Volto para o hotel, pego as malas e saio com a equipe do Estadão para o aeroporto. A mocinha da recepção diz que ficará com saudades da nossa turma, pelo jeito somos mais divertidos que os argentinos ou chilenos que também se hospedaram por aqui. Ela diz alguma coisa em Zulu, e acho que é justamente a tradução de ‘saudade’, complicada demais para ser reproduzida por aqui. Ela brinca que todo ano deveria ter Copa do Mundo, e eu entendo exatamente o que ela quer dizer. A Copa trouxe milhares de pessoas ao seu país, mas não só isso: trouxe empregos, movimento, dinheiro. Explico que a próxima Copa vai ser no Brasil. ‘Posso ir?’, ela pergunta, ingênua. ‘Pode, claro. Você vai se sentir em casa.’ Digo isso com sinceridade, a morena simpática de sorriso largo e cabelo esticado em um rabo de cavalo passaria facilmente por uma brasileira.
É, a viagem está chegando realmente ao fim. Escrevo agora no avião, no assento 54D do voo 224 da South African Airways de volta para São Paulo. Tento olhar pela janela, está completamente escuro. Do lado de fora, o nada. Ou melhor, ‘o vazio que, do chão, chamamos de céu’, como escreveu a sul-africana Nadine Gordimer. Tenho certeza de que ainda é o céu da África, esse vazio para onde os africanos se voltam quando querem rezar, amar, sonhar. E para onde seus animais também voltam os olhos, achando que ali vivem apenas os pássaros, aquelas asas com cores do que o arco-íris que é este país.
Se você está sozinho, eu queria te fazer um pedido. Pode parecer estranho, mas queria que você pronunciasse a palavra África em voz alta. Repita, por favor, em voz alta novamente. Fale uma terceira vez, desta vez lentamente, separando as sílabas e colocando ênfase em cada uma delas.
Que palavra linda, África.
Não, não é apenas o som mágico da combinação de suas letras que torna essa palavra tão familiar para você, para mim, para todos os povos do mundo. É outra coisa.
É porque somos todos africanos.
Ngiyabonga, África.
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A Copa está chegando ao fim, a viagem também. Está muito difícil encontrar passagens para o Brasil desde a eliminação, mas consigo um lugar em um voo na antivéspera da final entre Espanha e Holanda. Tudo bem. Se o Brasil ou a África do Sul estivessem na final, faria questão de ficar. Mas a saudade já está tão forte que não vejo nenhum problema em pegar esse avião e assistir a final na minha casa, com minha família e meus amigos.
A minha mala desafia a teoria da física que diz que dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar. Tudo bem, há tranqueiras africanas e alguns presentinhos. Mas é incrível como as nossas coisas conseguem se expandir em uma viagem; talvez elas se reproduzam durante a noite em quartos de hotel, só pode ser. De qualquer jeito, as malas estão fechadas e agora estou apenas esperando o carro.
Como estou adiantado algumas horas, olho pela janela do meu quarto e vejo o Mushroom Park, o parque do cogumelo, local onde meus olhos reconhecem como minha casa durante a temporada africana. Há um balão enorme no meio do parque, um balão que nos ajudou a voltar para casa durante algumas noites perdidas por Joburgo. Será que consigo subir nesse balão para dar uma última olhada na cidade?
Atravesso o parque rapidamente, com o olhar fixo no balão. Agora ele está no chão, à minha espera, e vejo pela primeira vez que há um funcionário cuidando da venda de ingressos para o passeio aéreo. Ele sempre esteve lá? Ele apareceu apenas quando o meu desejo de voar se manifestou subitamente? Nunca saberei dizer.
Subimos lentamente, é minha primeira vez em um balão. Chegamos ao ápice do voo alguns minutos depois, o simpático funcionário me explica que estamos a 120 metros de altura. É tão calmo que não dá medo, pelo contrário. Por isso os anjos são tranquilos. A vista em 360º de Joburgo mostra que a cidade não é bonita, não há nenhum ponto turístico que se destaca dos outros. Mas é uma cidade bastante arborizada, pelo menos é a impressão que dá, e daí lembro que o balão está voando sobre o elegante bairro de Sandton. Há muitas árvores e qualidade de vida por aqui. Mas logo ali, na favela de Alexandra, atrás de um shopping center, espalha-se uma mancha de pobreza.
Daqui de cima também é possível ver o coração de Sandton, a Nelson Mandela Square, os luxuosos hotéis Michelangelo e Radisson. Daqui se veem os vários condomínios fechados de Sandton, e entende-se ainda melhor o sistema de muros que opõe não apenas brancos e negros, mas ricos e pobres, não importa a qual das cores do arco-íris sul-africano eles pertençam.
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A Copa está chegando ao fim, e com isso o número de jogos diminui drasticamente. O dia sem futebol permite que a equipe do Estadão consiga finalmente sair por aí para comprar presentes para as famílias e os amigos. Nada melhor, portanto, do que procurar um lugar onde se possa adquirir o campeão de audiência entre os produtos africanos para exportação.
