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Blog da Garoa

30.novembro.2009 13:14:10

Enquete da capela: restauro

Dos 151 amigos do Garoa que se dispuseram a responder a pergunta “Você acha que a Capela dos Aflitos deve ser restaurada?”, 89% (135 votos) é favorável; 11% (16 votos) é contra.

Enquete não é pesquisa de opinião, daquelas científicas que os institutos fazem com critérios finos bem ponderados. Mas pode ajudar na reflexão. Foi o que ocorreu aqui com a breve sondagem, aberta em 3 de novembro e encerrada hoje, sobre a recuperação da Capela dos Aflitos, igrejinha do bairro da Liberdade, espremida entre prédios no fundo da Travessa dos Aflitos.

Portanto, que se restaure logo o prédio construído por volta de 1770, quando a cidade era uma acanhada vila de colônia.

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Com a contribuição do leitor Roberto Izidorio Pereira, que comenta o post “Sons de São Paulo“, reproduzo aqui imagens de São Paulo em 1943. É um documentário de propaganda, mas que contém imagens maravilhosas da cidade, produzido pelo The Office of The Coordinator of Inter-American Affairs. Mostra, por exemplo, imagens do Pacaembu, o trânsito na Avenida Paulista, os bondes, o crescimento industrial e os belos jardins do Anhangabaú, ao lado do Theatro Municipal e do Viaduto do Chá. Para curtir São Paulo, em inglês e ao som de O Guarani, de Carlos Gomes, e outros clássicos, clique na imagem abaixo e veja o filme publicado no YouTube:

Área de estacionamento do Estádio do Pacaembu/Reprodução

Área diante do Estádio do Pacaembu/Reprodução

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25.novembro.2009 15:15:15

Sons de São Paulo

Modinhas de Zica Bergami para lembrar de uma São Paulo que não existe mais, mas permanece viva na memória de muita gente que gosta de morar na metrópole. Essa “Salada de danças” é uma maravilha!

E mais:

“Serenata”

Para finalizar:

Zica roqueira, cantada por Zezé Freitas, em “Pimenta no rock”:

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22.novembro.2009 15:41:49

Homenagem

Reproduzo abaixo, como post, em homenagem ao brilhante trabalho da autora, íntegra do comentário enviado ao Garoa pela professora Ligia Fonseca Ferreira, da Unifesp, a propósito do texto sobre Luís Gama, do dia 19.

“22/11/200912:33

Enviado por: Profa. Ligia F. Ferreira

Prezado Pablo e leitores,
É sempre uma imensa satisfação saber de todos quantos evocam a figura ímpar do multifacetado Luiz Gama, ao qual tenho dedicado a maior parte de minha produção acadêmica, iniciado com a pesquisa para meu doutorado na Universidade de Paris 3 – Sorbonne : “Luiz Gama : étude sur la vie et l´oeuvre d´un Noir-citoyen, militant de la lutte anti-esclavagiste au Brésil” (4 vols).
Organizei a reedição crítica das Primeiras Trovas Burlescas de Luiz Gama e Outros poemas, pela editora Martins Fontes (2000). Trata-se do primeiro trabalho que resgata a obra única de Luiz Gama, baseada nas duas edições por ele mesmo preparadas (Sãoa1a edição 1859 ; 2ª edição, corrigida e aumentada 1861), desde há muito de raríssimo acesso. Consegui realizar minha pesquisa “arqueológica” e de “restauro” na Biblioteca Mário de Andrade e na de colecionadores particulares, já que edições póstumas, a partir de 1904, em geral feitas por “amigos ou admiradores” do autor (e não editores), têm caráter apócrifo, apresentam distorções e mutilam muitos poemas, retirando às vezes estrofes inteiras, comprometendo assim a leitura e interpretação do texto.
. Tomo a liberdade de recomendar aos interessados a leitura deste livro, no qual encontram-se um vasto ensaio introdutório, + fortuna crítica, cronologia e iconografia do poeta, jornalista, advogado e militante das campanhas abolicionista e republicanas.

Minha tese, com volumes de anexos (textos, documentos, iconografia) em português, encontra-se disponível da Biblioteca da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP.
Tenho vários artigos publicados, dentre os quais ressalto :
1. “Luiz Gama: um abolicionista leitor de Renan”, Revista Estudos Avançados (USP) n. 60, disponível on line:
 http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S010…

2. “Luiz Gama por ele mesmo : a carta a Lúcio de Mendonça”, Teresa Revista de Literatura Brasileira 8/9, agosto 2009. Neste trabalho, analiso e comento dados inéditos sobre a célebre carta de abolicionista ao futuro criador da Academia Brasileira de Letras, oportunidade em que desmistificamos alguns equívocos acerca da biografia do autor de Primeiras Trovas Burlescas.

