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Blog da Garoa

O Pacaembu faz 70 anos. É patrimônio da cidade. Andou meio na berlinda com o atual Poder Público tentando livrar-se dele, mas resiste.

 

Moças em desfile no Pacaembu em 1940

Moças em desfile no Pacaembu em 1940

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Comer bem é quase uma lei em constante aprimoramento em São Paulo. Há bons cardápios pela cidade e mesmo os apetites mais requintados têm à disposição mesa de qualidade – é só olhar a fartura e as maravilhas que são noticiadas toda semana no prestigiado Paladar, aqui da casa.

Antigamente, os ingredientes não eram tão abundantes, nem disponíveis. Na cidade oitocentista, e mesmo depois da chegada do Século 20, quando o crescimento acelerado inflacionou o mercado, o pessoal da cozinha era obrigado a se desdobrar para oferecer boa comida.

Em tempos nos quais os paulistanos almoçavam às 9h e jantavam às 14h, a simples interrupção de uma ponte, travando o acesso de uma das entradas da cidade – como ocorreu com a Ponte Grande da Freguesia de Conceição de Guarulhos, em 1853 -, já elevava o preço da refeição.

O conserto da ponte resolveria “em grande parte a carestia de gêneros de primeira necessidade”, registram as Atas da Câmara Municipal de São Paulo, citadas na obra de Ernani Silva Bruno. “O toicinho, por exemplo, passou de oitenta ou cem réis a libra para oitocentos e até mil”, conta também o livro Minhas Recordações, de Ferreira Resende, em 1853.

Essa dificuldade no abastecimento já vinha de tempos. Em 1829, lembram as Atas, deveriam as Câmaras de Bragança e Atibaia, cidades abastecedoras da Vila Imperial, colocar em ação seus capitães do mato para impedir a carestia evitando os desvios de carne e outros víveres por “atravessadores”.

Mas quem disse que bons cozinheiros se apertam diante da escassez? Ao contrário: essa é a hora da criatividade, do desafio de tornar saboroso o pouco que se tem. E nesse ambiente de baixa oferta se originaram deliciosas receitas paulistanas de ensopados de carne, cozidos, feijão e arroz e as ervas.

Bruno lembra, citando outro memorialista, Veiga Miranda, que uma dessas ervas era a “couve, a saborosa couve”. E completa: “para a sobremesa, doces de batata ou de figo ou arroz de leite”.

Nada como a competência da cozinha!

(Texto publicado em O Estado de S.Paulo)

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O toicinho que há séculos faz o prazer de muita gente em São Paulo foi produto muito valorizado na cidade imperial cercada de chácaras. Se nos anos 1600 e 1700 o milho, a caça e o peixe de água doce dominaram o menu paulistano, nos 1800 a criação de suínos foi marcante.

São Paulo não só produzia leitão para consumo próprio, à moda da Bairrada portuguesa, como exportava carne salgada e toicinho. Já na virada de 1800 o toicinho era o quarto alimento mais exportado por Santos, perdendo só para açúcar, arroz e aguardente, segundo registros do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.

 

(Texto publicado em O Estado de S.Paulo)

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A uma hora do encerramento da visitação na Estação Pinacoteca, na Praça General Osório, ontem, 21 de abril, à tarde, era grande a fila de pessoas do lado de fora. Tarde ensolarada, cidade às calmas, Parque da Luz cheio, e ingressos a R$ 6 (inteira) chamavam para a mostra “Andy Warhol, Mr. América”. E com direito a visita ao Memorial da Resistência, no mesmo prédio. De quebra, uma passada na sala das telas de Wilfredo Lam, artista cubano (1902-1982). Belo passeio.

PS:

Confesso que tive dificuldades com a iluminação nas salas de Andy Warhol. Como há trabalhos de pequenas dimensões, talvez os menos privilegiados pela visão desfrutassem melhor das obras com uma luz mais dirigida. De qualquer modo, apreciar a sequência azul de Jackie Kennedy é um presente!

