O tema do dia na cidade de São Paulo é a abertura ao trânsito da Marginal do Tietê renovada. A pergunta do dia é: vai resolver? Enquanto não se tem essa resposta clara, enquanto os paulistanos usam a novidade para ver no que deu o enorme rol de transtornos nos arredores nos últimos meses, ficam aqui, para curtir, imagens de duas grandes intervenções viárias feitas na cidade em outros tempos:

Tela de Jules Martin retrata a inauguração da Paulista em 1891

Abertura da Avenida Rebouças, 1935. Foto mostra família em passeio pela nova via na altura da Rua da Consolação
Nestes dias de discussão sobre reforma na lei nacional da convivência privada, dos costumes, o Código Civil, fui aos arquivos relembrar essa adequação das normas à vida em curso. E encontrei Ruy Barbosa, no início da República, envolvido com o conjunto de princípios que tramitava no Legislativo.
Ruy era senador e foi crítico ferrenho do projeto do primeiro Código Civil brasileiro, que após anos no Congresso começou a valer em 1916. O documento produzido por ele é parte da história brasileira, sua famosa Réplica.
Ruy é personagem da formação paulistana. Sua história de vida foi, em parte, moldada na Faculdade do Largo de São Francisco. Partindo da obra para o autor, derivei para as impressões que ficaram da relação dele com a cidade, lugar que teria papel relevante no centro de seu pensamento: a troca de mãos no poder e o impacto dessa alternância no País.
Ruy era baiano, estudou no Recife, viveu no Rio, sede da máquina burocrática do poder de seu tempo (1849-1923). Mas conservou ligações com São Paulo, onde estudou (1867-70) e militou, mesmo de longe.
Era um jovem melancólico, como a cidade. Mas, também como a cidade, viveu aberto à mudança, como se observa nas décadas seguintes em temas caros a ele e a São Paulo, como a abolição e a República.
Por aqui, o Ruy-abolicionista colecionou adversários ao vetar, quando já ministro da Fazenda (1890), a criação de banco com fundos para indenização de ex-proprietários de escravos que reclamavam de prejuízos com a lei de 13 de maio de 1888. Essa ligação com a cidade aparece em diversos momentos das biografias do advogado, senador, diplomata e tribuno. E o acompanha até o fim da vida.
Entre páginas e páginas de homenagens, quando de sua morte, em 1.º de março de 1923, um artigo de O Tempo lembra que a doença já lhe provocava delírios. “(sic)Houve um terceiro discurso, em que Ruy imaginava-se numa das suas campanhas políticas. Elle fallava sempre com voz forte e com a eloquencia dos seus maiores dias da tribuna. Quando ia terminar, sentou-se na cama e bradou:
– Viva S. Paulo! Viva o dr. Washington Luiz!”
(Texto publicado em neste domingo, 28/03, em O Estado de S.Paulo)
(trechos de texto de “O Tempo”)
“O cinema é o theatro condensado e rapido. É o drama ou a comedia tendo por fundo a realidade, a natureza e o universo na variedade infinita de todas as suas scenas. Não tem bastidores, não tem fingimentos, não tem mentiras. (…) Correm os rios; erguem-se as montanhas; despenham-se as cascatas; veem-se os rebanhos nas pastagens; a natureza se ostenta na variedade incalculavel de suas scenas e a acção humana se produz em toda a plenitude de seu desenvolvimento. (…)
No cinema vejo, aprendo, adquiro, em instantes, uma experiencia que em annos não poderia accumular. Ruy”
Um acervo importante do sombrio capítulo do DOPS na vida brasileira está disponível para pesquisa a partir desta sexta-feira, 26. São documentos que mostram que mesmo após ser determinado seu fim, em 1983, o DOPS continuou com as atividades de bisbilhotagem e perseguição política nos porões oficialmente desativados.
Esse tempo de espionagem ilegal foi até 1999. Os documentos dessa ação de gente que se negava a viver os novos tempos está agora à disposição de interessados no Arquivo Público do Estado de São Paulo.
Veja entrevista do coordenador do Arquivo, Carlos Bacellar, na TV Estadão, comentando também o trabalho dos técnicos que preparam a entrega à transparência, até o final do ano, dos restos de arquivo da ditadura encontrados em fevereiro em delegacia de polícia em Santos, litoral de São Paulo.