A relação de outros trabalhos pode ser acessadas através do meu CV Lattes:

http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.jsp?id=K4781343T9

No dia 18 de novembro último, a convite do Centro Paula Souza e Secretaria de Educação do Estado de SP, ministrei la em videoconferência – “Luiz Gama : uma ´consciência´ afro-brasileira”, que dentro de cerca de 2 semanas estará disponível na videoteca da Rede do Saber  www.rededosaber.sp.gov.br
Cordialmente,

Profa. Ligia Fonseca Ferreira
UNIFESP – Universidade Federal de São Paulo”

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21.novembro.2009 18:15:12

O tempero do tempo

“Nem eu, que conheço todo mundo lá, consigo explicar o que aconteceu. Nem eu!”, tem dito Angelo Luisi, italiano de Potenza, palmeirense roxo,  incrédulo com o que aconteceu com o clube da Rua Turiassu nos últimos dias. Torcedor apaixonado há mais de meio século, Angelo é um exemplo de persistência na gastronomia de São Paulo. A cantina que dirige é uma rara boa mesa com mais de 100 anos.  “Depois de ficar 5 pontos na frente, perdemos tudo”, diz ele, em seu português carregado de italianice, chocado com a derrocada do time no campeonato brasileiro de futebol.

Angelo Luisi com a filha, Elisabeta, à porta da cantina no Bexiga

Angelo Luisi com a filha, Elisabeta, na cantina do Bexiga

O jogo de bola é uma paixão de Angelo. “Nasci em 1920 na Itália e vim para o Brasil em 49″, lembra ele à porta da Cantina Capuano, o mais antigo restaurante italiano em funcionamento ininterrupto na cidade. A Capuano foi fundada em 1907, segundo Angelo, que é dono do negócio há quase 50 anos.

Há registros de que a casa teria sido criada em data ainda anterior, 1903, como afirma o livro Guia de Documentos Históricos da cidade. Mas Angelo diz que não. “Comprei do velho Francisco Capuano em 1961, ficava na Major Diogo. Olhe aí a data”, lembra ele, mostrando o ano estampado na parede.

Palmeirense há meio século: "Nem eu explico!"

Palestrino desde quando chegou ao Brasil: "Nem eu explico!"

Além do futebol, como mostram as fotos de Nilton Fukuda/AE, Angelo parece também adorar cozinha. A dele fica no coração do Bexiga, na Conselheiro Carrão, quase esquina com a Rua 13 de Maio, bem pertinho da famosa Igreja da Achiropita.

Elisabeta, com o marido, Cosmo: "na cantina desde pequena"

Elisabeta, com o marido, Cosmo: "Na cantina desde pequena"

Angelo é prova de que o tempo é bom conselheiro e, acrescento eu, excelente para os temperos. Em fevereiro, completa 90 anos. Com esse alegre marqueteiro da mesa d’ Itália, a lista daquelas máximas de cozinha “a pasta da nonna”, “a pizza da mamma” ou até a brasilerinha “o bolinho da vovó”, que nos trazem de longe sabores do paladar em formação, inesquecíveis, ganha mais uma: “o fusilli do Angelo”.

Fusili com molho calabresa, carro-chefe da cozinha

Fusilli com molho calabresa, carro-chefe da cozinha

Capital gastronômica brasileira,  São Paulo pega mesmo pelo estômago. Novata no quesito pólis, a metrópole foi reconstruída sobre si mesma muitas vezes. E pouco conserva de suas origens.

Angelo, com o bandolim: música é marca da cantina

Angelo, com o bandolim: música é marca da cantina

Mas, como no tempero de Angelo, há, sim, esperança!

Pelo menos um outro restaurante já alcança a façanha de  servir, sem parar, por 100 anos na cidade. No Centro, segundo os registros do Guia (Editora Hucitec) prefaciado pela professora Maria Odila Leite da Silva Dias, da USP, e organizado pela pesquisadora Paula Porta, a Leiteria Pereira é ainda mais antiga do que a Capuano, de 1884.  Nasceu na Rua Boa Vista e mudou-se para a Rua São Bento.