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21.abril.2010 12:54:15

Um pulinho a Buenos Aires

Semana passada estive em Buenos Aires para um rápido desanuviamento. É uma bela cidade, com o frescor do Rio da Prata, avenidas largas e ruas charmosas, e com seus parques enormes. Um deles com um maravilhoso jardim de esculturas. É como se São Paulo contasse com uma dezena de Ibirapueras bem cuidados.

Pode ser só impressão de visitante ligeiro, mas notei nas ruas um certo ar de retomada de confiança que me diziam haver sumido do rosto dos argentinos. A vida continua difícil para muita gente, claro. Mas, num jantar em Puerto Madero, numa frenética reunião em sala reservada, argentinos e brasileiros pareciam comemorar um grande negócio, cercados por uma trupe de garçons a correr com garrafas e garrafas de vinho e água.

Fui às ruas no dia seguinte e ouvi bastante o idioma português, às compras, aqui-e-ali. Segundo o meu vizinho blogueiro Ariel Palacios, que vive na cidade, os argentinos nos visitam mais do que nós a eles. Mas tive a impressão de que esse abril pode surpreender.

Vagando pela capital, fui ao El Ateneo, uma fantástica livraria que já foi um grande teatro, construído em 1919, com suas salas de leitura cheias de gente – e do prazeroso silêncio dos livros. E soube que Buenos Aires aguarda para os próximos dias a reabertura do lendário Teatro Colón, que passa por uma reforma. Será em 24 de maio.

Depois de ouvir Adiós Nonino, no bandoneon de Piazzolla – que maravilha! – voltei ao belo Puerto Madero à noite, de propósito, para conferir – e me divertir. Encontrei restaurantes lotados. E era meio de semana!

Na mesa ao lado, uma discreta e elegante comemoração do aniversário de uma adolescente portenha. Pedi carne, rúcula e um tinto. Encerrei com profiteroles e café.

Fim de tarde com música clássica na rua na Estação San Martin do Metrô de Buenos Aires

Fim de tarde com música clássica na rua. Estação San Martin do Metrô de Buenos Aires/ Foto: Pablo Pereira

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Escrever cartas foi, durante muito tempo, a mais competente maneira de comunicação entre pessoas distantes, de cidades isoladas, como foi a São Paulo dos jesuítas até o Império. O tempo das notícias podia ser medido em dias e meses. Hoje, a leitura dessas cartas nos leva a documentos fundamentais para a compreensão do passado. Vide a correspondência de Anchieta, escritos que se transformaram em relíquias históricas e permitem que se saiba como era a vida no princípio.

Hoje não é mais assim. Tudo é muito rápido. Mas, como repete um amigo, tudo tem um lado bom e um lado ruim, exceto os discos de um cantor que ele odeia – nos quais, diz ele, os dois lados são muito ruins.

Não sei como será no futuro, já que não se põe mais a vida no papel como antigamente. Certamente a internet vai encontrar um substituto à altura das cartas, talvez seja o e-mail – ou o “pen drive” – que facilitará a consulta aos registros do atual modo de vida.

Foi a partir do silencioso exercício de um notório escrevedor de cartas, por exemplo, que a posteridade ficou sabendo que Thomas Jefferson, o terceiro presidente dos EUA (1801-1809), tinha forte interesse por assuntos da colônia portuguesa americana.

Em conversas reservadas, em 1787, em Paris, com o brasileiro José Joaquim de Maia, que buscava apoio norte-americano, Jefferson tratou de temas que ainda levariam um século para serem realidade no Brasil:  libertação dos escravos e República.

Em carta, Jefferson contou ao compatriota John Jay, que servia na França, o encontro com o militante brasileiro. Esse documento pode ser lido nos maravilhosos arquivos da Biblioteca do Congresso dos EUA. E uma tradução de trecho dele, para o português, é parte do livro do escritor Carlos Figueiredo, Discursos Históricos Brasileiros, editado recentemente pela Leitura.

