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Blog da Garoa

04.fevereiro.2012 20:05:36

Passeios de sábado!

O ministro entrou no supermercado dos Jardins acompanhado por seu escudeiro, que de terno e gravata caminhava sempre um passo atrás do chefe. Percorreram os corredores lotados de gente sofisticada às compras no sábado pela manhã.

Eram figuras ímpares naquele ambiente informal. Com a longa barba grisalha, terno cinza-chumbo e uma bengala, seguido pelo homem de preto, o ministro chamava a atenção.

Caminharam pelo corredor das massas até a seção das verduras, diante da padaria. Senhoras distintas  e homens de fino trato andavam vagarosos com seus carrinhos por entre as gôndolas de croissants, bolos, rocamboles e geleias de damascos e mirtilos.

Foi quando o escudeiro alertou o homem de bengala sobre a presença de uma senhora, morena, famosa, que estava diante da prateleira dos pães franceses.

-Onde?, perguntou o ministro.

-Atrás do senhor, disse o homem de preto, olhando a morena de soslaio. É ela!

O ministro, então, aproximou-se. A moça mexia num balaio de belas baguetes. Ao lado da elegante mulher, o ministro grandalhão esbarrou no cesto e um pão caiu-lhes aos pés. Gentil, notando o imprevisto e a ilustre bengala, ela abaixou-se prontamente para apanhar o pacote.

-Olá! Tudo bem? disse o ministro, que também se curvara.

-Olá, respondeu ela, com um sorriso (e o pão na mão).

-Ontem mesmo pensei na senhora, emendou o ministro…

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No cinema, quando quer informar ao espectador que o que ele está vendo se passa num ambiente de cidade grande, o diretor costuma usar o truque sonoro das sirenes de ambulância de fundo. E o sujeito logo entende que a coisa ali é barra pesada, que trata-se de um modo de vida urbano com toda a complicação que dessa realidade advém.

São Paulo é assim. Complexa, gigante, com muitas sirenes e interesses de todos os tipos. Ricos, pobres, remediados, desamparados, todos convivendo num espaço que vem sendo adensado há 458 anos, completados nesta quarta-feira, sendo que seu crescimento vertiginoso – o que em parte explica muitas das atuais mazelas – ocorre a partir da década de 1940, quando a cidade tinha 1,3 milhão, e salta, em seis décadas, para 10,4 milhões (2000) e 11,2 milhões (2010), segundo os números do IBGE. É muita coisa.

Não é que o movimento criado por toda essa massa seja o culpado pelas dificuldades da vida na terceira maior aglomeração urbana do mundo (a cidade é polo atrativo e também influencia seus vizinhos, criando uma mancha que forma uma megalópole). Não. Essa montanha de gente, que é vítima cotidiana da violência, do trânsito, do abandono, das enchentes, fez riqueza e pagou seus impostos, encheu o caixa do poder público com seu suor. Produziu muito e em diversas áreas.

Tornou-se centro criador de um modo de vida de ponta no país. Atraiu imigrantes no passado como atrai investimentos no presente. A cidade tem um orçamento municipal de R$ 38,7 bilhões. Tem ciência top, gastronomia nota 10, arte fina, indústria avançada, emprego qualificado – e pelo menos três clubes de futebol com equipes de alto desempenho (São Paulo, Corinthians e Palmeiras). Ah, e tem a Lusa (de Antonio Manuel Leria, Flávio Gomes e Luiz Carlos Duarte)!

O que faltou foi produzir administrador público competente, honesto e com visão de estadista, gente com olho estratégico e sem a carga pessoal dos interesses de grupelhos ou partidos, à esquerda ou à direita.  Faltou foi gente de espinha ereta para administrar os conflitos, que se acumulam nesse mundão paulistano, pensando na cidade.

Deslumbrados pela importância da caneta que têm às mãos, os gerentes de São Paulo sentam-se naquela cadeira muito famosa, no Vale do Anhangabaú, com os olhos no estrelato de uma outra cidade, Brasília, e não em Sapopemba, Cracolândia  - ou nas águas do Ashton Kutcher.

