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Blog da Garoa

26.fevereiro.2010 14:00:04

Puxando pela memória

Pensar sobre o passado não é uma tarefa fácil para a vida agitada dos dias atuais, mas sempre se pode encontrar um tempinho. É prática saudável. Olhando na livraria o setor de história, encontrei edição de 2008 do Hernâni Donato Pateo do Collegio Coração de São Paulo, editado pela Loyola. E lá está a maquete do local por onde tudo começou em São Paulo.

Capa do livro Pateo do Collegio, Hernâni Donato/Reprodução

Capa do livro Pateo do Collegio, Hernâni Donato/Reprodução

Rico trabalho de documentação, a edição é ilustrada com desenhos que trazem a evolução da vila até os dias de hoje.  E o historiador lembra uma passagem que vale ressaltar. A luta pela preservação do prédio de taipa do Pátio do Colégio, inicialmente abatida com dinamite na calada da noite de 14 de março de 1896. Daí à restauração e reconstrução do local, com a preservação do primeiro muro da cidade, passou-se meio século, período que culminou com o interesse oficial a partir da preparação para o aniversário do 4º centenário, em 1953.

Lembrei de outras relíquias que não tiveram a mesma sorte do Pátio, hoje existentes somente na memória e em obras e registros, como o do livro de Paulo Cursino de Moura, São Paulo de Outrora.

 

Igreja N. Sra. do Rosário de 1746 demolida em 1904

Igreja N. Sra. do Rosário de 1746 demolida em 1904

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22.fevereiro.2010 15:56:50

A vida é mais do que nitidez

Para quem gosta de história, bons personagens e fotografias de São Paulo, saiu o livro Metrópole, Hildegard Rosenthal. Publicado pelo Instituto Moreira Salles, é uma coletânea de fotos maravilhosas da fotógrafa Hildegard Rosenthal — que morreu em 1990 –, com textos de Maria Luiza Ferreira de Oliveira e Beatriz Bracher.

Nascida na Suíça, mas criada na Alemanha, Hildegard chegou a São Paulo em 1937. O livro é uma pérola da pesquisa e memória da cidade. As cenas de crianças e as imagens de artistas, como Alfredo Volpi e Lasar Segall, em plena produção, dão toque especial ao livro.

 Hildegard era a fotógrafa das sombras, das imagens sem nitidez.  ”Se nós temos tudo nítido de frente para trás, não se vive”, diz em depoimento destacado pela historiadora Maria Luiza Ferreira de Oliveira na página 27.

Hildegard Rosenthal, autorretrato, 1940/Reprodução

Hildegard Rosenthal, autorretrato, 1940/Reprodução

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22.fevereiro.2010 12:57:41

Cacarecos e Pernilongos

Terminado o carnaval, feitos os desfiles das escolas de samba vencedoras depois de apurados os desempenhos quesito por quesito, resta o ano, propriamente dito, pela frente. Olhando biografia de um dos personagens mais interessantes da cultura da cidade dos últimos, digamos, 50 anos, o grande Adoniran Barbosa, ou João Rubinato, para os mais íntimos, e que tem primoroso prefácio de Alberto Helena Jr., encontrei a referência a episódio do final dos anos 50 que tem a ver com esse início de 2010 – carnavalesco e eleitoral.

Há meio século São Paulo protestava, irônica e frontalmente, contra os desmandos e desrespeitos da classe política deixando um claro recado: a eleição do rinoceronte Cacareco, com cerca de 100 mil votos. O belo livro de Celso de Campos Jr. Adoniran, da Editora Globo, lembra que a campanha do rinoceronte, um personagem da história paulistana, foi uma sugestão do jornalista Itaboraí Martins, de O Estado de S.Paulo, em protesto contra o baixo nível dos candidatos à Câmara dos Vereadores. O biógrafo de Adoniran escreve que Martins “sugeriu o voto no xodó da cidade”, recém chegado ao Zoológico de São Paulo, vindo do Rio.