À esquerda, no meio dos ratos:
- Com todos os diabos! se isto se chama aceio publico, não sei o que os fiscaes denominão porcaria!
À direita, com as mulas:
- Dão licença que eu passe! Como os fiscaes permitem que tomeis conta das ruas, vejo-me obrigado a pedir-vos este grande obsequio.
A vida nesta São Paulo de 2010 mudou, muito se modernizou, em relação aos desenhos de Angelo Agostini, de 1867. Não há mais mulas estacionadas pelas ruas, pelo menos no centro expandido. Já vi cavalos soltos, pastando pacificamente, nos lados da represa de Guarapiranga ou em arredores de São Miguel. Mas ratazanas, como aquelas mostradas no desenho, isso há pela cidade toda.
São Paulo tem o Rattus norvegicus, o de esgotos, em abundância. Quem aí ainda não viu um deles passeando na calçada tarde da noite? E, segundo a Prefeitura, que tem até site para esse velho conhecido dos paulistanos, há ainda por aí os primos dele, o Rattus rattus, que é aquele do telhado, e o simpático Mus musculus, que se conhece também como camundongo, mais chegado aos hábitos domésticos, adora um armário.
As ratazanas de São Paulo, claro, seguem o curto ciclo de vida da espécie. Mas parecem ser as mesmas de Agostini, gordas, centenárias!
Veja o que um Rato de Museu (digitais também) pode ler na Biblioteca do Senado Federal.
Leitores estranharam a presença do poncho em São Paulo no Século 19. Abaixo, outros autores que pintaram o poncho por aqui:

Detalhe de obra de Edouardt Hildebrandt, de 1844

Detalhe de obra S.Pedro, de Debret, 1827, vista da Praça da Sé
Outro dia vimos aqui a história de um pernambucano que escolheu São Paulo para fazer a vida preparando o pão nosso de cada dia, no bairro Sumaré. Teve gente que ficou com água na boca só de saber como o padeiro cria aquela maravilha crocante.
Pois hoje, olhando o acervo de O Estado de S.Paulo, li uma história tensa sobre pão. É a história de Angela Vieira, paulistana, que lá pelos 1730 vivia no centro antigo, proximidades da Rua Direita, e deu nome ao lugar: Beco de Angela Vieira.
Angela era padeira. No Beco viviam a dita Angela e umas vizinhas, que também forneciam pão à cidade, conta em seu S. Paulo Histórico o escritor Nuto Sant’Anna. À época, o ofício de amassar pão era exclusividade das mulheres. Mas, como na São Paulo de hoje, toda atividade produtiva tinha lá de morrer com algum dinheiro para o estado. E as padeiras do Beco não escapavam do fisco.
Em 1739, estava a Câmara envolvida com o preço do alimento - e legislando até sobre os ingredientes -, quando “a chapa esquentou”. As padeiras discordaram da vereança e decidiram, pasmem, entrar em greve!
Lembra o historiador Sant’Anna que a cidade vivia uma epidemia de varíola e que as mulheres foram ameaçadas, então, pelos “edis”. As penas seriam de multa e prisão, caso as padeiras do Beco não retomassem o fornecimento à cidade. Voltaram ao trabalho, claro. Deve ter sido a primeira greve de padeiros da cidade.
Nada como uma olhadinha na história! A garoa paulistana, que ainda é forte nos finais de tarde na zona sul da cidade, já foi combatida com traje tido como símbolo de vestes do sul do país: o poncho. Os desenhos de Thomas Ender, que a Iconografia Paulistana do Século 19 editou lindamente, lembram o uso com o seguinte texto:
“Este extraordinário estudo de frente e de costas de um tropeiro próspero é talvez uma das mais belas imagens de costumes de São Paulo, com impressionante poder de evocação nos seus detalhes e no rigor e simplicidade de sua composição”.

Paulist in poncho, 1817
E os tropeiros, que por aqui transitavam, os envergavam também sobre as montarias.

Reisender Paulist in Poncho (Viajante Paulista com Poncho), aquarela de 1817
A história da formação paulistana, rica trajetória de ocupação do interior brasileiro há quase 5 séculos, é maravilhoso manancial para o entendimento do país. Há uma infinidade de informações pouco conhecidas que precisam, a cada dia, de mais estudos e reflexão.
Uma parte desse mergulho no passado da cidade é possível pela consulta, em São Paulo mesmo, aos guardados em bibliotecas e arquivos, sejam públicos ou de colecionadores. Mas há também detalhes relevantes na vida dos museus de arte. E, muitas vezes, uma passada de olhos em acervos de fora de São Paulo fornece o que se busca.
O escritor Nelson Rodrigues, sabemos, costumava reclamar do que considerava uma falha da prosa do Século 19 ao descrever os ambientes sociais brasileiros de seu tempo: a ausência de um objeto indispensável nas salas daqueles dias, a escarradeira.
Pois, na conflituosa formação paulistana, o artista não esqueceu de registrar também as graves crises humanas, as guerras. Como mostra esse Debret, do acervo do Museus Castro Maya, do Rio.

Combate contra botocudos, obra de Jean Baptiste Debret, de 1827, retrata guerra dos bandeirantes e índios aliados contra outras tribos de Piratininga
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