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O fim da Bateia e o desafio de ser um editor independente no Brasil

Maria Fernanda Rodrigues

06 junho 2014 | 22:20

Foi a Babel que anunciou, em junho de 2012, a criação da Bateia. Ela tinha um projeto simpático de apostar em nomes da literatura mundial quase desconhecidos do público brasileiro, de lançar uma coleção de narrativas curtas escritas por autores de países onde o Brasil foi campeão da Copa do Mundo, uma coleção infatil de histórias de times, entre outras ideiais.

Nesta semana, o editor Lui Fagundes me contou que estava desistindo da Bateia. O último livro – No Estilo de Jalisco, do mexicano radicado no Brasil Juan Pablo Villalobos, integraria a coleção Livros do Penta, mas está saindo em coedição com a Realejo. O lançamento será na terça-feira, em Campinas.

Conversamos um pouco sobre as dificuldades e o mercado editorial brasileiro.

Quando você idealizou a Bateia, como imaginou que a editora seria?
Imaginei que a editora, mesmo pequena, poderia se sobressair à medida que fosse apresentando autores muito bem escolhidos e projetos de livros que valorizassem, acima de tudo, a qualidade literária.

Conhecia os desafios que teria pela frente. Eles superaram a expectativa inicial?
Sabia dos desafios na área comercial, das dificuldades para “entrar” nas livrarias. Mas estes superaram a expectativa inicial. É praticamente impossível para uma editora nanica como a Bateia vencer esta barreira, independentemente do que edite.

Quais foram as maiores dificuldades encontradas?
Só houve uma dificuldade encontrada, a falta de interesse das livrarias em apostar no trabalho de editoras pequenas. Isso estende-se também às distribuidoras. Depois de prévios contatos, duas do Rio Grande do Sul e uma de São Paulo nos solicitaram exemplares de livros e, após isso, não tivemos mais nenhum retorno. Até hoje não sei se os livros foram vendidos ou não. Outras contatadas (cerca de 10 – em vários estados) nunca nos responderam. Para as distribuidoras não é interessante representar uma microeditora, porque elas sabem que as livrarias não se interessam por livros de microeditoras.

A editora fez grande aposta num livro da Yoko Ono, mas não conseguiu entrar nas livrarias apesar do nome da autora. Por que isso aconteceu?
Se este livro tivesse sido publicado por editoras como Companhia das Letras ou Cosac Naify, por exemplo, estaria em todas as estantes livreiras do país, e com destaque. Vale lembrar que é o primeiro de autoria de Yoko Ono a ser editado no Brasil. Creio que não é algo qualquer para simplesmente ser ignorado.

O nome da editora tem influência nas compras e consignações das livrarias? Um bom autor editado por uma casa independente tem chance de aparecer? Onde encontrou melhor receptividade e maior dificuldade?
Não há dúvida que o peso da editora tem influência nas compras das livrarias. Um bom autor publicado por uma editora pequena pode até conseguir espaço na mídia, mas estará longe de obter espaços nas estantes livreiras. Encontramos receptividade na Livraria Cultura (mesmo assim não de todas as lojas da rede, que tem compras descentralizadas), Travessa, Argumento e Blooks. Mas neste grupo apenas a Cultura tem um número maior de lojas. De redes como Saraiva, Fnac, Nobel, Livrarias Curitiba ou Leitura não temos resposta até hoje. A Livraria da Vila levou 43 dias para me responder que não estavam aceitando novos fornecedores, nem mesmo consignados. Quando reclamei da demora para receber esta resposta, dizendo que esta atitude era um exemplo claro de como as redes de livrarias tratavam as editoras pequenas, me chamaram para um cafezinho e compraram dez exemplares de Acorn para uma única loja. Ou seja, não valeu nem mesmo o tempo despendido para reunião com o encarregado de compras da livraria.

