Rogério Ceni e Paulo César Carpegiani se disseram vencedores morais do clássico em que o São Paulo perdeu por 2 a 0 do Santos. Muita gente lhes dá razão. Baseados em quê? Em números. No maior tempo de posse de bola, nos chutes a gol, nos passes trocados. Quem olhar as estatísticas, sem saber do resultado, concluiria por goleada tricolor – fora o show de bola. Já o resultado do jogo – números outra vez – diz o contrário. Venceu o Santos, com menor número de chutes a gol, menos posse de bola, menor número de passes trocados. Foi superior “apenas’’ num item – o número de vezes que conseguiu balançar as redes do adversário. Mero detalhe. Dois detalhes.
É curioso como toda essa análise numerológica tem de se servir de elementos mágicos para explicar por que o placar final não refletiu as estatísticas do jogo. “Tivemos falta de sorte’’, disseram. Quer dizer, tudo saiu como o planejado, mas o acaso não quis que a superioridade fosse traduzida em vitória. Por exemplo, aquela bola chutada na trave por Jean, e que deixou os são-paulinos com o grito preso nas amídalas: por que não foi gol ? “Ora, porque a bola não quis entrar’’.
Essa frase, de boleiros novatos ou veteranos e de comentaristas de todas as índoles, traduz nossa perplexidade diante do jogo. Em falta de melhor explicação, atribui-se ao objeto bola poder de decisão sobre a sua própria trajetória. Em meio às explicações estatísticas da ciência exata, estamos às voltas com a forma mais arcaica do pensamento mágico. Mandinga junto com o notebook do professor.
Com as estatísticas queremos cercar o imponderável de um jogo que não cessa de nos desafiar por suas oscilações. A meu ver, é inútil querer transformá-lo em ciência. O futebol é uma arte – no sentido amplo do termo. Um artesanato, que pode (e deve) ser aperfeiçoado no plano coletivo e no individual, mas tem muito mais a ver com o “saber fazer’’ de um pintor ou de um trabalhador especializado do que com as equações da ciência. Tem mais parentesco com a culinária e a escultura do que com a física e matemática. Ninguém sabe de antemão se um prato novo será genial ou apenas bom. Ou se uma tela revolucionará a arte da pintura ou será apenas repetição de centenas outras já existentes de forma rotineira pelo mundo.
Conclusão, minha pelo menos: no futebol, como nessas artes correlatas, é mais interessante analisar a qualidade do que a quantidade. De que vale ter dado mais passes, se a troca de bolas laterais de 3 metros conta tanto quanto o lançamento fatal de 40 metros? De que serve contar os tiros à meta se um chute torto na bandeirinha de escanteio vale a mesma coisa de uma colocada no ângulo? Qual o valor da posse de bola se a cifra não conta o que se fez durante esse tempo?
Claro que ataques sistemáticos, repetidos e eficientes tendem a se traduzir em gols. Tendem, mas também isso não é certo. E não precisamos de estatísticas para comprová-lo. O povo, mais sábio, apenas diz: futebol é bola na rede. Quem precisa de mais ciência e mais certezas, errou de esporte.
Na Colômbia. Quer dizer que já está tudo perdido para o Corinthians, como ouvi dizer por aí? Nada disso. Pelo menos não é a minha impressão. A situação é difícil, mas não desesperadora. Basta vitória simples, ou empate com gol marcado, para o Timão passar à fase de grupos da Libertadores. Tarefa nada impossível, mesmo na casa do adversário – e estamos falando do Tolima, não do Boca Juniors. O problema não é nem o adversário, mas a maneira como o Corinthians vem jogando. Não faltou garra, abnegação ou seriedade no primeiro jogo. Faltou fluência. É impressionante como às vezes uma única peça perdida desarticula todo o conjunto. Essa peça chama-se Elias. Não há substituto para ele. Esse é o “x’’ do problema. Não para o jogo contra o Tolima, mas para o resto do ano.
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Amigos, o futebol brasileiro nos reserva surpresas incríveis. Eu achava já bastante interessante que Rivaldo, o grande craque da Copa de 2002, fosse presidente e jogador de um mesmo clube, o Mogi Mirim, pois poderia pôr em prática a frase antológica de Neném Prancha, o maior filósofo da bola: “O pênalti é tão importante que deveria ser batido pelo presidente do clube”. Pois bem. Não teremos a oportunidade de ver a tese de Neném realizada na prática porque Rivaldo jogará pelo São Paulo e não pelo Mogi. Continuará presidente? Não parece estranho um jogador atuando por um clube e presidindo outro? Mas, quer saber? Estou muito curioso para ver Rivaldo na equipe do São Paulo. No Mogi, ele seria o salvador da pátria, literalmente o dono do time, aquele que joga por todos.