Porém, mesmo com todas essas amarguras, o cachorrão vai adiante. E ainda oferece ambientes absolutamente bucólicos para se viver em diversos bairros. Dos elegantes e sofisticados aos mais simples e acolhedores. Há até locais nos quais se nota o barulho dos aviões, mas é raro o nervoso alerta das sirenes. E é possível, sim, curtir, não muito longe do Masp, a voz de sabiás e maritacas.

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19.janeiro.2012 11:32:19

É possível largar o crack

A jornalista Camila Tuchlinski entrevistou um ex-usuário de crack. É um excelente trabalho. Um depoimento tocante pelo drama de um personagem da Cracolândia paulistana, que perdeu anos da vida metido com as pedras. Mas é também um sopro de esperança nesse grave quadro de degradação humana que se vê todos os dias na cidade.

O vício do crack é uma doença. É difícil, mas tem saída. Já se conseguiu reverter o quadro do cancerígeno tabaco no mundo. Como não se consegue virar o jogo com esta droga derivada da cocaína? É preciso ação forte de governo para ajudar a quem não consegue se livrar sozinho. Ouça a entrevista.

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Para além do drama da cracolândia de São Paulo, a praga do crack começa a aparecer concretamente nas estatísticas mostrando a dura realidade do avanço das drogas no interior do Brasil. Um mapa da presença da droga, preparado pela Confederação Nacional dos Municípios, concluído no final do ano, mostra o tamanho da chaga município por município, segundo informações dos gestores de saúde das comunidades. Veja aqui.

No Estado, dos 645 municípios, 552 foram pesquisados. E 505 dizem que têm crack. O curioso é que o município de São Paulo, que tem pelo menos a mais dramática situação com a famigerada Cracolândia, não participa do mapa.

Reprodução do site Observatório do Crack

Os prefeitos recebem as senhas eletrônicas para atualização das informações, que são processadas online, e rapidamente dão conta se o sistema encontrou ocorrência da droga na comunidade. Ainda há municípios (na cor cinza no mapa), como São Paulo, que não informam a situação. É um indicador de que a situação da droga pode ser bem pior do que aparece no mapa, colorido de acordo com os formulários fornecidos pelas Prefeituras que aderiram ao estudo.

Os técnicos da CNM, que trabalham no Observatório do Crack (veja aqui o documento), acreditam que a ferramenta oferece o caminho para que todos os 5.563 prefeitos emprestem ao quadro a exata abrangência da droga.

Um outro mapa, com dados da Fiocruz, preparado pela equipe do estadao.com.br, mostra o quadro do crack nas capitais.

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“Maria, tem comida?”, disse um homem magro, barbado, agitado, que atravessou correndo a rua Dino Bueno, Centro de São Paulo, na direção da calçada onde Maria Moura Soares estava diante da porta de casa. “Ainda tem”, respondeu ela. “Mas é 5”. O homem, que saiu do meio do grupo que se aglomerava na rua Helvétia, coração da Cracolândia, tirou do bolso duas notas de R$ 2, entregou, e disse que depois voltaria para pegar o almoço e aí pagaria o restante.

Maria Moura, como gosta de ser identificada, tem 46 anos, mora na região há 11 e convive com a droga na porta de casa há pelo menos dois anos. Nos últimos dias, ela acompanha bem de perto a operação de combate ao consumo de crack na área.

Conhecida da vizinhança pela fala fácil e o tempero da marmita, a cozinheira fornece comida caseira, serviço que lhe garante o sustento de 7 crianças, 3 filhos e quatro netos, na pequena casa, quase na esquina mais agitada do bairro. Ela atende a todos com discurso envolvendo de comerciante. “Aqui em casa eu tenho mesa e quatro cadeiras para servir o almoço”, afirmou. “Vai comendo e vai saindo, dando lugar a outro”, resumiu Maria Moura, explicando o negócio.

No almoço da última sexta-feira, após a correria da manhã dos viciados na pedra, espantados da Helvétia pela polícia para desobstrução da via, o “restaurante caseiro” de Maria Moura servia peixe frito, peito de frango e costela (de vaca) ao molho, com arroz, feijão e salada. “Prato feito é R$ 5, comercial (bandeja) é R$ 7”, dizia ela. E acrescentava “a Tubaína é R$ 2 e o copo de suco, R$ 1”.