Você pensou em peles de animais? Errou. Que tal máscaras típicas? Novamente errado. Agora, se você pensou em pequenas pedrinhas brilhantes, acertou. É isso aí: não há nada mais africano do que… diamantes.
Digamos que há, no entanto, um pequeno problema financeiro nessa equação. Queremos comprar diamantes, mas a possibilidade de um jornalista entrar numa das lojas do shopping Sandton City e sair de lá com um belo presente para sua esposa é bastante reduzida. Além disso, jornalistas são seres investigativos por natureza, e essa característica nos obriga a descobrir lugares onde os diamantes podem sair mais em conta, se é que você me entende.
Saímos em busca da lendária ‘Cidade dos Diamantes’, onde o mercado de diamantes não tem vendedoras servindo champanhe nem lojas com cheiro de perfume no ar. O local fica em Hillbrow, um dos bairros mais barra-pesada de Joburgo. Não sei se ‘bairro barra-pesada’ e ‘diamantes’ é uma combinação muito interessante, mas sou um voto vencido. Faço o sinal da cruz, rabisco um testamento rapidinho na recepção do hotel e entro na van.
Hillbrow é um bairro realmente horroroso, mas capaz de realizar algo impressionante: ele transforma o Minhocão, em São Paulo, num hotel cinco estrelas. É no coração desse lugar lindíssimo que está a ‘Cidade dos Diamantes’, uma espécie de ‘Santa Ifigênia’ de diamantes com vários prédios e um portão que mais parece a fronteira de um país. O segurança armado com uma metralhadora olha dentro da van lotada e pergunta o que viemos fazer ali.
Dizemos que somos brasileiros, gostamos de futebol e… estamos interessados em diamantes. Ele pergunta se temos reunião marcada com algum fornecedor, e logo entendo que ali é um mercado exclusivo para atacadistas. Respondemos que não, não temos encontro marcado. Mas gostaríamos de comprar diamantes para nossas mães, filhas, esposas e namoradas.
O segurança espera um minuto, olha bem para os nossos rostos. Ele nos manda estacionar o carro e entrar no restaurante ‘Jewel Restaurant’, restaurante das jóias (o nome podia ser mais criativo, mas quem sou eu para dizer qualquer coisa). Lá, devemos perguntar pelo dono, que, por medida de segurança (nunca se sabe se essa gente acessa blogs do Brasil), chamarei aqui de Senhor P. Antes do segurança abrir o portão, ele pergunta mais uma vez:
‘Aonde vocês vão?’
‘Ao restaurante.’
‘Quem vocês vão procurar lá?’
‘O Senhor P.’
Me sinto como se estivesse numa prova oral da quinta série. Mas se isso é necessário para entrar na Cidade dos Diamantes, então vamos lá.
O restaurante é claramente uma fachada para outros tipos de negócios. Quer dizer, há um cardápio e aquele cantinho no fundo parece ser uma cozinha, mas não é exatamente isso que parece atrair os clientes. Pergunto a uma garçonete se podemos falar com o Senhor P.; logo chega um homem de olhar desconfiado, indagando como sabemos o seu nome.
‘O segurança nos disse para perguntar por você. Mas se for muito incômodo, podemos ir embora, inclusive acho que já está ficando tarde…’
(Isso era meio-dia.)
‘Sentem-se ali, já vou atendê-los.’
Obedecemos rapidinho e sentamos na mesa que ele nos indicou. Logo ele volta com uma mulher, uma loiraça vestida com casaco de oncinha que devia ser bonita quando era adolescente, cerca de 150 anos atrás.
‘Ela vai mostrar algumas pedras para vocês.’
E assim chega ao fim o nosso relacionamento com o Senhor P. E começa o nosso relacionamento com… bem, vamos chamá-la de Senhora Z. (nunca se sabe se essa gente acessa blogs do Brasil).
A Senhora Z. abre um estojo de couro e começa a mostrar os diamantes. Ela explica que eles são classificados de acordo com a lapidação (formato), peso (quilate), a pureza e cor. Ela faz contas, fala sobre a personalidade das pedras. Perguntamos de onde os diamantes vêm; ela dá uma risadinha e diz que podemos ficar tranqüilos porque eles não são ‘blood diamonds’, ‘diamantes de sangue’.
A expressão, que ficou famosa graças ao filme homônimo estrelado por Leonardo DiCaprio, diz respeito às mortes provocadas pelo comércio ilegal de diamantes africanos. Acreditamos nela, não temos como provar que ela está errada. É duro pensar que pedacinhos minúsculos de vidro como aqueles podem ter custado vidas humanas. Para quê? Como algo tão insignificante pode ser tão valioso para a humanidade? Não tenho a menor ideia, só sei que o hipnótico brilho dos diamantes é fascinante – e provavelmente a resposta vem daí.
Três da tarde, hora do almoço. Vamos todos ao Primi, simpático restaurante no Melrose Arch que, por alguma razão que ninguém sabe explicar, serve comida brasileira. É verdade: o cardápio tem bolinho de bacalhau, frango à passarinho, empada de camarão e… feijoada. Peraí, feijoada em Joburgo? Manda várias! Infelizmente, não dá para dizer que é uma verdadeira feijoada. Cada babuíno no seu galho: a África fica com seus diamantes, nós ficamos com o nosso feijão.