Tarefa ingrata, ainda mais para um veterano. No Tricolor, em time estruturado, cercado de bons jogadores, poderá mostrar se ainda conserva aquela lucidez, o toque refinado que mostrou em seus melhores tempos. Aposto que será a cereja no bolo. Aquele que dará dois ou três toques decisivos durante um jogo, fazendo a diferença com sua categoria. No futebol, cada vez mais dependente da parte física, 38 anos pesam. Mas a técnica não se desgasta com o tempo. Apura-se. Acho que Rivaldo não esqueceu como se joga bola em sua passagem pelo Uzbequistão e ainda guardou algumas cartas na manga para botá-las sobre a mesa em tempo oportuno.
Não deixa de ser curioso, e até comovente, ver reunida no Brasil boa parte da seleção que nos deu o quinto título mundial. Ronaldo e Roberto Carlos no Corinthians, Ronaldinho no Flamengo, e, agora, Rivaldo no São Paulo. Nenhum deles jogava em clube brasileiro na época da Copa de 2002. Ronaldo estava na Inter de Milão, Rivaldo no Barcelona, Ronaldinho no Paris Saint Germain, Roberto Carlos no Real Madrid.
Brilharam na Europa, ganharam todo o dinheiro que o futebol pode proporcionar, e agora retornam ao país de origem, como se tivessem cumprido um período de exílio e voltassem como filhos pródigos. Vários outros jogadores dessa conquista estão por aí. Marcos e Rogério Ceni, que nunca saíram. Juninho Paulista é dirigente do Ituano, Denílson é comentarista de TV. E vai por aí.
Fico fascinado por esses jogadores que voltam, depois de findo o seu período de estrelato no Primeiro Mundo. Alguns com idade avançada, ou com problemas físicos, outros desiludidos e saudosos, chegam e desmentem os críticos mais pessimistas. Ronaldo veio a ser decisivo em 2009 e impõe respeito com sua presença. Roberto Carlos é o melhor lateral-esquerdo em atividade (falhou no domingo, todos falham).
Agora, Rivaldo e Ronaldinho Gaúcho. Além do que podem fazer em campo, o fator marketing é soberano. Ídolo em casa, transformado em ícone publicitário, é dinheiro em caixa. O futebol hoje é isso. Mas, claro, há o jogo e, no gramado, esses velhos mestres ainda têm o que mostrar.
Acima de tudo funcionam como referência para as torcidas. Será que têm ideia da responsabilidade que assumem perante torcedores carentes de ídolos? Não sei. Espero que sim. Senhores boleiros veteranos, sejam bem-vindos à casa, mas não decepcionem suas torcidas. A mística do futebol depende da magia que só a presença de vocês, craques, proporciona. Mesmo o marketing depende disso, não esqueçam.
Me engana… Qualquer análise do Campeonato Paulista 2011 passa por uma obviedade: este novo sistema foi feito para classificar todos os grandes e mais quatro (ou três, se considerarmos que a Portuguesa ainda faz parte do primeiro grupo) convidados para os playoffs. É o problema de campeonatos disputados fora do sistema de pontos corridos.
Proporcionam jogos finais emocionantes, mas o preço a pagar é uma série de partidas iniciais que não valem rigorosamente nada. Troca-se um desfecho emocionante por uma primeira fase mais do que previsível.
Será que vale a pena?
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Ninguém pode dizer, em sã consciência, que a primeira rodada do Campeonato Paulista tenha sido uma festa para os olhos de um apreciador de futebol. Equipes ainda meio tortas, fora de forma, desfalcadas, desentrosadas – tudo isso de certa forma era esperado neste início de temporada. Em alguns casos, houve time que superou as expectativas e foi pior do que se imaginava. Não vamos desanimar.
Sim, porque, apesar disso tudo, não é que tivemos momentos muito interessantes? Por exemplo, o Santos, sem oito titulares, passeou no jogo contra o Linense e pelo menos um dos quatro gols que marcou foi muito bonito. Escapada de Zé Love pela esquerda e toquinho esperto na saída do goleiro, que foi mal no lance. Adílson Batista jogou com três atacantes, mostrando disposição de dar continuidade à filosofia de jogo ofensiva do Peixe.
Mas o momento mais surpreendente (e bonito) da rodada, claro, foi o gol olímpico de Roberto Carlos contra a Portuguesa. O lance teve aqueles ingredientes que agradam em cheio ao boleiro amante da arte do futebol. Foi misto de técnica refinada e pura malandragem. Enquanto o goleiro da Lusa se distraía orientando a defesa para a cobrança de escanteio, Roberto cobrou depressinha, com o lado de fora do pé, bola baixa, que fez a curva improvável e entrou na meta. Houve ainda a participação de um jogador do Corinthians, que voltava da linha de fundo e abriu as pernas para deixar a bola passar. Na opinião do comentarista de arbitragem da Globo Renato Marsiglia, esse fato torna o lance irregular. Mas não lhe tira o mérito, se não quisermos nos ater à fria letra da lei. E muito menos lhe tira a graça – no sentido amplo do termo.
