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Arquivo Estado

18  de março de 1962


Acordo de paz de Evian
e o cessar-fogo na Argélia

Existem guerras que transcendem a disputa territorial entre duas nações, ou entre povos. Alguns conflitos representam o choque entre civilizações.

A Revolução da Argélia, uma guerra de descolonização que transformou a Argélia num país independente da República da França, em 1962, é um destes conflitos.

Os quase oito anos de guerra que expuseram o pior das duas civilizações. A França e sua arrogante irredutibilidade em rever a condição política da Argélia, ignorando o direito à autodeterminação do povo argelino viu sua superioridade militar rarefazer-se diante da guerrilha,  melhor adaptada às regiões selvagens e montanhosas do Norte da África e a zonas urbanas de Argel, e beneficiada pela tácita cumplicidade da população árabe. Contrariando seus cálculos militares à medida que os franceses venciam uma batalha, a insurreição alastrava-se por todo o território argelino.

Atentado em Argel, 20/04/1959.  Foto: Arquivo AP

O novato, e talentoso correspondente do Estado percebeu a trágica matemática desta guerra. Gilles Lapouge, escrevendo de Paris expressou o que atormentava os franceses “não será inquietante verificar que o vigor do impeto dos rebeldes não deixa de crescer, à medida que aumentam suas baixas? É como se tivessem uma reserva de homens inesgotáveis e que a violência da replica francesa, abrindo uma brecha maior entre muçulmanos e europeus, tivesse como resultado recrutar incessantemente novos rebeldes.”

Gilles, até hoje correspondente do Estado na França, acompanhou e narrou todos os capítulos sombrios e perturbadores da guerra: o terrorismo da FLN, Frente de Libertação Nacional, os métodos de tortura empregados pelo exército francês sob a tutela do General Massu, o momento quando o terror que vitimizava civis em Argel e Orã cruzou o Mediterrâneo e chegou aos cafés de Paris, o surgimento da organização paramilitar clandestina dos partidários da “Argélia francesa” a OAS, Organisation Armée Secrète, que justificava suas ações terroristas como contra- terrorismo.

Militantes da OAS, Organisation Armée Secrète, 28/02/1960. Foto: Arquivo AP

O mesmo jornalista, que descreveu a escalada do ódio racial que permeou o conflito, foi o enviado especial do jornal para os festejos da independência em Argel , em julho de 1962. Testemunhou a reconciliação entre árabes e europeus, celebrada nas ruas com efusivos abraços, e concluiu:

“Todas as guerras são absurdas, mas o epílogo patético de uma das maiores tragédias do pós-guerra demonstrou-o com uma rara clareza.”

O Estado de S.Paulo – 01/7/1962

Pesquisa e texto: Lizbeth Batista
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São João Batista, 1513-1516

Pouco mais de três meses de investigação e  nenhuma pista indicava o responsável pelo roubo da Mona Lisa, tão pouco o paradeiro da obra de arte.

Era de se imaginar que a ausência de uma obra tão importante e célebre como a Gioconda faria sentir-se na receita do museu. Mas, graças à curiosidade em torno do caso, o contrário aconteceu. A parede vazia do Louvre, motivo de vergonha para a polícia francesa, tornou-se atração turística. Centenas de visitantes, num admirável exercício forense, aglomeravam-se em frente à parede para admirar a cena do crime.

Sexta-feira, 08 de dezembro de 1911

 

Até que, em dezembro daquele ano, a administração do museu resolveu colocar em seu lugar outra famosa obra de Leonardo da Vinci, assim um sorriso enigmático preencheu o lugar deixado por outro.

A obra escolhida foi São João Batista. Tida como a última pintura de Leonardo da Vinci, a pintura é alvo de inúmeras discussões sobre a expressão no rosto do santo. A interpretação mais conhecida e aceita é que o artista pretendia exaltar a religião cristã, ao pintar São João sorrindo e apontando para o céu, estaria indicando a importância da salvação através do batismo.

