Tem que ter muito espírito esportivo para encarar como uma verdadeira decisão essa disputa de terceiro lugar da Copa do Mundo. Embora muitos enxerguem alguma motivação no Uruguai para o jogo contra a Alemanha, é como torcer para aquela candidata mais ou menos levar a faixa de miss simpatia. Mesmo quando um dos lados está motivado nesse tipo de partida, o desânimo do outro lado sempre deixa menos doce o sabor do pequeno triunfo que o vencedor eventualmente possa experimentar.
Seria ótimo se as duas seleções perdedoras nas semifinais entrassem em campo na véspera da final com o apetite que teriam se estivessem no confronto do dia seguinte. Ainda mais se a esse apetite aliassem aquele tipo de descompromisso que as fizesse jogar por diversão, buscando sempre o gol, sem outras preocupações. Se isso acontecer, o futebol certamente poderá ter um jogo quase memorável neste sábado. Mas a realidade é que isso quase nunca acontece.
Uruguai e Alemanha têm experiência nesse jogo que ninguém quer disputar. Inclusive com um confronto direto que terminou com vitória alemã em 1970. O Uruguai também perdeu o outro 3° lugar que disputou, em 1954, para a Áustria. Além da vitória sobre os uruguaios no México, os alemães contam mais duas vitórias – sobre Portugal (2006) e Áustria (1934). A única derrota alemã num embate desse foi em 1958, quando tomou uma goleada de 6 a 3 da França, com o lendário Just Fontaine marcando quatro gols.
Se você não se lembra de nenhuma disputa de 3° lugar de Copa do Mundo, não se culpe. Nem mesmo os seus vencedores fazem muita questão de lembrar. Mas se você é do tipo que curte relembrar coisas como a terceira classificada naquele festival da canção, da miss simpatia, dos pilotos de terceiro escalão que se revezam no lugar mais baixo do pódio da fórmula 1 e do ganhador da medalha de bronze na Olimpíada, aqui vai a relação completa daquilo que o Zanin apropriadamente chama de “o mais triste dos jogos”:
2010 – Uruguai 2 x 3 Alemanha
2006 – Alemanha 3 x 1 Portugal
2002 – Coréia do Sul 2 x 3 Turquia
1998 – Holanda 1 x 2 Croácia
1994 – Suécia 4 x 0 Bulgária
1990 – Itália 2 x 1 Inglaterra
1986 – França 4 x 2 Bélgica
1982 – Polônia 3 x 2 França
1978 – Brasil 2 x 1 Itália
1974 – Brasil 0 x 1 Polônia
1970 – Alemanha 1 x 0 Uruguai
1966 – Portugal 2 x 1 União Soviética
1962 – Chile 1 x 0 Iugoslávia
1958 – França 6 x 3 Alemanha
1954 – Áustria 3 x 1 Uruguai
1950 – Suécia 3 x 1 Espanha (*Apesar de o campeão ser definido por pontuação num grupo de finalistas, esse jogo no Pacaembu acabou sendo, na prática, a disputa de 3° lugar, no mesmo dia em que o Uruguai bateria e calaria o Brasil no Maracanã)
1938 – Brasil 4 x 2 Suécia
1934 – Alemanha 3 x 2 Áustria
1930 – Estados Unidos ? x ? Iugoslávia (* Na primeira Copa do Mundo, no Uruguai, os dois derrotados nas semifinais não tiveram que passar pelo desconforto de disputar o 3° lugar. E os resultados das semifinais não seriam suficientes para decidir quem ocuparia o posto, já que as duas seleções foram goleadas pelos finalistas Uruguai e Argentina pelo mesmo placar: 6 a 1. Como também tiveram o mesmo número de pontos na primeira fase, com duas vitórias e o mesmo número de gols marcados, os Estados Unidos levariam a vantagem num hipotético critério de desempate de saldo de gols, já que não tomou nenhum, contra um dos iugoslavos)
Para saudar esses jogos malditos, uma música – tão memorável quantos os embates acima – do ótimo Ultraje a Rigor, do disco “Sexo”, de 1987.
