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Blog da Garoa

Um amigo que veio morar em São Paulo há muitos anos costumava brincar, quando elogiávamos a cidade em rodas de bar, que não se podia fazer isso diante dos paulistanos da gema – para não lhes dar o gostinho da glória. Na presença deles, nos divertíamos reclamando do trânsito e do antigo hábito de gastar a manhã de domingo lavando o carro na frente da garagem. Mas era só o nativo cair fora, São Paulo virava o que realmente é, uma boa cidade para viver!

Nos últimos dias, uma outra cidade, que andava com a estima lá no chão, o Rio, retoma seu brilho, apesar dos pesares. Depois de dias de tanques nas ruas, do combate feroz ao tráfico, os cariocas anseiam por um final de ano renovado, na paz das ondas.

“É preciso saber viver”, costuma cantar Roberto Carlos, que na noite de sábado, dia do Natal, encheu de gente as areias de Copacabana, em show que de São Paulo se viu pela TV. O eco da música do Rei e presença da graça de Paula Fernandes são parte de um esforço para que o bom da vida prevaleça sobre o cenário difícil das favelas – e que se abra por aí uma saída para a reversão das dificuldades daqueles brasileiros.

Outro dia, a New York Magazine também brincou com sua cidade, como costuma fazer nos finais de ano. Com humor fino, a revista publicou “59 motivos para amar Nova York”. Uma divertida visão do modo de vida deles, abalados há dois anos por uma crise econômica. Só brinca consigo mesmo quem tem alma leve, espírito alegre, confiança. É preciso amar seu espaço para ver nele a beleza existente, as facilidades que proporciona, o bem que faz crescer.

Meu amigo, que se considera um paulistano, como milhões de viventes que para cá migraram, também deve ter mais de 50 motivos para gostar de sua cidade. Não obstante toda a carga de injustiças e imperfeições que por aí persistem, há sim, para curtir, uma São Paulo muito legal, mano!

E podem, sim, contar aos “da gema”!

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As dores do parto começaram a atormentar o poeta e ele sentou-se, solitário, à janela do pequeno avião. Voava sobre a selva amazônica. Eu, quieto, dois bancos atrás, no corredor – só voo se for no corredor –, vi as contrações agitarem as entranhas do artista. Vi o silêncio expulsar daquele interior fervente as palavras que deram forma a um ser poético que se chama Centelha Fugaz.

A bordo de um jatinho, eu vi nascer um poema! O parto durou horas… Era verão, como agora. 1997. O poeta: Thiago de Mello.

Aturdido por uma cena brasileira, como só uma alma como a dele poderia estar, Thiago passou longo tempo do voo rabiscando o desenho de mais um filho literário. O poema começou a deixar sua alva placenta –Thiago só vestia branco— já a bordo de uma lancha, cruzando um paraná de rio a caminho de Barreirinha, onde morava, observado de perto pelas lentes do fotógrafo Alberto Araújo.

Acompanhando aquela gestação, conheci o tucano Flor da Mata. Na casa do poeta, tomamos café com amigos, Thiago contou sobre a dedicação a temas sul-americanos e à floresta amazônica. Falou do filho que morava em Brasília, das ausência com São Paulo e de um sábio nativo que ensinava tudo sobre madeiras. Nos mostrou sua casa, desenhada por Lúcio Costa, lembrou da velha militância política dos anos 60 e de parceiros antigos, como Armando Nogueira e Paulo Francis.

Depois, no quintal, numa manhã ensolarada, conversou com seu mascote colorido, pousado em galho baixo. E quem, como ele, fala com aves no quintal, pode até não saber, mas vive com a alma prenhe.

Thiago cortou o cordão umbilical de sua poesia na varanda de outra casa, na Freguesia do Rio Andirá, à beira das águas dos índios do guaraná.

Que nobre berço para a poesia, aquela Freguesia do Andirá!

“Adoro esta praia!”, disse o poeta, olhando o rio, antes de rabiscar, num papel-jornal, um regalo para mim. Na praia do Andirá, ouvi o choro da poesia – e vi o olhar aliviado do pai de um poema!