O quadro ganha ainda mais complexidade quando evidenciada a intenção do autor de utilizar obras anteriores para compor o conceito desta. O leve sorriso lembra o de Mona Lisa, enquanto o gesto é uma alusão clara a um desenho encontrado em um dos diários do artista.  Conhecido como A Virgem, o Menino, Sant’Ana e São João,  nesta obra o santo é retratado ainda menino ao lado de Jesus, de Maria e de Santa Ana que, no que parece um ato de exegese, aponta igualmente para o céu.

Pesquisa  e texto: Lizbeth Batista

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Sexta-feira, 22 de setembro de 1911

Correspondência vinda da França descrevia o crescente interesse do país pelos esportes.

O autor, Henri Lorin, chega a surpreender-se com o fato: “Os meus camaradas e eu nunca pensamos, há vinte e cinco annos, quando terminamos os estudos clássicos, que a França viria a ser, sob os nossos olhos, um paiz apaixonado de todos os “sports”.

Sua surpresa, tal como a de outros de sua geração, residia na crença que a tradição filosófico-intelectual cultural da França não produziria um povo entusiasta de atividades físicas, “os exercícios do corpo eram considerados como de ordem inferior ou, se o preferem, de uma ordem estranha à mentalidade francesa”, disse.

Então, Lorin e seus colegas viram como estavam errados.  Presenciaram a rapidez com que a “bicyclette” chegou e tomou conta dos corações dos franceses. Do seu surgimento à sua ampla disseminação, a bicicleta não encontrou barreiras nem mesmo de classe social, “(…) todas as crianças, actualmente, pertençam a que classe social pertencerem, usam “bicyclette”(…)”.

Testemunharam não só o despertar da grande paixão francesa, o ciclismo, mas também o crescente interesse da população por outros esportes como, o “foot-ball”, o “golf”, o “tennis”, remo, tiro e outras atividades.

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Jornais e revistas viam-se forçados a reformular suas seções para dar mais espaço às coberturas esportivas.

O fascínio pelos esportes comprovava-se através de um simples experimento.


Sociólogo, geógrafo e autor de obras que tratam da ação colonialista francesa no Norte da África, Henri não escreve como mero curioso que depara- se com uma nova moda ou tendência. Pensa no impacto social deste comportamento sobre a França, potência política e militar que, em 1911, estava há poucos anos de entrar no primeiro grande conflito global – a Primeira Guerra Mundial estoura em julho de 1914.

Ele termina o texto perguntando como seria “(…) quando os fedelhos que sonham ser aviadores forem homens e forem chamados a exercer o direito de voto, ou olharão a vida política como uma forma de actividade secundaria e não votarão ou, então, exigirão dos candidatos que falem menos e ajam mais (…).”

Nos últimos 40 anos estudos publicados demonstram as relações existentes entre política e esporte. Hoje estamos mais perto de entender o uso político das competições esportivas e seu impacto sobre as massas.  Em 1911, a pergunta e suposição de Lorin buscavam compreender outro ângulo dessa relação.  Sem dúvida o desejo de ação e um perfil competitivo podem ser encontrados no inconsciente coletivo de uma nação apaixonada por esportes. Transferindo essas características à esfera política, a pergunta é: quando esses mesmos elementos, somados a condições sociais específicas, podem indicar uma vontade de guerra?

Pesquisa  e texto: Lizbeth Batista

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Veja também:

# Em 1911, partida de futebol levava torcedores paulistanos ao delírio

# Cenas de um jogo de futebol em 1911

# Animadas disputas antecederam a Copa América

#Senhores, liguem seus motores

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Sexta-feira, 16 de junho de 1911



A edição de 16 de junho de 1911 trazia a notícia de que uma comissão no senado francês acabava de proibir a venda e fabricação de absinto.

O alcoolismo já era um sério problema de saúde pública no século XIX e início do XX , quando o absinto foi introduzido na França.

Ícone da Belle Epoque, conhecida como fada verde, a bebida foi criada em 1792, na Suíça. E chegou  a ser consumida com 85% de teor de etílico.