Terceiro (Roger)
Ôôôôôô, Ôôôôôô, Ôôôôôô
Todo equipado, preparado na linha de partida
Daqui a pouco vai ser dada a saída
Todo mundo nervoso e eu não tó nem aí (O importante é competir!)
Então tá, vamo lá, nem vou me preocupar
Já tá tudo armado pra eu me conformar
Eu vou tentar só pra não falar que eu nem sou atleta
Ia ser legal chegar junto na frente
Mas iam falar que quero ser diferente
Tá bom demais, pelo menos eu não saio da reta
Por isso eu sempre sou
Terceiro! Ôba-Ôba!
Terceiro! Ôba-Ôba!
Terceiro! Ôba-Ôba!
Terceiro! Ôba-Ôba!
Terceiro!
Pra mim tá louco de bom!
Marcando passo vou seguindo sem ser muito ligeiro
Com cuidado pra não ser o primeiro
É bonito, eu imito mas o pódium não é pra mim (Eu não sou a fim!)
Se eu me esforço demais vou ficar cansado
Já dá pra enganar eu ficando suado
Se reclamarem eu boto a culpa no patrocinador
Não botaram fé porque não ia dar pé
Não ia dar pé porque não botaram fé
De qualquer forma eu pego um bronze porque eu gosto da cor
Por isso eu sempre sou
Terceiro! Ôba-Ôba!
Terceiro! Ôba-Ôba!
Terceiro! Ôba-Ôba!
Terceiro! Ôba-Ôba!
Terceiro!
Pra mim tá louco de bom!
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A música ‘Viva Hollandia’ embala os torcedores holandeses
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Sejamos honestos: a Holanda poderia ter enfiado uma sacolada no Uruguai no segundo tempo.
Robben, por imodéstia pura, deixou de fazer um gol simples para tentar fazer um golaço quando seu time já vencia por 3 X 1.
Sejamos mais honestos ainda: o Uruguai mostrou muito mais fibra do que a seleção brasileira, que só foi histérica.
O jogo, por ser uma semifinal de Copa, foi inferior a muitos jogos das quartas-de-final.
No primeiro tempo, os dois times estavam muito fechados e os gols só saíram porque Bronckhorst e Forlán acertaram tiros extremamente felizes de fora da área – arriscaram e se deram bem.
A Holanda se especializou em chatear atletas e torcedores adversários com um recurso que a América Latina já aposentou: a catimba.
O teatro ruim de Sneijder e Robben não é digno do futebol que seu time apresenta.
O segundo tempo do Uruguai foi pior do que o segundo tempo do Brasil – foi um time apático, acomodado no empate, até ser sacudido por dois gols-relâmpago. Forlán parece que joga sozinho (e o treinador fez um favor à Holanda, tirando-o no finalzinho).
O segundo gol do Uruguai, em cobrança de falta ensaiada já nos descontos, animou um pouco a torcida brasileira, que nunca foi tão uruguaia quanto hoje.
Loco Abreu é uma figura folclórica, mas é muito pouco efetivo em situações como essa.
A Holanda chega à final da Copa do Mundo com méritos, embora não seja um time incomum, extraordinário.
Seus méritos estão na aplicação tática, na retomada veloz do jogo, no valor que dão a cada centímetro de campo.
O Uruguai foi valente, mas modesto demais em suas ambições. Precisa retomar a vontade de ser campeão.

Com o perdão do clichê do título, foi isso mesmo o que aconteceu. O Uruguai, inferior tecnicamente à Holanda, perdeu mas vendeu caro a derrota. Caiu de pé, como se diz, nesse emocionante 3 a 2 que põe os laranjas em sua terceira final de Copa do Mundo. Como você lembra, as outras duas ela perdeu, em 1974 contra a Alemanha e em 1978 contra a Argentina.