Rua São Bento, no Centro: Ao Guanabara, desde 1910

Rua São Bento, no Centro: Ao Guanabara, desde 1910

Mas a Leiteria mudou não só de endereço. Trocou também de nome, passando a se chamar Bar Ao Guanabara, em 1910, ao ser vendida à família Martinez.

Coxinha creme, tempero herdado da Leiteria Pereira

Da antiga cozinha, bar herdou a coxinha creme, de galinha

Beirando um século, Ao Guanabara já foi ponto de encontro de gente famosa, como mostra o site do bar. Mas, ao que parece, centenário redondo mesmo, só o da Capuano.

Auguri!

Observação (do dia 25/11): obrigado aos amigos que pediram correção para o italiano nas palavras nonna, mamma e fusilli.

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19.novembro.2009 23:12:54

Dívidas e reverências

 São Paulo adotou o dia 20 de novembro como feriado em homenagem à gente que lutou pelas liberdades em séculos de injustiça, quando humanos eram escravizados por serem negros ou índios. É a data dedicada a Zumbi dos Palmares, líder quilombola exterminado nessa data em 1695 pelo paulista Domingos Jorge Velho em campanha contra índios e escravos em terras do Nordeste. 

Há trabalhos acadêmicos muito bons sobre esse período terrível da história de São Paulo. E há livros reveladores das intolerâncias vividas país a fora. Lembro aqui de dois ensaios que abrem o livro História de São Paulo, a cidade no Império (Paz e Terra, volume 2) e são uma aula sobre a escravatura.

O primeiro, de Alzira Lobo de Arruda Campos, trata de um detalhe de alta sensibilidade. Mostra como a sociedade escravocrata reagia a crimes nos quais se envolviam seus escravos. Os brancos proprietários de negros os defendiam da Justiça branca, mas não era porque acreditassem na inocência deles, mas sim para que seus patrimônios não fossem desvalorizados.

No segundo texto, de Maria Helena Machado, na mesma obra, mais pérolas daquela época. Ricas informações estatísticas mostram que em 1854 a cidade chegou a ter 30% de sua população composta por escravos. “A Freguesia da Sé, que era o local aonde estavam as famílias mais ricas, concentrava, em 1836, o maior número de escravos, 858 (370 crioulos e 488 africanos)”, diz a autora, citando Daniel Pedro Müller (Ensaio d’um quadro estatístico da província de São Paulo), editado em 1978.

Mas o que a mim tem chamado a atenção há algum tempo ao ler sobre o tema, além obviamente das barbaridades perpetradas, é a presença naqueles dias de um personagem único da cidade: Luís Gama. Outro dia, encontrei num sebo do Viaduto Nove de Julho, quase esquina com Rua da Consolação, uma edição do popular Trovas Burlescas, livro de poemas de Luís Gama, cujo título inteiro é Primeiras Trovas Burlescas do Getulino. Um achado.

Filho de mãe negra com pai branco, Luís Gama teria sido vendido como escravo pelo próprio pai, como pagamento de dívidas de jogo na Bahia, e mandado ao Rio. Dramático começo de vida para um adolescente. No Rio foi colocado num lote de negros vendidos a fazendeiro de São Paulo, para onde foi transportado de navio ao porto de Santos e, a pé, para Campinas.

No ensaio de Maria Helena Machado há detalhes da vida de São Paulo naqueles tempos. Ela também fala da maravilhosa superação pessoal de Luís Gama em tempos tão adversos. “De escravo doméstico a poeta, rábula, jornalista e militante político (…) Luís Gama valeu-se das relações de patronagem e proteção, que ele havia constituído em suas relações com gente branca e bem-nascida da cidade, para afrontar ao próprio modelo de branqueamento ao qual ele, mulato bem-sucedido, parecia fadado”, escreve Maria Helena Machado.

E a vida paulistana do ex-escravo, escritor e advogado, encontrou-se com a de outros abolicionistas, sendo ele elogiado por Raul Pompéia e tendo também se aproximado na empreitada da criação de jornais, como o Radical Paulistano, do Partido Radical. No Radical, fez política ao lado de Rui Barbosa.

Luís Gama morreu em 1882. “Em torno do caixão, se acotovelavam gente como Martinho Prado e Antonio Carlos, ladeados de escravos e forros, vestidos miseravelmente e descalços”, lembra a historiadora. Foi enterrado na rua 12, terreno 17, do então recente Cemitério da Consolação – veja no guia de visitação -, criado anos antes na Estrada da Consolação, área que à época era distante do Centro, caminho para Pinheiros, como relatam alguns dos observadores da geografia paulistana daqueles dias.