Essa campanha “animal”, como dizem jovens de hoje, forneceu argumento para várias marchinhas de carnaval que fizeram sucesso ao lado da Aqui, Gerarda, de Adoniran. O livro tem várias delas. Cacareco continuaria na boca do povo por muito tempo, mesmo depois de sua morte, em 1962, como nos conta o excelente acervo de O Estado de S.Paulo. Cacareco virou sinônimo de desencanto. Gerarda também foi longe.

Ainda olhando o livro, lembrei de uma entrevista do então senador Fernando Henrique Cardoso, no final dos anos 80, na qual ele brincava com o tema, a eleição do Cacareco, e citava outro bicho que fez sucesso nas urnas: um pernilongo, no Espírito Santo.

Hoje os tempos são outros. Mas os políticos… Alguns continuam no tempo de Cacareco e Pernilongo.

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16.fevereiro.2010 12:55:42

Luís Gama: olhaí, gente!

Outro dia, de madrugada, assistindo aos desfiles de carnaval de São Paulo, lembrei de Luís Gama, poeta, escritor, jornalista e rábula, que viveu na cidade na segunda metade do Século 19. É uma das principais figuras do abolicionismo paulista, militou contra a escravidão e foi parceiro de escritos de gente importante naqueles dias, como Joaquim Nabuco, Rui Barbosa.

Já falei aqui sobre esse personagem histórico da cidade, que teve trágica infância (foi vendido pelo pai) e rica superação pessoal, além de contribuição importante para a humanidade. Não me lembro de ter visto Luís Gama na avenida. Mas mesmo que já tenha sido homenageado, não seria demais fazer-lhe, como dizem os artistas, “uma releitura”.

Fica a sugestão para o próximo carnaval. E, abaixo, fragmentos do poema Meus amores, do seu Trovas Burlescas. Como lembra texto de Heitor Martins, um dos estudiosos de Luís Gama, o poema foi publicado no jornal Diabo Coxo, a 3 de setembro de 1865, e inserido nas Primeiras Trovas Burlescas a partir da terceira edição (1904)”:

Meus amores são lindos, cor da noite

Recamada de estrelas rutilantes;

Tão formosa creoula, ou Tétis negra,

Tem por olhos dois astros cintilantes.

.

Em rubentes granadas embutidas

Tem por dentes as pérolas mimosas,

Gotas de orvalho que o universo gela

Nas breves pétalas de carmínea rosa.

.

Os braços torneados que alucinam,

Quando os move perluxa com langor.

A boca é roxo lírio abrindo a medo,

Dos lábios se destila o grato olor.

.

O colo de veludo Vênus bela

Trocara pelo seu, de inveja morta;

Da cintura nos quebros há luxúria

Que a filha de Cineras não suporta.

.

A cabeça envolvida em núbia trunfa,

Os seios são dois globos a saltar;

A voz traduz lascívia que arrebata,

- E coisa de sentir, não de contar.

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14.fevereiro.2010 16:55:55

Organizaram a festa, virou carnaval

O carnaval em São Paulo nasceu da organização de uma manifestação popular chamada entrudo, importada de Portugal, muito praticada na cidade até o fim da primeira metade do Século 19. Era mais ou menos assim: homens e mulheres iam às ruas para uma batalha de água e farinha e também bolas de cera durante três dias, no começo da Quaresma, começando num domingo.

Era um hábito bem popular, comum aos escravos. Mas logo as classes mais abastadas aderiram à diversão. E começaram a mudar a festa. Nasceram as guerras de água de cheiro, que até bem pouco tempo eram bem comuns nos salões, com os lança-perfumes e serpentinas. Nos bailes de carnaval das crianças de hoje brinca-se também com os confetes e aquelas bisnagas de espumas.