Essa Holanda que agora chega à disputa do título contra o vencedor de Alemanha e Espanha não é nem de longe comparável às seleções de 1974 e 1978. Mas é incrivelmente eficaz. Não ataca muito. Quando o faz, é cirúrgica. Foi assim nos três gols que lhe deram a vitória. Snejider e Robben continuam a fazer a diferença. Além do mais, o conjunto é o seu forte. Não é aquele futebol encantador de antes, mas joga bem, de maneira consciente. Não é impossível que chegue ao seu primeiro título mundial, embora, na minha opinião, entre na final levemente inferiorizada, seja contra Alemanha, seja contra Espanha. Em especial se for contra a Alemanha, o time mais completo desta Copa.
E assim acabou-se, de maneira melancólica, a tal da “Copa América” na África. Os sul-americanos chegaram com força as quartas de final e já caíram todos. A Copa será europeia. E já existe um fato inédito a ser relacionado a esta Copa na África do Sul. Um europeu vencerá pela primeira vez fora do continente europeu. E a a balança se inclinará para a Europa: serão 10 títulos europeus contra 9 de sul-americanos em toda a história das Copas. Poderemos equilibrar o ponteiro em 2014.
Qual será a final da Copa de 2010?
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# No 23.º dia, ‘Copa América’ vira ‘Eurocopa’
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Bernat Armangue/AP
Nem todo mundo gosta da ideia de uma segunda seleção para torcer na Copa do Mundo. Natural. A rivalidade entre países pode ser tão grande quando a dos clubes, por exemplo. Mas com a eliminação do Brasil, o Uruguai pinta na semifinal como uma dessas seleções sem contraindicação.
Em resumo, fez o papel que em geral é reservado para os anfitriões. Noves fora a precoce eliminação da África do Sul, que inclusive perdeu por 3 a 0 para a Celeste na primeira fase, Diego Forlán e Luiz Suárez arrebanham novos fãs.
Esse último, aliás, merece o título de o grande personagem da Copa até aqui. Trocou um pênalti e uma consecutiva expulsão por mais alguns segundos com a esperança de seguir no Mundial. Deu certo. Quando viu a bola do ganense Gyan explodir no travessão, no último minuto do segundo tempo da prorrogação, teve a certeza de que já tinha sido recompensado.
Mesmo os uruguaios estão satisfeitos com o desempenho de sua equipe. Antes do jogo, Darío Pereyra já tinha dito que estava impressionado e sequer esperava tão mais. Agora, terá que rever sua opinião. E para o lado bom. Já tem mais gente torcendo pela seleção do ex-zagueiro.
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Eugene Hoshiko/AP
O centro-avante, artilheiro do time, dentro do próprio gol deu uma cortada na bola que o eliminaria da Copa. Mão mais do que humana. Foi expulso. Saiu de campo aos prantos, achando que tinha levado os irmãos à eliminação. Cabeça baixa, que se levantou a tempo de ver o artilheiro oponente bater o pênalti no travessão. Isso tudo no último minuto do segundo tempo da prorrogação. Não há como não amar o futebol.
Uruguai e Gana fizeram um jogo de vida ou morte e quem não é uruguaio ou ganense não conseguia torcer por um lado sem um sentimento de que o outro também merecia vencer. Será que não dá para, só dessa vez, passar os dois? Não deu. Na disputa dos pênaltis, é difícil dizer se faltou maturidade ao time africano. Porque, convenhamos, depois de jogar a partida que eles jogaram, não havia muito mais a provar.
Não acho que valha a pena fazer uma análise tática, fria e matemática desse jogo. Para mim, o que vai ficar na memória é a lembrança do que é a emoção em campo e a certeza de que, quando jogado com raça, mas ainda com alegria, o futebol é a adrenalina incomparável.
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Quem vence o confronto Brasil x Holanda?
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Quem vence o confronto Uruguai x Gana?
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Quem vence o confronto Alemanha x Argentina?