O que é a graça? Aquilo que surpreende, que sai do esquadro, da “normalidade’’, da rotina do jogo. A graça tem algo de espiritual, é como uma iluminação, a exposição de uma possibilidade que não sabíamos existir. Tem algo de cômico também. Faz rir. Garrincha fazia a torcida rir, ao entortar seus “joões’’. Pelé fazia rir, ao se enganchar num adversário para simular uma falta dentro da área. A graça pode vir de um drible, de um passe inesperado, de uma malandragem genial. Pode ser um gol como o de Roberto, o primeiro gol olímpico em sua longa e vitoriosa carreira. Gol olímpico é sempre uma maravilha, desafia a linearidade do pensamento. Para o leigo, parece algo impossível. Pelas leis da física é pensável, mas é muito difícil. Quando ainda inclui um ingrediente de malícia, como foi o caso nesse gol do Corinthians, ele se torna ainda mais fascinante.
Enfim, esses momentos, para uma rodada de abertura, estão mais do que bons.
O que ainda não dá é para fazer prognósticos em relação aos grandes que, para ser franco, se bateram contra adversários muito fracos. Quer dizer: infelizmente já dá para falar alguma coisa do Palmeiras. Se Santos, São Paulo e Corinthians, com mais ou menos brilho, fizeram a lição de casa e já embolsaram três pontos, o Palmeiras empacou diante do Botafogo de Ribeirão Preto – e jogando em casa. Na estreia, o time de Felipão ganhou sua primeira vaia da torcida. Outras virão? Como as coisas não vão exatamente lá muito bem pelos lados do Parque Antártica, até o Palmeirinhas já foi desclassificado da Copa São Paulo.
Convenhamos: é preciso caprichar na ruindade para cair nas fases iniciais da Copinha. E os meninos do Palmeiras dançaram diante do velho Nacional, da rua Comendador Souza, sim senhor! Com eleição pela frente, o Palestra ainda tem muito tempo para se aprumar e fazer de 2011 um ano diferente de 2010. Mas é melhor não facilitar muito, não. Mesmo porque, com crise política ou sem, a turma do amendoim continua sempre atenta e vigilante.
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A Copinha não engrenou, os “reforços” do seu clube não entusiasmam: então o que fazer, antes que comecem os campeonatos regionais, quer dizer, o futebol para valer? A resposta: divertir-se, se isso for possível, com o imbróglio da contratação de Ronaldinho Gaúcho pelo Flamengo, depois de oscilar entre Grêmio, Palmeiras e até Corinthians.
Coberto de razão, Pelé disse que era indigno de uma pessoa humana, um ídolo ainda por cima, submeter-se dessa forma a um leilão. De fato. Como achar normal esse tipo de comportamento, mesmo em mundo tão mercantilizado como o nosso? É evidente que todo profissional tem o direito de exigir a máxima recompensa por seu trabalho. Mas não existiria aí certo exagero, proporcional às cifras fantásticas pleiteadas pelo Gaúcho e por seu agente-irmão, Assis? Não precisariam de jeito nenhum chegar à utopia proposta por Pelé – jogar de graça para o Grêmio, pois já teria conta bancária bem fornida, para ele e para as gerações vindouras. Ora, se existe uma coisa que os ricos nunca acham que têm demais é dinheiro. Exatamente por isso são ricos.
Ronaldinho, o bon vivant Ronaldinho, dos pagodes, dos dribles e das baladas, não seria exceção. Quer mais e mais, como qualquer pessoa em sua condição. Mas não poderia ter encontrado um meio-termo entre ética e ambição, fechando com o Grêmio para resgatar aquela antiga dívida simbólica com a torcida do seu clube de origem? Não. Para variar, o vil metal falou mais alto.
É possível que esse leilão de Ronaldinho não seja lá tão diferente de outras “negociações” envolvendo jogadores. Talvez seja apenas mais tosca e explícita, por isso nos chame a atenção. Na verdade, é até útil para tomarmos consciência daquilo em que se tornou o mundo do futebol, pelo menos este futebol profissional de alto nível, com tantos interesses econômicos implicados.
Para o bem e para o mal vivemos na era do marketing, da publicidade. Jogadores como Ronaldinho e outros do mesmo patamar valem pela imagem. Nem precisam jogar tanto assim para justificar as cifras que movimentam.
A prova é o outro Ronaldo, o Fenômeno. Chegou desacreditado ao Corinthians, fez um bom 2009 e um 2010 pífio. Apesar de alguns gols magníficos, se fôssemos julgar Ronaldo pelo critério míope do custo benefício (Quanto onera em salário? Quanto rende dentro de campo?), o resultado seria negativo. Mas esse é o cálculo errado. A conta certa é verificar quanto se gasta com o Fenômeno e quanto ele traz de volta sob forma de marketing. E, feita essa conta, o saldo será amplamente positivo, jogue bem ou mal. Ou nem jogue, se for o caso.
