no local em que a cidade viu, até os anos 50, um clube conhecido como Trianon – referência a uma construção que lembrava os jardins de Versalhes. Os pavilhões do Trianon da Paulista, das festas dos anos 20 e 30, abrigaram também a bienal de artes da cidade. Mas foram demolidos no fim dos anos 50. Sobre o terreno foi erguido o Masp, como lembrou o historiador Nestor Goulart Reis Filho no Jornal da Tarde, em 1990.

Lina, que morreu em 1992, queria o museu em conjunto com o Parque Trianon – que chamou de “Central Park dos Pobres” no livro Lina Bo Bardi (Imprensa Oficial). Ela não conseguiu a integração do seu Masp com a área de mata do outro lado da avenida. Mas o vão livre, no antigo belvedere, permanece aberto. Pelo menos durante o dia.

(Texto publicado em O Esado de S.Paulo)

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O noticiário brasileiro dos últimos meses é lamentavelmente rico em registros de agressão a mulheres – casos que vão do palavreado ofensivo à máxima brutalidade. A abominável atitude, usada como solução de conflitos de casais, em muitos casos atinge filhos e, pior, não raro acaba em morte.

Uma rápida passada de olhos na história paulistana nos mostra que essa violência, infelizmente, é herança secular na cidade. A leitura dos estudos da historiadora Alzira Lobo de Arruda Campos, aos quais é sempre conveniente voltar quando se pensa no tema, leva o cidadão deste suposto moderno 2010 à dura conclusão: a bestialidade humana não tem limites.

“Além das mãos, usadas para dar bofetadas, murros, unhadas e empuxões, e dos pés para pontapés, coices e ‘esporadas’, os maridos valiam-se de numerosos instrumentos para o castigo de suas mulheres”, escreve a historiadora no livro Casamento e Família em São Paulo Colonial (Paz e Terra, 2003). Ela estudou maços e maços de processos centenários de pedidos de divórcio, autos de crimes de honra e virgindade e outros documentos do Arquivo Público do Estado e da Cúria Metropolitana de São Paulo – entre outras fontes.

Os relatos de Alzira Lobo são chocantes. Impressionam pelos detalhes da crueldade contra as mulheres. E deixam a impressão de uma certa conivência familiar com o absurdo. Aliás, como hoje. “Quase todas as mulheres queixavam-se de ameaças e tentativas de morte”, conta a autora, referindo-se aos depoimentos estudados. No “Processo de divórcio de José da Fonseca Carvão e Câmara e Maria Antônia de Brito” (SP, 1807, Cúria), a agressão relatada é brutal: “(…) pisando-a a coices com as botas e arrastando-a pelos cabelos”. No caso da desavença entre Francisco Antonio Chrispim e Gertrudes Custodia (SP, 1820), os autos contam: “(…) outras vezes lhe tem dado com um chicote e queimando-a com fogo”. É um passado bem presente.

(texto publicado em O Estado de S.Paulo)

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Na São Paulo oitocentista, quando a convivência em casa se tornava insustentável o caso ia parar no juiz ou no padre. Eram as figuras que, em muitos locais, dividiam o poder na sociedade colonial. A historiadora Alzira Lobo ensina que, à época, já havia para esses casos a alternativa do divórcio, mediante a comprovação de sete quesitos: “maus-tratos ou sevícias; perigo de salvação por heresia, apostasia ou infandae veneris scelus; perigo de vida por atentado de violência; mau proceder desregrado do cônjuge; calúnia (…); falta de virgindade; e adultério de qualquer dos cônjuges”. E eram permitidos também os divórcios temporários.

 

(texto publicado em O Estado de S.Paulo)

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Muito boa a homenagem preparada pela turma multimídia do estadão.com.br para os 100 anos de Adoniran Barbosa. É um mapa da cidade de São Paulo segundo a obra do artista. Para curtir Adoniran e ouvir a seleção de músicas da Rádio Eldorado clique aqui.

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Uma chuva (ou garoa) de eventos caiu mesmo sobre São Paulo para comemorar os 100 anos de nascimento de Adoniran Barbosa, o maior sambista da cidade, como diz hoje o jornalista Lucas Nobile no O Estado de S.Paulo e no estadão.com.br. Lucas Nobile, músico talentoso, que sabe tudo de cavaquinho, informa o que acontece na cidade para homenagear João Rubinato de hoje, sexta-feira, 6, a domingo. Clique aqui.

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Sobre o arquiteto Victor Dubugras, aqui tratado como personagem que deixou sua marca na paisagem da cidade (infelizmente já quase toda apagada), recebi outro dia, do amigo do blog Guga Romano, carta com belas fotos.

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Depois de uma certa idade, acredito eu, o desafio de viver bem está na constante renovação das expectativas e na percepção da riqueza dos melhores momentos do passado. Alguns amigos aqui do Garoa, às vezes, dizem: “ah, no tempo da garoa…” Um lamento saudoso, tristonho. Como se ela os tivesse abandonado.

Que nada! Ela continua presente, nos refrescando! 

 

Motoristas que saíram cedo de casa nesta quarta-feira e passaram pelo espigão do Caaguassu curtiram a garoa no vidro do carro

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