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Repare nos detalhes das estruturas de girafinhas e das arquibancadas zebradas do Mbombela Stadium. Se fosse no Brasil, desconfiariam do gosto do arquiteto
Mbombela é uma cidade com dois nomes (o outro é Nelspruit, super parecido não?) e pouco mais de 200 mil habitantes. Mesmo assim, foi escolhida como uma das sedes da Copa e, por consequência, ganhou um estádio novinho. O estádio tem capacidade para 43.589 pessoas, ou seja, mais ou menos ¼ da cidade.
O que vai acontecer com o estádio depois de 11 de julho? Sei lá, talvez convidem a população inteira para um safári no gramado, organizem um jogo de onze leões contra onze zebras ou tenham alguma outra ideia genial.
Mbombela é a sede da Copa mais próxima do Kruger Park, por isso o estádio tem influência arquitetônica de girafas e zebras. As girafas eu consegui ver do lado de fora, já que as colunas de sustentação parecem longos pescocinhos. Para ver o toque ‘zebral’ eu teria que ter entrado no estádio: as arquibancadas são todas zebradinhas. Seria muito brega se aqui não fosse a África, claro.
Mbombela significa muitas pessoas em um lugar pequeno, e fica aqui a sugestão para que a usemos para designar a hora do rush no transporte coletivo de São Paulo. ‘Você vai pegar o ônibus Tucuruvi-Interlagos das seis da tarde? Ouvi dizer que essa rota está super mbombela’ e por aí vai. Dizem que Mbombela também significa ‘lata de sardinhas’, mas não consegui confirmar essa informação. De qualquer maneira, é uma cidade simpática e me acolheu durante uma bela noite de sono. Pelo menos no meu quarto não havia muitas pessoas em um lugar pequeno.
Três cafés da manhã depois (eu, Lourival e Evelson), partimos de volta para casa, Joburgo. A estrada era boa, muito boa. Tão boa que o guarda parou o nosso carro por excesso de velocidade. Lourival, que estava no volante, desceu e bateu um papo com os policiais. Havia um cara e três mulheres; as mulheres explicaram que, como somos estrangeiros, teríamos que ir até a delegacia para pagar a multa. O policial, porém, viu nossas camisas do Brasil e logo puxou um papo sobre futebol. Lourival contou que estávamos chateados e com pressa para chegar ao aeroporto, pegar o primeiro voo e chorar a derrota no Brasil. Sul-africano e torcedor do Bafana Bafana, ele se solidarizou. E nos deixou ir embora.
Pena que a bateria arriou e o carro não pegou.
Lá fomos nós, de novo, conversar com a turma de policiais simpáticos. Explicamos o problema e o policial nos ajudou fazendo uma chupeta na bateria. Converso um pouco com eles em zulu (oi, como vai, bafana bafana, obrigado, tchau) e os caras se mataram de rir. Das duas uma: ou ficaram impressionados com meu esforço para falar a língua deles, ou meu sotaque naquela região parecia ter soado como se eu tivesse dito guarda-chuva, bicicleta, toalha, papagaio e criado-mudo. De qualquer maneira, o carro pegou e voltamos à estrada. Obrigado, policiais. Papagaio, ou sei lá como é a pronúncia de ‘obrigado’ nessa região.
Chegamos a Joburgo em tempo para assistir ao jogo da Argentina e Alemanha. Sou alemão desde criancinha, claro, ainda mais depois da tragédia do Brasil contra a Holanda. Rezei para os deuses do futebol, e parece que eles me ouviram. A Alemanha goleou a Argentina por 4 a 0, levando Messi e Maradona a pegar o próximo voo para Buenos Aires. Depois da derrota do Brasil e um dia difícil na estrada, estou voltando a gostar dessa Copa.
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A indesejável zebra do Kruger Park: Depois que eu tirei a foto, ela vestiu uma camisa da Holanda
Acordamos em Skukuza antes mesmo do sol: às 5h30 já estávamos no carro que levaria para o ‘Safári Matutino’. Estava tão escuro que eu achava que o sáfari devia ser chamado de safári noturno, mas tudo bem. O guia é meio mal-humorado e o clima está meio chuvoso, então a chance de ver algum leão caçando é realmente bastante remota.
E é o que acontece: vemos apenas os animais de sempre: girafas, zebras e búfalos, elefantes, antílopes, javalis. Nada de leão ou leopardo, felinos que se escondem em cavernas quando o tempo esfria. Vou ter que ficar com a memória dos leões fazendo amor no Rhino & Lion Park; não deixa de ser uma imagem simbólica para um urbanóide como eu, que aprendeu aqui a amar ainda mais a natureza.
Voltamos do safári e tomamos o café de frente para o rio Sabie, assistindo a uma família de hipopótamos tomando sol como se estivessem em Copacabana. Entramos no carro para continuar a explorar o Kruger Park por conta própria, principalmente agora que o dia já está claro. Pegamos o mapa e escolhemos subir até Satara, um acampamento mais vazio e localizado no coração do Kruger Park. No caminho vemos os animais de sempre, além de rinocerontes, hienas e pássaros cada vez mais coloridos.