Com Ronaldinho, a conversa será outra. Sem problemas físicos, não há por que duvidar de que jogará bem, e com mais frequência, num futebol do nível do brasileiro atual. Cada lampejo de craque no Flamengo irá turbinar sua imagem que, por sua vez, fará tilintar a máquina de marketing montada em torno de sua figura. Bem administrada, a marca Ronaldinho Gaúcho poderá ser uma mina de ouro. Daí a disputa acirrada por ele quando, notoriamente, seu mercado na Europa estreitou-se.
Melhores do mundo
Eu pensava que o melhor do mundo seria Iniesta, pela boa Copa realizada e, em especial, pelo gol do título contra a Holanda. Mas prevaleceu o bom senso e Messi vence de novo, mesmo tendo realizado uma Copa aquém do que se esperava. Mas Messi é mesmo o melhor. Assim como a melhor do mundo no futebol feminino é Marta, com seus cinco títulos, apesar da bronca da alemã Birgit Prinz. Só não gostei do melhor gol. O do turco Altintop é belo, mas prosaico. O de Neymar é poesia pura: pensou o impossível e tornou-o possível. Europeus importam a poesia, mas não a apreciam.
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Na última coluna do ano, é praxe cumprimentar o campeão. Pois então: parabéns, Fluminense, campeão brasileiro de 2010, com honra e mérito. E não é que ouço muita gente se perguntando se o Flu era, de fato, o melhor time de 2010? Muitos acham que não: o Santos teria mais brilho, pelo menos durante algum tempo; o Inter dispõe de elenco melhor, o Corinthians seria mais sólido, o Cruzeiro jogaria mais bonito.
No campo das opiniões, tudo isso pode ser verdade. O Flu ganha o título de 2010 sem apresentar um futebol de sonho, quem há de negar? Mas a verdade é o Fluminense, mesmo sem encantar, foi o time mais regular do campeonato. Liderou durante 23 das 38 rodadas, número que fala por si. E, mesmo na reta final, conseguiu superar o visível nervosismo e fazer os pontos de que necessitava. Minha tese é a seguinte: no sistema de pontos corridos o campeão é sempre justo e legítimo, a não ser que haja uma lambança de arbitragem daquelas de arrepiar, uma roubalheira de antologia, de entrar para a História, como a que aconteceu há poucos anos. Fora isso, não existe nada que tire o mérito do campeão.
Campeão atípico porque se a matemática esportiva fosse coisa séria, o Fluminense deveria ter disputado a Segunda Divisão em 2010 e não a Primeira. Com dez rodadas para terminar o campeonato de 2009, sua possibilidade de queda era de 99%. E não é que, contra toda a estatística, o Flu, com Fred em estado de graça, foi enfileirando vitória sobre vitória, até escapar e desmoralizar a matemática?
Livrou-se do descenso para, no ano seguinte, tornar-se campeão. Não sei se no mundo existe façanha semelhante. Eu não conheço. Mas posso imaginar o que sobre essa aventura na corda bamba da impossibilidade escreveria o mais ilustre dos torcedores do tricolor carioca, o grande Nelson Rodrigues. Teceria um épico que, segundo ele, estaria já inscrito nas tábuas da lei dois mil anos antes do Gênesis.
No mundo mais terreno, outros detalhes chamaram a atenção nesta conquista do Fluminense. Uma delas, a presença de Conca, o mais confiável dos jogadores e o melhor do ano no Brasil. Um meia daqueles autênticos, capazes de encontrar os atalhos do campo e por eles fazer a bola fluir até os pés dos artilheiros. Ele próprio andou marcando gols, quando foi preciso. Ainda dizem que não define nas partidas difíceis. Mas e a regularidade, e a média alta de desempenho, não contam nada? É o craque do ano, mesmo comparado a outro argentino, Montillo, do Cruzeiro, e ao futebol vistoso de Neymar, no Santos.
Outra coisa me surpreendeu. Enquanto todos comemoravam o título, Muricy dizia que era preciso melhorar muita coisa no Fluminense; que o time desse jeito não iria longe na Libertadores e era preciso investir mais na estrutura do clube. Muricy não relaxa. Não sei se algum de vocês já teve um chefe com essa personalidade. Pode ser bem incômodo. Mas alguém com esse perfil consegue tirar o melhor de cada um e fazer a equipe funcionar em sintonia. Exigente, impõe-se pelo exemplo, pela disciplina e pelo senso de justiça. Como, além de todas essas qualidades, Muricy distinguiu-se pela honra à palavra empenhada, recusando o cargo de técnico da CBF ao não ser liberado pelo Fluminense, para mim fica sendo uma das grandes figuras esportivas do ano. Numa época de vale-tudo generalizado, Muricy mostrou que é possível dar-se bem na vida e respeitar a ética ao mesmo tempo. Não é exemplo para ser ignorado.