Luís Gama, poeta e militante antiescravagista, pode ser reverenciado na Consolação com outras pessoas de destaque em São Paulo, lembrados, por exemplo, em texto do professor José de Souza Martins.

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Nestes tempos de apagão, pensei: como seria São Paulo lá atrás, no tempo, sem luz. Desculpe, mas no escuro, só com a bateria de telefone celular, como ocorreu há alguns dias, um pouco de nostalgia faz bem. Lembrei que tinha lido sobre quando São Paulo adotou a luz elétrica nas ruas. Foi em 1911. Voltada a energia, fui refrescar a memória.

 Reencontrei no belo ensaio de Palmira Petratti-Teixeira, no livro A História da Cidade de São Paulo (Paz e Terra, volume I), o que procurava. Ela lembra lá que o prefeito da época era Antonio Prado. “A obra emblemática de Antonio Prado foi o Theatro Municipal. Sua inauguração, em 1911, marcou o advento da iluminação elétrica nas ruas”. A luz das ruas, até então, era a gás. O artigo dá show ao lembrar da valsinha Lampião de gás, “de autoria de Zica Bergami”, explica a historiadora.

Reproduzo o que está no livro:

Lampião de gás, lampião de gás,

Quanta saudade, você me traz!!!

Da sua luzinha, verde azulada,

Que iluminava, a minha janela,

Da almofadinha, lá na calçada,

Palheta branca, calça apertada.

(…) Do bonde aberto, do carvoeiro,

Do vassoureiro,

Com seu pregão…

Da vovozinha, muito branquinha,

Fazendo roscas, sequilho e pão…

(…) Minha São Paulo, calma, serena,

Que era pequena,

Mas, grande, demais!

Agora, cresceu,

Mas tudo… Morreu,

Lampião de gás, que saudades você me traz!!

Conversando nesta quarta-feira, dia 18, com dona Silvia, filha de dona Zica Bergami, para saber dela e atualizar o post, fiquei sabendo do contato da família, dias atrás, com o jornalista José Maria dos Santos. José Maria, conhecedor da história paulistana e jornalista de faro apurado, publicou seu texto sobre o apagão e dona Zica no dia 13, no Diário do Comércio, lembrando do Lampião de gás. Quem quiser conhecer mais um pouco sobre dona Zica pela pena de José Maria dos Santos pode clicar aqui.

Ou, então, acessar o site www.zicabergami.com.br, trabalho da artista Zezé Freitas, que gravou músicas de Zica Bergami. Há lá, inclusive, um livro no qual dona Zica, hoje com 96 anos, conta sua história com detalhes da vida em São Paulo e da carreira de artista. Ela foi cantora, compositora e pintora.

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A capela dos Aflitos, escondida numa travessa da Rua dos Estudantes, na Liberdade, resiste desde a década de 1770, quando surgiu o cemitério para escravos e banidos. Ela, às vezes, é confundida com a Igreja das Almas, que fica na esquida da Estudantes com Avenida da Liberdade, outro prédio, construído um século depois. Na capela dos Aflitos são rezadas missas todas as segundas-feiras, às 15h, e uma parte de seus fiéis cultua o santo popular Chaguinhas, o cabo Francisco José das Chagas, condenado à forca pelo Império por ter participado de uma greve em Santos em 1821, tema de post do dia 12.

Em 1935, o historiador Nuto Sant’Anna publicou texto no O Estado de S.Paulo no qual tratava dessa história obscura da cidade. Nuto Sant’Anna diz que um historiador havia encontrado documentação que esclarecia parte do episódio, que muito tinha de lenda. Mas a principal novidade da pesquisa era a data dos fatos: o enforcamento, segundo ele, deu-se em 20 de setembro de 1821, e não em 1822, como se pensava. Nuto Sant’Anna relata também detalhes dos custos da operação de enforcamento, com informação até sobre o valor cobrado pelo barbeiro que afiou o cutelo usado para decepar cabeças dos condenados após a execução. Leia aqui o texto de 1935.