Desta vez eu é que estou ao volante, e só agora percebo como é confuso para um brasileiro dirigir do lado errado da estrada. E não é só isso: a marcha e os controles do volante também ficam em lados inversos, por isso toda vez que vou fazer uma curva aciono o limpador do para-brisa, assim como toda vez que vou limpar o vidro, o carro atrás de mim acha que vou virar à direita. Aos poucos, acostumo.
Olha ali, à direita, uma família de girafas! Uma coisa que é legal no Kruger Park é que você não vê apenas uma girafa ou uma zebra sozinhas, mas ao lado de dezenas de outras girafas e zebras. É o que acontece aqui: há várias girafas juntas, algo que nunca veríamos em outro lugar do mundo.
Estou observando calmamente as girafas do lado direito da pista quando uma outra girafa aparece do nada do meu lado esquerdo. Cuidado! Desvio rapidamente e o carro quase capota, mas estamos de volta à pista e não há nenhuma girafa atropelada no meu retrovisor. Imagina se eu atropelo uma girafa? Minha filha nunca ia me perdoar. E nem o governo da África do Sul. Já visualizo as manchetes: ‘jornalista brasileiro pega prisão perpétua por atropelar girafa’, ou ‘família de girafas processa jornalista brasileiro’, etc. Felizmente, está tudo bem. Talvez seja melhor o Lourival Sant’Anna voltar ao volante.
Chegamos em Satara e, após um lanche rápido, cruzamos outra parte do Kruger até Orpen, portão de saída onde pegaremos a estrada de volta para Joburgo. Antes de pegar a estrada, no entanto, é hora de ver o jogo do Brasil contra a Holanda. Descobrimos uma lanchonete com uma boa TV, e é nossa salvação (ou nossa maldição, como veremos a seguir).
Quando o jogo começa, estamos sozinhos. Aos poucos, vão chegando outros turistas, curiosamente vestidos com camisetas laranja. O jogo está 1 a 1, e eles estão quietinhos. Quando sai o segundo gol da Holanda, descobrimos qual é nacionalidade deles: temos que aguentar uma turma de torcedores holandeses fazendo piadinhas (imagino que eram piadinhas, já que não falo dutch) e falando mal do Brasil. O jogo acaba 2 a 1 para a Holanda, o Brasil está fora da Copa do Mundo. É decepcionante, triste, até. Os funcionários da lanchonete estavam torcendo para o Brasil; percebo que ficam chateados também. O Brasil era o segundo time de muitos africanos, por isso eles também se sentem mal.
O Brasil está eliminado, mas a vida continua.
É hora de entrar no carro e pegar a estrada para Joburgo. Como entramos no coração do Kruger, estamos ainda mais longe de casa. O jeito é parar para dormir no meio do caminho, e é o que fazemos: entramos em Mbombela, cidade também conhecida como Nelspruit, e procuramos um hotel. Estamos tão cansados que até a tristeza dá uma trégua. Amanhã a Copa do Mundo da África continua, mas nós não estaremos mais nela. Eu não imaginava que existia uma zebra laranja no Kruger Park.
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Nossa, como os elefantes são fofinhos… peraí, esse não está perto demais da minha câmera?
Deixamos Joburgo cedinho, às seis da manhã. Lourival no volante, Evelson de navegador e eu… bem, eu encarnando um zumbi no banco de trás. Os 420 quilômetros até que passam rápido, a estrada é excelente; pouco mais de quatro horas depois, estamos no portão Malelane, uma das várias entradas do Kruger Park. O maior parque da África do Sul e um dos maiores do mundo tem uma área de cerca de 20 mil quilômetros quadrados, do tamanho de Israel. Todos os seus números, aliás, são impressionantes: já foram registrados no local 147 espécies de mamíferos, 507 de pássaros e 114 tipos de reptéis.
Não conseguiu entender a grandiosidade disso? Então vamos a informações mais fáceis de visualizar: De acordo com o último senso, feito em 2005, o Kruger tem 31.060 búfalos, 12.740 elefantes, 6.700 girafas, 2.280 javalis, 6.940 rinocerontes, 21.100 zebras, 1.000 leopardos e 2.000 leões. E, desde hoje, três jornalistas brasileiros.
Bem-vindo ao Kruger Park.
Entrar no Kruger dá a sensação de que estamos entrando na África. Eu sei, já estou aqui há quase um mês, mas não é nesse sentido de que estou falando. Não estou falando da África do Sul, de Johannesburgo ou Cape Town. Estamos entrando na África, mesmo. O amarelo das savanas dançando lentamente ao vento se perde no horizonte, e as nuvens branquinhas cobrem parte das montanhas que separam a África do Sul de Moçambique, fronteira ao leste com o Kruger Park. Há um cheiro de mato no ar, mas não aquele cheiro de mato que a gente sente nas fazendas brasileiras, por exemplo. Há algo a mais; talvez seja psicológico, mas posso jurar que há uma certa tensão no ar que obriga nossos olhos a vasculharem a vegetação à procura de rostos conhecidos.