  Para ler a reportagem, publicada em O Estado de S.Paulo, clique aqui.

 

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15.dezembro.2010 13:20:15

Nós e os outros

Em férias no ano passado, caminhava eu, já de madrugada, por uma avenida famosa de Nova York quando cruzei na calçada com um cidadão que calmamente acompanhava seu cão naquele necessário passeio noturno de bicho de apartamentos. A 5ª Avenida é conhecida pelo seu requinte, pela agitação comercial. Mas àquela hora estava tranquila. Caminhávamos por ela como quem passeia num parque à luz do dia. E o homem ali, com seu prosaico compromisso de amizade.

Lá, como cá, os cães precisam descer para reconhecer os de sua espécie, remarcar seus espaços nos postes, aliviar o estresse da vida com os humanos, e para atender à fisiologia.

Ao ler hoje o texto de Gilberto Amendola, no Jornal da Tarde, sobre a convivência de moradores da Paulista com o movimento natalino, lembrei de minha surpresa com a cena que vi na capital do mundo. Na Paulista, o sujeito reclama da multidão que transita por ali, atraída pelos enfeites de Natal – o que o obriga a andar entre carros e a se “defender” de flash de máquinas fotográficas quando ele só está indo até a padaria buscar o pãozinho de cada dia.

Acho que entendi bem por que o nova-iorquino passeava com seu cão tão tarde da noite.

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Cada qual com sua mania, o gosto, não se discute. A frase do poeta, cantada em português pelo espanhol Juan Manuel Serrat, em disco antigo, me veio à cabeça outro dia ao subir a Avenida Angélica, cortando o bairro de Higienópolis de Santa Cecília à Consolação. Lembrei de Serrat porque como um antigo observador da cidade, Paulo Cursino de Moura, carrego o hábito (ou mania) de tentar saber o por quê do nome das ruas.

Pois, subindo a Angélica, com a minha mania, lembrei que por ali viveu a fazendeira Maria Angélica de Souza Queiroz Aguiar Barros (1842-1922), uma brava matriarca de família cafeeira, que empresta também nome a outra via do bairro, a Alameda Barros. O casarão da família ficava exatamente na esquina das duas vias. Dona Maria Angélica, que também tinha fazenda em Descalvado (SP), foi dona de chácara de 25 alqueires na subida da colina dos bons ares - morro que há um século foi consagrado a Higeia, a deusa grega da saúde e da limpeza.

Foi de dona Angélica, que por ali deu ordens por muitos anos, a curiosa e ousada iniciativa de importar vacas holandesas para ter leite em abundância em São Paulo. De maneira que, por muitos anos, houve gado leiteiro vagando pelo pasto do lugar onde hoje há o agitado Higienópolis, com seu recente e requintado shopping center, restaurantes de boa mesa e grandes e elegantes apartamentos. Naqueles tempos, a propriedade de dona Angélica se chamava Chácara das Palmeiras – daí também vem a conhecida “Rua das Palmeiras”, que margeia o famigerado Minhocão.

Mas, voltando à Angélica: até 1907, a avenida se chamava Rua Itatiaia, como nos conta o cronista Paulo Cursino de Moura (1897-1943) em suas “Evocações da Metrópole” (1932). Ao escrever sobre o bairro, Cursino se desmancha em elogios à matriarca. Ele a conheceu andando em “trecho da Alameda Barros”. Ao terminar sua crônica, Cursino faz uma ode às mães paulistanas e diz que “Porisso (sic), evocar, quando diante de nós uma placa azul escreve um nome que é um símbolo, é tocar no que a alma tem de mais sublime.”

Quando aborda o assunto em seu “Os palacetes paulistanos”, a historiadora Maria Cecília Naclério Homem também lembra que dona Angélica teve outras atitudes – manias, digo eu – pouco comuns para a sua época: loteou as terras da chácara e começou a vendê-las na contramão do usual. Levava o terreno quem desse a menor oferta, explica a autora, que acaba de publicar sua segunda edição (Martins Fontes, 2010) de estudo sobre “outras formas urbanas de morar da elite cafeeira”, ilustrada com fotos e plantas de palacetes, cenas de famílias, imagens de interiores e objetos, e mapas da cidade antiga.