Férias
A bola parou e eu também. Dou um respiro de férias aos leitores, mas já marco o reencontro para 11 de janeiro de 2011, véspera do Campeonato Paulista, quando esta coluna volta à ativa. Boas festas e ótimo ano novo a todos. Até mais.
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A disputa pelo sistema de pontos corridos é como a democracia: cheia de defeitos, mas não se conhece nada melhor. A comparação é minha, mas a ideia, convém ir logo confessando, pertence a sir Winston Churchill, ex-primeiro-ministro britânico, líder da resistência à Alemanha nazista e uma das grandes personalidades do século passado. Charutão eterno à boca, Churchill, quando ouvia falar das imperfeições do regime democrático, lascava logo a frase: “A democracia de fato é o pior dos regimes possíveis, com exceção de todos os outros conhecidos.” Falou, e o que disse vale até hoje.
E eu digo tudo isso, invocando até o velho leão inglês, porque, com essa história do entrega-entrega generalizado, aves de rapina já se juntam em revoada para tentar mudar, mais uma vez, a fórmula de disputa do Brasileiro. Campeonato que, nesta reta final, está tendo tanta entrega de um time para outro que passou a ser chamado nas esquinas de “Brasileirão Delivery”. Você pede pelo telefone e o time entrega os três pontos em domicílio.
Claro que cenas como a da torcida do Palmeiras domingo em Barueri em nada contribuem para a credibilidade de um campeonato. Foi constrangedor, e o goleiro Deola, um dos poucos a honrar a gloriosa camisa do Palestra, saiu de campo chocado. Pressionado a tomar gols, era vaiado ao praticar defesas difíceis e teve até de se esquivar de copinhos d”água jogados pela própria torcida, o que parece inconcebível. Enfim, o que se tem visto em alguns campos brasileiros é a antítese do espírito esportivo.
De maneira informal, tenho conversado com amigos torcedores, todos finos, gente de cultura e, em sua maioria, favoráveis ao entrega-entrega geral. Quando digo que isso pode comprometer a própria essência da disputa, riem de mim. Como não sou moralista, sei muito bem que a argamassa a dar liga ao futebol atende pelo nome de rivalidade. Somos todos, em crianças, ensinados a amar um time e detestar outros tantos. Isso passa de pai para filho. Num mundo perfeito, seria possível palmeirense cumprimentar corintiano pelo título obtido, ou torcedor do Grêmio se alegrar com a conquista do Internacional. Ficaríamos tristes quando um rival cai para a segunda divisão e apresentaríamos nossa solidariedade aos amigos. Dizem que o grande Ciro Monteiro, Flamengo doente, não conseguia curtir direito quando seu time ganhava um Fla-Flu, porque ficava com pena dos amigos tricolores. Homem bom como Ciro nunca houve outro. É a exceção que justifica a regra.
No mundo das coisas imperfeitas, temos de levar em consideração esse impulso sádico das torcidas. Alegramo-nos com a vitória do nosso time, mas a desgraça do rival também nos enche de felicidade. Se não contasse com o amplo respaldo das torcidas, nenhum time se atreveria a entregar ou facilitar um jogo. A torcida é equivalente no futebol à opinião pública no mundo da política. O clamor das ruas, e o das arquibancadas, é temido, mesmo pelos poderosos da hora.
O problema é, mais uma vez, da humana imperfeição, que não nos deixa fazer as coisas como se deve. A culpa é dela, da nossa frágil natureza, e não do sistema de pontos corridos. Entregar jogos e facilitar partidas para atingir rivais pode ocorrer com qualquer fórmula, por exemplo na fase de classificação para os mata-matas. Não é abandonando o mais justo dos sistemas de disputa que se conseguirá mais transparência. Seria como condenar a democracia por ela produzir aberrações ocasionais.
Já que ninguém tem fórmulas ideais, que tal testar essa que anda por aí, trazendo os clássicos regionais para as rodadas finais? Desse modo, a própria rivalidade entre clubes se incumbiria de minimizar maracutaias. Talvez não seja solução definitiva. Mas, como não está em nosso alcance dar um banho de ética no planeta, acho que merece ser tentada.
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Chega essa época do ano e já vou sentindo saudades antecipadas do futebol brasileiro. Como levar a vida sem comentar com os amigos a mais recente rodada do Campeonato Brasileiro? Sem gozar com a cara dos colegas de trabalho, ou ser por eles gozado quando é nosso time que entra em fria? Pois é, meus amigos, nessa época do ano me volta à mente a mais absoluta e cristalina das verdades (eu, que descreio delas todas, ou quase): o futebol é um dos mais poderosos cimentos da socialiabilidade que existem no Brasil. E, também, claro, nos países em que é esporte dominante. Alguma coisa nesse jogo, inventado, que eu saiba, em tempos ancestrais e sistematizado pelos ingleses, produz um milagre de comunicação numa sociedade dividida. Diante dele, o dono da empresa e o ascensorista são iguais. O intelectual conversa com o analfabeto e a grã-fina discute com a criada. O futebol é um esperanto social. Por isso nos faz tanta falta.