Rostos de quem? O Kruger é o lar dos Big Five, os ‘cinco grandes’ animais mais poderosos e cobiçados pelos caçadores: leão, elefante, búfalo, leopardo e rinoceronte. São eles que mandam no parque, apesar do guardinha na minha frente se achar o dono do pedaço. Só para você imaginar, ele está vestido com uma roupinha de safári três números menor que o tamanho dele. Mas ao contrário do que você pode estar imaginando, o uniforme dele não é ridículo. Aqui é um dos poucos lugares do mundo onde você pode usar um traje safári completo e não ficar parecendo um figurante de filme do Tarzan. Mesmo se o seu traje tiver encolhido.
Entramos pelo portão Malela e pegamos a estrada rumo à Crocodile Bridge, um ponto de hospedagem pertinho de Moçambique. A ponte se chama ‘Crocodilo’ porque fica, dã, sobre o rio Crocodilo – a razão por que o rio ganhou esse nome você vai ter que adivinhar. Uma dica: não precisa pensar muito.
Não mencionei ainda, mas não temos reserva e nem sabemos onde vamos dormir: viemos tentar a sorte e encontrar um quarto. Não há vagas em Malela, e o folheto que nos entregaram no portão diz que os hóspedes devem reservar os quartos com pelo menos onze meses de antecedência. Essa informação, no entanto, é para turistas comuns, não para aventureiros especialistas em safári como nós.
Também não há vaga em Crocodile Bridge, mas pelo menos vemos dezenas de zebras, girafas e búfalos no caminho até lá. Pegamos o carro e tentamos a sorte no Lower Sabie, outro ponto de hospedagem com cerca de vinte bangalôs e área de camping. Não há hotéis dentro do Kruger, apenas alguns pontos de hospedagem com posto de gasolina, bangalôs e lanchonete.
Também não há vagas no Lower Sabie, e agora a situação já começa a ficar crítica. Afinal, já passam das quatro da tarde e escurece bastante cedo por aqui. No Lower Sabie, no entanto, descobrimos que há um pequeno bangalô com três camas disponível em Skukuza, a quase 100 quilômetros de lá. Não temos outra chance, a não ser estacionar no meio do Kruger e dormir em três no carro cercado por babuínos, impalas e sabe Deus lá o que mais (na verdade, eu sei, mas não quero pensar nisso).
Escurece realmente cedo por aqui, são apenas cinco horas e o sol já está se pondo. O barulho do motor do carro se confunde com os gritos de belos e esquisitíssimos pássaros, com asas pintadas de cores que eu nem imaginava que existiam. Uma família de javalis aposta corrida com o carro, e eles têm uma cara tão simpática que dá vontade de colocar todos juntinhos num espeto e fazer um churrasco como os das histórias de Asterix. Por falar nisso, acabo de lembrar que não almoçamos e os estômagos começam a roncar.
Pouco depois vemos alguns carros parados no acostamento. Tentamos ultrapassá-los, mas quando estamos no meio do caminho descobrimos a razão do inusitado congestionamento: há um elefante bloqueando a estrada, um gigantesco Loxodonta Africana de quase quatro metros de altura e umas cinco toneladas. Do outro lado da estrada, há outros elefantes adultos e alguns filhotes.
A situação pode parecer divertida quando você vê isso num filme; é bem diferente quando você é que está participando da cena. Garanto que é aterrorizante. Engatamos a marcha a ré, mas os carros atrás de nós nos impediam de recuar e isso parece enfurecer ainda mais o elefante. De repente, o bicho começa a andar na nossa direção, balançando as orelhas de maneira intimidadora e fazendo um barulho infernal. Tentam,os voltar ainda mais, mas os carros atrás de nós não entendem direito o que está acontecendo e não dão marcha a ré. Se o elefante decidir avançar, estamos encurralados. Será que um elefante destrói um carro? Pode ter certeza que sim. Como é que se diz ‘sanduíche de jornalistas brasileiros’ em elefantês?
O elefante para e fica nos olhando durante cinco minutos. São os cinco minutos mais longos da minha vida; vida, aliás, que está nas patas desse enorme elefante. Se ele decidir dar alguns passos, seremos esmagados e você nunca mais vai ler este blog.
Eu amo os elefantes. Eu amo os elefantes. Eu amo os elefantes.
Não falei isso em voz alta, mas talvez o elefante tenha ouvido meus pensamentos. Ele dá alguns passos para trás e desaparece entre as árvores, como se nada tivesse acontecido, como se aquele fosse apenas mais um dia comum no Kruger Park. Para ele talvez tenha sido. Mas, para mim, foi uma das experiências mais extraordinárias da minha vida.
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A modelo da Xuly Bet pediu desculpas à plateia porque enfiou sem querer o dedo na tomada
Quando fiquei sabendo que viria para a Copa do Mundo, dei uma olhada na agenda para saber quais eventos aconteceriam em São Paulo nessa época. Nada de muito importante, já que a Seleção praticamente monopoliza as atenções do país. Vi, no entanto, que perderia a São Paulo Fashion Week, evento que costumo comparecer para acompanhar os últimos hypes do mundinho e saber tu-do sobre as próximas tendências do verão/inverno. (Desculpa, não consigo parar de rir.)
