Uma das diversões do escritor Machado de Assis era acompanhar, e depois relatar em crônicas semanais, as sessões do Senado no Rio de Janeiro. Dessas maravilhas machadianas, trazidas dos anos 1890 para nosso tempo pelo professor John Gledson, algumas são pérolas do comportamento de políticos que à época usavam a tribuna do parlamento. Obviamente que sem microfones e sistemas amplificadores de som, o gogó e a retórica exigiam muito dos oradores. Mestre da ficção, Machado viveu aqueles tempos sem perder contato refinado com a realidade turbulenta e documentou, como um taquígrafo privilegiado, episódios da vida nacional.
Nessas breves observações empíricas sobre o grande escritor — o especialista na obra do homem na casa é Daniel Piza –, deixo, de propósito, aparecer o encantamento pelo Machado cronista do século 19. É faceta menos estudada no gênio das palavras, mas é a que a mim tem cativado, talvez por meu interesse pessoal naquele período. Sustentado pelo ensinamento que advém dessa admiração, vasculhava eu, outro dia, arquivos centenários de O Estado de S.Paulo, em busca de registros históricos, quando encontrei um texto, de 1935, sobre fatos ocorridos em São Paulo no alvorecer do Império.

Página de O Estado de S.Paulo, julho de 1935/Arquivo OESP
Uma reportagem contava a descoberta de documentos do caso de Francisco José das Chagas, o Chaguinhas, fato estudado em poucos círculos de historiadores e curiosos sobre o passado, mas bem presente no cotidiano de muita gente na cidade. Chaguinhas era paulistano. É tido hoje como um santo popular. E reverências lhe são feitas todas as segundas-feiras na igrejinha de arquitetura colonial no final da Travessa dos Aflitos, no coração do bairro da Liberdade.
Pois, bem ao espírito machadiano, um outro observador de seu tempo, Antonio de Toledo Piza, também ocupou-se do tema e descreveu, em 1900, na Revista do Instituto e Geográfico de São Paulo, um debate parlamentar ocorrido em plenário sobre o enforcamento de Chaguinhas. A Revista, documento precioso, é do acervo da Universidade de Toronto, onde a encontrei após alguns dias de perseguição virtual a informações sobre o que teria sido o último enforcamento do Império.

Revista do IHGSP, edição de 1900, da University of Toronto
No texto de Toledo Piza, a partir da pág. 59, estão detalhados debates políticos sobre a condenação de Chaguinhas à morte, em 1822, cuja execução foi programada para o local no qual estão hoje a Praça da Liberdade e a estação Liberdade do metrô. Para quem não conhece o drama de Chaguinhas, o homem era militar e, após participar de uma greve em Santos, contra o atraso do pagamento de salários às tropas imperiais de D. Pedro 1º, foi condenado à forca.
Ocorre que, no dia da execução da sentença, a corda amarrada ao pescoço do condenado arrebentou algumas vezes e, mesmo assim, os representantes do Império mantiveram a decisão de matar o grevista Chaguinhas. A decisão contrariava costume da época, segundo o qual, nesses casos, deveria o condenado ser poupado, afinal, o suplício teria sido evitado por obra divina.
Décadas e décadas se passaram e o assunto permaneceu sombrio na cidade. Antonio de Toledo Piza, então, aproveitando-se dos registros de um debate entre parlamentares, tenta demonstrar na Revista do Instituto Histórico e Geográfico as contradições no discurso de um político que usava o episódio Chaguinhas para atacar um adversário. Com a transcrição dos discursos na tribuna legislativa, pensava Toledo Piza levar luz aos fatos e clarear o raciocínio de que o enforcamento de Chaguinhas não poderia ser comprovado como real acontecimento.
Afora a dificuldade na documentação, o enforcamento de revoltosos, por si, mostra a brutalidade do ambiente social e político daqueles dias de incertezas no Brasil de Dom Pedro.
Mas o caso Chaguinhas, que permanece à espera da lupa de historiadores juramentados, é também parte relevante de um outro processo histórico de São Paulo: a luta pela preservação da capela dos Aflitos, pequena igreja que cuidava das almas de escravos, condenados e banidos, gente que à epoca era considerada de segunda e que tinha naquela região paulistana um ponto de refúgio. O prédio é uma construção de taipa, de 1775, marca de uma época na cidade.
Tombada pelo patrimônio, a capela, na qual são solicitadas as graças de Chaguinhas, com três batidinhas em uma porta de madeira, está em vias de avançar para as mãos do cardeal D. Odilo. Conta o cônego Raphael Emygdio Peretta, zeloso guardião daquele monumento histórico e religioso, que só após a avaliação do Arcebispo de São Paulo é que talvez possa a capelinha seguir para a etapa efetiva da restauração. Toc, toc, toc.
muuuito legal!