Debret descreveu esse costume na São Paulo daquela época, lembra, em artigo sobre o tema, a historiadora Alzira Lobo de Arruda Campos, que já citei aqui. Ela recorda ainda o inglês João Mawe, que contou as batalhas nas quais os participantes ficavam tão molhados “que parecia terem sido pescados de um rio”.

Aí entrou a turma do controle de exageros da sociedade. E a brincadeira popular, tida então como rude, foi sendo enquadrada em regras até virar uma festa em recinto fechado: os bailes nos clubes. O primeiro, ou mais marcante, segundo pesquisa de Alzira Campos, foi o do Hotel Universo, em 1855. E o carnaval nasceu, então, “como uma conquista da civilização!”

Em 1860, conta a historiadora, o Correio Paulistano comemorava os cinco anos do aparecimento do carnaval, que viera, com brilhantismo, substituir o “desengraçado e estúpido” entrudo. Ensina ela que, em seguida, com o crescimento no número de clubes e associações de classe pela cidade, foram então condenadas as festas em praças e largos,  e a festança passou a se concentrar nos bailes.

A pesquisadora Olga de Morais Von Simon, citada por Alzira Campos, esquematizou o surgimento e crescimento do carnaval em São Paulo em quatro estágios principais, da seguinte forma:

O primeiro, de 1867 a 1876, quando a brincadeira de rua é substituída pela folia nos salões. A segunda, de 1881 a 1886, quando o entrudo reage contra o que chamado carnaval veneziano, das máscaras. Aí as autoridades sufocam essa revolta e proíbem os a brincadeira em praças e largos.

 O terceiro ponto, segundo ela, vai de 1891 a 1901. É a fase da riqueza do café, das liberdades republicanas, da chegada de levas de imigrantes europeus. Esse período devolve a festa às ruas, porém, com o luxo e o requinte dos bailes de fantasias dos clubes. E, por último, de 1905 a 1915, que é o tempo dos desfiles de mascarados em carros abertos pelas ruas da cidade.

O corso ganhou força a partir de 1911 na jovem Avenida Paulista. Eram domingos de carnaval com foliões fantasiados a desfilar em seus automóveis, como lembra Marcia Camargos, no livro Villa Kyrial, Crônica da Belle Époque Paulistana.

Nos domingos de carnaval costumava haver almoços a fantasia, a que os convidados compareciam mascarados, só se dando a conhecer quando à mesa iniciavam a refeição”, conta Marcia Camargos ao traçar o perfil de Freitas Valle, o mecenas da Vila Mariana, já mostrado aqui no Garoa.

 Depois de décadas de forte influência inglesa, São Paulo flertava com a França. E correriam ainda anos para que a busca pela identidade local amadurecesse e as afirmações culturais de brasilidade ganhassem fôlego.

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13.fevereiro.2010 17:29:44

Carnaval: é ruim, mas é bom

Uma boa noite de carnaval é quase sempre um convite a uma manhã insuportável, caso o sujeito tenha de sair da cama. Se ele seguir bem a receita da festa, como manda a cartilha, enfiar o pé na jaca e sapatear na dita cuja noite afora, pela manhã vai se encontrar na esquina da consciência com a desconciência, como diria Manoel de Barros, pedindo:  “por favor, me esqueçam”.

A maioria dos festeiros paga o preço — e de bom grado. Porque grande parte confia no próprio taco – ou no próprio fígado. E depois, claro, a gente vê o tamanho dessa conta! Tem gente que até acorda pela manhã, mas fica até o meio do dia sem saber bem por onde anda, o que vem a ser aquela claridade toda ou quem é aquele chato que insiste em lhe dirigir a palavra. É terrível. Só vendo! Ou vivendo.

E quando o sujeito ainda tem de defender o sustento, então! Aí é de lascar! Nada é pior do que uma agradável noitada no samba, regada com bebida geladinha, tudo mais o que se tem direito e, na manhã seguinte, com a cabeça oca, encontrar logo cedinho um cabra lhe cobrando tarefas, querendo isso e aquilo, dizendo como a coisa tem de ser feita ou apontando imperfeições (Que gente mala, cadê a minha cama!). O rei está certo: “Por que no te callas? ”

A situação só se resolve quando o coitado do ex-alegre, naquele momento o mais injustiçado dos humanos, admite que não vai dar para aguentar mais, respira fundo, vai passar uma água no rosto e pensa: dane-se, vou embora!

É a melhor coisa a fazer. Ir-se. Tomar umas águas de coco, procurar um aconchegante canto fresquinho, e desabar. Lá pelas 20h, quando o mundo já estiver escurinho de novo, e os instrumentos da percussão voltarem a fazer sentido, tudo estará bem. E aí, cara, vamos lá? O pessoal já está lá na concentração!

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13.fevereiro.2010 10:43:15

Carnaval, cidade em festa!

O carnaval de São Paulo já começou e a cidade está em festa. Festeja quem ficou para ver desfiles e brincar nos blocos de rua e clubes, festeja quem aproveita o feriado para viajar. E festeja igualmente quem ficou na cidade curtindo as facilidades da vida na metrópole com menos gente. Para quem gosta de recordar, Garoa garimpou algumas imagens de outros carnavais.

Ainda não era carnaval, mas já era festa

Ainda não era carnaval, mas já era festa. A litografia reproduzida é "O batuque em São Paulo", de Karl von Martius (1823-1831)

 

Capa de edição de carnaval de revista em 1910

Capa de edição de carnaval da revista A Lua, em 1910, que pode ser lida no acervo do Arquivo Público do Estado

 

Fantasiados na Lapa para o carnaval em 1928

Paulistanos preparados para brincar o carnaval de 1928 na Lapa

 

Foto publicada no O Estado no carnaval de 1930

Foto publicada no O Estado no carnaval de 1930

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12.fevereiro.2010 15:17:03

Milhões de pessoas no ar!

Outro dia, quando caminhava pela manhã numa área descampada do Parque Ecológico do Tietê, próximo de Guarulhos, fiquei por algum tempo observando os aviões entrarem em rota de descida na direção do Aeroporto de Cumbica. Lá iam eles, mudos no vazio, até sumirem por trás dos prédios. Um após o outro.

Gosto de aviões. Estejam eles no ar ou no chão; esteja eu dentro ou fora deles. Há anos, ao descer em Munique, achei engraçado encontrar um grupo de alemães num mirante ao lado do prédio principal do aeroporto. Eram curiosas famílias apreciando o sobe-e-desce. Quase diariamente vemos essa atração por aviões, também muito explorada no cinema, perto das cabeceiras de pistas aqui em São Paulo — e em outras cidades brasileiras.

 Movimento é o que não falta. Só em Cumbica, em 2008, os aviões roncaram 194 mil vezes para aterrissar ou decolar com 20,4 milhões de passageiros (chegando ou saindo). Esse número subiu em 2009: foram 209 mil descidas e subidas, com 21,6 milhões de passageiros, segundo as contas da Infraero. E a conta é feita assim mesmo: descidas + subidas; embarques + desembarques.

 Avião é fascinante. Tem gente que tem 100 anos e continua com medo de voar! E as tragédias das quedas, como as que recentemente abalaram o país e a cidade, sempre provocam traumas enormes. 

 Eu gosto de ver a tranquilidade dos pousos. Uma outra vez, num final de tarde, no Parque Villa Lobos, na Zona Oeste de São Paulo, contei o tempo entre a passagem dos aviões na direção de Congonhas: um minuto. Era o tempo de um passar e outro surgir do céu da região de Campinas.

Em Congonhas, 2008 teve 186 mil pousos e decolagens, com 13,6 milhões de passageiros. Aumentou o número de viagens em 2009 (193 mil), mas o número de passageiros ficou na casa dos 13,6 milhões.

