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Blog da Garoa

A cidade de São Paulo mantém, desde sempre, as portas abertas para os de fora. É uma das suas virtudes, construída à revelia de governos e cultivada pela inexorável atração exercida sobre os “estrangeiros”, sejam eles de língua portuguesa ou não.
Outro dia, olhando um quadro de Lasar Segall, no qual ele se pinta um moreno brasileiro, lembrei de uma de suas cartas ao artista russo Wassily Kandinsky, com quem manteve correspondência nos anos 30.
Kandinsky já era um grande pintor, morava em Paris. Segall também já era artista maduro, e vivia em São Paulo – para onde migrou após viver na Europa convulsionada do início do Século.
“Meus filhos crescem bem aqui no Brasil, nesta atmosfera feliz, talvez o único ambiente onde se pode ainda respirar livremente”, escreveu Segall, em alemão, em abril de 1939, em resposta a uma carta do amigo, recebida um mês antes.
Segall e Kandinsky divergiam sobre os rumos da arte e do mundo naqueles tempos. Kandinsky dizia, na carta endereçada a São Paulo, que procurava fugir da insanidade política fechando-se em seu ateliê francês para pintar; Segall não conseguia essa abstração.
Mas, como observa Vera D´Horta, que cuida do acervo do artista no museu da Vila Mariana, o que havia era uma “discordância cordial”. Vera D´Horta tratou do tema em belo ensaio publicado na Revista da História da Arte e Arqueologia, da Unicamp. E mostrou traduções das cartas e postais.
Como a cidade, os dois amigos também eram do tipo “aqui sempre cabe mais um”. Kandinsky acompanhava de longe as dificuldades da vida de um outro amigo, Victor Rubin. E pedia por ele a Segall. “O senhor não poderia levá-lo para o Brasil?”.
O “mulato” lituano já havia oferecido a própria casa para Rubin recuperar a existência. Mas o amigo não aceitara. O arranjo solidário, no entanto, não ficou no vazio. A filha dele, Nora Rubin, viveu na cidade, protegida por Segall, por muitos anos. “Transmiti suas recomendações a Nora. Ela é secretária de um professor americano na universidade daqui”, informou o pintor – que se fez paulistano – a Kandinsky.

 

(texto publicado em O Estado de S.Paulo)

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Boa parte da interiorização brasileira até o século passado passou pelo caminho das pedras. E a Vila de São Paulo era um dos trilho da descoberta de ouro e outras pedras de alto valor. Quem não se lembra das minas, aqui bem pertinho, no vistoso pico do Jaraguá? Pois o morro, desenhado em 1807 por John Mawe, era só um dos pontos da mineração. A caça se espalhou por Guarulhos, Itapecerica, São Roque, Mogi e arredores. É história contada no curioso livro Minerais e Pedras Preciosas do Brasil, da Solaris. A obra recorda a preparação francesa de José Bonifácio (em foto reproduzida do livro) em minerais, e suas andanças em busca da riqueza mineral no Jaraguá e Pirapora.

José Bonifácio e as pedras

 

 

(texto publicado em O Estado de S.Paulo)

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 O estádio Palestra Itália, do Palmeiras, como o Pacaembu, da Prefeitura, é mais do que um local de jogos do clube. Já é um patrimônio da cidade, com mais de cem anos na história paulistana. Surgiu em 1902 como um campo de futebol, evoluiu para um estádio nas mãos do então Palestra, mudou com o mundo – e o clube – no pós-guerra, foi reformado nos anos 50 e chegou aos dias de hoje com uma das boas opções de lazer da comunidade.

Noves fora os exageros de rivalidade com outros clubes, o local acompanhou as alterações urbanas, viveu a trajetória de crescimento de São Paulo e carrega muita história, além da óbvia relevância futebolística.

No sábado, fui ao jogo do Palmeiras contra o Grêmio, vencido pelo time da casa por 4 x 2. Se a diretoria verde não mudar de ideia, deve ter sido o último jogo no local antes da reforma que pode dar ao torcedor uma estrutura moderna para assistir ao espetáculo do futebol. Tomara que fique bem bonito e funcional.

Mas, além de apreciar a goleada do início da noite, que alegrou os palmeirenses, quem foi ao estádio foi premiado com o mais famoso visual da natureza paulistana: a garoa, nossa musa aqui do blog. Do meio da arquibancada, no setor azul do Palestra,  via-se o torcedor comum empolgado com o time. E guardando na memória talvez a imagem da última jornada sob a chuva fina.

