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Arquivo Estado

Há exatos 90 anos, o Estadão relatava como foi o primeiro dia da Semana da Arte Moderna de 1922, transcrevendo as palavras de Graça Aranha na abertura do evento no Teatro Municipal:

“Para muitos de vós a curiosa e suggestiva exposição que gloriasamente inauguramos hoje, é uma aglomeração de ‘horrrores’. Aquele Genio suppliciado, aquelle homem amarello, aquele carnaval alucinante, aquela paisagem invertida se não são jogos de fantasia de artistas zombeteiros , são seguramente desvairadas interpretações da natureza e da vida. Não está terminado vosso espanto. Outros “horrores” vos esperam.” (clique na imagem para ler a íntegra da reportagem)

O Estado de S. Paulo – 14/02/1922

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Imagens do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, vizinho aos prédios que desabaram, feitas em 2001, 2010 e 2012 pelos fotógrafos Wilton Junior e Paulo Vitor, mostram que um dos edifícios tinha várias janelas em paredes que originalmente não teriam aberturas externas.

20/4/2010

As intervenções são de longo tempo. Na foto feita por Wilton Junior em 2001 já haviam janelas fora do padrão. Comparando as imagens, constata-se que pelo menos uma das janelas, no andar mais alto, foi feita no intervalo de tempo entre as duas fotos.

09/4/2001

24/1/2012

 Na imagem abaixo, uma imagem panorâmica publicada na revista francesa L’Illustration em1926  mostra o mesmo local ainda sem os prédios.

Leia também:  ‘Janelas proibidas’ se multiplicam no horizonte de SP

Pesquisa: Carlos Eduardo Entini e Edmundo Leite
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Francisco de Paula Ramos de Azevedo

Após a consagração na inauguração do Municipal, um banquete foi oferecido ao seu arquiteto criador, Francisco de Paula Ramos de Azevedo.

Quarta-feira, 27 de setembro de 1911

 

 

A nota comentava a intenção da “homenagem de elevada consideração, prestada ao conceituado engenheiro-architeto”. O evento pretendia celebrar seu trabalho “ (…) não só pelo Theatro Municipal, esse monumento verdadeiramente nacional devido ao talento de Ramos de Azevedo e seus distinctos collaboradores, como á obra immensa de arte e civilisação, que representa a vida operosa  desse prestigiosos cidadão, durante trinta annos, na capital do estado de São Paulo.”

As obras de Ramos de Azevedo operaram uma verdadeira transformação urbanística em São Paulo no século passado.  Seu estilo e as inúmeras construções idealizadas pelo seu reconhecido escritório de arquitetura, que contava com outros proeminentes nomes da arquitetura nacional – O Teatro Municipal, por exemplo, leva também  assinatura do italiano Domiziano Rossi e o Mercado Municipal foi idealização pelo engenheiro Felisberto- fizeram dele uma espécie de arquiteto oficial da cidade.

Considerado um pioneiro da construção civil no país, não há lugar na região central da cidade  que não tenha um projeto de Azevedo.

A matéria de 1911 já reconhecia o alcance do estilo desenvolvido pelo arquiteto paulistano de família campineira, “sua influencia irradiou deste centro ás próprias cidades de província, e uma verdadeira reforma se operou na architectura nacional, então modelada em formas tradicionais, sem variação nem esthetica.” Como costuma dizer Benedito Lima de Toledo, professor de História da Arquitetura da USP, “antes dele não existia estilo regular de arquitetura em São Paulo”.

 

Pesquisa  e texto: Lizbeth Batista

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 Foto publicada na edição de 12/09/1911

Inaugurado no começo da semana, o Teatro Municipal de São Paulo continuava a despertar grande interesse e curiosidade.

Sertório de Castro, renomado jornalista chefe da sucursal do Estado no Rio de Janeiro, publicava artigo sobre o Municipal.

Sempre tratando da notícia mais comentada em território nacional ou o fato mais candente, sua coluna diária “O que há de novo”, em 17 de setembro de 1911, falava de suas impressões sobre a casa. Apontava como se diferenciava do  Teatro Municipal do Rio de Janeiro e por fim declarava que o novo teatro iniciava uma nova fase na vida noturna paulistana.

 

 Domingo, 17 de setembro de 1911

 

 

O jornalista começava o artigo enaltecendo o espírito do povo paulistano, falando de como os outros viam a gente de São Paulo, “era essa fama que leva a todos os recantos do Brasil e transpõe-lhe a fronteira, indo ao estrangeiro, a affirmação de um povo e de uma terra que constituíram uma civilisação quasi á parte do resto da comunidade e formaram um centro onde a actividade productiva está em febre constante e onde o espírito de iniciativa ganhou proporções dessemelhantes do de todo o resto do paiz.”

Passados dez anos de sua última visita, Sertório contava  como encontrou a cidade em meio à agitação provocada pela inauguração, “revejo São Paulo numa linda manhan de domingo, e esse dia, normalmente morto nas ciades de trabalho intenso na semana, tema qui uma vida surprehendente. Vim encontrar a cidade entregue á ditosa preocupação de um grande acontecimento social. Avizinhava-se a inauguração de sua nova casa de espectaculos e as mulheres tratavam de fazer-se mais bellas pelo atavio da toilette, e os homens tinham de acompanhal-as nos preparativos dessa cara frivolidade. E a pergunta que acudia a todos os lábios era somente uma: ia á inauguração do Municipal? E quando a festa findou não se fazia outra pergunta: foi á inauguração do Municipal? A esta seguia-se uma outra, accessoria: gostou?

