Por dever de ofÃcio, segurei firme o sono até o começo da madrugada de ontem para acompanhar as entrevistas de Dunga e jogadores da seleção, depois da vitória sobre o Peru. Não que as declarações costumem ser imprescindÃveis, mas sempre sobra algo para ser analisado. Desta vez, porém, me chamou a atenção o que não foi dito, mas apenas visto.
Eu e quem estava de olho grudado na telinha pudemos ver Ronaldinho Gaúcho e Adriano, dois integrantes do falecido quadrado mágico da amarelinha na Copa da Alemanha, saÃrem na do Beira Rio na maior vula. Passaram pelos repórteres com mais eficiência do que atualmente driblam zagueiros. Em trajes civis, cruzaram caladinhos os poucos metros que separavam os vestiários do estacionamento do estádio do Inter.
Assessores de ambos alegaram que não poderiam falar porque estavam com voos particulares marcados para levá-los de volta à base. Não ficou claro se a base seria Porto Alegre mesmo, Rio ou Milão, onde ganham para os pãezinhos e cada dia.
Fiquei a matutar: será que Berlusconi e Moratti, donos de Milan e Inter, respectivamente, têm cuidados especiais só com esses pupilos? Teriam reservado jatos especiais para o retorno à Europa? Pato, Kaká e Julio Cesar também estariam a bordo? Como se explica que esses pararam para conversar com a imprensa? Teriam perdido os voos? Pato pelo menos, segundo me informa Guto Monaco, do JT, esteve numa churrascaria depois da partida.
Divagações à parte, achei significativa a atitude de Ronaldinho Gaúcho e Adriano. Silêncio revelador, pois não tinham muito a dizer. Adriano não entrou em campo; Ronaldinho entrou, mas era como se não tivesse levantado do banco. Ambos retomaram seus destinos com a leve impressão de que já iam tarde.
Vejo a dupla como astros que já brilharam e, embora ainda jovens, se deslocam como sombras de si mesmos. Adriano vive há tempos na corda bamba, no limite entre a glória e o ostracismo. Você lembra qual foi o último perÃodo de regularidade do rapaz que um dia acreditou fosse mesmo Imperador? Se lembrar, mande e-mail no endereço que está abaixo do meu nome.
Adriano faz um jogo aqui, outro ali na Itália. Às vezes começa como titular, eventualmente marca, mas segue uma toada trôpega e esquenta banco com mais frequência do que seria normal para um jogador de seu nÃvel. As convocações se devem, talvez, a sentimento de lealdade de Dunga, por serviços prestados. Hoje, porém, Adriano está a perder a corrida para LuÃs Fabiano e para o ascendente Pato. Não será surpresa se, com o tempo, for esquecido nas listas para a seleção.
O caso de Ronaldinho Gaúcho é constrangedor. Sou seu fã de carteirinha, fiquei indignado quando Dunga o escanteou nas primeiras chamadas, escrevi crônicas emocionadas por atuações antológicas que teve. Mas admito, como já escreveram aqui outros companheiros Boleiros: a alegria dele sumiu. Ronaldinho virou um jogador comum, para pobreza do futebol e tristeza das arquibancadas. Pode ir à Copa de 2010 pelo nome, não pelo desempenho atual. Faz três anos que patina em campo. Vai ver por isso a pressa para sair de cena. Tomara tivesse pressa de reencontrar-se.
Acho que esse que está aà é cópia pirata, com defeito. O verdadeiro Ronaldinho foi raptado em alguma esquina entre Barcelona, Weggis, Konigstein, Milão e Porto Alegre. É, foi isso. E os malvados não o libertaram.
* Esta coluna é publicada todas as sextas-feiras no jornal ‘O Estado de S. Paulo’, na seção ‘Boleiros’
Muito bom o comentário sobre o Ronaldo Gaúcho. Uma pena que hoje ele não se dedique ao futebol com o mesmo empenho. Só isso para explicar a derrocada monumental do desempenho outrora soberbo.
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