 E a garoa não decepcionou. Refrescou a arquibancada, caindo em camadas sobre os cerca de 18 mil torcedores.

 Deve ter sido assim também em maio de 1902, no primeiro jogo oficial do campo, quando o Mackenzie venceu o Germânia (atual Pinheiros) por 2 a 1, como lembrou o Jornal da Tarde em sua edição de sábado.

 Último jogo no Palestra 1

Torcida na arquibancada do Palestra e a garoa presente/Foto: Pablo Pereira

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Outro dia, procurando nas estantes de casa o exemplar de Brás, Bexiga e Barra Funda, de Antônio de Alcântara Machado, no qual pretendia reler histórias dos bairros de São Paulo, encontrei um outro livro, que me é muito caro – de um outro autor: Thiago de Mello.

Lá pelos idos de 1997, quando eu já trabalhava como repórter de O Estado de S.Paulo, assisti ao parto de um poema de Thiago de Mello durante uma viagem sobre a selva amazônica, onde ele tinha uma bela casa, desenhada por seu amigo Lúcio Costa. Thiago lá passava dias e dias em contato direto com o mundo das águas e das matas.
Trabalhando para uma reportagem sobre a seca que castigava a Amazônia, encontrei o poeta no aeroporto. Íamos no mesmo rumo. Comemorando a coincidência, fiquei vigiando. E o vi rabiscando durante o voo de Manaus a Parintins, região na qual os leitos de rios e lagos estavam à mostra, rachados pelo desarranjo climático.
No dia seguinte, acompanhado pelo fotógrafo Alberto Araújo, fui recebido pelo escritor em casa, na Freguesia do Andirá, em Barreirinha, coração do Amazonas. Aprendi com Thiago que lá moravam os índios que descobriram os sabores do guaraná, e que o velho poeta dependia de tudo aquilo para viver. Thiago via a beleza da vida na floresta, nos paranás, nos nativos e nas cores de um tucano quase domesticado que frequentava seu quintal – e se chamava Flor da Mata.
No livro Campo de Milagres, de 1998, pela Bertrand, Thiago publicou o poema Centelha Fugaz, que era a obra que ele rabiscava durante a viagem – e que vi nascer. É um olhar sobre a vida difícil de uma menina que ele conhecera bebê, e que acabara de ver na tristeza. Uma personagem brasileira, como as criaturas de Alcântara Machado.
A prosa nos conta histórias, mas sempre vi em poetas “historiadores” com o olhar mais aproximado da essência humana. Guardo a folha de papel, de meu bloquinho de anotações, que Thiago pediu para me presentear com 20 palavras, duas vírgulas, um ponto – e a assinatura. Tudo ornado com o desenho do perfil da mata amazônica, vista da varanda, no outro lado do Andirá.
 

 (texto publicado em O Estado de S.Paulo)

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Se o paulista Eduardo Prado emprestou seu jeito de viver para que o português Eça de Queiroz criasse Jacinto de Tormes, de A Cidade e as Serras, em São Paulo outro escritor, paulistano, Antônio de Alcântara Machado, foi buscar em modo de vida de “estrangeiros” o sumo para sua prosa.
Alcântara é autor de saborosos textos sobre hábitos e costumes dos imigrantes nos anos 2o na pauliceia. Uma dessas encantadoras criações é o sardento Gaetaninho, da Rua Oriente, que está no livro Brás, Bexiga e Barra Funda. “Italiano grita/brasileiro fala/Viva o Brasil/E a bandeira da Itália” diz Alcântara. É a cara da cidade.

 

(texto publicado em O Estado de S.Paulo)

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Outro dia, alguém lembrou que José Mindlin dizia que reler era um prazer, melhor até do que ler. É uma verdade. Fui reler o livro ”Às Margens do Sena”, do grande jornalista Reali Jr. Não lembrava que Reali dava até a receita original do sanduíche mais famoso da cidade, o bauru. Aparece lá, na pág. 65, quando Reali conta que conheceu o inventor do bauru, o radialista Casimiro Pinto Neto (1914-1983). Reler é mesmo um prazer. E reler a vida de Reali é uma maravilha.