E, por isso também, só serve como cimento social e elo de aproximação entre diferentes quando se trata do futebol jogado no país. Ou você já viu uma discussão apaixonada entre um torcedor do Barcelona e outro do Real Madrid? Ou entre um “tifoso” da Roma e um da Lazio? Eu já vi. Mas foi na Espanha, ou na Itália. Mesmo que esses times internacionais tenham hoje seus admiradores no mundo todo, e também no Brasil, eles não chegam a ser torcedores. Torcemos pelo que está próximo, ao alcance da nossa mão, para falar de maneira metafórica. Nos identificamos com o que acontece no nosso quintal, por mais globalizada que seja (ou pensamos ser) a nossa cabeça.
De modo que, ao se aproximar o fim da temporada vai me dando um sentimento meio assim de orfandade. Não adianta pensar que terei outras atrações futebolísticas para preencher o tempo, cada vez mais escasso. O que me falta mesmo é o futebol nacional. Em especial, o Campeonato Brasileiro, do qual se pode dizer o que for, criticar-lhe a organização e o nível técnico, mas que tem sido sempre emocionante, tanto no andar de cima como no de baixo.
Sim, porque me parece muito improvável que algum time venha a se sagrar campeão por antecipação. Assim como acho muito difícil que se definam antes da última rodada todos os rebaixados. Tudo deve ficar para o final. Para aquela famosa rodada pinga-fogo, que você acompanha com o coração numa mão e o controle remoto na outra, pulando de um canal em canal, tentando ver todos os jogos ao mesmo tempo e acabando por não assistir direito a nenhum deles.
É claro que o Fluminense parece hoje o candidato mais sólido ao título. Não apenas por que esteja em vantagem na tabela (tem três pontos a mais do que o Corinthians e a mesma pontuação do Cruzeiro, mas saldo de gols superior), mas porque voltou a jogar bem. E, em especial, porque seu principal jogador, Conca, começou a funcionar de novo. Mas também é claro que a vantagem é mínima e pode se transformar em fumaça de uma hora para outra. Em outras palavras, o Flu, de Muricy Ramalho, deve se concentrar como uma serpente que tenta hipnotizar passarinho para não deixar a taça escapar. Não tem gordura para queimar. Está na frente, mas por um fio. Pega o Inter na próxima rodada, já meio desmotivado, mas sempre carne de pescoço quando o jogo é no Beira-Rio. Já o Cruzeiro enfrenta o São Paulo, em jogo sempre duro. Em tese, a missão mais fácil é a do Corinthians, que, como mandante, enfrenta o Avaí. Pode faturar três pontos e secar os rivais. E então tudo embolaria de vez. Para nossa alegria.
Ou seja, amigos: vamos curtir a emoção, e que ela seja eterna enquanto dure, como dizia o poeta.
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A esta altura do campeonato, seria chover no molhado dizer que tudo está em aberto. Na disputa por pontos corridos é difícil acontecer definição muito antecipada, a não ser que haja um time diferente dos outros, em patamar muito mais elevado, uma super equipe. Não é o caso. Nem de longe. Todos os candidatos apresentam deficiências mais do que evidentes.
Não existe time imbatível, sabemos. Mas o que acontece com os líderes do Campeonato Brasileiro de 2010 é coisa de outra ordem: eles se revelam frágeis demais, incapazes de garantir uma sequência de vitórias que os levaria diretamente ao título. Veja o caso do Cruzeiro, que levou uma virada do Grêmio nesta última rodada. Alguma surpresa? Nenhuma. O outro time que já havia sido dado como virtual campeão – o Fluminense – parece que perdeu o embalo.
O Corinthians ainda não saiu da crise que lhe tirou o fôlego para a atropelada final. A pergunta que se faz é se Tite, que dirigiu o time na época da MSI (lembram?), dará conta de estabilizar um clube que parece destinado a viver em transe permanente. Domingo passado, poderia ter se redimido. Foi prejudicado. Não fosse a malfadada arbitragem brasileira, o Corinthians, que em outras ocasiões já foi por ela mesma ajudado, estaria embolado com os dois frente. Mas, como Cruzeiro e Fluminense também não fizeram a lição de casa, o Corinthians acabou não desgrudando tanto. Arrisca-se muito quem já o considera carta fora do baralho.
Assim como se arrisca quem descartar Santos e Inter, que vêm imediatamente atrás. O Inter tem ainda um belo elenco, um tanto enfraquecido pela venda de jogadores mas, mesmo assim, poderoso pelos padrões do futebol brasileiro. Pode se concentrar de novo no campeonato e talvez esboçar um sprint no fim. Eu não ficaria admirado.