Tudo bem, pensei. Vou perder a Fashion Week em São Paulo e ninguém vai notar a minha falta. Talvez só a Gisele Bündchen, no máximo.
Qual não foi minha surpresa quando abri o jornal The Star outro dia e fiquei sabendo que eu estaria em Joburgo durante a… Africa Fashion Week. Já que perdi o evento em São Paulo, nada melhor do que me redimir diante das Fashion Victims africanas.
Entrei em contato com a assessoria de imprensa da AFW e disse que queria cobrir o evento. Ela me perguntou se eu era jornalista de moda. Disse que não exatamente, mas adoraria acompanhar os últimos hypes do mundinho Zulu e saber tu-do sobre as próximas tendências do verão/inverno sul-africano. Desta vez eu não ri, então ela acreditou. E me deu convites para todos os desfiles.
Confesso que estava muito curioso para saber como seria uma semana de moda africana, descobrir como ela é em comparação com a de São Paulo. Desculpe pela decepção: é mais ou menos a mesma coisa. As modelos são magrelas, as pessoas se vestem de maneira estranha/engraçada, todo mundo usa mochilinhas (nunca entendi as mochilinhas), os estilistas se acham, os VIPs querem aparecer e os jornalistas só querem saber de brindes e boca livre.
A única coisa realmente diferente é a cor da pele sob os vestidos: enquanto no Brasil há cotas para negros nos desfiles da SPFW, aqui 90% das modelos são negras. Será que existe um regime de cotas ao contrário? Nah.
Além de aproveitar o boca livre (com direito à espumante sul-africano e gigantescas coxas de galinha frita como canapé fi-nér-ri-mo), ainda tive o prazer de assistir a alguns desfiles. Vi a coleção nova da marca Xuly Bet, criada pelo simpático estilista Lamine Badian Kouyaté, nascido e criado no Mali.
(Será que isso faz dele um cara Mali-criado? Desculpe, não resisti a piadinha.)
Não sei se eu gostei ou não; não havia nenhuma jornalista de moda amiga minha para dizer qual era a minha opinião. Sei que havia muitas peças de vinil, couro e peles de animais, um ar meio assim, tipo Savana-Urbana. O Lamine ficou tão feliz que ao final do desfile ele entrou pulando, como se o Bafana Bafana tivesse vencido a Copa do Mundo.
Daí veio o desfile de Sakina M’as, das Ilhas Comoros. Bom. Ou ruim, não sei direito. Ituen Basi, da Nigéria, foi a próxima. Foi a única a fazer referência à Copa do Mundo: o desfile começou com criancinhas correndo com bandeiras dos países classificados. Também não sei direito se gostei ou não, mas pelo menos uma opinião eu e a Anne Wintour compartilharíamos: foi bastante colorido.
Veio então o desfile de Soucha, um cara sul-africano super arrogante que eu já tinha visto antes tratando mal o garçom na fila do vinho. Mas as roupas me surpreenderam: nunca vi uma coisa tão louca na minha vida. Tinha um lá que era tão louco que a Lady Gaga poderia até usar como vestido de noiva.
Daí veio o estilista Heni, com uma coleção bastante interessante (interessante é um adjetivo bom, porque pode significar qualquer coisa). Quando ele surgiu no final do desfile, percebi que estava diante do cara mais gay do mundo – não que eu veja nada de errado com isso, como diria Seinfeld.
O último desfile da noite veio depois: David Tlale. Das duas, uma: ou ele foi muito bom, ou foi o único sul-africano da noite, já que as pessoas levantaram para aplaudi-lo antes mesmo do desfile acabar. Mas não posso reclamar do David: depois do desfile, sua assessora de imprensa veio me entregar um convite para a after-party, num lugar descolado em Sandton chamado ZAR.
Detesto dizer não para as festas do mundo fashion, mas desta vez tive que recusar. Amanhã de manhã, eu, o repórter Lourival Sant’Anna e o fotógrafo Evelson de Freitas temos um longo dia pela frente: vamos pegar a estrada e fazer um safári na maior reserva da África do Sul.
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‘Felipe, você tem problemas de audição?’
‘O quê?’
Gostaria de dedicar um capítulo especial a um dos personagens principais dessa Copa do Mundo – e espero que isso não seja visto como um elogio. Odeio as vuvuzelas com todas as minhas forças, o que não adianta nada porque elas são bem mais fortes do que eu. Quem está acompanhando a transmissão pela TV no Brasil pode achar aquele zumbido ao fundo inofensivo, até divertido. Mas garanto que quem está nos estádios da África do Sul sofre. Eu, pelo menos, sofro.
A vuvuzela é o tipo de brincadeira egoísta que só diverte quem está tocando, não importa quanto incomode o cara que está ao seu lado. Não há nada mais gostoso do que levar uma ‘vuvuzelada’ daquelas no ouvido, de supresa, e daí você se vira e vê algum idiota se divertindo às suas custas. E a dor de cabeça que o barulho provoca depois de ficar duas horas exposto a ele numa arquibancada? Super legal. Não dá nem para ouvir a torcida cantando, ou aquele ‘oooohhh!’ tradicional que se ouve no estádio quando uma jogada é boa.