Concluía comparando a casa de ópera de São Paulo com a do Rio, criticando a última, declarou que “São Paulo pode-se orgulhar de possuir uma das mais completas e perfeitas casas de espectaculo, e se é verdade que nós não podemos apreciar as coisas que vemos sem a idea de conforto, ahi está o que licitamente se pode dizer: comparado ao theatro Municipal do Rio de Janeiro, que custou mais do triplo, o de São Paulo não fica em situação desvantajosa. E’ muito mais um theatro do que o seu congênere, que em luxo e em esplendor, assemelha-se a um templo oriental. (…)

 

Pesquisa  e texto: Lizbeth Batista

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Pôster da estreia - 1911

Não que Hamlet não fosse um tema apropriado. O barítono italiano Titta Ruffo certamente tinha voz à altura da ocasião. Mas para a grande inauguração do Teatro Municipal o público manifestava sua predileção pelo Guarani, na versão do compositor, também italiano, Pietro Mascagni. Mesmo não sendo favorita a ópera adaptada do texto de Shakespeare abriu  a temporada e, seguida de O Barbeiro de Sevilha, garantiu semanas de casa lotada. Nem mesmo os salgados 250 mil réis cobrados pelas melhores poltronas inibiu os bolsos paulistanos recheados de dinheiro proveniente do café.

Foto: Arquivo/AE - 1911

São Paulo começava a despontar como uma capital cultural. Até 1900, no lugar hoje ocupado pelo prédio da Light,  uma única casa de espetáculos, o Teatro São José, “que não passava de um singelo e pesado casarão” reinava sozinha na mesma Praça Mendes, que onze anos e 4.500 contos de réis depois, receberia o imponente Teatro Municipal, assinado por Francisco Ramos de Azevedo.

A construção deveria, conforme edital  de concorrência pública “para construção de um theatro municipal” divulgado no Estadão de 22 de fevereiro de 1898, ser construído “com todas as exigências de luxo, elegância, acústica e segurança”, “café, charutaria e restaurante de primeira ordem” também deveriam constar no projeto. O mesmo edital previa isenção de impostos sobre os espetáculos apresentados num prazo de 50 anos, entre outros benefícios concedidos aos administradores do futuro empreendimento.

 


 O Estado de S.Paulo, 22/02/1898

 

Inspirado em grandes teatros europeus e recebendo espetáculos de qualidade elevada, foi um marco divisor entre antigos hábitos provincianos e as novas expectativas culturais que irradiavam das grandes metrópoles. Aos poucos, uma audiência ávida por novas produções habituava-se a uma cultura musical mais refinada e começava a ficar mais exigente.  Desfrutando de uma economia favorável, a elite cafeeira aproveitou o momento para conhecer as famosas óperas do Velho Continente. E logo vieram as inevitáveis comparações. Sua beleza arquitetônica era inegável, mas a iluminação, as acomodações e a acústica ainda deixavam a desejar. Como se não bastassem as críticas do público e da imprensa, os artistas que passavam pelo palco também declaravam sua insatisfação com a falta de estrutura técnica adequada ao porte dos espetáculos ali encenados, enquanto os músicos queixavam-se do espaço diminuto designado à orquestra.

Terça-feira, 12 de setembro de 1911

    

Reformas se faziam necessárias, mas a aproximação das comemorações do IV Centenário da cidade desviavam a atenção do governo para novos empreendimentos, como o conjunto arquitetônico do Ibirapuera, que prometia mais garantias de boa visibilidade frente ao eleitorado. Enquanto a cidade comemorava seus 400 anos, o velho teatro estava de portas fechadas.

Diante de todos os empecilhos, o teatro ainda guardava dois trunfos a seu favor: seu aniversário de 50 anos viria poucos anos depois e sua importância como marco cultural, símbolo do progresso da metrópole, não podia passar despercebida; a segunda carta na manga ficou por conta de um prefeito oportunista. Conforme relatou o Estadão em 26 de janeiro de 1961 as comemorações do cinquentenário  tiveram um caráter “essencialmente político-publicitário”. O discurso demagógico proferido pelas autoridades presentes “só serviu de pretexto para propaganda pessoal do prefeito”, o tom da solenidade contrastava com a realidade decadente de um espaço que, originalmente criado para abrigar grandes óperas e concertos, mantinha-se com atrações vulgares, peças de nível inferior, festas de formatura, desfiles de moda e outras atividades incompatíveis com o seu real propósito.  A mesma matéria ainda ressalta em foto as péssimas condições de um piano Steinway “praticamente imprestável, a começar pelos pedais”.

Agora, reinaugurado no último dia 12 de junho após longa e meticulosa reforma, um terceiro ato se inicia com a celebração de seus cem anos de existência, trazendo a perspectiva de uma nova fase da história cultural de São Paulo, em que um ícone do passado impõe-se diante da modernidade que esteve perto de esquecê-lo.

Texto e pesquisa: Luiz Rangel

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Faça um tour pelo novo teatro
A história do Municipal em fotos

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