O mesmo se pode dizer do Santos. Assim como o Inter, o Peixe não está em jejum de títulos este ano. Já ganhou o Paulista e a Copa do Brasil, que lhe garante na Libertadores do ano que vem. Parece ter recuperado apetite. Haja vista as boas vitórias nas últimas partidas e até mesmo a derrota épica para o São Paulo no clássico. Perdeu o jogo mas não perdeu a pose. Tem um adversário em tese muito fácil na próxima rodada, o na prática já rebaixado Grêmio Prudente – e, se houver novos vacilos no pelotão da frente, pode encostar. Não é impossível, já que o Corinthians tem clássico contra o Palmeiras, o Fluminense pega o Atlético-PR em Curitiba e o Cruzeiro enfrenta seu maior rival, o Atlético Mineiro, em ascensão e desesperado para sair da zona de rebaixamento. São três jogos complicadíssimos, todos de prognóstico impossível. Assim, não será uma anomalia se, na próxima rodada, as primeiras colocações estiverem ainda mais emboladas, prenunciando uma chegada de arrepiar.
Essa irregularidade toda dos times tem lá suas vantagens. A maior delas é que os jogos estão ficando cada vez mais emocionantes. Os times, pelo menos alguns entre eles, aprenderam que pouco têm a lucrar com o empate. Então deixaram pra lá formações defensivas e partiram com tudo para o ataque. É o que explica a excepcional qualidade de uma partida como São Paulo 4 x Santos 3, um San-São como nos velhos tempos.
O Santos já havia firmado uma tradição de jogo ofensivo. O São Paulo vinha se arrastando, até ganhar nova moral com Carpegiani e deslanchar no campeonato, vencendo três vezes seguidas. Essa nova mentalidade do Tricolor explica também o desfecho da eletrizante partida de domingo. Ao invés de se acomodar com o empate, quando tinha um jogador a menos em campo, o São Paulo continuou a contra-atacar com perigo, até ser beneficiado pelo gol de Jean já nos acréscimos.
Foi sorte? Foi. Mas a sorte não dá a menor pelota a quem não a persegue.
(Coluna Boleiros, 19/10/10)
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Muitos coritinianos suspiraram quando Mano Menezes deixou o comando do Corinthians para dirigir a seleção brasileira. Tinham razão para lamentar. Ao longo do seu longo período de trabalho, Mano dera estabilidade ao time, uma confiança que apenas a continuidade pode garantir. A gente sabe como é. No nosso tempo as relações tendem a durar pouco – de empregos a casamentos, e ainda mais a união sempre frágil entre treinadores e clubes de futebol. Mas Mano parecia acima do bem e do mal. Não conheci corintiano que tivesse uma única má palavra a dizer sobre quem havia reconduzido o time à Primeira Divisão e lhe dera padrão de jogo reconhecível e sólido.
Quando ele se foi, ao lado da apreensão, criou-se uma expectativa, digamos, interessante, em torno do substituto Adilson Batista, que fizera belo trabalho no Cruzeiro, mas também tinha (e tem) a fama de Professor Pardal, quer dizer, de alguém chegado a invenções. Em seu começo de trabalho, Adilson logo mostrou personalidade. Apesar de substituir uma unanimidade, empenhou-se em colocar sua marca pessoal num time que vinha sendo considerado favorito ao título. Depois de algum tempo, o novo Corinthians já parecia a alguns analistas (e, entre eles, me incluo) até melhor do que o anterior. Mais leve, livre e ofensivo, mais agradável de se ver jogar.
No entanto, nas últimas duas semanas, Adilson vinha sofrendo no quesito fundamental do futebol, aqueles que põe em segundo plano todos os outros, e ofusca qualquer tipo de consideração ética ou estética: o resultado. O leitor é livre para dizer que, desde que a bola começo a rolar, lá nos tempos das cavernas (para onde às vezes acho que estamos voltando), sempre foi assim. O resultado é o que conta, talvez ainda mais hoje do que sempre. E o Corinthians vinha tropeçando, e pondo em risco a única conquista disponível para o ano do centenário. Tudo o que vem sendo falado hoje, das trombadas com atletas ao desgaste político de Adilson, não surtiria o meno efeito caso o time viesse atropelando nessa reta final. Não é o caso, por uma série de motivos e, dessa forma, mais uma vez sobrou para o treinador.
Claro que não sabemos até agora o que aconteceu, e os envolvidos sempre fazem questão de nos deixar na dúvida. A gota d’água foi a derrota para o fraco Atlético Goianiense, em pleno Pacaembu. Ela apenas foi o sinal mais visível de um time que vinha perdendo consistência nas últimas rodadas – justamente naquelas em que um candidato ao título de tem de embalar definitivamente. Os problemas reais são muitos: contusões, o impasse insolúvel de Ronaldo, a convocação de Elias em hora errada, o desgaste físico pelo excesso de jogos etc. O Corinthians enfraqueceu por tudo isso e não, acredito, por Adilson ter inventado demais e tirado coelhos da cartola quando deveria permanecer no arroz com feijão. Houve uma espécie de cansaço do material, prematuro, e a diretoria entendeu que tinha de fazer essa demissão emergencial, sob pena de terminar o ano sem sequer uma conquista para comemorar. Contam, talvez,com aquilo que de vez em quando acontece na chegada de um novo técnico. Aquele choque no elenco, capaz de despertá-lo para estas últimas e decisivas rodadas.