Os psicólogos podem interpretar as vuvuzelas como ‘uma válvula de escape para a opressão do homem comum’, blá, blá, blá. Os antropólogos-cabeça diriam que ‘é a África exigindo que sua voz seja ouvida’, ou algo do gênero. Mas eu pergunto: que voz monocórdia é essa que precisa ser vomitada a plenos pulmões, que forma de expressão gutural é essa que rompe o silêncio de arquibancadas multiculturais com violência desnecessária, sujando o vazio dos ouvidos com sua aspereza tribal? Que tipo de mensagem os africanos querem passar? Querem ser inseridos na economia globalizada? Querem participar dos organismos internacionais? Querem encher o saco do resto do mundo?
Sim, as vuvuzelas deveriam ser proibidas, não me venha com essa desculpa esfarrapada de que é um componente cultural do futebol africano. Se fosse assim, na Copa de 2014 no Brasil será permitido batalhas campais entre torcedores de países diferentes, já que isso é ‘um componente cultural do futebol brasileiro’. Ou melhor, que tal permitir que os torcedores joguem copos com líquidos indesejáveis nas arquibancadas inferiores? Isso também é bastante tradicional em nosso futebol. Essa bobagem chamada respeitosamente de relativismo cultural pode ir para o lixo junto com as vuvuzelas.
Bem, já que estamos falando das vuvuzelas, é bom esclarecer alguns aspectos. Que tal lucrar com a surdez alheia? Clinton Currie, presidente da empresa Vuvuzela Branding Company, disse que não está dando conta da demanda pelo produto. ‘Antes da Copa vendíamos 20 mil vuvuzelas por mês, agora vendemos 20 mil por dia’, disse a empresária ao jornal The Citizen. Ela diz isso com orgulho – eu teria orgulho de pegar uma de suas 20 mil vuvuzelas e dar na cabeça dela. Sua empresa é uma das quatro fabricantes de vuvuzelas na África do Sul e suas vendas têm sido afetadas (imagine se não estivessem) pela competição de vuvuzelas chinesas.
A vuvuzela é tão popular por aqui que já existe até uma orquestra formada apenas por músicos que tocam esse belíssimo instrumento (imagine que agradável ouvir uma sinfonia de Beethoven tocada numa vuvuzela). Gostaria de saber onde eles vão se apresentar, assim posso passar antes no supermercado e comprar uma caixa de ovos. E o mais curioso é saber que a FIFA pensou em proibir as vuvuzelas, até que lançaram no mercado uma ‘vuvuzela oficial’. Se você adivinhar quem ganha royalties com a venda desse produto, ganha uma vuvuzela Made in Switzerland.
Quem é o responsável por tudo isso? Há controvérsias. Freddie Maake, morador de um subúrbio de Johannesburgo, diz que inventou o instrumento em 1965, mas reclama que nunca ganhou nem um centavo com isso. Segundo a imprensa sul-africana, oficialmente o homem por trás do sucesso das vuvuzelas é Neil Van Schalkwyk, 37 anos, o primeiro a fabricar esse produto ma-ra-vi-lho-so em escala industrial. Talvez com medo de possíveis problemas legais, esse africâner gente fina resolveu baixar o volume das vuvuzelas de sua grife: em vez dos 140 decibéis habituais, ele passou a fabricar vuvuzelas que produzem ‘apenas’ 121 decibéis de barulho. Você acha que ele é esperto? Então adivinhe qual é o outro produto que sua empresa fabrica: protetores de ouvido. Gênio. Do mal, mas gênio.
Apesar de levar o assunto na brincadeira, queria deixar registrado que as vuvuzelas já causaram pelo menos um problema sério de saúde durante a Copa. Aconteceu com um soprador super radical de vuvuzela, que teve uma hemorragia na garganta após tocar o instrumento durante horas. (É sério, saiu no jornal.) Não acho que foi bem feito, porque a gente não deve desejar o mal aos outros. Nem é da minha natureza fazer isso. Coitado, vai ficar vendo o resto da Copa do Mundo no hospital. Pelo menos lá ele vai poder ver como é bom assistir aos jogos em silêncio.
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Brasil X Chile: Em homenagem à vítima, comemoramos a vitória com vinhos Carménère
Mais um jogo do Brasil, hoje é dia de oitavas de final contra o Chile. Isso significa o dia inteiro no Media Centre do estádio Ellis Park, já que o jogo é às oito da noite. Tudo bem, não dá para reclamar. Mas não vou aguentar mais um dia à base de cachorro-quente: vou almoçar bem antes de ir.
Eu e Daniel vamos à deliciosa churrascaria Bull’s Run, pertinho do hotel. Não sei por que nunca havíamos vindo aqui, já que fica do lado do já tradicional Tivoli. O Tivoli é o favorito da equipe do Estadão, primeiro, porque é perto do hotel; segundo, porque fecha tarde. Um contra-filé de 500 gramas depois, é hora de ir para o estádio.
Brasil e Chile, mata-mata. Quem perder, volta para casa. E adivinha quem vai pegar o avião? Vou dar uma dica: eles falam espanhol e vão afogar as mágoas com excelentes vinhos Carménère.