Quando observava as aeronaves, gigantescas ou teco-tecos, voando contra o céu nublado de Guarulhos, lembrei de procurar imagens de aparelhos lá do início de tudo, no Campo de Marte. E encontrei algumas no Arquivo do Estado, numa seção dedicada a fotos de bairros.

Aviões se preparam no Campo de Marte em 1927/Arquivo Público

No Campo de Marte, que nasceu no ano de 1920 — retratado em 1927 (acima)–, o movimento hoje também é intenso: 2008 registrou 102 mil chegadas/saídas, com 270 mil embarques/desembarques. Em 2009 foi ainda mais: 104 mil saídas/chegadas e 312 mil pessoas indo e vindo.

No país todo, o número de pessoas no ar é uma grandeza. O Brasil teve, em 2009, 128 milhões de passageiros embarcando ou desembarcando de 2 milhões e 289 mil decolagens e aterrissagens. Quase 2,3 milhões de pousos e decolagens. Um movimento impensável para aqueles abnegados pilotos das avionetas da foto de Caio P. Barreto.

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Ela chegou a São Paulo com a família, vinda de Franca, no Interior, com um ano de idade. E fez a vida na Capital. Walterlice Maria Pereira Caffer tem formação de educadora e está com 59 anos. Criou dois filhos, lecionou em colégios como Roldão Lopes de Barros, Lasar Segall, Maria Ribeiro Bueno Guimarães, escolas da Saúde e da Vila Mariana, região na qual foi morar em 1951. Hoje ela está aposentada.

Walterlice Maria Pereira Caffer, educadora: solidariedade nas ruas em SP

Walterlice Maria Pereira Caffer, educadora: solidariedade na rua em SP

Na última sexta-feira, 5 de fevereiro, a professora estava com a mãe, de 83 anos, Maria Aparecida, em uma agência bancária da Avenida Domingos de Morais, perto de onde moram, quando viu uma cena perturbadora: uma senhora sofreu um desmaio na rua, afetada pelo intenso calor das 11h. Estava desacompanhada e precisava de ajuda.

Walterlice deixou de lado o que estava fazendo, acomodou a mãe no interior do banco e foi socorrer a desconhecida. Três dias após o episódio, ela contou por que decidiu interromper suas tarefas para prestar socorro. E se recorda daqueles momentos de aflição com a comovente satisfação de quem acaba de praticar um ato de pura solidariedade.

 Abaixo, trechos de conversas com Walterlice, ocorridas na tarde de domingo, 7, e hoje:

 O que aconteceu com a senhora na sexta-feira pela manhã, quando a senhora estava no banco?

–Eu vi a senhora caída, naquele sol, e me deu uma aflição.

Como ela estava?

–Ela estava desacordada, no sol. Eu puxei uma cadeira pra ela. As pessoas diziam que era bom dar uma bala pra reanimar, mas falaram de diabetes, e eu disse: não dá bala, nada de açúcar. Pode ser pior para ela. Eu posso levar para o hospital, no meu carro.

A senhora a conhecia?

–Não. Nunca tinha visto.

E como foi?

–A gente sabe que não pode levar uma pessoa assim para hospital. Mas eu queria levar assim mesmo, já que não aparecia nenhum socorro. 

 E o que a senhora fez então?

 –Eu jogava água na mão e passava na testa dela, estava muito calor. Ela foi se reanimando. Naquela hora ia passando um carro de polícia. Eles não eram dali, eram do Centro. Nem sei o nome deles. Eles disseram que a levavam para o hospital. E eu fui com eles até o hospital. Porque quando ela começou a melhorar, ela falou o nome do hospital Santa Cruz, que eu sei onde fica, eu sou aqui do bairro. Eles não sabiam. Eu fui orientando. Eles foram muito gentis, atenciosos.  Foram demais, inclusive com ela. Eu até perguntei para um deles: você pode fazer conversão proibida, não? Ele respondeu: sim. E eu disse: então vai por aqui, e fui orientando. Eu nunca vi ninguém guiando assim tão bem. Fomos direto. E eu fiquei lá um pouco com ela. Até disse para ela: a senhora vai entrar no soro! E ela ficou no hospital. Foi a pressão que subiu, estava muito calor.