Vai dar certo? Como saber? O que se pode dizer é que a atual diretoria do Corinthians será julgada por seus próprios padrões – a da ética de resultados. Se o elenco reagir, já agora contra o Vasco, e retomar a disputa pelo título, tudo bem: a decisão de afastar Adilson terá sido acerta. Caso contrário, a gestão Sanchez ficará marcada pela atitude precipitada e talvez imprudente na reta final de um campeonato difícil.
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Andei lendo um livro sobre o técnico José Mourinho, ex-Internazionale, agora no Real Madrid. Da leitura, deduzo que ele e todos os treinadores do mundo alimentam a obsessão de zerar o fator acaso no futebol. Para tanto, lançam mão de vários expedientes, das neurociências às pranchetas e aos despachos na encruzilhada. Em vão. Nelson Rodrigues chamava de Sobrenatural de Almeida a interferência daquilo que não se pode prever no andamento de uma partida, seja uma reles pelada, decisão de campeonato ou mesmo de Copa do Mundo.
O futebol nos faz (ou deveria nos fazer) mais humildes. Ele nos mostra que existe sempre alguma coisa que escapa, que vai além de nossas mais científicas previsões, dos nossos planos mais elaborados e detalhistas. A vaidade do ser humano é a de tudo dominar. O futebol mostra o homem como ele é – nu e desamparado diante das intempéries da vida. Na verdade, a utopia de Mourinho jamais será realizada. Nunca ninguém exercerá controle absoluto sobre todas as variáveis de uma simples partida de futebol. Um insignificante morrinho artilheiro derruba a mais intrincada das teorias táticas.
Esse papo todo vem em função do belo jogo Internacional 3 x Corinthians 2, em Porto Alegre. Talvez não tenha sido a melhor partida do campeonato em termos puramente técnicos, mas em emoção… sai de baixo. A começar pelo gol que seria do empate do Timão, evitado pela bela defesa de Nei, zagueiro colorado que deveria tentar a sorte debaixo das traves. Foi, claro, expulso e o pênalti, convertido aos 44, daria o empate ao Corinthians. Mas quem poderia prever o que aconteceria naquela cobrança de falta por Andrezinho, no provável último lance do jogo? Não adianta agora crucificar Moacir pela bola desviada de cabeça que acabou por entrar no gol de Julio Cesar. Ele tentou fazer o melhor. Desviou a trajetória da bola que, achava, iria acabar dentro do gol. Ao tentar salvar seu time, o afundou de vez. Coisas do mundo, coisas da vida – diria o grande cruzmaltino Paulinho da Viola.
É necessário pensar que a derrota, nessas circunstâncias, não deveria abater o Corinthians. Pelo contrário. Pode servir de estímulo. Domingo, no Sul, não merecia a derrota. Por outro lado, na quarta, contra o Santos, na Vila, não merecia a vitória. Tudo somado, uma mão lavando a outra, o Timão está quite com o destino e ainda saiu ganhando. E é assim mesmo no sistema de pontos corridos – os desvios do acaso vão sendo somados e debitados de uma partida à seguinte, até que, no fim da longa caminhada, o campeão será aquele que de fato mostrou melhor campanha. Daí a justiça final do sistema, que pode ser construída a partir de injustiças parciais. Um time perde jogos que merecia ganhar e ganha outros que merecia perder. Dessa forma méritos e deméritos se equivalem e se anulam entre si.
O que importa, no fundo, é a maneira como o Corinthians jogou. Pode ter cometido erros em detalhes ali e aqui, mas mostrou que é time consistente, pronto a jogar bem mesmo na casa do adversário. Talvez não tenha a mesma solidez defensiva do tempo de Mano, mas ganhou nova fluência ofensiva na fase Adilson. Tornou-se mais agradável de ver, mais dinâmico e agudo no meio de campo e ataque. Enfim, está jogando bem e é isso que deve interessar à sua torcida.
Outro que voltou a jogar bola e deu mostras de ressurreição foi o Santos na bela goleada de sábado contra o Cruzeiro. Não, não é o mesmo time do primeiro semestre, aquele que marcava sob pressão e criava dezenas de chances de gol a cada partida. Aquela foi uma primavera que floriu e passou. Mas, de qualquer forma, os lances incisivos reapareceram. Em especial nos pés de Neymar, redivivo após a crise artificial. O garoto amadureceu. Agora apanha e cala. Era o que todos queriam, não é?
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