Buscando uma fórmula medicinal para problemas digestivos, o médico francês, Pierre Ordinaire desenvolveu um composto utilizando a planta losna (Artemisia absinthium). Criou o absinto quando resolveu juntar álcool à fórmula. A mistura amarga também leva anis e ervas como funcho, e em alguns casos, erva-doce.

O elixir do Dr. Ordinaire logo chegou à França. Febre nos cafés parisienses,  foi  consumido avidamente por trabalhadores e por boêmios. E transformou-se na bebida oficial dos românticos e parte da cultura de movimentos artísticos do final do século  XIX até início do XX.

Muitos artistas do período experimentavam com absinto. Acreditavam que os poderes alucinógenos da bebida  aguçavam suas percepções artísticas , inspirando-os à grandes criações.

O bebedor de absinto, de Viktor Oliva (1861–1928)

A cultura do absinto imperou na França Fin de siècle.  Bares e cafés lotavam de clientes na  hora verde (entre às 17:00 e 19:00), apelido dado ao  horário em que mais se consumia o drink.

Escritores como Oscar Wilde, Edgar Allan Poe, Cherles Baudelaire, Paul Verlain, Arthur Rimbaud consumiam frequentemente a bebida. Entre os pintores que prestaram homenagem à fada madrinha verde estão Eduard Manet, Henri de Toulouse-Lautrec, Jean-François Raffaelli, Vincent Van Gogh e Pablo Picasso.

O elevado consumo de absinto preocupava a comunidade médica francesa.  Estudos realizados no período buscavam  diferenciar o dependente de absinto de pessoas com problemas de alcoolismo. Um termo próprio para o mal foi cunhado, absintismo. Diziam- sem comprovação efetiva até hoje- que o dependente de absinto era mais propenso a quadros de alucinação. E que, quando neste estado de delírio, eram mais inclinados a atos de extrema violência.

Crônicas médicas do período indicavam que o abuso da substância poderia levar a alterações no sono, convulsões, problemas gastrointestinais, alucinações visuais e auditivas. Afirmavam que elevava os riscos de desenvolvimento de doenças psíquicas, seria responsável por elevado índice de suicídios.

A ligação do consumo da substância a acessos de loucura e crimes violentos fez médicos sanitaristas e psiquiatras ganharem o apoio da sociedade.

Casos emblemáticos envolveram artistas do período. Contam que, embriagado pelo líquido esmeralda,  o poeta Paul Verlaine atirou no seu amante Arthur Rimbaud.  E que foi também sob o efeito da fada verde  que Van Gogh agrediu Gaugin e decepou sua orelha.

O mais assustador dos casos ligado à bebida correu em 1905. O operário Jean Lanfray, após consumir ,elevada dose,  atirou com sua espingarda na família, matando esposa e dois filhos. O crime chocou a Suíça, que definiu por meio de  um plebiscito proibir o uso da bebida, em 1908.

No começo do século XXa  bebida esverdeada foi proibida em parte da Europa. Seguiu liberada em alguns países como Portugal, Inglaterra e Espanha.

Os efeitos alucinógenos da bebida nunca foram comprovados e hoje seu consumo (com teor álcoolico reduzido) é liberado em muitos países, inclusive no Brasil.

Pesquisa e Texto: Lizbeth Batista
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 François Faber

Como uma prévia para a grande competição de ciclismo da França, o Tour de France, algumas corridas eram promovidas nas diferentes rotas, em que se dividiriam as etapas do Tour.

Em 16 de maio de 1911 o Estado noticiava o resultado da corrida Bordeaux-Paris.

Terça-feira, 16 de maio de 1911

A nota contava como o atleta de Luxemburgo, François Faber, venceu a disputa, deixando 42 competidores para trás.

A corrida  Bordeaux-Paris de 1911 contou com uma inovação na cobertura jornalística. Um editor e um repórter esportivo assistiram a disputa  com vista privilegiada. Sobrevoando de aeroplano o trajeto percorrido pelas bicicletas, a dupla fotografou todas as passagens da competição.

As corridas de bicicleta são uma antiga paixão francesa.  A disputa Tour de France existe desde 1903.

Pesquisa e Texto: Lizbeth Batista
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