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Maria Moura Soares na cozinha de casa/Foto Evelson de Feitas/AE

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Naquele dia, Maria Moura colocou a comida no fogo mais cedo. Teve de sair para levar o filho ao médico às 14h. “Meu menino faz tratamento na Santa Casa. Ele está com um problema no ouvido. Com a graça de Deus, vai ficar bom”, contou a baiana, da região de Feira de Santana. Ela sobrevive da renda da cozinha e de um arrendamento de um bar, que fica na esquida, ao lado da casa.

“O problema desse pessoal aí tem uns dois anos”, disse Maria Moura. “Agora, com essa operação, eles vão se tratar”, afirmou ela. Nos últimos meses, os “nóias”, como os chama Maria Moura, dormiam na calçada diante da porta dela. E havia muito lixo espalhado na rua. “Agora está mais limpo. Vai ser bom pra eles. O pessoal da saúde está encaminhando eles. E aqui agora está mais tranquilo, tem muita polícia, e o pessoal da Prefeitura”, declarou.

Maria Moura contou ainda que sofre na própria carne com a situação da droga. Uma filha e um filho dela estão presos, depois de se envolveram com a pedra. Mãe natural de 7 filhos, ela ainda teve coragem para criar filho de outros. “São 8. Um é de criação”, explicou, lembrando da família que deixou na Bahia, onde vivem a mãe dela e irmãos. “Isso aqui não era assim”, lamentou.

A vida dura de Maria Moura piorou ainda mais nos últimos meses. Ela pagava R$ 2 mil de aluguel pela casinha de dois quartos, sala, banheiro, e pela área do bar existente ao lado. “Mas faz 3 meses que parei de pagar o aluguel”, disse ela. Da porta de casa, que mantém trancada por dentro por temor de invasâo contra as crianças, Maria Moura assistia a tudo sob tensão.

Na tarde da quinta-feira, agentes de saúde contavam 18 pessoas na lista dos viciados que procuraram ajuda para banho, corte de cabelo ou atendimento médico. Na esquina da casa de Maria Moura, carros de polícia estacionados. Outros, circulando, além de motos e agentes da Guarda Metropolitana andando pela vizinhança.

Segundo um dos coordenadores do serviço social da Prefeitura, seis pessoas haviam concordado em receber internação naquela tarde – três deles menores de idade. Jonatan, de 11 anos, Abraão e Felipe, de 16, foram encaminhados para o Caps 1. Os três adultos que aceitaram ajuda foram levados para a AMA da Sé. Um era do Guarujá.

“Aos poucos eles nos procuram”, diz um dos funcionários encarregados do contato na rua. Olhando um grupo de cerca de 60 pessoas, que se aglomeravam na quadra da Helvétia, entre Dino Bueno e Barão de Piracicaba, ele não parecia muito animado.

“É uma situação muito difícil”, disse, observando a movimentação do grupo agitado. Atrás dele, caminhões continuavam a recolher o lixo retirado dos imóveis abandonados que eram usados como moradia pela turma do cachimbo. “Já saíram daqui 69 toneladas de lixo, contando as 3,5 toneladas que estavam nas ruas”, afirmou outro funcionário. “Mas ainda tem casarão aí que nem foi mexido”, completou. Maria Moura, na calçada, atenta, vigiava tudo.

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08.janeiro.2012 10:57:59

Daniel queria ser Daniel. E é

Caía uma chuva de pedras no meio da tarde do sábado, em Higienópolis, bairro do Centro de São Paulo, quando começou a missa de sétimo dia da morte de Daniel Piza, na Igreja Santa Teresinha, rua Maranhão. Estavam lá a família, amigos, colegas e, tenho certeza, muitos leitores de Daniel. Todos tocados pela cerimônia que buscava um pouco de conforto para quem dele gostava.

Fica a imagem jovial, alegre, de Daniel – e sua obra, seja nos seus silenciosos amigos livros, seja em sua competente produção jornalística.

Daniel não queria ser Machado, que adorava, nem Francis, que o inspirava.

Daniel queria ser Daniel.

E é.

 

 

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Quando ocorre uma grande enchente, um desabamento de morro, um incêndio de favela, terremoto, tsunami, calamidades de larga repercussão social, a sociedade costuma reagir rapidamente para tentar controlar os danos e abrir portas para a recuperação das perdas, sejam elas humanas ou materiais.