A informação de que o atual nome do bairro advém dos gritos de “liberdade, liberdade”, que teriam ocorrido no dia do enforcamento de Chaguinhas, é detalhe que intriga observadores. Há literatura sobre isso. O livro São Paulo de Outrora, de Paulo Cursino de Moura, famoso memorialista paulistano, faz referência à reação popular. Mas há também estudiosos que narram essa versão como lenda. E creditam o nome do bairro a um aspecto mais amplo da forte luta política que se travava no país à época, inspirada nos ideais da Revolução Francesa. O clima de conspirações, intrigas e condenações à morte era bem real, como nos mostra, por exemplo, Um Estadista do Império, bíblia da história daquele período, escrita por Joaquim Nabuco como biografia do pai, Nabuco de Araújo. O Estadista é um documento do Brasil de então. À pág. 1024 (segundo volume, Topbooks), Nabuco refere-se a punições com enforcamentos de julgados por crime ocorrido em 1867.

O que não deixa dúvidas é que “liberdade” era a palavra da moda nos círculos de contestação daqueles dias e carregava forte teor ideológico. Observadores daquele tempo, como o jornalista Levino Ponciano, autor do livro Sao Paulo, 450 anos, 450 Bairros (Editora Senac), sustentam que “Liberdade” também foi nome dado a um chafariz no Largo de São Francisco, ali perto do Campo da Forca, como era conhecida a área da atual Praça da Liberdade. O que está também documentado é que esse mesmo nome foi depois adotado pela Câmara do município para uma rua e, pelo tempo, consagrado nome do bairro. Como é a curiosidade do historiador que dá vida ao passado, essa quadra da história da cidade ainda aguarda paciente pelo elixir revelador da pesquisa criteriosa. Com a palavra, a academia.

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12.novembro.2009 13:37:47

A palavra e o registro do tempo

Uma das diversões do escritor Machado de Assis era acompanhar, e depois relatar em crônicas semanais, as sessões do Senado no Rio de Janeiro. Dessas maravilhas machadianas, trazidas dos anos 1890 para nosso tempo pelo professor John Gledson, algumas são pérolas do comportamento de políticos que à época usavam a tribuna do parlamento. Obviamente que sem microfones e sistemas amplificadores de som, o gogó e a retórica exigiam muito dos oradores.  Mestre da ficção, Machado viveu aqueles tempos sem perder contato refinado com a realidade turbulenta e documentou, como um taquígrafo privilegiado, episódios da vida nacional.

Nessas breves observações empíricas sobre o grande escritor — o especialista na obra do homem na casa é  Daniel Piza –, deixo, de propósito, aparecer o encantamento pelo Machado cronista do século 19. É faceta menos estudada no gênio das palavras, mas é a que a mim tem cativado, talvez por meu interesse pessoal naquele período. Sustentado pelo ensinamento que advém dessa admiração, vasculhava eu, outro dia, arquivos centenários de O Estado de S.Paulo, em busca de registros históricos, quando encontrei um texto, de 1935, sobre fatos ocorridos em São Paulo no alvorecer do Império.

Página de O Estado de S.Paulo, julho de 1935/Arquivo OESP

Página de O Estado de S.Paulo, julho de 1935/Arquivo OESP

Uma reportagem contava a descoberta de documentos do caso de Francisco José das Chagas, o Chaguinhas, fato estudado em poucos círculos de historiadores e curiosos sobre o passado, mas bem presente no cotidiano de muita gente na cidade. Chaguinhas era paulistano. É tido hoje como um santo popular. E reverências lhe são feitas todas as segundas-feiras na igrejinha de arquitetura colonial no final da Travessa dos Aflitos, no coração do bairro da Liberdade.

Pois, bem ao espírito machadiano, um outro observador de seu tempo, Antonio de Toledo Piza, também ocupou-se do tema e descreveu, em 1900, na Revista do Instituto e Geográfico de São Paulo, um debate parlamentar ocorrido em plenário sobre o enforcamento de Chaguinhas. A Revista, documento precioso, é do acervo da Universidade de Toronto, onde a encontrei após alguns dias de perseguição virtual a informações sobre o que teria sido o último enforcamento do Império.

Capa da Revista do IHGSP, edição de 1900, da University of Toronto

Revista do IHGSP, edição de 1900, da University of Toronto

No texto de Toledo Piza, a partir da pág. 59, estão detalhados debates políticos sobre a condenação de Chaguinhas à morte, em 1822, cuja execução foi programada para o local no qual estão hoje a Praça da Liberdade e a estação Liberdade do metrô. Para quem não conhece o drama de Chaguinhas, o homem era militar e, após participar de uma greve em Santos, contra o atraso do pagamento de salários às tropas imperiais de D. Pedro 1º, foi condenado à forca.