O primeiro gol do Brasil é de Juan, de cabeça, depois de um escanteio cobrado por Maicon. Quando revi o jogo na TV, descobri que o narrador chamou o lance de ‘uma cabeçada deliciosa de Juan’, adjetivo que não entendi de onde veio e que deixa qualquer comentário do Galvão Bueno no chinelo. O segundo gol é de Luis Fabiano, após uma jogada que nasceu com Robinho e, depois, em um passe preciso de Kaká. E o terceiro gol é de Robinho, colocando com carinho a bola no canto do goleiro. Brasil 3, Chile 0.
Meus colegas dizem que, apesar da vitória, o Brasil ainda não mostrou um jogo muito consistente. Não sou especialista, por isso evito discutir com eles. Só sei de uma coisa: ganhar a Copa jogando feio não vai me incomodar nem um pouco. Foi assim em 1994 e o que ficou foi o título e a estrela acima do escudo brasileiro. Além disso, essa Copa do Mundo está tão equilibrada que temos uma grande chance de levantar a taça, já que não há nenhum time jogando um futebol sensacional.
Brasil rumo às quartas de final contra um adversário bem mais perigoso: a temida Holanda. Nunca entendi direito porque chamam a Holanda de Laranja Mecânica. Será que é porque o uniforme é laranja? Só pode ser. Afinal, só depois de tomar muitos Molokos alguém conseguiria ver alguma ligação entre o futebol holandês e o filme de Stanley Kubrick.
Como é que se diz ‘vamos espremer a laranja mecânica’ em zulu?
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Maradona dá uma forcinha para o jogador Higuain
Nada como bater papo com um taxista para entender como funciona um país. Desta vez, porém, a conversa não foi nem com Victor nem com Jealous. O motorista que me levou para um passeio em Newtown, centro de Joburgo, atende pelo singelo nome de Lovemore. Quando ele falou a primeira vez, achei que ele estava se declarando para mim. Pensei que o cara tinha se apaixonado por mim à primeira vista, já que ele se apresentou no momento em que entrei no carro. Só fui entender que era o nome dele um tempinho depois, quando vi que ele estava começando a me olhar feio.
Lovemore é da etnia Zulu, portanto, pode ter mais de uma esposa. Pode, mas não tem. Acha que é muita despesa. Prefere ter três namoradas, sem a mulher saber. Começamos a conversar sobre o assunto e ele me explicou como as coisas funcionam por aqui. Um casal namora, etc, tudo como no Brasil ou em qualquer outro país. Na hora de casar, o noivo tem que oferecer um dote à família da noiva. Geralmente esse dote é medido em vacas, às vezes como valor estimado, às vezes literalmente pago em vacas, mesmo. Uma noiva vale dez vacas; quinze, se pertencer à família real dos Zulus.
Se imaginarmos que uma vaca, segundo Lovemore, custa cinco mil rands, isso significa que uma esposa custa 50 mil rands, ou cerca de R$ 11 mil. Lovemore diz que esse valor pode cair pela metade, dependendo da negociação entre o noivo e a família da noiva. E as vacas não precisam ser pagas no dia do casamento, o noivo pode parcelá-las ao longo do relacionamento. Se o casal se separar, inclusive, o noivo tem a opção de não pagar o que falta. Mas aí ele pode ficar queimado no mercado, se é que você me entende.
À tarde, ligo para Juanjo, um mexicano que trabablhou com Manoel Baião, meu amigo no Brasil. Estou para tomar uma cerveza (ou tequila, se estiver frio) com Juanjo desde que cheguei a Joburgo, mas as agendas ainda não haviam permitido o encontro. Como México e Argentina decidem uma vaga nas quartas de final, ligo para tentar combinar de ver o jogo juntos. Juanjo me diz que tem um ingresso sobrando. Arriba!
O caminho até o Soccer City é divertido, apesar de Juanjo insistir em ouvir música típica mexicana durante uma hora e meia. Não posso reclamar, o cara é muito gente fina. Pensei em disfarçar e colocar os tampões de ouvido que trouxe para me proteger das vuvuzelas, mas desisti porque isso me impediria de ouvi-lo, e isso poderia soar meio antipático.
México e Argentina. Juanjo me pede para torcer para o México, como se fosse necessário pedir a um brasileiro para torcer contra a Argentina. Minha torcida, no entanto, não adianta muito: o time de Maradona faz um gol, faz outro, e outro. O México ainda desconta no final, mas o jogo termina 3 a 1 para a Argentina. Com isso, o convite para comemorarmos a eventual vitória do México com tequila e cerveza é cancelado. Maldito Maradona.
Desanimado, Juanjo diz que tem que voltar para casa porque sua esposa está lhe esperando. Coitado, a Copa do Mundo acabou cedo para ele. Até cogitei fazer uma piadinha para animá-lo: pensei em perguntar quantas vacas ele tinha pago pelo casamento. Mas desisto, em primeiro lugar, porque ele não é zulu. Em segundo, porque não se brinca com os sentimentos de um fanático por futebol cuja seleção acaba de ser eliminada. Hasta la vista, México.
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2010