Aparecem mutirões, surgem rapidamente anúncios de dinheiro oficial, nascem iniciativas individuais de solidariedade – que podem não conter efetivas soluções, mas sempre serão elogiáveis por aliviarem o desconforto de alguns e servirem para disseminar a vontade coletiva de encontrar logo uma saída para a crise.

São Paulo, poupada até agora do drama das enchentes de verão, vive nos últimos dias o choque do crack. A iniciativa de mexer no problema concentrado bem no Centro da metrópole levantou o manto que estava sobre aquela chaga paulistana, largamente denunciada nos jornais, debatida dentro e fora do poder público, mas sem solução efetiva. Os usuários e seus abastecedores da droga derivada da cocaína agora estão perambulando pelas ruas aturdidos pela presença da polícia, que ocupa espaços nos quais os viciados convivem há muito com a leniência das autoridades (municipal, estadual e federal).

É certo que o problema é de grande complexidade. É certo também que antes tarde do que nunca. Mexer na ferida ajuda na cura. E cada uma daquelas pessoas que lá estão à mercê da degradação carrega um drama pessoal intenso. Cada um necessita de um tratamento que contemple sua condição humana, que ofereça oportunidade de recuperação, de alternativa de vida. É possível largar a pedra. Há exemplos de sucesso.

Na cracolândia de São Paulo, infelizmente, muitos dos viciados já estão com seus padrões sociais abalados, com suas convicções absolutamente atrapalhadas e, dizem os médicos especialistas, em muitos casos, até com prejuízos mentais irreversíveis. É um enorme pepino social que precisa ser descascado por ações de políticas públicas claras e abrangentes.

Qual é o ponto? O ponto é que essa iniciativa contra a expansão do crack deveria ter sido tomada lá atrás, bem antes que o problema atingisse tal escala, com milhares de envolvidos. Mas isso não ocorreu. Governantes e governantes, de diversos partidos e cores ideológicas, passaram ao largo da tragédia que grassava na cidade. A cracolândia só fez crescer. E se espalhou pelo país. Agora, é caso de tratamento de urgência.

Porém, mais uma vez, não aparece na iniciativa de São Paulo um sinal claro de ação salvadora para essa calamidade. O tsunami de cachimbantes, manipulados por aproveitadores, provoca mortes e danos bem nas barbas das autoridades. E precisou chegar o ano eleitoral dos municípios para que, com a campanha à vista, os poderes públicos começassem a se mover.

Os oportunistas vão, seguramente, propagandear as atuais ações na campanha até outubro. Por enquanto, a recente investida não mostra claridade além da ação policial.

É complexo? Óbvio que sim! É fácil? Claro que não.

Ainda se procura até um jeito adequado para tentar devolver normalidade à vida dessa comunidade bagunçada. Vai longe o debate sobre a melhor forma de combate, se com internação à força do usuário ou se com tratamento na rua mesmo, experiência que já tem algum tempo em andamento em algumas cidades.

O problema já tem anos, duas décadas, mas nem os poderes públicos (Executivo, Judiciário e Legislativo) sabem como agir coordenadamente. Engatinham, coagidos pela ignorância e por uma gestão de orçamentos pífios em um serviço público que não se entende.

Meses atrás, em setembro, encontrei no interior do Nordeste – e o Estado publicou – casos de pequenas cidades do sertão nas quais se espalha essa lamentável realidade da pedra. O diagnóstico, igualzinho ao de São Paulo. Pobreza e droga barata, juntas, desgraçando famílias e famílias, amputando sonhos, abreviando vidas. O quadro nacional do crack é igualmente dramático.

No caso paulistano, o tamanho do tumor deixa claro que não basta extirpá-lo com a repressão policial e o controle higienizante das áreas na base do jorro de água de mangueira e detergente. É preciso muito mais.

Cadê as clínicas, casas, abrigos (seja lá o nome que se queira dar), para internações? Cadê os profissionais de saúde treinados em número suficiente para cuidar de centenas de usuários? Onde estão os alojamentos limpos, a alimentação, a ocupação do tempo, as palestras? É preciso medicação apropriada e muita conversa para convencimento, paciência e perseverança. Bastam minutos de contato com qualquer um deles para se notar o tamanho da tarefa.

É preciso muito mais do que jogar a polícia sobre a turba enlouquecida pelo cachimbo. É preciso encarar o avanço do crack como uma tragédia social, uma catástrofe, e a partir disso pegar pesado nas ações complementares. Se não, passados os meses da marquetagem eleitoral, novas ondas da pedra de cocaína voltarão a soterrar as ruas de São Paulo.

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31.dezembro.2011 11:36:25

Triste dia. Por Daniel

Nós tínhamos algumas paixões comuns, das quais falávamos: a vida, filhos, alguns amigos, jornalismo, bola rolando – e Machado de Assis. Dos livros, não falo em respeito a ele. Ele os criava; eu apenas os admiro (como a ele).

Daniel Piza foi enganado pela vida que amava tanto, e se foi.

Difícil entender. Muito difícil.

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Isso aqui nem é tão chocante, disse Roland Bigler, funcionário da Cruz Vermelha, auxiliar na negociação entre o governo peruano e o Movimento Revolucionário Túpac Amaru (MRTA) em dezembro de 1996.  Naquele dia 17, no início da noite, guerrilheiros tomaram a casa do embaixador japonês Morihisa Aoki, em Lima, em uma cinematográfica ação que durou 126 dias, e terminou em tragédia em abril.

Todo mês de dezembro lembro de Bigler conversando sobre o trabalho de mediação do chefe dele, Michel Minnig. Bigler era um otimista. Trabalhava na Colômbia, de onde fora chamado às pressas para auxiliar Minnig. Dizia que lá, sim, a situação era complicada. Havia “caminhado sobre cadáveres na rua”, lembrava ele, contando sobre a missão da Cruz Vermelha no conflito entre as Farc e exército regular. Eram dias tensos na América hispânica.

Passados 15 anos, o continente mudou bastante. A América do Norte vive aperto econômico com seus Occupy isso, Occupy aquilo, e os latinoamericanos, cada qual com suas mazelas, desenvolvem suas economias em relativa paz. O show de horrores das guerras internas dos anos 70, 80 e 90 deu um tempo, embora ainda haja escaramuças em alguns pontos, como na própria Colômbia – país que tanto preocupava Bigler àquela época. Hoje, a realidade é bem diferente daquele Natal de 1996.

Cobertura

Cheguei a Lima naquele dezembro como repórter do Estado e passei as festas acompanhando as libertações de mais de 500 dos 600 reféns dominados na noite da recepção do embaixador Aoki. Era uma mansão que tinha na fachada cópia da casa principal do lendário filme “E o vento levou”.

Entre os reféns estava o embaixador brasileiro Carlos Coutinho Perez, um dos convidados para a comemoração do aniversário do imperador japonês Akihito. Coutinho foi libertado logo na primeira semana.

O casarão branco, com suas altas colunas no frontal, foi demolido meses depois da operação sangrenta que pôs fim ao sequestro. O governo peruano queria eliminar qualquer vestígio daqueles dias de rebeldia dos guerrilheiros chefiados por Néstor Cerpa Cartolini, o comandante Evaristo, que planejava reencontrar e libertar colegas de guerrilha da cadeia, entre eles a mulher dele, Nancy Gilvonio, e a norte-americana Lori Berenson.

Frustração

Cerpa queria pegar o então presidente Alberto Fujimori na festa. Mas o presidente escapou minutos antes da invasão do grupo de 14 guerrilheiros. O MRTA então planejava trocar os reféns, inclusive um irmão de Fujimori, pelos seus integrantes que mofavam no cárcere peruano.

Momentos de alta dramaticidade da hora da tomada da embaixada podem ser revistos em vídeo no Youtube, com imagens de arquivo da TV Piura. O material mostra as primeiras movimentações da polícia logo após a entrada dos guerrilheiros, quando ainda não se sabia exatamente o tamanho da ação. São imagens fortes, reveladoras do drama que o mundo veria por quatro meses.

Outro dia, assisti também a outro vídeo, The Lima Siege (link no final do post), uma reconstrução feita pelo Discovery Channel, que relembra o caso e conta detalhes de como os militares infiltraram equipamentos de escuta levados ao interior da mansão dentro de uma Bíblia – e até um espião – sem que os guerrilheiros se dessem conta.

Cartão

Bigler, um homem simpático e gentil, foi o responsável pelo meu acesso ao suíço Michel Minnig, o escolhido para fazer o meio de campo entre o que queria Cerpa Cartolini e o que pretendia Fujimori. Minnig estava na recepção no momento da invasão do MRTA,  e passou a ser o principal ator entre as partes.

Bigler chamou por mim numa manhã quente de Lima, quando uma multidão de jornalistas do mundo inteiro se acotovelava à porta da Cruz Vermelha, disputando um eventual contato com o negociador-chefe. Dois veículos de informação foram autorizados a entrar na sede da entidade para entrevistas. O Estado e uma TV da Suíça, país de Minnig.

No caminho para a sala, que ficava diante de uma piscina cercada por um gramado bem cuidado, o funcionário da Cruz Vermelha devolveu-me o cartão de visitas que eu mesmo tinha entregue ao motorista de Minnig durante uma das três madrugadas de vigília diante da casa da Cruz Vermelha.

Na segunda madrugada do plantão na calçada, consegui me aproximar do carro que sempre chegava rápido e entrava na garagem sem abrir os vidros. Nele estava o negociador. Ele era a única esperança dos jornalistas de saber o que realmente estava acontecendo no interior da mansão do embaixador. O Palácio estava blindado, o exército não ajudava e o casarão havia sido cercado e isolado.

Mas Minnig não dava entrevistas, segundo Bigler, para não comprometer a imparcialidade do trabalho da entidade. Esse é um dos pilares da atuação dos organismos de pacificação. Isenção. Mas ele havia cedido e falaria.

Encontro

Andei com Bigler pelo jardim até a sala de Minnig, que estava ao telefone falando com o  Palácio do governo. Minnig fez sinal para que sentasse. Ao terminar o telefonema, levantou-se para cumprimentar-me, falando espanhol. Era um homem claro, magro, de semblante calmo. Disse que não comentaria detalhes da negociação para não atrapalhar a conciliação, mas que estava pronto para a entrevista.

Finalmente, depois de dias de expectativa, três noites em claro na rua a espera de uma oportunidade, ali estava o homem. Eu havia decidido pagar o mico de ficar na calçada até o sol nascer na esperança de pegá-lo na entrada ou na saída da sede da Cruz Vermelha. Não esperava ser chamado para o interior da casa. Resolveria a parada ali no carro mesmo, se fosse necessário. Mas ouvir as impressões dele era fundamental naquele momento.

Japonês

Na primeira noite, cheguei à casa, que ficava no bairro chique de Lima por volta de 22h, 1h de Brasília, depois que o jornal em São Paulo já tinha encerrado sua edição do dia. Um jornalista, da agência japonesa de notícias Kyodo News, foi companhia nas duas primeiras madrugadas.

O Japão, por estar diretamente envolvido no incidente, tinha grande interesse jornalístico no caso. Na segunda noite, quando o carro de Minnig se aproximava do portão, já na madrugada, corri para a lateral da casa, mas só consegui entregar um cartão ao motorista, que abriu o vidro para pedir que me afastasse do caminho. Havia cerca de 3 mil jornalistas em Lima naquela cobertura. E Minnig ainda resistia.

O japonês era um rapaz simpático e se comunicava em espanhol. Passamos horas sentados na calçada conversando sobre os dois países e sobre aquela crise peruana. Estávamos todos cansados dos longos plantões diante da embaixada.

Propaganda

Os guerrilheiros faziam as libertações de reféns no horário nobre de TV, mais apropriado para a divulgação da causa deles porque burlavam a edição e os fatos apareciam ao vivo, principalmente no Japão. Acreditavam que poderiam com isso pressionar o governo japonês do então primeiro-ministro Ryutaro Hashimoto a sensibilizar Fujimori para negociar.

Mas havia dias no cerco nos quais nada acontecia. Para frustração da massa de jornalistas que tomavam as ruas do bairro de San Isidro, isoladas pelos militares peruanos. Com aquele farto noticiário factual sendo oferecido a cada momento, a saída escolhida por muitas equipes era buscar novidades em outro “sítio”.

A casa da Cruz Vermelha era um deles. Quando o japonês não apareceu na terceira noite, pensei em abandonar a empreitada. Mas decidi aguentar mais aquela jornada. Foi mais uma noite sem sucesso. Minnig entrou novamente sem dar chance para uma pergunta.