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Quem vence o confronto Espanha x Paraguai?
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Enrique Marcarian/Reuters
A Argentina voltou a exibir neste domingo, 27, uma combinação de uniforme um tanto esquisitona para os ávidos defensores das tradições na Copa do Mundo. O calção azul e a camisa listrada não eram usados juntos desde a final de 1930, o jogo disputado cada tempo com a bola de uma seleção. Desta vez, deu sorte - se é que essas coisas realmente passam pelos deuses do futebol.
Contra o Uruguai, 80 anos atrás, a reedição da decisão olímpica dois anos antes, essas peças estavam lá. O meião era preto, ao contrário do azul de hoje, é verdade. Em todo caso, foi um 4 a 2 contra, título para os anfitriões e um longo período até a mítica cair na África do Sul.
Se bem que, com todos esses atacantes, a seleção pode, sem superstição alguma, alcançar a quinta final na história dos Mundiais. Além disso, existe um maestro na beira do campo. “El Diez”, Diego Maradona conseguiu como poucos cercar seus comandados em uma família e isso faz a diferença na reta final.
É esperar para ver. Já nas quartas de final, mais um degrau. Encara a Alemanha, um aniversário superior tecnicamente ao México. No retrospecto, duas vitórias alemãs (1958, 1990 e 2006), dois empates (1966) e uma argentina (1986).
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Debaixo de uma chuva fina no Nelson Mandela Bay Stadium, em Port Elizabeth, quase que o Uruguai é traído pela sua própria vocação defensivista.
Após fazer 1 X 0 na Coreia do Sul, com Suárez, recolheu-se demasiadamente e levou o empate, aos 22 minutos do segundo tempo. Aí, se reorganizou do meio para a frente, com Forlán coordenando as ações, e empatou com o mesmo Luiz Suárez (o jogador do Ajax agora é também artilheiro da Copa).
É a marca dessa Copa do Mundo até agora: o excesso de cautela, o desejo de chegar é maior do que o desejo de jogar. Times que têm a chance de resolver a partida se recolhem para garantir resultados.
O gol coreano saiu numa falha do goleiro Muslera, de 23 anos, talvez o ponto mais fraco dessa seleção uruguaia – ele saiu desnecessariamente numa bola aérea junto com Lugano, que por sua vez subiu atrasado e de costas.
O desempate só veio com Suárez aos 35 minutos, que matou a bola, cortou para dentro e levou dois zagueiros coreanos e chutou da entrada da área no segundo poste, longe do alcance do goleiro Woon-Jae Lee. É bom dizer que, antes disso, Suárez havia perdido duas chances incríveis, sozinho com o goleiro.
Agora, o Uruguai já está entre as oito melhores seleções do certame (na última participação no torneio, em 2002, ficou apenas em 26º lugar).
É a primeira equipe a se classificar para as quartas-de-final.
Campeã do Mundo em 1930 e 1950, o Uruguai procura recuperar o prestígio perdido. Tem tudo para ir mais longe, o time é sólido e rejuvenescido.
Foi um jogo de muitas opções. A Coreia, de Chu-Young Park, tocava muito bem a bola e envolvia o meio de campo do Uruguai, especialmente após tomar o gol no primeiro tempo.
O time coreano tem ótimos apoiadores, dois alas clássicos, muito habilidosos e ousados, destacando-se o lateral Du Ri.
No finalzinho, quase que a Coreia empata (a bola, chutada da entrada da pequena área, passou entre as pernas do goleiro Muslera e ia em direção ao gol, mas Lugano aliviou).
O treinador Huh Jung-Moo (o mesmo que no México de 1986 chutou Maradona) é esperto e ofensivo.
No final, os uruguaios dançaram a sua novíssima milonga e festejaram muito a classificação, que os recoloca no olho do furacão do futebol.
Como na canção de Jorge Drexler: “Llueve, llueve y en todos los rincones del país / la tierra está agradecida”.
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