Mas a angelical velhinha vestida toda de preto, de cabelos brancos e doce olhar, que Cursino encontrou na rua em domingo ensolarado e que a historiadora retrata como mantenedora de ampla família e benfeitora de entidades assistenciais, não era moleza – tinha lá seu jeito. “Autoritária e dona de princípios morais e religiosos muito rígidos, existia dificuldade no relacionamento entre mãe e filhos, bem como com os criados domésticos, os quais frequentemente ela confundia com escravos”, relata a autora.

 Bem, cada um é cada qual, disse o poeta espanhol. Ainda hoje há quem assim se comporte. E não se pode olvidar que se tratava de tempos anteriores à aparição de Fátima.

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Eram 23h35 de sábado, 4, e a Avenida Paulista estava parada pelo excesso de carros, nos dois sentidos. Parecia pico de trânsito das 6 da tarde. Mas como àquele dia e àquela hora o paulistano não precisava ser tão escravo do relógio, o clima era de passeio. Os sons não eram de buzinas, mas de músicas natalinas.

 Diante do Masp, o Trianon à noite tem estado diferente. As árvores estão enfeitadas até os galhos por luzes coloridas. E criam uma atmosfera de festa que atrai atenção na calçada e nos carros. Está bonita a mais famosa das avenidas da cidade. No próximo dia 8, quarta-feira, a avenida faz aniversário.

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24.novembro.2010 09:23:46

Luzes natalinas ainda em novembro

Luzes de Natal na Avenida Sumaré/Foto: Pablo Pereira

As luzes de Natal começam a se acender pela cidade. Noite passada foram as árvores do canteiro central da Av.Sumaré. Na Paulista, enfeites já estão sendo montados. Na Praça Mário Covas, esquina com a Alameda Ministro Rocha Azevedo, já tem até o Papai Noel e suas renas.

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Andava pela rua outro dia, na ligação das avenidas Paulo VI com Henrique Schaumann, quando vi (e fotografei) as figuras bem vestidas, à São Paulo antiga, protegidas pelo lusco-fusco das 20h. Pareciam à vontade. Com cores de Solana, a parede faz quadro com a realidade da árvore e da placa de trânsito.

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Está marcada para esta quinta-feira, 28, 19h30, na Livraria Cultura do shopping Bourbon (Rua Turiaçu), a sessão de lançamento de dois livros, editados pela Fundação Memorial da América Latina, que tratam de temas caros a São Paulo. O primeiro conta a história do “Memorial da América Latina – 21 anos”. O outro, Liberdade de Expressão, é reunião de artigos sobre o ambiente da informação na América Latina. Um dos textos organizados por Cremilda Medina é o do jornalista José Maria Mayrink, do Estado, que faz uma reflexão sobre o caso da proibição imposta ao jornal no caso das reportagens sobre os Sarney.

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Ela é enorme e está inclinada sobre a rua. Na calçada, suas raízes já desarrumaram o concreto. A árvore que dá sombra ao trânsito de carros e pedestres a duas quadras da Avenida Paulista, obviamente, não merece morrer. Mas, se ninguém ajudar, a próxima temporada de chuvas na cidade pode lhe ser fatal. Pior: a omissão de muitos anos com seu crescimento na esquina da Pamplona com a Jaú a transforma em uma ameaça às pessoas. Coitada.

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Árvore na esquina da Rua Pamplona e Al. Jaú, Jardins

Árvore na esquina da Rua Pamplona com Al. Jaú, Jardins/Foto: Pablo Pereira

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Após sete anos de gestação, sai da oficina, em São Paulo, livro que mostra o jeito paulista de ser. Não do paulista da Capital, somente. Autores mostram o ambiente geográfico que formou o paulista para além da metrópole. História do Estado de São Paulo: A Formação da Unidade Paulista será apresentado neste sábado, 23, na Estação Pinacoteca. Editado pela Unesp, Arquivo Público do Estado e Imprensa Oficial, livro tem três volumes e aborda quatro temas principais: economia, sociedade, política e cultura.

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