Sinto pela grafia, meu notebook esta desconfigurado. Mas Jose do Patrocinio tratou de um caso semelhante ao final do Imperio (pode ser encontrado no Livro: Motta Coqueiro ou a Pena de Morte). Coincidentemente, ha muitas conexoes entre as duas historias, inclusive no fato de que a forca nao funcionou para ambos e que mesmo assim seus carrascos continuaram com o suplicio. Assim, em primeiro lugar acho que nao se trata do ultimo enforcamento (no caso do Chaguinhas) e em segundo lugar, pela coincidencia de fatos, ambas as historias podem ser teses levantadas para combater a pena de morte.
Enrique e Almir
o livro do jornalista Carlos Marchi, que trabalhou aqui no OESP, conta a trágica história de Macaé. Material a respeito na web pode ser encontrado no endereço http://www.macabu.com.br/.
responder este comentário denunciar abusoConsta que em 1855, na cidade fluminenese de Macaé, foi enforcado o fazendeiro Antonio da Mota Coqueiro.
Interessantíssimo – recebi no meu twitter aqui. Porem o twiteiro do Estadão postou como sendo o último enforcado brasileiro, fato este que não confere com o que meus humildes conhecimentos históricos sabem. PArece que ele não leu o seu texto até o final, ou interpretou mal. O Último condenado a pena de morte é de 1855, também por enforcamento – conhecido como o caso da “Fera de Macabu” O Interessante deste episódio é que o acusado era inocente, fazendo com que D Pedro II, abolice a pena de morte no Brasil, fato que persiste como todosas sabem até hoje…
Jackson Kuntz – Historiador
abraço.
Tem razão o sr. Kuntz sobre o prosseguimento da prática da pena de morte. E mesmo em São Paulo, que é do que tratamos aqui, há relatos sobre outros casos de enforcamentos após o caso Chaguinhas. Para contribuir com o debate, será reproduzido aqui, na terça-feira, o texto da reportagem publicada em julho de 1935, no OESP, com mais detalhes de notas de pagamentos e outros comprovantes encontrados por pesquisadores na época. Há anotações sobre, inclusive, gastos com transportes das cabeças e mãos decepadas e de quanto cobrava o barbeiro para afiar o cutelo.
responder este comentário denunciar abusoCaro Sr. Kuntz, quando postei meu comentário o fiz motivado pelo título que a matéria trazia, referia-se à última pena de morte do Império. Foi isso que me fez afirmar que o caso de Chaguinhas não era o último caso de pena de morte do Império, uma vez que ao final do período houve esse caso controverso. Eu só tive acesso ao livro do José do Patrocínio, Motta Coqueiro ou a Pena de Morte, nas aulas de história da USP. Não me lembro de ter lido uma constatação de fonte primária que atestasse a inocência do fazendeiro. Existia sim uma série de irregularidades no processo condenatório como o depoimento de uma escrava contra seu senhor. Mas, por curiosidade, em que se fundamenta para afirmar que ele era inocente? E que foi exclusivamente por este caso que a pena de morte foi abolida no Império? E as coincidências nos relatos, não acha estranho? Não havia forças sociais a combater a pena de morte? O que seria muito interessante seria traçar uma análise comparativa entre as duas histórias.
Atenciosamente
Enrique
O Chaguinhas acabou enforcado ou a corda teimou em não cumprir a dolorosa tarefa? Muito bom o texto!
A matéria omite um detalhe delicioso: na verdade, depois que a corda se partiu tentaram enforcar Chaguinhas com um cinto de couro, que também não suportou. Ante duas falhas a população começou a gritar e pedir: “Liberdade, Liberdade”, mas os executores foram implacáveis e o mataram a pauladas mesmo. A partir deste episódio o largo passou a ser popularmente conhecido como “da Liberdade” e essa é a origem do nome do bairro.
Excelente a história do Chaguinhas! Não conhecia…
Não. Não se animem. Não haverá indenização nem aposentadoria para para os descendentes por perseguição pelo regime ditatorial do Império.
Segundo consta Chaguinha éra cabo dos Permanentes,atual Policia Militar se assim for os datas não batem pois os Permanentes fora criados em 1831 pelo Brigadeiro Rafael Tobias de Aguiar.
Este triste episódio esta relatado em toda sua crueza nos livros Fragmento da Historia da Policia de São Paulo de Pedro Gagini e A Bernardada- de Francisco Ignácio.
sim,foi uma maldade feita ao cabo chaguinhas,mas atualmente, com relação à volumosa criminalidade em prática no país, bem estamos a merecer penas de morte e prisão perpétua. pena máxima de trinta anos, é brincadeira, se o crimonoso cumpre no máximo, isto é, se não lhe facilitam antes a fuga das prisões. dê mil reais a um carcereiro e voce (o condenado) terá a fuga facilitada.
A pena de morte, ainda existe e é institucionalizada no Brasil.
Basta ver, quantos brasileiros morrem diariamente, de fome, neste país..
2013
2012
2011
2010
2009
Deixe um comentário: