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15.fevereiro.2011 14:13:37

O nascimento do mito Ronaldo

Estamos todos ainda sob efeito da emoção provocada pela despedida de Ronaldo. A entrevista coletiva do Fenômeno foi tocante. Duvido que o mais duro coração não tenha amolecido, mesmo a contragosto, com as palavras do agora ex-jogador. Eu mesmo fiquei com nó na garganta em vários momentos. Despedidas são assim. Lembram o inevitável fim de tudo. Choramos por quem se despede e choramos por nós mesmos.

Enfim, decisão tomada, Ronaldo sai da vida de jogador de futebol para entrar na História. Torna-se mito e, nesse processo, todas as arestas são limadas e todos os feitos engrandecidos. Basta ver o tom superlativo do noticiário. Nesse momento, qualquer tentativa analítica será vista como indesejável frieza. Normal. A emoção é uma droga benigna, euforizante. Pode entorpecer o senso crítico, mas desperta o melhor em nós. Não acho ruim. Considero essa troca da lucidez pela sensibilidade uma boa relação custo-benefício. Desde que temporária.

Haverá tempo de sobra para a razão. Por exemplo, quando a poeira baixar, teremos de voltar à questão do hipotireoidismo, disfunção alegada por Ronaldo para justificar seu sobrepeso e a permanente dificuldade de se manter em forma. Se ele não pôde se tratar de doença tão grave porque a medicação seria pega no antidoping, teremos de concluir que o futebol profissional é uma atividade criminosa. Acho que os médicos do Corinthians nos devem duas ou três palavras sobre o assunto.

A outra coisa a lembrar mais tarde é que nem sempre Ronaldo foi essa figura unânime que agora parece ser. A natureza “cordial” do brasileiro, somada à emoção do momento, fará com que seja esquecida a faceta polêmica do Fenômeno. Quem tem um pouco de memória sabe que os mesmos que hoje o colocam no patamar da genialidade o responsabilizaram pela derrota do Brasil na Copa de 1998. Verdade que se resgatou no Mundial seguinte, tornando-se, junto com Rivaldo, o principal responsável pelo penta. É pena que em 2006 tenha naufragado, junto com toda a seleção.

É verdade que, ao retornar ao Brasil, Ronaldo teve um ótimo primeiro ano com a camisa do Corinthians. Vocês se lembram. Foi uma volta badalada, cercada de grande expectativa por muita gente e ceticismo por outros tantos. Quando marcou o primeiro gol com a camisa do Timão, e contra o Palmeiras ainda por cima, foi um acontecimento de primeira grandeza. Quando teve uma atuação de sonho na Vila Belmiro, assinalando dois gols de pura arte contra o Santos, houve quem saudasse o ressurgimento do craque extraordinário, pentacampeão do mundo, três vezes o melhor segundo a FIFA. Continuasse assim, justificaria mais uma convocação para a seleção, o que não aconteceu.

O fato é que a quase totalidade da carreira de Ronaldo se deu longe dos nossos olhos. Não por culpa dele.
Faz parte das circunstâncias da carreira atual do jogador de futebol, da qual ele foi exemplo acabado. Atleta globalizado, deixou o País ainda garoto para brilhar na Europa. Venceu em vários dos principais clubes da Europa. Conquistou títulos e marcou gols de todos os jeitos. Mas isso não basta. Apesar de tudo o que se diz sobre internet, TV a cabo, Facebook, Twitter e sobre a ilusão de estarmos em todos os lugares ao mesmo tempo, continua a existir um bom e extenso oceano entre a América do Sul e a Europa. Há distâncias ainda maiores, e estas se medem pela régua da dimensão simbólica. Ronaldo, o supercraque, para nós se resumia às suas apresentações na seleção brasileira. E, depois, no Timão.

Ele só voltou a ser nosso, de fato, quando vestiu, com a maior naturalidade, a camisa do Corinthians. E digo “nosso” porque não pertenceu apenas à Fiel, mas também a todas as torcidas do Brasil. Convenhamos, a volta do Fenômeno mexeu com todo mundo naquele ano de 2009. Houve muito ti-ti-ti e os paparazzi trabalharam como nunca. E, sobretudo, houve os gols e jogadas de técnica refinada – que é o que importa.

Voltar ao Brasil e encerrar a carreira num clube de massa foi o maior gol do Fenômeno, a sua tacada de mestre. É a pedra fundamental na construção do mito, que agora começa.

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Ronaldo está certo em encerrar a carreira?

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SÃO PAULO – A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e a Nike apresentaram nesta terça-feira as novas camisas da seleção brasileira, no Museu de Arte Contemporânea de Niterói (RJ). Não teve festa nem cerimônia porque o técnico Mano Menezes não conseguiu voltar a tempo da visita que fez ao time Sub-20. A novidade é a faixa com cores no centro (verde na camisa amarela e amarela na camisa azul, em novo tom).


Crédito: Divulgação/Nike

O modelo confirma o design que apareceu há algumas semanas em um site da fabricante americana na Austrália.

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01.fevereiro.2011 14:01:13

A bola não quis entrar…

Rogério Ceni e Paulo César Carpegiani se disseram vencedores morais do clássico em que o São Paulo perdeu por 2 a 0 do Santos. Muita gente lhes dá razão. Baseados em quê? Em números. No maior tempo de posse de bola, nos chutes a gol, nos passes trocados. Quem olhar as estatísticas, sem saber do resultado, concluiria por goleada tricolor – fora o show de bola. Já o resultado do jogo – números outra vez – diz o contrário. Venceu o Santos, com menor número de chutes a gol, menos posse de bola, menor número de passes trocados. Foi superior “apenas’’ num item – o número de vezes que conseguiu balançar as redes do adversário. Mero detalhe. Dois detalhes.

É curioso como toda essa análise numerológica tem de se servir de elementos mágicos para explicar por que o placar final não refletiu as estatísticas do jogo. “Tivemos falta de sorte’’, disseram. Quer dizer, tudo saiu como o planejado, mas o acaso não quis que a superioridade fosse traduzida em vitória. Por exemplo, aquela bola chutada na trave por Jean, e que deixou os são-paulinos com o grito preso nas amídalas: por que não foi gol ? “Ora, porque a bola não quis entrar’’.

Essa frase, de boleiros novatos ou veteranos e de comentaristas de todas as índoles, traduz nossa perplexidade diante do jogo. Em falta de melhor explicação, atribui-se ao objeto bola poder de decisão sobre a sua própria trajetória. Em meio às explicações estatísticas da ciência exata, estamos às voltas com a forma mais arcaica do pensamento mágico. Mandinga junto com o notebook do professor.

Com as estatísticas queremos cercar o imponderável de um jogo que não cessa de nos desafiar por suas oscilações. A meu ver, é inútil querer transformá-lo em ciência. O futebol é uma arte – no sentido amplo do termo. Um artesanato, que pode (e deve) ser aperfeiçoado no plano coletivo e no individual, mas tem muito mais a ver com o “saber fazer’’ de um pintor ou de um trabalhador especializado do que com as equações da ciência. Tem mais parentesco com a culinária e a escultura do que com a física e matemática. Ninguém sabe de antemão se um prato novo será genial ou apenas bom. Ou se uma tela revolucionará a arte da pintura ou será apenas repetição de centenas outras já existentes de forma rotineira pelo mundo.

Conclusão, minha pelo menos: no futebol, como nessas artes correlatas, é mais interessante analisar a qualidade do que a quantidade. De que vale ter dado mais passes, se a troca de bolas laterais de 3 metros conta tanto quanto o lançamento fatal de 40 metros? De que serve contar os tiros à meta se um chute torto na bandeirinha de escanteio vale a mesma coisa de uma colocada no ângulo? Qual o valor da posse de bola se a cifra não conta o que se fez durante esse tempo?

Claro que ataques sistemáticos, repetidos e eficientes tendem a se traduzir em gols. Tendem, mas também isso não é certo. E não precisamos de estatísticas para comprová-lo. O povo, mais sábio, apenas diz: futebol é bola na rede. Quem precisa de mais ciência e mais certezas, errou de esporte.

Na Colômbia. Quer dizer que já está tudo perdido para o Corinthians, como ouvi dizer por aí? Nada disso. Pelo menos não é a minha impressão. A situação é difícil, mas não desesperadora. Basta vitória simples, ou empate com gol marcado, para o Timão passar à fase de grupos da Libertadores. Tarefa nada impossível, mesmo na casa do adversário – e estamos falando do Tolima, não do Boca Juniors. O problema não é nem o adversário, mas a maneira como o Corinthians vem jogando. Não faltou garra, abnegação ou seriedade no primeiro jogo. Faltou fluência. É impressionante como às vezes uma única peça perdida desarticula todo o conjunto. Essa peça chama-se Elias. Não há substituto para ele. Esse é o “x’’ do problema. Não para o jogo contra o Tolima, mas para o resto do ano.

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