Nesse período, a editora adquiriu os direitos de algumas importantes obras. O que fará com eles?
A editora tem os direitos de Nostalgia, do romeno Mircea Cartarescu. Ele foi uma das apostas da área literária europeia nos últimos dois anos para o Nobel de Literatura e pode ser uma surpresa nos próximos anos. O livro está em fase de tradução diretamento do romeno. Temos também Carta (Uma Tentativa), do norueguês Tomas Espedal, já traduzido com bolsa concedida pela NORLA, da Noruega; Lendo Vila-Matas, do chileno Gonzalo Maier; Chuva de Pedra, do boliviano Rodrigo Urquiola; Se Soubéssemos, do argentino Alfredo Fonticelli. Eles foram selecionados depois de uma pesquisa de quase dois anos envolvendo, principalmente, a literatura de língua hispânica. Os livros de Eduardo Halfon (Guatemala), Julián Herbert (México) e Juan Emar (Chile), anteriormente contratados, sairão pela Rocco. Isso, sem contar os inéditos escritos por autores da Suécia, Chile e Estados Unidos, que sairiam durante a Copa do Mundo junto com No Estilo de Jalisco, de Juan Pablo Villalobos, que estamos editando em parceria com a Realejo, de Santos. Além disso, temos também o livro selecionado no projeto Originais na Bateia, que será o primeiro livro de contos do tradutor Fernando Klabin. A intenção é repassar estes títulos para outras editoras. O livro do Cartarescu já está sendo negociado.

Como vê o cenário atual do mercado editorial brasileiro?
Bom para as grandes editoras. As editoras muito pequenas fazem apenas figuração, mas figuração não garante a sobrevivência delas. Sei de editoras pequenas, já com vários anos de mercado, onde o editor faz tudo e nunca teve um pró-labore, um salário. Continua editando de teimoso, porque é um sonhador, mas sabe que não há saída.

Algumas editoras independentes criaram formas de continuar na ativa apesar de não terem seus livros expostos nas grandes redes de livrarias. Pensou em alguma alternativa como, por exemplo, vender direto ao leitor ou lançar livros apenas no formato digital?
O projeto inicial da Bateia não comportava apenas o formato digital. Este seria um segundo passo. Para uma editora pequena vender direto ao leitor (via web), de uma forma satisfatória, ela depende da participação mais do que ativa de seus escritores. Tem editoras que funcionam assim, com tiragens pequenas, livros vendidos diretamente ao leitor, mas de uma certa forma é o escritor que acaba fazendo esta ponte editora/leitor. É possível você fazer isto se só editar autores nacionais. O projeto da Bateia previa editar inicialmente apenas dois livros de autores nacionais (mais adiante pretendíamos ampliar este número). Um dos livros seria o livro de estreia de Vinicius Jatobá, um dos autores escolhidos para a edição brasileira da Granta. E olhe que quem veio nos procurar foi o próprio Jatobá, atraído pelo projeto da Bateia e pelos nomes de autores internacionais que pretendíamos publicar. Fizemos um acerto com o Jatobá e rescindimos o contrato de edição assinado anteriormente.

A Bateia tinha um projeto comercial de parceria com clubes de futebol que parecia promissor. Não deu certo?
A Bateia editou dois livros infantis (seriam os primeiros da Coleção Firula), licenciados com Grêmio e Internacional. Mais dois livros estavam em produção (um já em fase de ilustração) e seriam licenciados junto ao Cruzeiro e Coritiba, mas seus contratos de publicação foram rescindidos de comum acordo com os autores. Não houve parceria com os clubes, mas sim licenciamento da marca destes. O licenciamento se mostrou dispendioso uma vez que o clube não oferece nenhuma contrapartida. Quer apenas vender a sua marca e receber o dinheiro. E o fato de ser um “produto oficial” não resultou em maiores vendas. Com relação a esses dois livros, por exemplo, a recepção das livrarias foi pior ainda. Até mesmo a Cultura, que comprou o livro Acorn, da Yoko, e tem loja em Porto Alegre, não adquiriu um único exemplar dos livros licenciados com Grêmio e Inter – nem mesmo em consignação.

O que fará agora?
A Bateia passará a atuar como produtora editorial. A editora tinha vários outros projetos, que serão trabalhados de maneira a ser oferecidos para publicação por outras editoras. Além disso, a extensa pesquisa (pré-Bateia) de nomes da literatura de língua hispânica revelou vários autores que podem (e devem) ser editados no Brasil. É um trabalho de garimpo, que tem tudo a ver com o nome da editora e podem ser indicados para outras editoras. Acabei de traduzir O Boxeador Polaco, do Eduardo Halfon para a Rocco, e a intenção é que eu mesmo traduza outros autores que porventura a Bateia (como produtora editorial) indicar.

Pensa em um dia voltar a abrir uma editora?
Não. Atuar como editor, descobrir novos autores para editar (incluindo novos autores de fora ainda inéditos aqui) é um trabalho muito gratificante. Como produtor editorial posso fazer isso para outras editoras. É gratificante da mesma forma.

* A ilustração acima é de Fábio P. Corazza para o livro A Turma da Baixada.