(texto publicado em O Estado de S.Paulo)

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Em cartas antigas encontra-se a alta política, mas também reveladores detalhes prosaicos. Como aquela do inglês Charles H. Allen a Joaquim Nabuco, em março de 1899, dando conta da morte de papagaio verde após uma convivência de 10 anos em Londres. A ave fora presente de Nabuco ao colega inglês, militante da causa da abolição. Antonio Penalves Rocha, em seu Abolicionistas Brasileiros e Ingleses (Unesp), lembra que “Papagai” era diferente: era mudo. “…Papagai partiu sem contar o segredo de seu mutismo”, escreve Allen a Nabuco. E completa: “Fiz uma descrição dele, que foi publicada no Spectator.”

(texto publicado em O Estado de S.Paulo)

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A cidade vive tempos de forte atração turística, com eventos que chamam mais e mais gente para desfrute dos bons serviços, gastronomia nota dez, shows, corridas de carros, além das feiras e de grandes jogos de futebol. São Paulo tem sido referência brasileira na oferta de qualidade dos profissionais do atendimento.

Essa vocação da cidade é bem antiga. Data dos primórdios da vila isolada no planalto de Piratininga. Distantes do litoral, obrigados a viver em uma certa solidão, que até já deu nome a livro (A Capital da Solidão, de Roberto Pompeu de Toledo), os paulistanos se acostumaram com os viajantes e nos últimos 4 séculos desenvolveram o apreço pelos bons serviços.

Corria o ano de 1599 e a vila ainda era caminho na direção do interior brasileiro quando caiu a ficha do administrador público: precisa-se de um hotel!

E, por determinação da Câmara, nasceu o primeiro local oficial de hospedagem e serviço de restaurante de São Paulo. Por decreto, o paulistano Marcos Lopes foi nomeado hoteleiro oficial. “Que teria, para oferecer, carne, beijus, farinha e outras coisas”, lembra o historiador Ernani Silva Bruno, após consultas às Atas da Câmara da Vila de São Paulo.

Pelos estudos de Bruno, quatro anos após o aparecimento do hotel de Lopes surge uma nova estalagem na vila, em 1603, quando a cigana Francisca Rodrigues começa a explorar o serviço de hospedar e alimentar. A partir de então, o negócio se expande e se adapta ao crescimento da cidade. Em 1609, contam as Atas da Câmara, havia várias tavernas “sabendo-se que o ramo verde colocado na porta era o distintivo das casas que vendiam vinho.”

Desses dois primeiros personagens da hotelaria paulistana pouco se diz nos registros. Mas, certamente, foram Marcos Lopes e Francisca Rodrigues os pioneiros dos bons serviços do que hoje se chama de turismo de negócios.

(texto publicado em O Estado de S. Paulo)

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Hoje o clima não é mais assim, com garoa e frio. Mas, nos idos de 1860, São Paulo viu gente morrer em noite de geada forte no atual Parque Dom Pedro. Foi numa noite dessas que um bêbado adormeceu na rua e amanheceu de corpo gelado na Várzea do Carmo, segundo relato de Álvares de Azevedo. O Tamanduateí, hoje espremido no canal, fazia praias pelo descampado gelado até a Rua 25 de Março. E ao rio se juntavam riachos. Ao saltar um desses córregos, durante uma caçada no Brás, em novembro de 1868, o poeta Castro Alves acidentalmente deu um tiro no pé esquerdo. E abreviou a vida. Mas essa já é outra história.

(texto publicado em O Estado de S.Paulo)

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05.abril.2010 10:10:45

Manhã de garoa na Zona Sul

Esse espaço fala mais dos acontecidos distantes do que das conjunturas. As atualidades são mais presentes na mão de vizinhos blogueiros, atentos à tarefa. Mas, como se trata de cena antiga da cidade - e que tem tudo a ver com a natureza do Garoa-, peço venia, como diriam os velhos tribunos do Império, para uma observação: os bairros da Zona Sul amanheceram, e passaram boa parte da manhã desta segunda-feira, 5 de abril, cobertas pela maravilhosa garoa, que inspira o blog.

 A chuvinha fina molha devagar, alegra o verde das ruas e refresca o clima, conservando a temperatura ao redor dos 20 graus. E o melhor de tudo: sem provocar os terríveis alagamentos de São Paulo.

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