O que levou a senhora a ajudar?

–É um ser humano. Podia ser qualquer pessoa.Tinha muita gente falando, mas ninguém tomava a iniciativa. E eu já fiz muito isso. Primeiros socorros. Quando lecionava, levei muito aluno da escola para hospital, acompanhei até cirurgia. Naquele dia, eu estava no banco, com minha mãe. Minha mãe tem 83 anos. Eu nem tinha visto nada. Foi quando eu vi a mulher no chão, naquele sol. Eu disse: precisa cobrir a cabeça dela. E passei água com mão na cabeça dela. Corri lá, deixei a minha mãe no banco, com a minha bolsa, esperando, e fui com a senhora até o hospital. Ela também mora na Vila Mariana. Mas eu não sei o endereço. Mas eu peguei o telefone dela e já telefonei pra saber. Hoje ela está bem.

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É do italiano Angelo Agostini o desenho, reproduzido aqui, de dois cidadãos paulistanos remando numa canoa em plena rua alagada de São Paulo do Século 19.  Caricaturista, criador de histórias em quadrinho, Agostini usava o talento para a ironia para exercer em jornais e revistas sua crítica política — e se divertir observando os costumes.

Ele migrou para São Paulo em 1859. Foi contemporâneo de figuras importantes, como Luís Gama, Joaquim Nabuco, Rui Barbosa, José Maria da Silva Paranhos, que viveram aqueles tempos de agitação acadêmica e política do Largo São Francisco pré-república.

Era época de efervescência estudantil e de florescimento de jornais e revistas na cidade, ainda com seus meros 40 ou 50 mil habitantes. Houve ali naquelas décadas o surgimento em São Paulo de publicações como Diabo Coxo, em 1865, O Cabrião (1866), O Coaracy (1875).

As caricaturas são eficientíssimas na comunicação. Agostini as unia a pequenos textos. O barão do Rio Branco, por exemplo, que é o nosso José Maria aí do segundo parágrafo, foi uma figura adorada pelos caricaturistas, com seu perfil ovalado e sua história riquíssima de bastidores.

E Agostini era um desses privilegiados pela natureza no humor. O desenhista foi, com o fotógrafo Militão Augusto de Azevedo, também já conhecido aqui do Garoa, um documentarista. Ele nos permite, por meio da dedicação de colecionadores e pesquisadores de hoje, trazer para século e meio depois as imagens e o ambiente de seu tempo.

Um belo artigo sobre essas figuras do passado da cidade, atualíssimas como as águas que sobem nas ruas, foi escrito por Heloísa de Faria Cruz, mineira, doutora em história pela USP, no livro organizado por Paula Portas sobre a cidade no Império. Doutora Heloísa conta detalhes da vida de Agostini no texto “A imprensa paulistana: do primeiro jornal aos anos 50”. Um outro texto sobre esse italiano inquieto é de Rosangela de Jesus Silva, que o estudou para a Unicamp.

Já falei aqui também sobre jóias existentes no Arquivo Público do Estado. Agora recebi informação sobre o trato que está sendo dado a publicações daquela época. Há lá diversos tipos, alguns muito curiosos: anticlerical (A Lanterna), anarquista (La Barricata, em italiano), integralista (Anauê). E outras revistas, como O Malho, editada no Rio, para a qual Agostini também desenhava.

 Tenho usado o Arquivo para andar (virtualmente) por aquele mundo de Agostini. Ele e seus amigos baixavam o “malho” nos poderosos de seu tempo. E tenho me divertido. Quase como se divertiam o então jovem Rio Branco e seus colegas de Direito quando iam nadar sem as roupas no Tamanduateí.

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