Mas, pela manhã, veio a surpresa. Um funcionário da segurança abriu uma pequena janela de um palmo de altura e gritou o meu nome. Do outro lado da porta de aço havia ainda uma catraca, daquelas que têm ferros em cruz de cima a baixo e que só permitem a entrada de uma pessoa por vez. Bigler estava logo a seguir, com o meu cartão na mão.

Depois da entrevista, voltamos a conversar outras vezes. Bigler me ajudou a entender melhor o processo pelo outro lado das paredes daquele mundo violento. Voltei ao Brasil em janeiro, quando o drama da embaixada japonesa dava sinais de que o governo Fujimori prolongaria o cerco para ganhar tempo e organizar uma invasão.

Sempre que posso dou uma pesquisada para ver por onde anda aquela figura calma e atenciosa que me atendeu em Lima. Bigler permanece na Cruz Vermelha contribuindo pelo mundo com o diálogo em situações de risco. Uma nobre missão.

Fim do cerco

Quando Fujimori detonou a operação de resgate, em abril, eu estava na redação do Estado, em São Paulo. Vi pela TV, no meio da tarde, o momento do desfecho do sequestro da embaixada, que ainda continha 72 pessoas dominadas por Cerpa Cartolini. Bigler, acredito, deve ter ficado decepcionado com o final dos acontecimentos.

A imagem de Fujimori caminhando entre os corpos de guerrilheiros na escadaria da casa, logo após o combate, que foi estampada nos jornais do dia seguinte, sempre me recorda o esforço frustrado do funcionário da Cruz Vermelha para evitar a tragédia. E de sua expressão confiante num final negociado, algo diferente do que ocorria na Colômbia.

Retornei a Lima algumas vezes depois desse episódio. Uma delas para cobrir a campanha eleitoral que escolheu Alejandro Toledo presidente; outra para relatar negociações diplomáticas sobre a Alca. Recentemente, fiz uma viagem de quatro dias de ônibus de São Paulo a Lima.

O Peru mudou bastante. O país é hoje governado por Ollanta Humalla, um ex-militar que venceu eleições democráticas com discurso de esquerda e surfa em relativa prosperidade econômica no país. O Peru tem crescimento de PIB ao redor de 6%. Ex-guerrilheiros de extrema esquerda e ex-governantes corruptos, entre eles Fujimori e seu homem forte, Vlademiro Montesinos, estão na cadeia.

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Outro dia, início de dezembro, vi andando pela redação de O Estado de S.Paulo um ícone do silêncio, um homem que fala pelo que escreve – e que escrita! Era Luís Fernando Veríssimo. Portador do DNA da literatura, é um abençoado pelo humor e pela síntese, divindades que guiaram também os passos do poeta Mário Quintana, outro desses gnomos sulistas dos livros.

Veríssimo é um Quintana nos cartuns. O poeta adorava as palavras no fundo branco dos livros. Amava-as tanto que para não alterar-lhes o sentido no decorrer do tempo foi capaz até de admitir acento gráfico inexistente no original do próprio nome. Talvez por isso implicasse com histórias em quadrinhos, as primas das tiras –  forma de criação que Veríssimo gosta de usar para dizer mais com menos.  Com linhas e pontos, Veríssimo subverte a expressão (e o poeta).

Quem sabe se Quintana tivesse tido mais tempo (morreu em 1994) pudesse “sirrir”, como a Gabriela do poema Filó (“a gente se agachava a sirri que não parava mais”), apreciando a verve no traço único do filho de Érico. Ah, o Érico. Sim, aquele que além de adorar as tão adoradas palavras, certa vez salvou o poeta com a generosidade que só as grandes amizades são capazes de acalentar.

Érico, de extensa prosa, resumiu num bilhete com três palavras (a última uma aglutinação), vírgula e ponto final o aviso ao desempregado Mário dos anos 30 sobre as garantias para que deixasse o Rio de Janeiro e volvesse ao Rio Grande.

No sul, Quintana reencontraria, na editora do amigo, abrigo intelectual e dinheiro para viver – sinteticamente. Em livro de Néa Castro, Mário lembra que, no áureo tempo das longas cartas, o texto do pai de Luís Fernando cravava:  “Podes vir, mermão.”

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