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Quinta-feira, 13, 6h15, temperatura em 11 ºC. Sexta-feira, 14, 6h15, 14 ºC, com garoa. Esse maio geladinho lembra o clima dos dias nos quais a metrópole não passava dos limites do Tietê, era cercada por chácaras e chapéu era acessório obrigatório. Eram os tempos do forte crescimento, desde a chegada de levas e levas de imigrantes europeus e asiáticos em busca da vida nova. E, por muitos anos, esse povo, satisfeito, encontrou na cidade ambiente semelhante ao das terras de onde vinha – com termômetros chegando a até 0 ºC.

“Nas madrugadas límpidas e calmas, debaixo de temperaturas próximas ou iguais a 0 ºC após as invasões de massas frias, pode produzir-se a geada”, conta em seus escritos o geógrafo Aroldo de Azevedo, que nos anos 1950 se debruçou a estudar as variações da temperatura paulistana.

Já naquela época os especialistas em clima se preocupavam com as alterações ambientais provocadas pela ocupação do solo. “No conjunto, pode-se observar que a área mais densamente construída é 1ºC a 1,5 ºC mais quente do que os espaços suburbanos ou rurais”, explica Azevedo, que dirigiu um grupo de geógrafos em 1958.

A turma de Azevedo tinha noção do perigo do crescimento sem planejamento. E foi aos relatos de Auguste de Saint-Hilaire, John Mawe, Lucas R. Junot, José Setzer, Salomão Serebrenick, Ernani Silva Bruno, historiadores, técnicos e observadores empíricos da região, em busca de dados sobre o tempo e outras nuances climáticas. Encontrou ricos depoimentos sobre frio, geadas e garoa. Hoje essas informações não valem mais. O chapéu quase sumiu e a área urbana da metrópole já é ameaça às serras, no Norte e no Sul.

 

(texto publicado em O Estado de S.Paulo)

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O trabalho de geógrafos da década de 50 sobre o clima paulistano está no livro A Cidade de São Paulo, Estudos da Geografia Urbana (1958). A obra detalha a evolução térmica na cidade. Sobre a chuva fina, diz: “a crônica paulistana do passado registrou (…) o fenômeno, responsabilizando-o pelos invernos extremamente úmidos ou associando-o à primavera, aos dias de ventos frios, que a capital paulista chegou a receber o epíteto de cidade da garoa”. Explica que “a garoa é fenômeno da borda litorânea dos planaltos (…), freqüente no passado, embora venha a desaparecer (…).” Ainda bem que isso ainda não aconteceu.

(texto publicado em O Estado de S.Paulo)

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 A São Paulo gigantesca, terra das oportunidades, problemática, mas moderna, conectada e requintada, não perdeu sua vocação de cidade festeira, como foi na pátria dos estudantes oitocentistas, e daí por diante. A moçada da época olhava para a Vila Imperial em busca da formação universitária, mas, diante do isolamento da época, como registraram poetas e intelectuais, criava suas próprias alternativas de divertimento.

Neste final de semana a cidade está como aqueles antepassados gostariam de vê-la: em festa. O evento chamado de Virada Cultural tem uma avalanche de oportunidades de diversão e de lazer por horas a fio, a partir do fim da tarde desde sábado.

A turma do Jornal da Tarde, um especialista na vida da metrópole, preparou um roteiro especial para que se possa, em maratona a pé, desfrutar das atrações! Veja aqui.

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Assisti, no último domingo, 9, à noite, ao filme Sete Voltas, da TV Cultura, que conta histórias de bairros de São Paulo. É uma criativa forma de falar sobre o passado da cidade. Leve, bem-humorada, a primeira parte do filme usa animação de obras importantes na memória paulistana, como telas de Debret, e outros artistas, mais fotografias de Militão de Azevedo.

 O Tamanduateí de então serpenteava pela baixada na qual se construiu o que hoje é o Parque Dom Pedro 2º. Um dia, a cidade decidiu enquadrar o rio, e o canalizou. Virou aquilo que existe lá na Avenida do Estado- onde, de vez em quanto, caem um carro e seu motorista desastrado.

O filme exibido pela Cultura é uma sequência de sete crônicas que mostram o lugar desde os relatos de jesuítas até o depoimento de moradores contemporâneos da região, como um sem-casa que se abriga por lá, e o jornalista Heródoto Barbeiro, que foi criança naquela paisagem.

Interessante também a animação de episódio, do qual já tratei aqui: o calcanhar de Castro Alves. O poeta costumava caçar nos charcos da Várzea do Carmo e arredores. O filme recria a cena na qual o escritor,  acidentalmente, deu um tiro no pé.

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