 Ocorre que, no dia da execução da sentença, a corda amarrada ao pescoço do condenado arrebentou algumas vezes e, mesmo assim, os representantes do Império mantiveram a decisão de matar o grevista Chaguinhas. A decisão contrariava costume da época, segundo o qual, nesses casos, deveria o condenado ser poupado, afinal, o suplício teria sido evitado por obra divina.

Décadas e décadas se passaram e o assunto permaneceu sombrio na cidade. Antonio de Toledo Piza, então, aproveitando-se dos registros de um debate entre parlamentares, tenta demonstrar na Revista do Instituto Histórico e Geográfico as contradições no discurso de um político que usava o episódio Chaguinhas para atacar um adversário. Com a transcrição dos discursos na tribuna legislativa, pensava Toledo Piza levar luz aos fatos e clarear o raciocínio de que o enforcamento de Chaguinhas não poderia ser comprovado como real acontecimento.

Afora a dificuldade na documentação, o enforcamento de revoltosos, por si, mostra a brutalidade do ambiente social e político daqueles dias de incertezas no Brasil de Dom Pedro.

 Mas o caso Chaguinhas, que permanece à espera da lupa de historiadores juramentados, é também parte relevante de um outro processo histórico de São Paulo: a luta pela preservação da capela dos Aflitos, pequena igreja que cuidava das almas de escravos, condenados e banidos, gente que à epoca era considerada de segunda e que tinha naquela região paulistana um ponto de refúgio. O prédio é uma construção de taipa, de 1775, marca de uma época na cidade.

Tombada pelo patrimônio, a capela, na qual são solicitadas as graças de Chaguinhas, com três batidinhas em uma porta de madeira, está em vias de avançar para as mãos do cardeal D. Odilo. Conta o cônego Raphael Emygdio Peretta, zeloso guardião daquele monumento histórico e religioso, que só após a avaliação do Arcebispo de São Paulo é que talvez possa a capelinha seguir para a etapa efetiva da restauração. Toc, toc, toc.

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04.novembro.2009 21:40:32

Vida na esquina

A migração para São Paulo é tema por demais estudado e está muito clara no panorama da cidade. Muitas histórias de sucesso e de fracasso estão pelas ruas. Caminhando perto do Centro, outro dia, encontrei uma delas morando numa esquina. Há 33 anos, Dilson Freire dos Santos, um paraense, chegou com um projeto: melhorar de vida.

Na mureta, que usa como sala de estar

Mureta, que Dilson usa para descansar e vigiar

Dilson sonhava com o canto das oportunidades que atrai gentes de regiões distantes para São Paulo. É o mesmo canto que há um século faz a cidade acumular mais e mais migrantes, muitos deles prosperando, outros se desesperando. São Paulo saltou de 130 mil habitantes, na década de 1890, para os atuais quase 11 milhões de almas, uma vertiginosa explosão populacional.

Hoje com 58 anos, sentado na mureta da Avenida 23 de Maio, de onde vigia a sacola de roupas no outro lado da rua, Dilson lembra de sua história como pedreiro e pintor. Em São Paulo, viveu do seu trabalho, casou-se e teve filho. Mas perdeu tudo. Primeiro, perdeu tragicamente o filho. Abalado, consumido pela bebida, separou-se da mulher e perdeu a casa e os amigos. Há pelo menos oito anos mora na rua. Nos últimos três vive na mesma esquina, que divide com novos amigos, sob uma marquise.

"Quarto de dormir" na marquise

"Quarto de dormir": calçada sob marquise

  No último setembro, Dilson escapou de uma pneumonia. Numa madrugada, viu um companheiro, que ele conhecia como “Gordo”, morrer ao seu lado, deitado em colchões velhos na calçada. “Ele pediu água, estava seco, estava morrendo”, conta.  “Morreu quieto, sem fazer barulho.”

Dilson Freire dos Santos

Dilson Freire dos Santos, noites ao relento

Além de carregar o silêncio dos últimos momentos do vizinho, o morador da esquina da Avenida 23 de Maio com o Viaduto Pedroso sente um outro peso: já viu muita gente a caminho do fim.  “É muito crack. Tem muito crack na rua”, diz. “Eu não gosto; gosto de pinga”, prossegue. E confessa: “Já tentei parar. Mas o senhor sabe, né?” E sorri… Um sorriso de desamparo.

Dilson Freire dos Santos, na esquina da Av. 23 de Maio

Dilson dos Santos, na esquina da Av. 23 de Maio/Fotos: Pablo Pereira

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